Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras

1 Prólogo - A prisão além-tempo


Notas iniciais
No fim da batalha contra Prometheus e os Réquiens, a ordem do universo parecia restaurada… mas nem tudo se encerrou com a queda do titã. Nix, a deusa da noite, havia manipulado forças muito além de sua jurisdição. Sua prisão não seria obra dos deuses do Olimpo, e sim de uma presença mais antiga, que transita nas margens do tempo. Shaina, amazona de Ofiúco, sobreviveu aos combates — mas algo aconteceu com ela durante as batalhas de Águia Dourada. Um toque, um instante… e seu destino se dividiu.

O eco do último embate ainda reverberava pelo vazio que separa as eras. Correntes de luz e trevas se entrelaçavam no ar rarefeito, prendendo a deusa Nix em um casulo que não tinha chão nem teto.

Sua forma oscilava entre sombra e carne, como se nem o próprio universo tivesse certeza de onde colocá-la. A deusa respirava com dificuldade, não pelo cansaço físico — mas pela percepção do que se aproximava.

— Então é você… — murmurou, seus olhos dourados se estreitando. — O guardião que vive fora do tabuleiro.

Das franjas invisíveis do tempo, Ormenos surgiu. Não caminhava: deslocava-se, como se o espaço se moldasse para recebê-lo. Sua figura era alta, encoberta por um manto que não refletia luz. A cada passo, as linhas do tempo à sua volta se fragmentavam em partículas, e vozes antigas sussurravam em línguas extintas.

Ele não respondeu. Apenas ergueu a mão direita.

Nix tentou recuar, mas encontrou atrás de si o nada.

— Eu só busquei… consertar o que os deuses quebraram — disse, sua voz oscilando entre desafio e súplica. — Prometheus me ouviu porque sabia que eu estava certa!

— Prometheus… — Ormenos quebrou o silêncio com um tom grave. — …é apenas mais uma peça. Você… tentou jogar acima do tabuleiro.

Seus dedos tocaram a testa de Nix.

No mesmo instante, as correntes se fecharam com um som que não parecia pertencer a este mundo. O corpo dela foi arrastado para trás, não por força física, mas por algo muito mais profundo: a própria linha que sustentava sua existência. E então, em um piscar de olhos, ela desapareceu.

Mas Ormenos não havia vindo apenas por Nix.

Em outro ponto da batalha, muito distante da prisão que acabara de se formar, o som metálico de armaduras destruídas e o eco de gritos ainda marcavam o campo.

Entre os destroços e a poeira suspensa, Shaina de Ofiúco respirava com dificuldade. Sua armadura estava despedaçada, o sangue escorrendo pelo braço esquerdo, o corpo vacilante.

Ela se apoiou no joelho, tentando se levantar.

“Não posso cair agora… não depois de tudo.”

A visão começou a escurecer. A mão dela tocou o chão frio.

Foi então que o ar ao seu redor mudou. O som da batalha distante se distorceu, como se fosse afogado por água. A poeira congelou no ar, imóvel.

Uma sombra surgiu à sua frente. Alta. Silenciosa. Inexpressiva.

Shaina tentou falar, mas nenhum som saiu.

O homem — se é que podia ser chamado assim — ajoelhou-se e pousou dois dedos no ombro dela. No contato, um calor intenso percorreu seu corpo, mas não era um calor físico: parecia que algo entrava em suas veias, mexendo na estrutura mais íntima de quem ela era.

Naquele momento, dois destinos se formaram.

A Shaina que todos conheciam voltou a abrir os olhos no campo de batalha momentos depois, confusa, mas viva. Ela continuaria sua vida, voltaria à Terra e apareceria, dias depois, no epílogo de Águia Dourada — como se nada tivesse acontecido.

Mas o toque de Ormenos não apenas salvou sua vida.

Ele criou uma duplicata, uma sombra feita de fragmentos dela e de algo além das eras. Essa sombra despertou… em outro lugar.

Silêncio.

Quando Shaina abriu os olhos, a primeira sensação foi o frio. O chão sob seus pés não era pedra, nem metal… mas algo liso e polido, marcado por quadrados perfeitos que se estendiam até onde a vista alcançava.

Acima, um céu negro e sem estrelas. Ao longe, figuras colossais moviam-se sozinhas, como estátuas que haviam decidido respirar. Cada uma tinha a forma de um guerreiro ou criatura, e mudava de posição lentamente, como peças num jogo de xadrez.

Shaina levou a mão à cabeça.

— Onde… estou?

— Então mais uma peça entrou no jogo… — disse uma voz rouca atrás dela.

A amazona girou rapidamente, os sentidos em alerta.

De dentro da penumbra, surgiu uma mulher de longos cabelos negros, a pele tão pálida que quase brilhava na escuridão. Os olhos, dourados, fitavam Shaina como um caçador observa a presa.

— Quem é você? — Shaina exigiu, sua voz carregando a mesma firmeza que tantas vezes havia usado no campo de batalha.

— Alguém que já conheceu a liberdade… e agora joga para recuperá-la — respondeu a mulher, sorrindo sem calor. — Eu sou Nix. E você, amazona, está no Tabuleiro das Eras.

Shaina franziu o cenho.

— Tabuleiro? Isso aqui é uma prisão?

— Sim. E não. — Nix deu alguns passos à frente, o som de seus pés ecoando como se estivesse sobre mármore oco. — Aqui vêm parar aqueles que abalaram o equilíbrio do universo. Alguns por escolha… outros por acidente.

Shaina sentiu um arrepio.

— Eu não fiz nada…

— Não é o que você fez. É o que você é. — Os olhos de Nix brilharam, como se enxergassem algo por baixo da pele da amazona. — Há mais em você do que imagina, Shaina de Ofiúco.

A amazona instintivamente levou a mão ao peito, sentindo o peso da armadura.

— E como eu saio daqui?

— Ganhando. — Nix apontou para o horizonte, onde duas peças colossais se chocavam, liberando ondas de energia. — Este é o jogo. Somos peças. O tabuleiro muda, as regras também… mas quem sobrevive até o final pode voltar para casa.

— E quem perde? — Shaina perguntou.

— É apagado — respondeu Nix sem hesitar. — Não derrotado. Apagado. Como se nunca tivesse existido.

Por um momento, Shaina permaneceu em silêncio. As palavras ecoavam dentro dela, junto com memórias recentes de ferimentos que haviam se curado sozinhos, de lapsos em que não lembrava como havia chegado a certos lugares, de transes que não conseguia explicar.

“Isso… tem a ver com o toque daquele homem…”

Nix se afastou, olhando para o tabuleiro infinito.

— Espero que saiba jogar, amazona. Peões raramente sobrevivem muito tempo.

Shaina fechou os punhos.

— Peão ou não… eu não vim aqui para perder.

E pela primeira vez, um leve sorriso se formou nos lábios de Nix.

— Veremos.

Notas finais
O toque de Ormenos, durante as batalhas de Águia Dourada, dividiu o destino de Shaina, criando uma duplicata que agora é jogada no Tabuleiro das Eras. A original segue na Terra, mas esta “sombra” carrega a essência da amazona e fragmentos de algo que vai além do tempo. O Tabuleiro é um campo de provação, onde cada peça representa um guerreiro arrancado de sua linha temporal. Sobreviver significa retornar… ou conquistar algo ainda maior. Perder significa ser apagado para sempre.