Notas iniciais
Shaina sente o peso de sua contrapartida. No tabuleiro, aliados podem se tornar inimigos num piscar de olhos… e nem sempre por escolha própria. O caos não precisa de monstros para atacar — basta mexer nas memórias certas.

No tabuleiro, aliados podem se tornar inimigos num piscar de olhos… e nem sempre por escolha própria. O caos não precisa de monstros para atacar — basta mexer nas memórias certas.

O corredor que se estendia à frente não tinha teto nem chão definidos. Às vezes, parecia que caminhavam sobre um piso firme, frio e sólido; outras, as paredes giravam e invertiam o mundo, fazendo-os caminhar de lado ou até de cabeça para baixo. Nenhum deles comentava — talvez com medo de que o próprio tabuleiro ouvisse.

Shaina ia à frente, passos firmes, mas atentos. Atrás dela, Yuzuriha caminhava em silêncio, o tecido de seu manto oscilando como se tivesse vida própria. Mei seguia logo depois, com o olhar baixo, e Aeson fechava a formação, observando cada um com olhos calculistas.

O silêncio durava tanto que se tornava incômodo, até que Mei decidiu quebrá-lo:

— Quatro Cavaleiros de Prata… — ele disse, em tom baixo, como se falasse mais para si mesmo. — Isso não parece… errado para vocês?

— Errado como? — Yuzuriha ergueu o olhar, avaliando-o.

— Não há Atena aqui — respondeu Mei, abrindo e fechando as mãos, como se testasse o próprio cosmo. — Então como é que estamos usando isso?

Shaina parou de andar, as palavras dele pesando como chumbo.

— Talvez ela esteja… mas se escondendo. Ou talvez… — ela hesitou, olhando para as próprias mãos — talvez o que estamos sentindo nem seja nosso cosmo.

Aeson soltou um riso breve e sem humor.

— Então estamos lutando com o quê? Com a energia emprestada do próprio tabuleiro?

Yuzuriha franziu o cenho.

— Isso explicaria o porquê de tudo aqui parecer… contaminado. É como se cada golpe carregasse algo estranho, um calor que não é nosso.

A tensão cresceu como uma chama alimentada pelo vento. Bastou um olhar atravessado para o clima azedar de vez.

— Você nunca disse como chegou aqui — disse Aeson, apontando o queixo para Mei.

— E você disse? — retrucou Mei, firme.

O ar pareceu pesar. Num piscar de olhos, os quatro estavam em posição de combate. Shaina desviou de um avanço de Aeson, bloqueando com o antebraço e respondendo com um chute baixo, rápido e seco. Yuzuriha girou o corpo, o manto cortando o ar contra Mei em golpes afiados. Não havia ódio nos olhares, mas havia uma fúria crua, instintiva — e ela não vinha deles.

O chão tremeu levemente, como um tabuleiro sendo movido. Shaina entendeu na hora.

— Parem! — ela gritou, recuando. — Isso não somos nós… É o tabuleiro mexendo com nossas cabeças!

A “névoa” que os envolvia dissipou-se de repente. Um a um, baixaram a guarda, a respiração pesada.

— Isso foi rápido demais — disse Yuzuriha, limpando o suor da testa. — Uma faísca, e já estávamos prontos para nos matar.

Shaina fechou os olhos, tentando recuperar o controle. Foi quando um calor súbito atravessou sua mente. Não era físico, era como se o próprio cosmo tivesse sido puxado para longe. Ela viu flashes: o rosto de Cassius, um grito abafado, e o impacto de um corpo protegendo o seu. Aquilo não era dali — era do mundo real.

— Shaina? — Aeson a segurou pelo ombro quando ela vacilou.

— Eu… senti… alguém… se sacrificou por mim. — Ela respirou fundo, tentando manter a voz firme. — Não aqui. Lá fora.

Antes que pudessem processar o que ela disse, uma figura se formou à frente, surgindo das sombras como se fosse parte delas. Alta, esguia, com um manto que parecia conter fragmentos de estrelas, e olhos que brilhavam como dois sóis distantes. Seus cabelos eram curtos e brancos, refletindo a luz como lâminas, e sua pele escura realçava ainda mais o contraste.

— Nix… — Shaina rosnou o nome, sentindo o sangue ferver.

Yuzuriha e Mei se entreolharam, tensos.

A deusa da noite sorriu, um gesto lento e frio.

— Vim oferecer minha mão, Shaina. Sei que está perdida. Sei que sente falta dos seus amigos…

— Cale-se. — Shaina deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Eu me lembro de você. Marin, Orfeu, Mayura… todos sofreram por sua causa. Você não vai me enganar outra vez.

O sorriso de Nix não desapareceu, mas seus olhos perderam o brilho.

— Então, por enquanto, vou observar. — Sua voz soou como um eco distante. — E esperar.

Com isso, ela se dissolveu na escuridão, como se fosse engolida pelo próprio manto.

O grupo retomou a caminhada, mas agora cada sombra parecia mais densa. Não sabiam se Nix ainda os seguia, mas sentiam que algo — ou alguém — os observava.

Foi então que encontraram algo diferente: uma parede curva, quase viva, e encostado a ela, um homem. Seu corpo estava coberto por trapos queimados e manchados de sangue seco. A respiração era lenta, mas profunda.

— Ei! — Shaina se aproximou, ajoelhando-se. — Ele ainda está vivo.

Aeson e Mei o ergueram com cuidado. O rosto, parcialmente coberto, deixava à mostra olhos claros, marcados pelo cansaço, mas também por uma determinação silenciosa.

— Quem é você? — perguntou Yuzuriha.

— … Odisseu. — Sua voz era baixa, quase um sussurro, mas firme o bastante para ser ouvida. — Não esperava… companhia.

— Nem nós — respondeu Shaina, olhando-o com cautela. — Mas parece que também está preso aqui.

Odisseu esboçou um sorriso discreto.

— Todos aqui estão. A diferença é… como chegaram.

Ele não disse mais nada. Talvez não quisesse. Talvez não pudesse. Ainda assim, algo no toque dele fez Shaina estremecer. Um peso no ar, uma pulsação estranha — a mesma que ela vinha sentindo em sua armadura desde que chegara ali.

E, no fundo, uma certeza incômoda: Odisseu não era apenas mais um homem perdido no tabuleiro.


Notas finais
O grupo cresce, mas junto dele crescem as perguntas. A chegada de Odisseu traz respostas… e segredos. Nix observa das sombras, e cada passo pode ser uma armadilha do próprio tabuleiro. A próxima jogada está a caminho — e talvez seja mais pessoal do que Shaina imagina.