A manhã no Cabo Sunion trazia uma refeição nefasta, que prontamente as gaivotas recusaram. Mas aves carniceiras fazia bom uso de pequenas porções.
Sobrevoava por ali alguns corvos especiais, cuja dona era conhecida como a bruxa do Santuário. Mais espertos que o usual, esses bichos tinham uma vivacidade e esperteza invejáveis. Eles logo voaram a procura de sua senhora, como se quisessem tirar os bicos da areia pegajosa.


Bash entrara no salão da Torre do Equilíbrio, num local secreto na Índia, e tomando todo cuidado para não manchar o piso. Apoiava o embrulho que trazia numa luxuosa bandeja de platina, um presente para sua senhora, Kali.
-Ora, você voltou, samraat Bash...
O deva não alterou sua expressão, apenas observando a bela e curvilínea mulher deitada no sofá, se deliciando com um narguilé. Pele alva e delicada, uma longa e brilhosa cabeleira negra, presa e emoldurada com ouro e jóias.
-Samraajni Ragajana... — disse Bash, sem muita emoção, senão o desdém.
-Que presente traz para nossa mestra?
-Isso não é de interesse alheio, samraajni. Onde se encontra Kali-sama?
Ragajana riu, discreta mas provocante. Seu olhar parecia se aprofundar no de Bash.
-Está ocupada com samraat Setsuna de Shiva.
-Setsuna devia se preocupar com a batalha ao invés de tanto mimar nossa senhora.
-Mimos, você diz... Bash, você é ingênuo mesmo, burro ou virgem?
Bash não parecia feliz com a conversa, mas evitou demonstrar o desconforto. Ragajana era uma serpente ardilosa.
-Kali-sama ficou selada por anos, milênios. Ela precisa de uma grande carga de energia pra se estabilizar no corpo dessa criança. — ela sorriu. — Nessa hora ela ainda deve estar brincando com Setsuna, mas quando a festa começar... Precisarei usar meus poderes. Amor e luxúria convertidos em um grande cosmo!
Bash de Ganexa deixou o embrulho e a bandeja numa mesinha. Ragajana estava morta de curiosidade e abriu o pacote. Ela estava maravilhada e encantada com a cabeça de Luiz de Touro.
-Isso não dará um orgasmo em Kali-sama, mas fará muito feliz! Muito bem, samraat Ganexa...! E... Ei! Onde vai?
-Não te interessa... — Bash então seguiu rumo aos seus aposentos.

Havia uma casa na vila das amazonas conhecida pelo ar sombrio que tinha. Apesar disso, era frequentemente buscada por todos. Morava ali a chamada "bruxa do Santuário", por ter conhecimento no ocultismo e pela sua armadura como amazona carregar o outro mundo e trevas. Seu nome é Requim de Corvo, a amazona de prata dos mistérios. Apesar da alcunha soar nefasta, a amazona era a pessoa mais doce e bondosa, uma "bruxa"do bem.
Naquela tarde, haviam duas visitas, os dourados Elys de Libra e Matheus de Escorpião. A amazona de Libra, mestra de Requim, também era a mãe adotiva do Escorpião.
-Então alguém exagerou na dose ontem? — riu a amazona de Corvo, procurando as ervas para agir como um sal de frutas. — Casty é mesmo uma turca para continuar fazendo você beber e lucrar, Matheus.
-Nem brinque com isso! Ai, minha cabeça...
-E eu o ensinei a se controlar... -suspirou a amazona dourada.
Requim masserava as ervas para preparar o chá, tomando cuidado para que as mangas da sua túnica negra não a atrapalhassem. Ela se divertia com os lamentos do adolescente, lembrando dela própria com a idade do dourado. Casty, a amazona de prata de Vela, era dona de um bar, também era pupila de Elys e todos se tratavam sem grandes formalidades, como uma família. Mas quando o assunto era o bar, as vezes Vela podia ser mesquinha e pão-dura.
Assim que o cavaleiro de Escorpião começou a beber o chá, o barulho de pássaros pousando fez Requim ficar atenta.
-Um momento, eu irei ver o que meus pássaros tem a dizer.
A amazona de prata saiu da casa ficando um bom tempo lá fora, chamado a atenção de Elys. A dourada abriu a porta, vendo Requim entre os corvos amestrados mais pálida que o normal.
-O que eles disseram? — indagou a libriana.
-Um homem foi atacado no Cabo Sunion. Havia pedaços de armadura por todo o canto.


Os três sequer vestiram suas sagradas armaduras, partindo para o Cabo Sunion no mesmo instante.
Uma notícia dessas em tempos de paz era terrível, e precisavam verificar o que havia acontecido. E ao chegarem, se depararam com uma cena macabra.
Carniceiros se fartavam de um corpo disforme, terrívelmente fatiado, mas os pedaços destruídos da armadura dourada identificou quem era o defunto.
-Pelos deuses...! — Elys levou as duas mãos à boca, totalmente em choque.
-Eu bebi demais ou... Esse aí é... O Touro? — Matheus se aproximara do corpo, espantando as aves e identificando a armadura pelos detalhes e o tamanho robusto.
-Seja quem conseguiu derrotar um dourado assim... Além de forte quis levar um souvenir. — Requim estava em choque, mas tentava aparentar calma. — Ele levou a cabeça de nosso irmão de armas...
-Precisamos avisar o Grande Mestre! — Elys se virou para correr de volta ao Santuário quando viu Messura ali, com uma expressão deteriorada em tristeza.
-Agora entendo por que não encontrava o Luiz... E pelo odor etílico do Matheus, o porque não via vocês dois... Isso é terrível!
-Você sabe de algo, Messura-sama? — indagou Requim.
-Sarah de Taça viu em sua armadura a guerra santa que vem por aí: Kali se levantou, os Guerreiros Deva também. — o calmo cavaleiro de Áries cerrou os punhos e dentes. — Mas pelo visto, já vitimaram um dos nossos...
-Exato!
Eles viram no céu um homem montado num cavalo, jovem, robusto, loiro. Tinha arrogância e prepotência assinadas em seu semblante. Carregava consigo um pacote.
-Samraat Bash de Ganexa destruiu um dos seus mais poderosos guerreiros. — ele jogou o pacote para Messura e sorriu.
O cavaleiro lemuriano abriu o que se revelou ser a cabeça de Luiz de Touro.
-Eu sou o samraat Valento de Surya, e em nome de Kali-sama, venho declarar oficialmente guerra ao Santuário. Divirtam-se em seus últimos dias, vermes!
O cavalo cavalgou céu acima e desapareceu com samraat Surya, deixando ecoar sua risada e um grupo de cavaleiros sem chão.