Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras

7 Odisseu, o domador de serpentes


Notas iniciais
No tabuleiro, o tempo não é apenas uma medida… é uma arma. E, quando um Cavaleiro que controla o tempo decide agir, cada segundo pode durar uma eternidade.

Odisseu caminhava na frente, passos calculados e silenciosos, como se cada movimento estivesse medindo mais do que a distância — estivesse medindo o próprio avanço do grupo. Shaina apressou o passo até ficar ao lado dele, sentindo aquela pulsação incômoda da Armadura de Ofiúco cada vez que se aproximava. O eco vibrava nos ossos, como se algo antigo dentro dela reconhecesse aquele homem.

— Preciso entender — disse, sem rodeios. — Por que minha armadura reage a você? No passado, houve um momento em que eu me curei sozinha, sem explicação. E essa serpente dos meus sonhos… o que significa?

Odisseu nem desviou o olhar.

— Agora não. — A voz dele soou fria, como pedra molhada. — Nosso tempo aqui é mais valioso que respostas. Se quisermos sair vivos, precisamos evoluir antes que o tabuleiro sature.

Shaina estreitou os olhos.

— “Saturar”? — repetiu, quase cuspindo a palavra.

Ele parou e se virou, medindo cada um com um olhar que parecia pesar mais do que o ar que respiravam.

— O tabuleiro não é infinito. Cada nível suporta apenas um número limitado de peças ativas. Quando há peças demais… ele se fecha. E, quando isso acontece, quem não avançou é simplesmente descartado.

A tensão se espalhou pelo grupo como um frio súbito.

Odisseu apontou para cada um:

— Três peões… — seu olhar passou por Shaina, Mei e Yuzuriha. — E uma torre… — fixou-se em Aeson. — Vocês precisam subir de patente. Para isso, terão que derrotar torres, cavalos, bispos, rainhas… e por fim, o rei.

Yuzuriha cruzou os braços.

— E você? — perguntou, direta.

Ele voltou a caminhar, ignorando a provocação. Nenhuma resposta. Apenas o som das botas contra o chão.

O corredor parecia pulsar, como se o próprio espaço tivesse um batimento cardíaco. Paredes se distorciam, às vezes se afastando, às vezes se fechando, criando a sensação de que estavam sendo guiados para um único destino.

E então chegaram.

No centro da nova sala, um homem permanecia imóvel, como se soubesse que eles viriam. Vestia uma armadura de prata de brilho afiado, mas não era apenas metal — cada placa parecia formada por engrenagens, mostradores e ponteiros em constante movimento, como se o tempo estivesse vivo sobre seu corpo.

— Tokisada de Relógio… — murmurou Mei, quase como um aviso.

Tokisada ergueu o queixo, um leve sorriso curvando seus lábios.

— Eu não deveria estar aqui… mas o tempo traz todos para onde precisam estar. — Seus olhos se fixaram em Aeson. — E você… será o primeiro.

Antes que qualquer um pudesse reagir, Tokisada moveu-se. Não foi um ataque comum — foi como se um segundo se esticasse, e nesse espaço impossível ele se aproximou de Aeson, tocando-lhe o ombro com a ponta dos dedos.

— A Prisão dos 100 Mil Milênios.

O mundo pareceu congelar.

Aeson endureceu, os olhos se arregalaram… e depois, seu olhar mudou. Não havia mais foco, não havia mais presente. No único segundo que se passou no tabuleiro, ele viveu eras incontáveis, sozinho, num vazio sem forma. Sentiu o passar de civilizações, o apagar de estrelas, a decomposição do próprio pensamento. E então, de volta ao agora, caiu de joelhos, arfando como alguém que havia atravessado uma eternidade e regressado sem estar inteiro.

Shaina recuou um passo, o choque estampado no rosto. Yuzuriha, tomada pela fúria, avançou. Seu manto cortou o ar em movimentos rápidos, enquanto Shaina tentava coordenar chutes baixos e golpes diretos. Mas Tokisada não parecia lutar contra elas no mesmo tempo que elas. Ele desaparecia e reaparecia, como se cada ataque fosse apenas uma lembrança de algo que já tinha evitado.

Mei tentou uma aproximação lateral, mirando uma abertura nas costas do inimigo, mas Tokisada girou o corpo e um arco de energia dourada se abriu, distorcendo o ar ao redor. Mei foi lançado contra a parede, o impacto ecoando pela sala.

Odisseu, até então parado como um pilar, deu um passo à frente. O ar mudou.

— Chega.

Tokisada voltou-se para ele, os olhos estreitando.

— Quem é você para dar ordens aqui?

Odisseu não respondeu. Seu cosmo se expandiu, denso, pesado, trazendo consigo uma sensação antiga, de algo que não deveria estar ali. Seus movimentos eram fluidos e traiçoeiros, como o deslizamento de uma serpente na penumbra. Ataques vinham de ângulos improváveis, cercando Tokisada e obrigando-o a recuar. Cada golpe parecia ignorar o fluxo temporal distorcido, como se o tempo não tivesse domínio sobre ele.

O choque entre os dois fez o chão rachar. As paredes vibravam. Tokisada, pela primeira vez, franziu o cenho, ajustando o corpo para compensar.

— Vão! — gritou Odisseu, sem desviar os olhos do inimigo. — Vocês não pertencem mais a este nível!

Shaina hesitou, dando um passo à frente.

— Mas e você?!

— Agora! — a voz dele cortou a sala como uma lâmina.

Odisseu concentrou seu cosmo. A energia se espalhou pelo chão, formando fendas circulares ao redor dos quatro cavaleiros de prata. A luz subiu como colunas, envolvendo-os. Shaina sentiu o ar vibrar e, antes que pudesse protestar novamente, seus pés já não tocavam mais o solo.

A última imagem antes de a luz engoli-la foi a de Odisseu e Tokisada colidindo com força bruta e precisão cirúrgica, como duas forças que se conheciam há muito mais tempo do que poderiam admitir.

De muito longe, nas bordas invisíveis do tabuleiro, Ormenos observava. A luz dourada de sua máscara refletiu o espetáculo, e um sorriso pequeno, quase satisfeito, se formou.

— Odisseu… — murmurou, como quem reconhece uma peça valiosa voltando ao jogo.