O sol está prestes a subir na terra do sol nascente. Shun está sozinho no jardim ainda coberto pelo orvalho da madrugada; ele caminha pelo caminho de pedra por entre a grama da Mansão Kido. Ikki está sentado em um banco de madeira próximo a algumas flores, justamente olhando um vale entre as montanhas, mais adiante de onde o sol se anunciaria.

Shun sentou-se ao seu lado. Respirou fundo e sentiu-se extremamente em paz, reconfortado ao lado do irmão; de tal modo que tampouco lembrava-se da última vez que pôde simplesmente ter a presença de seu irmão por perto. Em silêncio. Somente os dois. Shun deixou a cabeça pender para encostar no ombro do irmão. Ikki nem reagiu, como se aquilo fosse algo até muito comum aos dois.

— Ainda está preocupado comigo, não é, irmão?

— Mesmo que nada tivesse acontecido com você eu ainda estaria preocupado com você, Shun. — disse ele tranquilamente. — Um Deus tomou seu corpo. Não é muito comum, não acha?

— Estou bem, Ikki.

— Você nunca quis lutar, não é, Shun?

— Nunca quis que ninguém lutasse.

— Você parece a Saori falando. — Shun sorriu.

— Mas agora Jabu e os outros precisam lutar pela gente.

— Não fique assim, eles estão lutando bem. — Shun perguntou-se em silêncio os motivos pelos quais Ikki não participou daquela batalha, nada o impediria, mas tampouco ele saberia dizer o que Ikki fazia em suas ausências.

Talvez adivinhando aquele pensamento, afinal eram irmãos, Ikki adicionou:

— Shun, uma grande batalha está para começar. — Shun olhou para ele.

— Tenho certeza de que Nachi, Jabu e os outros vão dar conta.

— Não, Shun. Uma muito maior do que essa. Uma batalha contra os Deuses.

Os dois ficaram em absoluto silêncio, mas então Ikki percebe uma assinatura cósmica muito familiar; Shun apenas fecha os olhos, compreendendo o abandono da Deusa daquele Mundo.

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Shaina estava sozinha num dos terraços do Salão do Grande Mestre. Pensando, olhando para as estrelas como se tentasse adivinhar o que estava por vir, os males que poderiam brotar de um Submundo sem guarda e um Mundo dos Vivos sem sua Deusa. Marin aproximou-se dela e tirou sua máscara.

— Marin. — recepcionou ela.

— Shaina. — cumprimentou-a de volta e apoiou-se no mesmo parapeito com tranquilidade. — Como anda o treinamento do Hyoga e do Shiryu?

— Ora, você sabe. Eles estão já num nível acima do nosso, Marin. Tudo que eu preciso é fazer com que compreendam a importância do que é ser um Cavaleiro de Ouro. Na verdade, eu acho que é você quem deveria estar treinando os dois… afinal de contas, você treinou um Pégaso muito melhor do que eu.

A amiga prestou um silêncio respeitoso por Cássius.

— Cássius morreu porque acreditava em você, Shaina. Ele teria ido até o Inferno se você tivesse mandado. E agora é justamente isso que os dois precisam. Confiar em alguém como você.

Shaina ficou silenciosa por um momento.

— As Armaduras de Ouro já os ajudaram antes, eu achei que a transição fosse muito mais simples.

— Aquelas ainda eram as vontades do Mestre Ancião e de Camus.

— Sim, você tem razão. Vê. Talvez você é quem devesse estar no meu lugar, Marin. Você conhece o Santuário muito mais do que eu.

— É verdade, e além do mais, você jamais conseguiria fazer o que eu faço.

— Marin! — retrucou Shaina de certo modo espantada com a ousadia da amiga. — Eu acabo com você em dois segundos, mulher!

As duas riram como há tempos não faziam. Marin recolocou delicadamente sua máscara e fez menção de sair, mas Shaina chamou sua atenção:

— Marin… — começou ela tranquila e com sinceridade na voz. — Marin, todo o Santuário achava que você era a irmã perdida de Seiya.

Marin parou de andar e olhou pesarosa para baixo.

— Ele me procurou sobre Seika antes da invasão dos Espectros no Santuário.

— E você a encontrou.

Não houve resposta. Shaina continuou:

— Mas isso significa então que o seu irmão perdido continua por aí, não é?

Marin finalmente entrou para a escuridão, sumindo de vista, sem antes deixar de soar um sino que trazia preso na cintura.

— Marin. — comentou em silêncio Shaina, pesando-se por sua amiga Amazona.

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Tarde daquela noite, Shaina encontrava-se sozinha nas dependências internas do Décimo Terceiro Salão.

Os passos de seus saltos ecoaram na escuridão de mármore de uma grande câmara alta; ela fechou a grande porta, adiantou-se e sentou em um tamborete próximo a um balcão de mármore.

Então desenlaçou os saltos que usava lentamente; ziguezagueando os laços de couro e finalmente retirando-os, deixando os pés nus tocando a pedra fria. Ela ficou um tempo apenas com os pés tocando o frio daquele mármore antiquíssimo; por debaixo da máscara, ela inclusive fechou os olhos.

Tirou as joelheiras simples (pois estava sem sua Armadura) e estalou o pescoço, respirando fundo.

Desamarrou o lenço que trazia na cintura e desabotoou as ombreiras de guerreira, colocando tudo nesse balcão de mármore escuro. Retirou também as luvas longas e colocou-as ao lado das ombreiras.

Shaina então levantou-se, sentindo ainda com certo deleite o frio da pedra sobre os pés; desamarrou as travas de suas próprias costas com habilidade, aliviou os laços entre o vale dos seios e despiu-se do corselete tirando-o pelos pés e deixando o torso livre. Nos seios nus, levemente empinados, ela passou as mãos como se os esquentasse naquele frio interno. Guardou o corselete também no balcão.

Despiu-se, então, das calças justas de guerreira, fazendo um esforço para que saíssem de modo que suas curvas se acentuassem- na escuridão; seu sexo exposto, sua nudez quase completa.

Ela deu dois passos adiante e pôs as duas mãos no rosto e retirou a máscara que guardava seu bonito rosto jovem; deixou-a também ao lado de sua roupa e somente então sentiu-se plenamente nua. Tinha os cabelos caindo-lhe na altura dos seios, ela os jogou para trás, estufou o peito e levantou o queixo para que contemplasse o fundo daquela escuridão.

Não achava-se nunca uma mulher sensual, pois não era de seu arcabouço a noção de sensualidade, mas aos olhos das gárgulas que cuspiam água naquela câmara, Shaina era uma mulher exuberante, de forma absolutamente saudável e definida; por ser uma Amazona de Atena, sua força vinha de seu cosmo, portanto nem músculos aquele corpo de mulher exibia.

Ela deu três passos e, no quarto, já estava descendo o primeiro degrau daquela piscina, que a recebeu reagindo com uma longa onda desenhada na água, a partir da qual seguiram-se outras; até que ela estivesse coberta na altura de sua cintura fina. Ela caminhou até o pilar central e ali desceu aos poucos, deixando a água fria ferir seu corpo, que reagia arrepiando-se completamente.

Sentou até onde a água ficasse em seu pescoço, escondendo seu corpo nu, e manteve para fora daquela purificação apenas seus olhos confusos.

Até que ela mergulhou por completo.

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Atena entra de uma vez por todas em Giudeca; seu estado de degradação parece mais acelerado sem a presença de Hades ou de Perséfone. Ela observa com pesar o trono vazio do Deus do Inferno; para sempre Vazio. As cortinas que o separavam do convívio comum dos Espectros não existia, portanto Saori subiu aquelas escadarias e ponderou por um segundo se o que estava fazendo era realmente o correto.

Uma outra figura também adentrara o Templo, o som do metal tilintando chamou a atenção de Atena.

— Será que estou fazendo a coisa certa, Kanon? — perguntou Saori.

— Não me atrevo mais a tentar adivinhar a vontade dos Deuses, Atena. Saiba apenas que o que decidir, estarei aqui para lutar por você até que a minha morte chegue novamente.

Ela finalmente olhou terna para Kanon e com tristeza para o trono; decidiu não tomar aquele trono e apenas virou-se para a entrada da Giudeca e fincou Nike, seu báculo, no chão do Templo, irradiando seu enorme cosmo benevolente e divino não somente por aquela construção mas também por toda a extensão do Submundo.

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No cair da noite japonesa, Shun sente um cosmo grandioso se levantar.

— Esse cosmo!

E imediatamente seguindo a essa sensação, um choro descontrolado cortou a noite da Mansão Kido acordando a todos: era Seika. Shun saiu em disparada em socorro da menina; abriu a porta de onde estava e desembocou em um corredor muito iluminado, de onde June também já aparecia, indo na direção do quarto de Seika. June abriu a porta com alarde: ela não estava lá. Mas o choro continuava compulsivo e muito alto.

— Seika! — chamou Shun. Ela chorava; adivinharam onde ela estava e dessa vez foi Shun quem dobrou uma curva do corredor e abriu a porta para um dos quartos.

Seika estava jogada na cadeira abraçando o corpo de Seiya.

— Shun… Shun… — soluçava ela. — É o meu Seiya!

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No Santuário, Shaina estava ainda nua e molhada, de pé na piscina com seus cabelos completamente escorridos e colados nos seios. O silêncio do mármore era apenas quebrado pelo ressoar em diapasão de uma única urna que brilhava sozinha naquela escuridão noturna; exatamente a sua frente, um cosmo forte e determinado. Shaina chorou.

— Seiya.

Notas finais
A parte I chega ao final aqui. Teremos um hiato que não sei quanto durará, mas não será tanto. A parte II está finalizada já com 13 Capítulos. O primeiro, novamente, se chama Reencontros. A pausa se dará para que possamos debater a primeira parte no nosso Podcast: facebook.com/PodcastSaintSeiya E assim preparar para a publicação da Parte II, que nunca foi publicada em lugar nenhum Fiquem atentos. =D