Notas iniciais
Após derrotarem Derven de Clepsidra, Shaina, Yuzuriha e Mei cruzam para uma nova ala do Tabuleiro — um templo-corredor sem sombras, onde o ar pesa como promessa. Ali, a primeira Torre se erguerá contra elas. E um homem do futuro, Aeson de Taça, herdará uma dívida antiga… e um título ainda mais antigo.

O som metálico ecoava por todos os lados, repetido como um badalar que não vinha de lugar algum.

Shaina avançava ao lado de Yuzuriha e Mei. As portas da última sala haviam se fechado atrás deles, selando de vez a presença de Jan de Lobo Faminto. Agora, o corredor parecia mais estreito e a gravidade, incerta — às vezes a luz vinha de cima, outras do chão, como se o próprio espaço estivesse indeciso.

— Este lugar não é feito para ser entendido — comentou Mei, o olhar distante. — É um labirinto sem centro.

Yuzuriha manteve o passo firme. — Então basta não parar de andar.

O corredor se abriu num espaço amplo, circular, com colunas retorcidas como árvores petrificadas. No centro, alguém os aguardava: armadura de prata clara, detalhes azuis e postura ereta como uma muralha.

— Subaru de Cavalo Menor… — murmurou Mei, reconhecendo-o de histórias antigas.

Shaina ergueu o queixo. — Conhece?

— Ele… era um cavaleiro. Mas também foi… mais que isso — respondeu Mei, hesitante. — Um deus. Saturno.

Subaru deu um passo à frente. Sua voz saiu grave, carregada de um peso que não era só físico.

— Não me olhem como se eu fosse um mito. Não sou mais Saturno. Não sou mais nada. Só quero voltar para antes… antes de me tornarem algo que nunca pedi para ser.

— E por que isso exige nos enfrentar? — rebateu Shaina, as mãos já prontas.

— Porque é assim que funciona aqui. Subir. Vencer. Roubar a posição de quem está acima. — O olhar dele caiu sobre os três. — Vocês… não têm o que é preciso.

Shaina avançou, mas Yuzuriha segurou seu braço. — Ele é uma Torre. Você vai se machucar.

Subaru pareceu interpretar o gesto como provocação. Em um segundo, desapareceu e reapareceu diante delas, o punho descendo como um martelo. Shaina girou para o lado e contra-atacou com um chute lateral, mas a defesa dele era sólida demais.

O som de passos firmes quebrou o ritmo da luta. Das sombras de uma das colunas, um homem surgiu. A armadura de bronze tinha o formato de um cálice adornado com marcas sutis, e o rosto carregava traços pesados, quase cansados.

— Aeson de Taça — disse ele, como se se apresentasse para um tribunal invisível. — E parece que cheguei na hora certa.

Subaru franziu o cenho. — Não é seu combate.

— Agora é. — Aeson olhou para Shaina, e seus olhos se demoraram um segundo mais que o necessário. — Você… não se lembra de mim. Não importa.

Mei reagiu ao nome. — Taça? Mas… você não é Asaho.

— Não. — O tom de Aeson ficou mais sombrio. — Sou quem veio depois.

Shaina não entendeu, mas não houve tempo para perguntas. Subaru investiu contra Aeson, o chão ressoando com cada passo. A luta que se seguiu foi diferente: onde Shaina usava velocidade e Yuzuriha, cortes precisos, Aeson parecia fluir. Seus movimentos eram amplos, como se carregassem correntes invisíveis que puxavam o inimigo de volta para sua guarda.

— O que você quer aqui, Torre? — provocou Aeson durante um clinch.

— Não é óbvio? — Subaru se afastou com um salto. — Quero voltar.

— Todos aqui querem algo — rebateu Aeson. — Mas só alguns têm coragem para pagar o preço.

Subaru atacou novamente, mirando o flanco, mas Aeson o desviou com um movimento circular, como água contornando uma rocha. O braço dele se ergueu num arco.

— Julgamento da Taça!

A energia condensada explodiu num impacto seco, e Subaru cambaleou, ajoelhando-se. Respirava com dificuldade, as placas da armadura rangendo.

— Agora… sou um pião — disse ele, a voz amarga.

O silêncio seguinte foi pesado. Shaina o observou, não com pena, mas com a estranha sensação de que essa “queda” era só o começo para ele.

Aeson se aproximou e ofereceu a mão. Subaru hesitou, depois aceitou, levantando-se com um suspiro.

— Pião ou Torre… todos estamos presos — disse Aeson. — A diferença é o que fazemos com isso.

Mei quebrou o silêncio. — Você falou que veio depois de Asaho. O que aconteceu com ele?

O olhar de Aeson se escureceu. — Ele partiu. E deixou a Taça para mim. No futuro… foi a única forma de impedir algo pior.

Shaina cruzou os braços. — Então está aqui para impedir algo agora também?

— Sim. — Ele olhou para longe, como se buscasse um ponto fixo no vazio. — Estou procurando alguém. Um Cavalo. E quando o encontrar, vou acabar com ele.

Antes que Shaina perguntasse mais, o som de metal leve ecoou — não das colunas, mas de algum lugar muito acima. Longe dali, num nível que eles não podiam alcançar, duas figuras observavam de um corredor suspenso.

Ker inclinou-se para frente, o sorriso enviesado. — A Torre caiu cedo demais.

Justitia não sorriu. Sua balança oscilou, refletindo uma luz que não vinha de sol algum. — Mais rápido eles sobem, mais rápido encaram o topo. E a queda… é longa.

Atrás delas, uma terceira figura permanecia imóvel. Não falava, não se movia, mas sua presença era um peso no ar.

Lá embaixo, Shaina sentiu a Armadura de Ofiúco pulsar, o mesmo compasso de antes, mas mais próximo. Arqueou as sobrancelhas, o punho inconscientemente se fechando.

— Algum problema? — perguntou Aeson.

— Não… só um pressentimento — respondeu ela. — E eles geralmente estão certos.

As portas à frente começaram a se abrir. O tabuleiro, como sempre, chamava para o próximo lance.

Notas finais
A queda de uma Torre raramente passa despercebida… e com ela, um novo jogador entrou na partida. Mas enquanto Shaina sente o peso crescente da Armadura de Ofiúco, outras peças começam a se mover — algumas mais perto do que ela imagina.