Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
32 Os três Ecos anunciam o fim
Notas iniciais
O salão parecia um templo feito de memória e ouro. Pilares com serpentes esculpidas giravam do piso ao teto, e o teto era um céu antigo, salpicado por estrelas como brasas. No centro, Odisseu já estava lá — armadura dourada de Ofiúco, mais densa e afiada que a de Shaina, linhas verdes correndo entre as placas como se o metal fosse vivo. Duas serpentes reais repousavam sobre os ombros dele, imóveis como coroas. Shaina entrou sozinha; o ruído dos passos pareceu uma confissão.
— Então acabou — disse ela, firme. — Você é o Rei.
— Rei… não passa de uma posição no tabuleiro — Odisseu respondeu, sem arrogância. — O que importa é o que fazemos quando o tabuleiro cai. Mostre-me, Shaina: você é herdeira… ou eco?
O cosmo dele ergueu-se como um vento que não aceita teto. O de Shaina respondeu. Por um instante, as duas armaduras vibraram no mesmo tom, e foi como ouvir um nome antigo dito em duas bocas diferentes.
Odisseu veio primeiro: passo curto, punho seco, cotovelo alto. Shaina bloqueou, girou o quadril, devolveu um direto com a precisão que aprendera apanhando e vencendo — Subaru, Tokisada, Alice… cada fantasma encaixou um detalhe no corpo dela. O choque rachou o piso; poeira dourada subiu.
— Garras do Trovão! — Odisseu abriu os braços, e o ar adensou em lâminas múltiplas, diagonais que cortavam antes de brilhar.
Shaina cruzou os antebraços, absorveu o primeiro impacto, saltou para o lado e contra-atacou na mesma batida:
— Garras do Trovão!
As diagonais se encontraram num clarão branco, chiando como metal raspado. Odisseu sorriu, pequeno, quase satisfeito. Avançou outra vez, agora mais baixo. O joelho dele tocou o chão; a mão varreu o ar:
— Anéis de Ofiúco.
Círculos de luz surgiram do nada e fecharam-se nas pernas e na cintura de Shaina como laços apertados. O corpo dela travou; por um segundo, o peso do metal virou pedra. Odisseu chegou em um sopro, e a palma pousou no esterno dela:
— Sutura Serpentina.
O impacto não doeu como golpe; doeu como decisão. O ar saiu. Shaina cedeu um passo, quase outro, e prendeu o avanço com os calcanhares. Pensou no labirinto e na vez em que achou que estava sozinha; pensou em Yuzuriha desviando de sentenças perfeitas, em Mei abrindo portões na luz, em Aeson recusando a paz perfeita de Athena, em Sonia espelhando o caos e devolvendo justiça. O laço apertou mais. Ela mordeu a língua, sentiu o corte arder, e respirou “no tempo errado”, quebrando o ritmo imposto — truque que aprendera sob o peso de Tokisada. O anel perdeu metade da força.
Shaina flexionou o tronco e estourou o laço com o próprio giro do corpo. Encaixou dois socos no curto — um no ombro, outro no flanco — e, sem pausas, riscou o ar:
— Garras do Trovão — Trajetória Cega!
Era a mesma técnica, mas quebrada de propósito: trajetórias irregulares, cortes que não buscavam simetria. Odisseu levantou o antebraço e ainda assim a borda do golpe mordeu-lhe a armadura. O tilintar do metal foi claro. Ele assentiu, olhos calmos.
— Não é imitação. É aprendizado.
A distância encerrou; Odisseu puxou no clinch, antebraço no pescoço, quadril colado, força centímetro por centímetro. Shaina respondeu com joelhada curta, cotovelo na têmpora, e empurrou. Ele soltou, escorando um pé atrás. As serpentes dos ombros ergueram a cabeça.
— Mordida de Ofiúco.
Os répteis dispararam, presas brilhando num traço. Shaina baixou o corpo, deixou passar por cima, e — no retorno — agarrou uma cabeça com as duas mãos. Sentiu a vibração do cosmo do outro lado do animal, como um cabo energizado. Em vez de afastar, puxou, girando o eixo: a cabeça descreveu um arco e bateu no piso. A segunda serpente roçou o ombro dela e sumiu em reabsorção de luz.
Odisseu variou a postura e abriu a mão direita sobre o próprio tronco. O salão emudeceu um tom.
— Círculo da Cura.
A luz percorreu as placas rachadas da armadura dele e fechou as fissuras como se tempo pudesse costurar. Shaina reconheceu a vibração — a mesma que a curara sem explicação, lá atrás, nos níveis iniciais. Entendeu finalmente: não foi milagre perdido… foi ele. Um arrepio frio subiu pela coluna.
— Você me curou — disse, baixa. — E foi você também… lá, contra Prometheus. A máscara de sol… Ormenos estava contigo.
Os olhos de Odisseu brilharam. Não negou. Apenas avançou de novo. O duelo mudou de faixa: menos estrada, mais ponta de faca. As mãos quase não se afastavam. Odisseu testou defesas com toques de milímetros, pesou o quadril dela, tirou medidas. Shaina enxergava cada intenção um segundo antes, mas nem sempre o corpo alcançava a resposta. Um cruzado entrou; uma passada ficou curta; o ar ficou curto também.
— Cresceu — disse ele. — Cresceu na direção certa.
Ela não respondeu. Deu um passo fora do compasso — não para atacar, para impor ruído — e entrou por baixo da guarda:
— Garras do Trovão!
Duas lâminas cortaram a diagonal da guarda dele e entraram pelos flancos. Odisseu travou o tronco e respondeu de cima:
— Anéis de Ofiúco!
Os círculos vieram em três alturas — tornozelos, quadris, pescoço. Shaina mergulhou sob o superior, saltou o inferior e estourou o central com o cotovelo. Odisseu sorriu com os olhos; girou no lugar e, por uma fração de segundo, o salão inteiro pareceu se enrolar numa espiral.
— Laço Serpentino.
Agora os anéis eram um só laço, puxado de um ponto acima da cabeça dela. Se prendesse, acabaria. Shaina jogou o peso para trás e, quando o laço desceu, entrou dentro dele, colando o corpo ao eixo e invertendo a tração, como uma sanfona que não fecha. A seda de luz arranhou o metal e ficou presa na borda da ombreira. Ela explodiu em giro:
— Garras do Trovão — Quebra de Anel!
O laço rasgou; listras de luz caíram como escamas. Odisseu recuou meio passo. Não havia ira no rosto dele — havia leitura. O punho dele cresceu no campo de visão dela; Shaina baixou o queixo, amortizou no antebraço, e o eco do impacto correu até o ombro. O braço amortecido pesou. Ela mexeu os dedos para garantir domínio. Odisseu ouviu o estalo.
— Mais uma — disse, sereno. — Chegue onde eu parei.
Shaina respirou fundo. A memória do tabuleiro varreu inteira como filme em avanço rápido: Nix golpeando, e ela se colocando na frente por Sonia; Yuzuriha tocando-lhe a mente à distância; Mei caindo e levantando; Aeson insistindo naquilo que não pedia perdão. A conta de todas as decisões bateu. O corpo ficou leve.
Ela correu. Não rápida: certa. Odisseu abriu a guarda, convidando. Shaina não mordeu a primeira isca. Pisou fora da linha, torceu a cintura, e lançou o corte que era sua assinatura e sua promessa:
— Garras do Trovão!
Não era uma enxurrada. Eram duas linhas limpas, cruzando como destino escrito por mão firme. Odisseu ergueu o braço; a primeira passou raspando e marcou a armadura na altura do peito. A segunda entrou no ombro, fazendo o metal cantar. Ele cambaleou um passo, pousou um joelho e deixou o ar sair como quem agradece.
— Está feito — disse, e a voz não era de quem se rendia por falta; era de quem decidiu.
Shaina parou onde estava. A distância entre os dois cabia num suspiro. Mais nada se mexeu — até o pó decidiu não cair.
— Você não é minha sombra — disse Odisseu, sem levantar. — É minha continuação. Ofiúco tem quem o carregue.
A armadura dele brilhou uma vez — longa — como bênção. Odisseu ergueu o rosto e encontrou os olhos dela. — Obrigado por não quebrar. — E, com isso, o brilho que o definia começou a se desfazer, voltando ao ar como luz que termina. Não houve grito nem queda: apenas o vazio sendo devolvido ao lugar certo.
Shaina ficou sozinha no centro — sozinha por um segundo. O teto escureceu. Um vento que não vinha de lados abriu as sombras, e três presenças desceram como constelações virando gente.
O primeiro, couraça vermelha e máscara de sol, irradiava um brilho que não aquecia: Ormenos, o Silente. Ao lado, uma figura feminina, armadura prateada com bordas de lua minguante, cabelo como noite de inverno: Selanar, a Eclipse. Por fim, a figura austera, armadura negra fosca com inscrições tênues e um livro numa mão, pena de luz na outra: Elyon, o Fim.
Shaina levou a mão ao peito, num reflexo antigo. O coração contou uma história inteira em três batidas.
— Ormenos… — a voz saiu baixa, mas não tremeu. — Você estava lá… contra Prometheus. E… você me tirou dos Lúcios. Eu vi a máscara.
— Vi e pesei — disse Ormenos, a voz que não erra o volume. — O universo não precisava da Nix livre. O universo… precisava de você aqui.
Selanar inclinou o rosto, levemente. — E agora, precisa de vocês fora.
Elyon abriu o livro. As páginas não tinham letras; tinham traços de existências. Ele molhou a pena em uma luz que não vinha de nada.
— Somos Os Três Ecos — disse Ormenos. — Não como título, mas como função. O Eco do Amanhecer, o Eco do Crepúsculo, o Eco do Fim. Pesamos o que começa, o que termina… e o que precisa ser silenciado.
Selanar estendeu a mão. O ar se abriu em círculos translúcidos, dezenas deles, girando como vitrais sem igreja: Seiya em luta sob as Doze Casas; Saori criança na colina; Tenma e Alone sob céus diferentes; Shoko correndo com o coração aceso; Aiolia sozinho contra o destino; Marin na neve, sem máscara; Kouga com o punho erguido. Em cada círculo, um tabuleiro em embrião. Em cada um, peões que ainda não sabiam o nome.
— Vocês acreditaram em saída — disse Selanar, macia. — É natural. Toda peça quer virar história.
— Mas história não é caridade — completou Ormenos. — É limite.
Elyon falou por último; a voz parecia escrita antes de ser dita. — E todo limite precisa de um ponto.
A pena tocou o livro. Cada nome escrito era uma luz apagando no corpo certo. Aeson primeiro — deitado, respirando fundo, sumindo como alguém que finalmente dorme. Depois Yuzuriha — o manto esboçou um último desenho no ar. Mei — o Portão fechou-se sem ruído. Sonia — o ouro do Escorpião brilhou puro uma vez antes de virar pó de estrela. Odisseu — o traço final gentil, como quem respeita.
Shaina ficou. Ormenos olhou para ela através da máscara que parecia nascer do próprio sol.
— Shaina, contente-se. Você pensou ser um eco, mas foi a única Shaina em todos os mundos a ascender à Amazona de Ouro de Ofiúco.
Ela não pediu mais um segundo. Não pediu lembrança, nem música, nem perdão. Endireitou a coluna, levou a mão à ombreira e assentiu. Elyon escreveu. O ouro em torno dela se abriu como manhã e, no mesmo instante, como noite. O salão desfez-se em planos; o tabuleiro recolheu suas linhas como um mapa que volta à gaveta.
Restaram os Três Ecos. Selanar fechou a mão, e os círculos das outras realidades flutuaram para mais alto, pequenos como lanternas. Ormenos ficou imóvel, como sol que não nasce nem se põe. Elyon fechou o livro — o som era de página e de porta.
— O próximo movimento? — perguntou Selanar.
— Amanhece em outra mesa — disse Ormenos.
Elyon encostou a pena no lombo do livro, como quem marca. — Todo fim é um eco. O resto… é silêncio.
O silêncio veio. E, por um instante longo o bastante para parecer eterno, não houve nem tabuleiro, nem peças, nem leitores — somente o espaço onde as histórias esperam seu começo.
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