Saint Seiya: O Vazio do Submundo / Parte 1
6 O Retorno de Atena
Então Atena voltou ao Mundo dos Vivos.
Aquele cosmo terno foi sentido da Casa de Aquário reentrando na Terra, como se o planeta novamente recebesse a proteção divina de sua Deusa, feito uma cortina que se levanta por todos os horizontes, preenchendo cada espaço antes vazio.
— Hyoga! — chamou a voz de Shiryu ao longe, pois ele já subia a escadaria da Casa de Aquário. — Hyoga.
— Sim, Shiryu. Saori está de volta em seu Templo. — ele olhou para o amigo reconfortado. — Alguma notícia de Jabu?
— Não. Eles ainda não voltaram.
Hyoga olhou adiante, para as demais Casas do Zodíaco e na direção do Templo de Atena; trocaram olhares uma outra vez com seu amigo e os dois subiram juntos as demais escadas.
Chegaram ao Décimo Terceiro Salão correndo, agoniados com o perigo que ela correra sozinha, mas ansiosos por verem sua Deusa novamente; Shaina já estava no recinto ajoelhada diante de Saori, que estava sentada descansando no trono do Salão.
— Saori! — exclamaram os dois em uníssono.
— Hyoga. Shiryu. — recebeu ela com um sorriso cansado no rosto.
— Você está bem, Saori? — perguntou Shiryu.
— Sim, Shiryu. Não há nada com o que se preocupar. Me desculpe.
Os dois surpreenderam-se com a ternura dela.
— Saori, pedimos permissão para ir ajudar Jabu e os demais, eles ainda não voltaram e…
— Não podem, Hyoga. — respondeu ela com um pesar no rosto, de quem sabe que está contrariando alguém. — Eu sei que deve ser horrível pra vocês não lutarem em um momento como esse, mas o Submundo foi tomado justamente porque não havia ninguém para defendê-lo. E com a morte dos Cavaleiros de Ouro, o Santuário precisa de vocês dois.
— Mas, Saori…
— Confiem em Jabu. Ele voltará. Eu sei que irá.
— Atena tem razão.
A voz de Marin entrou no local; o som de seu salto no mármore do Salão ecoou até que ela parou ao lado de Shaina e, assim como ela, ajoelhou-se diante de Atena; usava sua sagrada Armadura de Águia. Shaina lançou um olhar para ela, aliviada de revê-la, embora as máscaras impedissem a leitura facial mais óbvia; era somente por serem próximas que uma tinha certeza do que pensava a outra. Marin retribuiu um leve aceno de cabeça dizendo simplesmente: estou bem.
— Eles voltarão da mesma forma que vocês sempre voltaram. — comentou Marin, referindo-se aos dois.
— Marin… — chamou Atena.
— Atena. — começou ela. — Lyfia e os Guerreiros Deuses estão trabalhando para destruir os Portões do Inferno do extremo norte. A essa altura, talvez todos já estejam destruídos.
— Que boa notícia, Marin.
Mas há um pesar no semblante de Atena e Shaina notou isso claramente.
— Descanse, Atena. — anunciou ela, levantando-se.
Virou-se e dirigiu-se então para Shiryu e Hyoga com um tom pesado.
— Vocês precisam focar nos treinamentos de vocês para que se tornem os Cavaleiros de Ouro que estão destinados a serem. Seiya está sob os cuidados de Shun, não podemos pedir que ele proteja o Santuário, não agora; e Ikki… bem, Ikki jamais ficaria parado em um lugar só de qualquer jeito.
Hyoga e Shiryu receberam aquela ordem e ainda olharam para Saori uma última vez, buscando seu olhar reconfortante, mas Atena tinha um semblante realmente triste, talvez até em não poder atender aos pedidos deles de continuarem lutando ao invés de ficarem parados na Grécia.
— Vamos, Shiryu. — foi Hyoga que, resignado, chamou a atenção do Cavaleiro do Dragão.
E os dois deixaram o recinto.
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Mais uma vez, notando que o cosmo de Atena irradiou-se pelo planeta, Shun buscou alguma reação do amigo, mas tampouco sentiu qualquer mudança em seu estado vegetal. Tinha o semblante muito preocupado.
— Eu não sei o que é pior. Você lutar ou você não lutar. — comentou June.
— Se eu pudesse, jamais lutaria, se eu pudesse resolver tudo sem precisar derramar uma gota de sangue…
— Você até se sacrificaria por isso, não é, Shun?
Ele ficou em silêncio.
— Mas Jabu está lutando, e é isso que me incomoda.
— Seiya já foi atacado antes, você sabe que ele precisa de você aqui.
Shun concordou em silêncio e June pensou sozinha:
“Eu preciso de você aqui. “
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Nos primeiros raios de sol, os cinco Cavaleiros de Bronze apontaram no pontilhão do Santuário, marchando com dificuldades até o sopé da grande colina que abrigava as Doze Casas, aos pés da Casa de Áries. Todos sem o elmo de suas Armaduras e usando um manto de modo que escondessem o metal sagrado de seus trajes de Bronze; apoiavam-se uns nos outros, pois apenas Ban parecia em melhor estado e, ainda assim, muito ferido.
Hyoga e Shiryu já vinham da Casa de Áries ao encontro deles, tendo adivinhado suas chegadas de muito longe; atrás dos dois, descia Shaina ao lado de Saori. Marin veio de Rodorio e também convergiu para encontrá-los ali.
— Jabu! Nachi! — gritaram Shiryu, depois Hyoga.
Shiryu, assim que chegou, tomou os braços de Geki e pediu para que se apoiasse nele; Hyoga ajudou Jabu, que estava nos ombros de Ban. Shaina e Marin ajudaram Ichi e Nachi, respectivamente.
Começaram a subir as escadarias da Casa de Áries.
— Nós conseguimos. Vencemos todos eles e destruímos os Portões do Inferno. — disse Nachi nos ombros de Marin
— Guarde suas histórias pra mais tarde, Nachi. — respondeu ela, talvez até sorrindo.
Ao chegarem na Casa de Áries, todos eles foram recebidos pelo garoto Kiki, o aprendiz. Saori ajudou ele a dispor cinco macas improvisadas no chão para que os Cavaleiros pudessem repousar; Ban foi o único que ficou sentado. Hyoga trouxe uma grande bacia de água para cada um deles se limparem da melhor maneira possível e até beberem de uma jarra pronta, posto que seus lábios estavam terrivelmente ressequidos. Saori ajoelhava-se um a um e fazia seu cosmo terno e benevolente tomar o corpo deles, curando suas dores e cansaços, trazendo uma nova esperança para seus corações.
— O corpo ainda precisa de muito repouso, meninos.
— Saori. — disseram eles em uníssono, mas com ajuda de todos já conseguiram pôr-se de pé.
Jabu caiu imediatamente de joelhos em frente à Atena.
— Está feito, Saori. Fechamos os Portões do Interno.
— Levante-se, Jabu. — pediu ela carinhosamente.
— Tivemos de vencer os Cavaleiros Negros e os Tenentes Marinas. — comentou Geki.
— Então quem quer que está por trás disso trouxe de volta inimigos do passado? — perguntou Shiryu.
— Não apenas inimigos. — comentou Nachi. — Encontramos Kanon na Itália.
A menção daquele nome trouxe uma consternação silenciosa entre todos.
— Foi ele quem destruiu o Portão do Inferno, mas…
— Voltou ao Mundo dos Mortos. — finalizou a frase Saori.
— Porque trariam um Cavaleiro de Atena de volta? — perguntou Shaina.
— Isso não é tudo. — disse um Geki sério. — Atena. Nós enfrentamos guerreiros egípcios na Turquia.
A informação caiu vazia entre eles gerando um silêncio misterioso; Atena olhou imediatamente para Marin, que apenas confirmou uma suspeita de ambas.
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Passos ecoam em uma câmara âmbar, o staccato seco batendo contra uma câmara de ecos. O tecido por cima de uma Armadura Dourada dançando nos passos de sua dona, os longos cabelos negros caindo-lhe até a altura da cintura; ela aproxima-se de um trono e ajoelha-se.
— Mãe. Alguns Portões do Inferno foram destruídos ao redor do Mundo, mas ainda há o suficiente para que o plano continue.
— Hmmm… — respondeu apenas uma voz feminina mais forte. — Não há com o que se preocupar. Eles estão todos prontos?
— Sim.
— O Exército está pronto?
— Sim, mãe.
— Ótimo. Algo mais, filha?
— Stand e Hetepheres foram vencidos na Turquia.
A mulher fez uma pausa, pensativa; finalmente levantou-se de seu trono e foi até a guerreira de Ouro: a mãe vestia um vestido de linho fino e justo em uma cor escura, tinha os cabelos cortados retos na altura do ombro e um tom de pele escuro. Ela desceu as escadas do trono e puxou a filha de seu ajoelhamento para que se mantivesse de pé; e então abraçou-a como mãe e filha que eram. A filha abraçou sua mãe mais fortemente e não pôde deixar escorrer algumas lágrimas entre soluços abafados; e de tanta força que fazia para não chorar, seu corpo parecia tremer.
Assim ficaram por um bom instante, até que a mãe quebrou o abraço e delicadamente fez com que ela olhasse para cima, para seus olhos.
— Vai ficar bem?
Ela respirou fundo.
— Sim.
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Havia uma certa discussão acontecendo na Casa de Áries sobre a origem daquela nova ameaça e sobretudo sobre os Portões do Inferno. Marin foi taxativa:
— Vocês fecharam apenas os Portões mais próximos da civilização para evitar que os mortos causassem pânico nas cidades. Mas ainda há muitos espalhados por lugares muito remotos.
— Se nos dividirmos, poderemos destruir o maior número de Portões possíveis. — comentou Shiryu, arrancando concordância de todos os Cavaleiros de Bronze.
— Não sabemos ao certo o número exato dos Portões, nem suas localidades, tampouco se não brotarão outros.
— O que sugere então, Marin? Não é possível que ache que o correto seja ficarmos parados esperando que eles coloquem a Terra em perigo! — disse Hyoga com força.
Marin ficou calada e foi Saori quem falou.
— Isso só acabará no Submundo. Não adianta vocês quebrarem um Portão atrás do outro, se outros mais poderão surgir. É preciso descer no Submundo e destruir a fonte de tudo isso.
Todos finalmente se inflamaram. Era o chamado à batalha que precisavam e, se tivessem que voltar ao Submundo, que assim fosse; Hyoga parecia renovado, Shiryu estava pronto e os Cavaleiros de Bronze também sorriram com a chance de descerem ao Submundo e chutar as bundas de quem quer que estivesse brincando com os mortos. Mas Shaina colocou-se entre eles e Atena dando um ligeiro passo adiante.
— Shaina?
Silêncio.
— Não. — adivinhou Hyoga. — Você vai me perdoar Saori, mas não, dessa vez não. Você não descerá ao Inferno sozinha, nós somos Cavaleiros de Atena, não é possível que não consiga compreender que…
— Olhe como fala, Hyoga! — vociferou Shaina. — Você está na presença da Deusa Atena, não é possível que você não perceba o quanto está desrespeitando ao falar dessa maneira!
— Está tudo bem, Shaina… — tentou contemporizar Saori.
— Perdoe-me, Atena, mas não está! — ela bradou ainda mais fortemente, deu um passo adiante para Shiryu e Hyoga, os mais enérgicos. — É um desrespeito esse o de vocês com Atena e também para com todos nós!
Shiryu observou que Jabu e os demais estavam mais comiserados com aquela decisão. Ela continuou:
— Como acha que eu e Marin nos sentimos por ter de deixar Atena descer ao Submundo sozinha? Como acha que Jabu e os outros sentiram-se ao terem de olhar vocês subirem as Doze Casas, invadirem Asgard ou até mesmo descer ao Hades!? Acham que vocês são os únicos a se sentirem inúteis nesse momento?
Houve silêncio, Shiryu tinha um semblante de quem envergonha-se ligeiramente, Hyoga estava de olhos fechados e não falou mais nada. Quem quebrou o silêncio foi a voz de Atena.
— E eu não estarei sozinha no Submundo, Shiryu, Hyoga. Fiquem tranquilos.
— O quê?!
— E além do mais… — adicionou ela. — Eu precisarei de mais tempo dessa vez, pois o Mundo dos Mortos não pode ficar desguarnecido.
— Atena! Saori! — gritos confusos.
— Ficarei bem, meninos. — sorriu ela. — Vocês precisam parar de achar que eu sou só uma menina indefesa. — disse ela no tom mais terno do mundo.
— Ah, Saori… — lamentou-se Shiryu e Jabu mal podia aceitar aquilo.
A conversa encerrou-se e Atena convidou a todos a marcharem com ela até o seu Templo. Passaram silenciosamente por todas as Casas do Zodíaco, recebendo o cosmo terno das Armaduras de Ouro silenciosamente repousando em seus totens; com a exceção de uma, e todos imediatamente adivinharam a proteção que acompanharia Atena enquanto no Submundo.
Chegando no Décimo Terceiro Salão, Atena anunciou:
— Ficarei no Submundo até o próximo Outono. — disse ela para uma reação de consternação silenciosa, pois já não havia mais o que espernear. E ela continuou. — Em minha ausência, eu preciso que o Santuário esteja protegido.
Ela fez uma breve pausa e chamou por Shaina, que apresentou-se ajoelhando diante de sua Deusa. Atena, na frente de todos, mostrou sua confiança na amazona de Prata e depositou a mão delicadamente em seus ombros prostrando-se junto à sua Amazona. Shaina levantou o rosto e fitou Atena nos olhos; imediatamente ela tirou sua máscara, quase que adivinhando a sua falta de respeito por Atena buscar os seus olhos e bater contra aquela proteção; ninguém além de Atena podia ver seus olhos marejados.
Saori sorriu para ela e anunciou a todos:
— Shaina ficará responsável pelo Santuário em minha ausência.
E levantou, sem maiores cerimônias, e sumiu por detrás da cortina do Grande Mestre, que levava até o seu templo. Shaina recolocou sua máscara e virou-se para os demais olhando para o futuro.
Então Atena voltou ao Mundo dos Mortos.
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