Saint Seiya Memórias | Finados: Honra aos Caídos
1 Honra Eterna aos Guerreiros
Notas iniciais
Quando cheguei em Jamir eu desconhecia sua cultura, seus costumes… Tudo era uma grande novidade para mim e minha adaptação não foi nada fácil. Por mais estranho que achasse no início, fui me adaptando ao seu modo de vida, assimilando seu modo de vida. No entanto, dentre todos os costumes que me era apresentado, um especial chamou muito a minha atenção e que me atraiu bastante.
Lembro quando em Munique essa data era sempre marcada com velas e flores aos entes queridos já falecidos. Como era uma criança, ganhava algum doce — talvez para não impressioná-las com a ideia da ‘morte’. Afinal, não somos ensinados a aceitar tão bem assim o fim. Finados, para muitos é ainda um tabu, o medo pelo desconhecido. Isso é algo que começou a ser desconstruído em mim ainda em Jamir, junto com o povo de Kiki que guiava os ritos de celebração longe da melancolia que conhecia até aquele estágio da minha vida.
Lemúria, uma das ilhas que pertenceu ao antigo Continente Mu, há muito engolida pelas águas. Desde então, as Festas das Águas que tanto comemoravam nos tempos áureos de sua civilização deram lugar a uma celebração simples diante de uma grande fogueira num território montanhoso do Tibet onde os Anciões de seu povo se reuniam guardando as memórias e tradições de um povo quase extinto.
Não havia comida, doces, velas e flores. O que havia era apenas mastros com cordas e bandeirinhas coloridas como de uma festa que, posteriormente, foi explicado ser colocado por cada uma dos líderes de sua Casa enquanto confeccionada um dia antes. Enquanto posicionavam próximo uma grande pira, entoavam cantos e se retiravam em silêncio.
A pira somente seria acesa pelo herdeiro de Lemúria, o último da geração da nobre família de Lemúria salva para perpetuar seu povo. Não imaginam a minha surpresa ao ver que era Kiki e compreender que seu bracelete era como uma coroa, um legado secular de sua família.
Uma vez acesa a pira, todos se reuniam, cada um com as cores de sua casta, de suas famílias, carregando uma mecha de cabelo envolto de uma fita colorida de sua Casa. A cada passo, entoavam o nome de suas castas e jogavam a mecha na fogueira, retirando-se para outros fazerem o mesmo. A cada mecha, um gongo ecoava.
No fim, todos estavam em círculos, silenciosos, assistindo o fogo alcançar o céu e permaneceram assim, até que a última chama se apagasse. Até lá, história dos heróis de seu povo — guerreiros, sacerdotes, forjadores, mestres… Aquele breve momento de silêncio e tristeza se tornava um momento de compartilhar lembranças visando jamais esquecer suas histórias.
Confesso que, nunca em minha vida, senti tamanha emoção presenciar isso. E a cada ano, por mais que os ritos seguissem tradicionalmente, era sempre algo ‘novo’, com uma história nova, um novo herói, uma Lemúria que aprendia através das memórias dos anciões seculares que buscava transmitir a história de seu povo para que jamais se perdessem.
Naquele primeiro ano eu recebi uma fita lilás e uma adaga cristalizada, forjada ainda na antiga Lemúria — e digo que jamais cogitaria que fosse tão antiga de tão bela em seu cabo dourado. Nela, o brasão de uma família a quem Kiki disse-me “pertenceu ao seu avô, o pai de sua mãe. agora pertence a você!”, e entendi.
Ainda que não fosse um genuíno lemuriano, nem mesmo um descendente direto como aqueles viventes ali, eu tinha o sangue daquele povo porque minha mãe tinha um pai lemuriano. Ele não foi um guerreiro, um sacerdote, mas um simples forjador que criou aquilo diante de mim.
Cortei uma pequena mecha de meu cabelo e amarrei a fita após duas voltas e fiquei a contemplar aquilo por alguns instantes. Parecia idiota até assistir o que todos faziam. Quando joguei minha mecha, foi como sentir-se abraçado. Eu chorei naquele momento porque foi como sentir-me abraçado pela minha própria mãe… tal como minha mãe alemã me fazia para me proteger quando triste, sozinho.
Até Jamir, O Dia dos Mortos sempre me foi uma data comum, sem uma profundidade como aquela que presenciei junto de um povo que faz questão de manter ‘viva’ as memórias de seu povo, cada lembrança de seus feitos… E hoje conhecer suas relíquias pelas heranças deixadas geração após geração de modo que jamais deixe o tempo apagar.
— Van Quine…? — chamou-me Merikh descendo de sua Casa Zodiacal, aguardando minha concessão para passar pelo Terceiro Templo.
— Cinco minutos? — pedi a ele que apenas assentiu e atravessando a casa para me aguardar no pátio que daria acesso direto à Casa de Touro.
Merikh, o Cavaleiro de Ouro de Câncer… vulgo ‘o Cavaleiro Necromante’. Já com os lemurianos, eu percebia que a morte não era algo tão horrível como parte da minha natureza conheceu. Aprendemos a temê-la, mas com o Canceriano percebi que não devemos temê-la, mas aprender com ela — ‘A humanidade pintou a Morte como algo ruim, quando ela é apenas uma guia de um mundo para o qual fechamos os olhos por toda uma vida!’, ele me disse certa vez.
Klahan, o Cavaleiro de Ouro de Virgem, também tem sua visão da Morte não como um fim, mas um começo. Ele diz que, por mais dolorosa que seja a perda de alguém, não devemos lembrar do seu momento final, mas de tudo que a levou até ali, de suas lutas, derrotas e conquistas alcançadas, dos sorrisos e das lágrimas… e mesmo na dor, o quanto isso valeu a pena.
Agora, aqui, diante dos Gêmeos de quem herdei o dever, reflito sobre tudo isso…
Desde a geração destes, muitos receberam seu manto e buscaram honrar seu legado, lutando e defendendo esse mundo para as próximas gerações, sejam elas de Cavaleiros — sejam elas da classe Bronze, Prata ou Ouro — ou simples humanos gozando de sua liberdade. Tais como aqueles heróis de Lemúria, com suas formidáveis histórias, os Cavaleiros também se tornaram lendas em suas epopéias que, como todo humano, cometeram seus pecados e alcançaram sua redenção.
E hoje estou aqui pelo meu pai, aquele que sucumbiu às trevas, mas alcançou a sua luz da redenção sacrificando-se para que eu e tantos outros pudessem continuar sua luta para futuras gerações.
Para minha mãe eu removo uma mecha de meu cabelo e, envolto de uma fita jogo na fogueira de modo a remover qualquer mácula que possa corromper seu espírito.
Ao meu pai, entrego meu sangue, como digno Cavaleiro de Athena que aceitou seguir seu legado. Em vez de uma pira de fogo, uma grande jarra de azeite frente ao Memorial de Gêmeos da Terceira Casa, porque sei que é onde ele e todos seus antecessores ajudam a guardar o templo.
Por todo o Santuário, hoje há honra aos Cavaleiros caídos, uma última homenagem aqueles que lutaram entregando sua vida para que o mundo continue a pertencer à humanidade.
A vocês, Cavaleiros de Athena, as minhas mais sinceras honras!
Van Quine
Cavaleiro de Ouro de Gêmeos.
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