Notas iniciais
Enquanto o Grande Mestre e a Alta-sacerdotisa se preocupam com a questão que envolve Selene de Pyxis, Saga também se mostra preocupado com a nova geração de Cavaleiros para a Guerra Santa. Kanon também arma uma estratégia para fugir da Outra Dimensão.

Fazia mais de duas horas que o Grande Mestre e a Alta-Sacerdotisa estavam reunidos no salão com as portas trancadas. Decidiam ali todos os pormenores da educação da pequena Athena enquanto na Acrópole e sua introdução gradual ao papel de líder do Santuário. Ninguém tinha permissão para interrompê-los, e Arles estava junto da porta para garantir o cumprimento dessa ordem.

Desde o anúncio da presença de Athena uma grande expectativa foi gerada entre aspirantes e Cavaleiros sagrados. Afinal, a sua presença era prenúncio de que a Guerra Santa se aproximava e que todos deveriam ficar alertas a todo e qualquer sinal de possíveis ameaças. Para isso, mensageiros eram enviados a diferentes pontos do mundo para anúncio aos Cavaleiros que agiam fora do Santuário.

Saga e Aiolos foram incumbidos da tarefa, enquanto os novos Cavaleiros de Ouro ainda se adaptavam às novas rotinas de suas posições. Terminavam de transcrever alguns pergaminhos antigos que estavam para se desfazer devido ao tempo e refaziam outros, atualizando-os com as informações previamente separadas para isso.

— Finalmente vejo um raio de esperança em meio à toda essa tensão! — O sagitariano comemorou discretamente, fechando o livro que estava transcrevendo. — Tudo bem que isso também indica que começou a contagem regressiva para a Guerra Santa. Mais do que nunca deveremos reforçar os treinamentos para que estejamos preparados.

— E essa está sendo a grande questão. — comentou o Geminiano de maneira distraída olhando um pergaminho, de pé junto à estante. — É algo que tenho dito há tempos. Não vejo os aspirantes minimamente preparados. Na verdade, estão bem longe disso. — comentou casualmente sem olhar na direção do amigo.

— Bom, como eu disse, agora nós devemos treinar mais do que nunca. — Sagitário repetiu, olhando-o com uma sobrancelha levemente erguida. — Isso inclui a mim, a você e aos aspirantes.

— Quanto a minha parte está sendo feito. Restabeleci novos exercícios e a cada hora estou verificando como anda. — Gêmeos disse se voltando para o amigo brevemente. — Os meus aspirantes estão sendo os primeiros a chegar e últimos a sair do anfiteatro.

— Cuidado para não ser duro demais com eles. — Aiolos rebateu, descartando algumas folhas excessivamente rabiscadas e sujas de tinta. — E você também precisa descansar. Tem estado muito tenso nos últimos dias.

— Enquanto outros estão calmos demais com os eventos que se aproximam. — Retaliou Saga observando o amigo pelo canto dos olhos. — Essa menina anuncia que uma guerra é eminente e que não temos um exército, mas crianças brincando de guerra. Vejo-os mais jogando que realmente treinando, Aiolos. Acha realmente que temos chances com eles?

Ouviu-se um suspiro do sagitariano que largou os pergaminhos e folhas sobre a mesa e voltando-se para o companheiro para, novamente, discutirem sobre aquilo, mas não mais o encontrou ali. Já havia se retirado. O seu semblante era de preocupação, mas também não poderia deixar de concordar parcialmente com ele.

De fato, a Guerra Santa se anunciava mais próxima e nem todos os Cavaleiros de Ouro haviam ocupado suas posições oficialmente. Ainda havia a questão de outras armaduras dadas como “desaparecidas” há mais de 200 anos. Tomou o pergaminho onde teria pontuado suas possíveis localizações e suspirou.

“Talvez eu devesse pedir ao Grande Mestre que enviasse patrulheiros para essas áreas e rastreá-las, mas...” poderia ser tudo em vão e se deixou cair sentado, pensativo.

O que mais preocupava em tudo aquilo era o comportamento do amigo. Pensava se aquilo seria por conta da questão do seu irmão, Kanon ou pressão de serem os Cavaleiros de Ouro veteranos naquele Santuário e toda a responsabilidade que tinham. Afinal, muitos aspirantes eram jovens demais para tamanha responsabilidade.

“Talvez seja bom conversar com todos eles e reforçar os treinamentos”, pensava ele se levantando e removendo as vestimentas oficiais, revelando sua Armadura Dourada, cujas asas estavam recolhidas em suas costas. “Começando por mim”.

Uma vez fora do templo, deixou as asas da Armadura se abrirem e alçou o voo, sentindo a brisa do vento enquanto vislumbrava adiante a estátua de Athena, para quem sorriu e levando a mão ao peito reforçando seu juramento silenciosamente.

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Saga caminhava pelo anfiteatro observando aos aspirantes em treinamento, mas seus olhos estavam verdadeiramente longe dali. Seus pensamentos estavam para as imagens vistas naquela manhã quando despertou ao lado de Selene adormecida ao seu lado no mais profundo sono após se amarem profundamente.

Quando a tinha encontrado, estava na clareira olhando distante. O sol pousava no horizonte, com o céu avermelhado dando lugar aos tons púrpuras do crepúsculo tal como aqueles seus olhos. Estava distante, pensativa. Ao aproximar-se, sentiu apenas seu abraço que soava como uma despedida.

Das poucas palavras trocadas, nada sobre aquilo conversado com a Alta-Sacerdotisa senão o que envolvia a pequena criança e do quão temerosa estava com os dias dali em diante. As suas palavras o tomaram de sobressalto quando disse que “a Guerra Santa será apenas mais um capítulo dos dias sombrios que se aproxima ao Santuário”. Não soava como medo, mas um prenúncio que o deixara intrigado.

E mais tarde, quando despertou em sua cama, tendo a Amazona adormecida ao seu lado. Tomou a máscara que repousava na mesa ao lado da cama, apenas a contemplou por alguns instantes, pensativo.

Com um simples toque, permitiu que ela pulsasse com o Cosmo que havia impregnado ali. Uma energia que não pertencia apenas à sua amada e isso o atiçou ainda mais.

Ao colocar a peça em seu rosto, ele pôde assistir toda conversação com a Alta-Sacerdotisa pelos olhos da Amazona. Seus olhos verdes deram lugar ao carmesim, que verteram lágrimas.

“O que você fez, Athena...? O QUE VOCÊ FEZ...?!”, gritou mentalmente de maneira amarga e raivosa fazendo a máscara trincar antes de devolvê-la ao local onde estava.

— Seus olhos podem estar voltados para arena do anfiteatro, mas seus pensamentos estão muito além. — dizia Mephisto se aproximando do Geminiano que desviou os olhos para sua direção. — Algo o incomoda, Saga?

A voz daquele homem não soava como a dos outros e foi isso o que tirou Gêmeos de seus devaneios. Podia perceber que aquele que parecia destinado à Cancer tinha seus próprios ideais.

— Eu poderia listar muitas coisas, mas não vejo compartilharem das mesmas preocupações que eu. — comentou o Geminiano levando a mão ao queixo. — Não vejo como poderemos vencer uma Guerra Santa com... isso! — disse, enfatizando as últimas palavras enquanto apontava para os aspirantes. — Não me parecem motivados o bastante.

— Ou estariam confiantes demais. — disse o canceriano com o olhar também para o anfiteatro. — Afinal, Athena sempre saiu vitoriosa em suas guerras e talvez isso os faça acreditar que não exija tanto esforço da parte deles quando se tem Niké ao seu lado.

— Tolice! — reagiu Saga com certa acidez. — Serão esmagados como moscas por aqueles que não hesitariam no campo de batalha. Acham que o inimigo terá misericórdia?

— Misericórdia é uma mentira! — cuspiu o canceriano com mesma acidez que o Geminiano de há pouco, chamando a atenção dele que logo se voltou para companheiro ao lado. — Como ter misericórdia por aqueles que são convenientes com tantos crimes que o cercam? Vestem suas vendas para não verem o mal e deixando que ele se perpetue simplesmente porque não lhe é interessante? Se você se cala, é conivente com isso. Mesmo que implore, se não tem nada a oferecer, por que teriam misericórdia?

— Em outras palavras... — dizia Saga cruzando os braços. — Serviriam apenas de armas de nossos inimigos, ferramentas para servi-los e depois serem descartados.

Mephisto sorriu, assentindo aquelas palavras.

— A nossa luta, o nosso sangue, até mesmo nossa morte, visa levar a justiça a todos... — declamava o Douradoa de Câncer de maneira poética. — Mas quantos desses realmente merecem gozar desse privilégio? Tantos foram cúmplices dos crimes que combatemos, por que deveriam também ser agraciados por uma justiça quando negaram isso a outros?

Saga apenas abriu um sorriso de canto, sendo igualmente correspondido por aquele ao seu lado. Parecia que os dois tinham muito mais em comum do que pensavam.


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— Uma pena que esteja já de partida, Alta-sacerdotisa. — disse o Grande Mestre acompanhando a mulher pelos corredores do templo.

— Novos deveres surgiram e preciso deixar a casa preparada para receber nossa pequena deusa. — dizia ela voltando-se para o Patriarca enquanto arrumava o véu sobre a cabeça. — Espero que quando retornar tenha as respostas que precise.

Dois guardas que faziam a ronda pela área abriram passagem e baixaram suas cabeças para que os sacerdotes de alta patente passassem, e então retomaram sua função. Embora curiosos, acharam por bem, não se atentar ao que os dois conversavam.

— Também espero. Com o fim das festividades nos próximos dias, buscarei contatar alguém que possa responder pela extinta Delfos. — dizia com a voz pouco cansada. — Até onde sei, os Caçadores não são do tipo amigável. Nem mesmo sei se existe algum batedor deles nesse mundo já que desde muito não há sinais deles. Nem mesmo nas ruínas de Delfos quando aconteceu aquele massacre há mais de dois séculos antecedendo a última Guerra Santa.

— E que desde então nenhuma outra Pitonisa surgiu. — pontuou a mulher. — Não creio que deixariam uma jovem como ela livre nesse mundo à mercê de riscos, mas fará o certo em reportá-la para sua segurança caso realmente seja uma.

Embora não tivessem entrado naquele mérito, os dois sabiam que estavam em uma situação delicada.

A Pitonisa era o posto mais alto do sacerdócio de Apollo, ocupado unicamente por jovens mulheres, independente de treinamento marcial. Tratadas com grande prestígio desde os tempos antigos por se tratar de Oráculos.

E os Caçadores eram sua guarda fiel, dispostos a dar suas vidas pela sua vontade.

Em tempos de guerra, elas atuavam em conjunto com os Caçadores que as protegiam. Usavam o dom da vidência para comandá-los à vitória ou ajudá-los a tecer um acordo que não os prejudicasse. Em tempos de paz, dedicavam-se à comunidade que as cercava, proferindo oráculos de nascimentos e augúrios sobre as colheitas.

Se fosse provado que Selene era uma Pitonisa, o Santuário de Athena poderia usar a ocasião para tentar forjar uma aliança com o Santuário de Apollo e, assim, ter mais um aliado para enfrentar os inimigos da Guerra Santa.

— E caso nossas suspeitas estejam erradas, de certo fez a escolha certa para ela seja a guardiã da pequena Athena até que finalmente esteja pronta para cumprir seu destino. — esclareceu Shion com breve sorriso. — Até lá, preciso também decidir os próximos passos do Santuário como meu sucessor. Sinto que meu descanso se aproxima e que talvez não esteja aqui quando a Guerra Santa finalmente for declarada.

— Pois eu espero que ainda tenha forças o bastante para motivar essas jovens que tanto o admiram, Shion. — sorriu ela fazendo a reverência ao Patriarca antes de deixar a sala.

Arles, que o acompanhava mais atrás, ganhou alguns passos mais a frente e parando ao lado do Grande Mestre.

— Quando fará seu retiro junto à Star Hill? — indagou Arles de maneira respeitosa.

— Na próxima lua cheia, pois é quando o Mundo dos Homens está mais próximo do Mundo Celeste. Espero apenas que ainda reconheçam o chamado, esperando que... — disse o Patriarca preocupado, soltando um longo suspiro. — ... não tomem como afronta por termos uma Pitonisa em nossas fileiras por tanto tempo.


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“Eu sei que consigo... Eu sei...”, pensava Kanon levantando-se mais uma vez. Já havia perdido as contas de quantas vezes havia executado aquela ação e em todas as tentativas havia falhado miseravelmente até que uma última percebeu uma pequena fissura naquela realidade. O fato de que alguém poderia senti-lo do outro lado também era uma força motriz para sua motivação.

Quando seu mestre, Sólon, o prendeu junto com o irmão naquele espaço tridimensional acreditava que ambos seriam capazes de sair por suas próprias vontades.

No entanto, naquela ocasião, ambos executaram um golpe que rompeu aquela realidade e puderam adentrar num espaço vazio de volta à Casa de Gêmeos guiados apenas por um fio de luz.

Não era o caso ali.

“Saga aprimorou bem sua habilidade criando um labirinto...”, concluía Kanon olhando para baixo e para cima como espaços espelhados. “Sinto está andando por horas sem sair do lugar”.

Embora não houvesse um fio de luz como de outrora, um Cosmo o guiava. Desaparecia de tempos em tempos que o fazia parar e esperar por outra oportunidade quando finalmente entendeu a quem pertencia como também percebeu que ela o sentia.

“Esse poder é crescente. Será que indica que estou perto de encontrar a saída?”, pensou em seu desespero que o fez rir e chorar. Quando tomado pela ira, golpeou tão fortemente uma linha que a viu “arrebentar” e criar o rasgo que o encheu de esperança.

Kanon olhou cuidadosamente para aqueles padrões de linhas e estrelas daquela dimensão. Movê-las e reordená-las não era difícil para alguém com o treinamento, mas chegar até onde queria era trabalhoso. Sempre tinha em mente alguns padrões rápidos que poderiam ser usados para fugas e treinamentos.

O espaço dimensional era formado por uma grade luminosa nos confins do infinito. Quando ordenada da forma certa, podia se tornar um solo firme, como um robusto piso de vidro atemperado.

“Por que fez isso comigo, Saga? O que ou quem exatamente é você? O que pretende com isso?”, murmurou olhando para o chão e viu o universo transitar debaixo de seus pés. “E se eu...”, pensava quando fechou os olhos e deixando seu Cosmo emanar sutilmente e deixando-o crescer a ponto de ir dissipando por aquele espaço tomando-o como se fosse uma névoa que se tornava cada vez mais densa.

Se o irmão mais velho moldou aquelas linhas para ser uma prisão, tudo o que Kanon precisaria fazer seria desvendar seu padrão e reordená-lo para criar uma saída. Provavelmente estava tão ocupado com seus afazeres como Cavaleiro que pouca atenção dava em reordenar as linhas para dificultar a fuga do mais novo.

Devagar, Kanon expandiu sua energia, temendo que sua atividade fosse sentida por Saga e terminasse arruinando tudo. Não sabe ao certo quanto tempo levou, mas não deixou de conter o sorriso aliviado ao perceber o suave brilho de um padrão mais adiante.

“Está... dando certo!”, pensou e sentiu-se mais motivado.

Tal como antes, percebeu a ‘falha’ daquelas linhas e rasgou aos poucos aquela dimensão, abrindo o caminho para a saída daquele espaço através do vazio e se deixou cair. As linhas dimensionais ficavam para trás. Primeiro o escuro, depois uma luz cegante até finalmente alcançar o chão frio de mármore da Casa de Gêmeos.

O som duro de palmas ecoou pelo corredor comprido, causando arrepios em Kanon. Primeiro por, finalmente conseguir fugir daquela prisão dimensional e orgulhoso de sua perspicácia. No entanto, a cor fugiu totalmente de seu rosto ao levantar a cabeça e ver o semblante rígido do irmão mais velho que o aplaudia lentamente.

— Parabéns, Kanon. — Saga o cumprimentou, cessando as palmas e soltando um longo suspiro. — Vejo que finalmente conseguiu sair de lá. Não é tão inútil quanto pensei.

Notas finais
E chegamos ao fim de mais um capítulo, rumo a final desse novel. Escrita desde 2013, muito amadureci na minha escrita, e com eles percebi muitos erros conforme tenho feito revisão desde os primeiros capítulos. Nada na história foi alterada, mas alguns termos devidamente corrigidos e que estarei listando essas erratas para melhor orientação. 1. Originalmente #Memórias deveria ter 30-40 capítulos, e como se excedeu decidi separar em dois livros: Livro 1 (Destino) e Livro 2 (Dualidade). Capítulos com esse nome são capítulos já revisados. 2. Anteriormente chamado de 'delfos', foi devidamente corrigido para 'anfiteatro', uma vez que esse espaço é dedicado ao deus Apolo e não à Athena. 3. O termo 'Saintias' foi utilizado para sobrepor o termo 'Mulher-Cavaleiro' - aqui usado como um conceito pejorativo - em virtude do manga #SaintiaSho. No entanto, ao longo da narrativa, corrigimos para o termo correto feminino de Cavaleiro que é Amazona. Marin de Águia, Shaina de Ophiucus, June de Camaleão são exemplos de Amazonas de Athena. O termo Saintias foi mantida, mas sendo exclusivamente aquelas guardiãs de Athena em sua Acrópole. Enquanto as Amazonas é exigido o uso da Máscara, as Saintias não estão sujeitas a essa obrigatoriedade. 4. O nome 'Geisty' foi corrigido para Jisty. 5. O correto seria Sumo-sacerdotisa, mas será mantida Alta-sacerdotisa para diferenciar das pitonisas de Apolo nessa fic. Novas erratas serão publicadas no próximo capítulo se assim houver. Obrigada a todos!!!