Saint Seiya - O Tabuleiro das Eras
2 A garça e o lobo
Notas iniciais
O silêncio respirava.
Shaina abriu os olhos no centro de uma sala quadrada que negava a própria geometria: o piso de mármore claro escorria para as paredes e subia até um teto que, visto de outro ângulo, era outro piso. Uma ponte nascia de uma coluna e findava numa porta suspensa. Uma escadaria descia para um buraco — a mesma escadaria, do lado oposto, subia direto para o nada.
A amazona ergueu-se devagar. A Armadura de Ofiúco assentou-se nos ombros com um som metálico discreto. Debaixo do metal, um latejar antigo percorria-lhe o peito, como se algo batido noutra era ainda vibrasse dentro dela. Fez do fôlego um guia e escolheu andar.
A porta suspensa girou sem dobradiças. Do outro lado, um corredor estreito exibia colunas retorcidas que não tocavam coisa alguma; o ar tinha gosto de poeira fria, e o chão brilhou sob a bota como se reconhecesse a presença. O corredor comprimiu-se, abriu-se de súbito e revelou um salão de metal escovado. Os reflexos ali vinham atrasados, devolvendo a ela versões ligeiramente fora do tempo.
— É uma prisão… — murmurou. — Ou um jogo?
A sombra que não lhe pertencia moveu-se primeiro.
Do meio da penumbra surgiu uma mulher de cabelos dourados, presos em coque alto; sem elmo. A armadura elegante trazia peças prateadas que lembravam penas de garça ao longo dos ombros e braços. Sobre os ombros, um tecido claro repousava como véu; bastou um leve gesto para ele vibrar, fino e cortante.
— Quem é você? — perguntou a recém-chegada, mantendo distância e eixo.
— Shaina, de Ofiúco.
— Yuzuriha, de Grou.
Os olhos de Yuzuriha a percorreram como quem lê trilhas invisíveis no chão. Em vez de erguer os punhos, ela deslizou o pé, encaixou o quadril e soltou um chute frontal de teste; o tecido acompanhou o giro do corpo e sibilou no ar como lâmina. Shaina virou de ombro, sentiu o vento do golpe passar rente e respondeu com avanço curto, sem se comprometer. Outra troca: um meia-lua de Yuzuriha, um bloqueio de antebraço de Shaina, um giro baixo que quase varreu as pernas. A dança durou o suficiente para que ambas reconhecessem o que precisavam.
Yuzuriha parou, o véu quieto sobre os ombros. — Não está sob controle de ninguém.
— Nem você. — Shaina retomou o fôlego. — Onde estamos?
— No que alguns chamam de Tabuleiro. Salas sem cima ou baixo. Objetivos que mudam quando você pisa. — O olhar de Yuzuriha ergueu-se, como se enxergasse linhas que Shaina ainda não via. — Fui arrancada de minha era às bordas de uma guerra. Quando pensei ter encontrado descanso… acordei aqui. Este lugar quer ver quem sobrevive.
— Julgamento — disse Shaina.
O piso gemeu como casco de navio antigo. Uma fenda abriu-se no ar, não no chão. Dela escorreu uma silhueta quadrúpede que se ergueu em dois pés: ombreiras como costelas expostas, placas metálicas simulando pelagem eriçada, mandíbula com presas longas. Olhos amarelos, famintos, acenderam-se por trás de uma máscara rachada.
— Ahhh… — a voz veio desfiada, múltipla. — Novas peças. Sinto o cheiro da primeira jogada.
A criatura lambeu o vazio com uma língua negra que não era língua.
— Jan de Lobo Faminto — anunciou-se, quase divertido. — Já provei muito cosmo. Aprendi atalhos, roí ossos velhos, mastiguei promessas. Vocês… cheiram a promoção. Meu prato favorito.
Yuzuriha deslizou meio passo lateral. O tecido cresceu em curva, duas lâminas silenciosas.
— Lobo que fala demais morde de menos.
— Peões respondem quando não foram perguntados — rosnou Jan. — Peões sangram. Peões somem.
Ele avançou. As mãos abriram-se em garras; onde rasgavam, as linhas da sala ondulavam, como pano repuxado. Shaina saltou em diagonal; o golpe riscou o espaço e deixou uma cicatriz luminosa que demorou a fechar. Yuzuriha girou no eixo, o tecido estalou num arco e traçou um corte fino nas costelas expostas do Lobo. Jan riu — um som úmido, impaciente.
— Sabem beliscar.
Shaina aterrissou em três pontos e explodiu num avanço curto. Uma sequência seca de chutes — baixo, médio, alto — forçou o Lúcio a ajustar o tronco. Ele respondeu com um empurrão de cosmo que não era vento nem luz: era regra torcida. Por um piscar, o chão sob Yuzuriha virou parede. Ela “caiu” para o lado, ancorou o calcanhar num degrau que nasceu do nada e voltou com um chute diagonal que colou a têmpora de Jan no lugar certo: um ruído breve de metal batendo metal.
— Não brigue com o chão! — gritou Yuzuriha, sem tirar os olhos do inimigo. — Brigue com o ritmo!
Jan inclinou a cabeça, o sorriso agora com presas à mostra.
— Olfato fino… Mas fome melhor.
Ele plantou as garras no piso e abriu a boca. Não saiu som — saiu vácuo. O cosmo em volta foi tragado; calor e luz cederam um passo. A pele do mundo repuxou. Shaina sentiu os membros pesarem, os sentidos afundando.
— Banquete dos Condenados — sussurrou o Lobo, deliciado. — Primeiro eu como o que dá sabor: a esperança.
Yuzuriha avançou um passo à frente de Shaina, tecido estendido. A vibração seca do véu cortou o vácuo e devolveu ar bastante para um fôlego. Shaina forçou o tórax a expandir, trouxe o corpo ao eixo e entrou de novo na distância curta: chute baixo no apoio, giro e chute lateral no flanco. Jan absorveu, devolveu um arranco que partiu a sala em ladrilhos por um segundo. Shaina atravessou as linhas como quem pisa pedras em rio, sem perder a cadência.
— Ele devora o fluxo — disse Yuzuriha, baixa, num intervalo entre passos. — Se dermos linha reta, ele come.
— Então damos cruzado — respondeu Shaina, e a troca de olhos bastou.
Jan percebeu tarde. Yuzuriha veio primeiro, chute frontal para travar a base, o véu descendo pelo lado cego. Shaina contornou por trás, deixou duas pegadas inúteis na memória da sala e, do lado, soltou uma sequência seca de socos curtos para abrir espaço. O Lobo mordeu o vazio onde ela estivera um instante antes. O tecido de Yuzuriha rasgou a máscara de Jan numa diagonal breve.
O Lúcio rugiu, o vácuo voltou — maior. Shaina desistiu de direção e retomou intenção. O cosmo acendeu-lhe o peito; ela firmou o peso num círculo imaginário e, no instante em que a sucção prendeu o ar, lançou:
— Garras do Trovão!
A descarga saltou de seus punhos como uma serpente luminosa. O estalo rasgou a sala; o raio mordeu o tronco de Jan e espalhou faíscas pelo mosaico flutuante. O Lobo recochichou, e nesse meio segundo Yuzuriha cruzou a distância e descortinou o véu em X sobre o peito do inimigo, duas notas rápidas de seda cortando vidro.
O corpo de Jan não entendeu a ordem de despedaçar-se de imediato. Depois, rachou em linhas que lembravam um tabuleiro quebrado. As placas como pelagem explodiram em lâminas cegas; as costelas abriram-se e vomitaram sombra e luz. O vácuo colapsou num suspiro áspero.
O labirinto respirou com elas. O teto voltou a não ser teto. O chão recompôs o quadriculado. Duas portas nasceram: uma com moldura de ferro gasto; outra, de madeira escura e lisa.
Yuzuriha recolheu o véu. O tecido pousou obediente. O cabelo dourado brilhou um instante na penumbra.
— Obrigada — disse ela, sem cerimônia.
— Eu diria o mesmo — Shaina respondeu, o antebraço ainda formigando pela descarga. — Ele disse que já “mastigou” promessas. Quantas peças como nós passaram por aqui?
— O suficiente para o lugar ter preferências — Yuzuriha olhou de esguelha para as portas. — A da esquerda cheira a perseguição. A da direita, a emboscada.
— Escolha você. — Shaina relaxou a guarda um centímetro. — Confio no seu faro.
Yuzuriha tocou a maçaneta de madeira. O metal ficou morno — temperatura de pele. A porta cedeu e revelou um corredor de tiras pendentes, como páginas recortadas flutuando num vento sem origem.
— Vamos? — ela perguntou, de leve.
Shaina deu meio passo e, no limiar, virou-se. A sala recomposta aguardava, paciente, como se quisesse memorizar rostos. A amazona cruzou a soleira e sentiu, por um instante, a máscara aquecer — não de fora, de dentro.
Entraram.
Em um “fora” que não era lugar, o chão era pedra negra polida, lisa como lago ao entardecer. Pairando acima, um modelo vivo do Tabuleiro das Eras: anéis giratórios, salas que acendiam e apagavam, fagulhas movendo-se como peças minúsculas.
O observador manteve-se imóvel. A armadura vermelha lembrava metal aquecido e resfriado mil vezes. No rosto, uma máscara dourada em forma de sol, raios estilizados projetando-se para fora.
Ormenos, o Silente.
— Uma peça nova que eu não movi — a voz veio como nota grave atravessando água.
O modelo ampliou a sala do combate, depois o corredor de tiras, depois o rastro elétrico que Shaina deixara no ar. Ormenos inclinou a cabeça um nada. O reflexo na máscara solar devolveu-lhe um dourado frio.
— Shaina de Ofiúco — ele pesou o nome. — Não fui eu.
Os dedos enluvados abriram-se no vazio. O tabuleiro respondeu com um ajuste sutil de eixos, como estrela ligeiramente deslocada.
— Quem ousa inserir uma peça no meu jogo sem tocar o tabuleiro?
Nenhuma resposta, além do fôlego do lugar.
A maquete oscilou; um brilho apontou a porta escolhida. O cosmo ao redor de Ormenos adensou-se, nuvem antes do trovão.
— Que o jogo prossiga.
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