Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
15 Alice de Vorpal
Notas iniciais
A sala oval parecia ter sido construída por cordas tensionadas e depois congeladas em pedra. Os arcos cruzados criavam sombras em X pelo chão, como se o espaço estivesse pronto para ser fatiado. Aeson passou a mão nas marcas lilases — cicatrizes da visita anterior. Yuzuriha sentiu o ar vibrar, como antes de um trovão.
— Ela está aqui — disse, baixo.
— E veio para terminar — completou Aeson.
A resposta veio sem eco, só presença:
— Finalmente andaram o bastante para que valha a pena.
Alice surgiu um passo adiante das sombras, não “de” dentro: como se sua existência fosse o próprio passo. Cabelos brancos com reflexos violetas, olhar sem pressa, armadura prata-lilás desenhada por linhas mínimas. Vorpal descansava no ombro, lâmina fina demais para ser confiável — e por isso mesmo mortal.
— A Rainha ficou curiosa — disse Alice. — Um cavalo que bebeu a idade do mundo e uma garça que aprendeu a cortar o vento. Três cortes bastam.
— Três? — Yuzuriha ergueu o queixo. — Vai precisar de mais.
Alice baixou a lâmina. O metal não riscou o chão; riscou o espaço. Uma linha surgiu no ar, e o teto “deslizou” um milímetro, como uma tampa mal fechada.
— Fenda Vorpal.
Aeson puxou Yuzuriha pelo antebraço e recuou dois passos. A fenda fechou, colando o teto de volta, mas o aviso estava dado. Alice sorriu sem dente.
— Primeiro corte: tirar o mundo do lugar.
Yuzuriha soltou o braço e deslizou para a lateral. O manto vibrou, plumas de tecido abrindo trilhas invisíveis.
— Asa Cortante de Grou! — O golpe saiu oblíquo, baixo, mirando o joelho e a empunhadura. Alice inclinou o punho e, com um giro mínimo, partiu o ataque em duas correntes de ar, que se desfizeram como espuma contra a lâmina.
Aeson entrou por dentro do arco:
— Muralha de Éons! — A barreira de cosmo ergueu-se como cristal líquido. Alice tocou o escudo com Vorpal — não para atravessar, mas para inclinar o tempo nele: o brilho cedeu, ondulou, tentou envelhecer. Aeson respirou fundo e sustentou, ancorando a parede com o centro do peito. O escudo não caiu.
— O vazio te ensinou a não ceder — avaliou Alice. — Segundo corte, então: cortar a distância.
Ela desapareceu e reapareceu às costas de Yuzuriha. A amazona já tinha girado o tronco: o manto chicoteou, e a lâmina raspou as plumas, arrancando fios que se desfizeram em pó. Um risco mínimo abriu-se no ombro de Yuzuriha — mais frio do que dolorido.
— Você olha o lugar certo, mas um instante tarde — disse Alice.
— Tarde pra quem? — Yuzuriha baixou o centro, o corpo inteiro responsável pela lâmina do tecido. — Dança do Grou Contra o Vento!
A sequência não procurou a espada; procurou o pulso e o calcanhar. Alice defendeu o primeiro com o dorso da lâmina e deixou o segundo passar, pisando no vazio como quem pisa num degrau invisível. Subiu meio palmo. O toque do manto fez um som de água cortada.
Aeson avançou, sem aviso:
— Cascata do Infinito! — O arco azul caiu de cima, não como queda, mas como acúmulo: energia sobre energia, peso sobre peso. Alice cruzou Vorpal na diagonal, e a cascata bateu e se dividiu em duas lâminas de água que riscaram as paredes e sumiram.
— Não é pouca coisa — ela disse, com sincero interesse. — Vocês dois juntos quase formam um bispo… Quase.
Ela baixou o queixo. A sala toda estalou.
— Terceiro corte: partir aquilo que vocês chamam de “nunca”.
Vorpal ergueu-se num movimento simples. E o chão, entre Aeson e Yuzuriha, abriu uma rachadura que não descia — subia. Um rasgo no ar cresceu como uma boca fina, tentando separar um do outro. Yuzuriha lançou o manto; as plumas ficaram presas entre os lados do rasgo, vibrando como cordas. Aeson encostou a palma na fenda e brilhou, como quem aquece gelo.
— Segura! — gritou Yuzuriha.
— Seguro — respondeu ele, e era verdade. O “nunca” partia devagar, e devagar se colava de novo. Alice inclinou a cabeça, curiosa, depois girou o pulso, afinando a fenda como uma lâmina.
— Vocês são teimosos — disse, quase um elogio.
Yuzuriha puxou as plumas, agora tensas como aço, e fez delas uma alavanca. O rasgo cedeu. A sala respirou.
— Nós somos grupo — corrigiu.
Alice calculou o próximo passo com um olhar. Não recuou. Um passo à frente e Vorpal veio horizontal, sem brilho, sem som — a linha só apareceu depois de passar. Aeson se inclinou pelo milímetro exato; um fio de cabelo caiu no chão, cortado.
Ele respondeu sem gritar:
— Golpe do Cálice Infinito! — O impacto entrou pelo centro da guarda, um soco curto revestido de pressão contínua, como rio comprimido atrás de uma comporta. Alice recebeu no peito e deslizou um palmo para trás, as unhas da mão livre arranhando o ar — e deixando riscos reais na luz.
— A Rainha também ficou curiosa por isso — murmurou. — Resistência sem pressa.
Yuzuriha já estava ao lado, e o manto desceu como guilhotina oblíqua:
— Voo da Garça sobre o Espelho! — O golpe usou o próprio reflexo da lâmina para gerar uma segunda aresta invisível. Alice baixou Vorpal, aparando o real; a aresta “de mentira” pegou de raspão a ombreira, abrindo um risco fino.
— Boa — disse ela, sincera. — Aprenderam com o corte. Isso é raro.
A sala, no entanto, mudou de tom. Linhas muito discretas, gravadas no piso, acenderam em lilás. Yuzuriha percebeu antes: um círculo, dois, três — selos superpostos.
— Aeson!
— Eu vi.
Alice pousou a ponta de Vorpal no centro do maior selo.
— O tabuleiro aprecia truques. Eu também. — Os selos vibraram. — E gosta de peças que se separam quando pressionadas.
O círculo explodiu em silêncio, e a força veio para dentro: um vórtice sugou o ar e tentou puxar Yuzuriha. Aeson agarrou o pulso dela, cravou o pé no piso e ancorou o corpo com o cosmo, como quem fincasse uma estaca no leito de um rio.
— Fica comigo! — disse entre os dentes.
— Sempre.
Ela girou o manto, enrolando-o no antebraço e fazendo dele uma “corda” que prendia os dois. O vórtice ganhou força, depois perdeu — Aeson o “alimentava” com a parede do Cálice, obrigando o redemoinho a engasgar.
Alice inclinou Vorpal. Os selos apagaram.
— Interessante — avaliou. — Parecem um.
— Somos — respondeu Yuzuriha.
Alice não sorriu. Olhou para a lâmina e viu, pela primeira vez naquele encontro, uma lasca mínima no fio: a falsa aresta do golpe anterior tinha deixado marca.
— Duas coisas — disse, guardando a informação. — Um recado e um aviso.
Aeson e Yuzuriha não baixaram a guarda.
— O recado?
— “Continuem subindo”. A Rainha quer ver vocês no próximo nível. — Alice girou Vorpal e apoiou a lâmina no ombro outra vez. — O aviso: da próxima, não venho sozinha.
— Quem vem? — Yuzuriha.
— Uma peça que corta com leis, não com aço.
Aeson entendeu.
— Justitia.
— Talvez. — Alice ergueu um dedo, como quem pede silêncio a uma plateia. — Ou talvez outra Rainha. Vocês verão.
A sala piscou. Não houve vento, nem luz. Quando os olhos dos dois voltaram a achar foco, Alice já não estava. No lugar onde ela ficara, um risco lilás atravessava o chão — reto, perfeito, indecente.
Aeson soltou o ar devagar.
— Fomos medidos outra vez. Mas ela também foi.
Yuzuriha tocou a ombreira riscada. O corte mínimo ardia como geada.
— E sangrou um pouco.
— O suficiente.
A sensação no ar mudou outra vez — não como ameaça, mas como movimento do próprio tabuleiro. O piso ao fundo se ergueu meio palmo, revelando uma passagem estreita, escura, feita para duas pessoas lado a lado. Um convite.
— Shaina — disse Yuzuriha, como se a passagem tivesse um nome.
— E Mei — completou Aeson. — Vamos trazê-los antes que a próxima visita venha com leis.
Eles entraram na passagem, o manto dela roçando as marcas no chão, o cosmo dele iluminando a escuridão como taça cheia.
Lá fora, algo ouviu e tomou nota.
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