Saint Seiya: A Guerra Primordial
5 POSEIDON - O Mundo Marinho Pt. 1
PROFESSORES E ALUNOS estavam envolvidos nas notas musicais que ecoavam no auditório. Os olhos de todos brilhavam, faiscando encantados ao som daquela flauta que entoava a melodia da qual jamais poderiam um dia ter ouvido. Era uma flauta transversal que parecia ser banhada em ouro antigo, mas tão ricamente trabalhada e decorada que mais parecia uma peça artística que um instrumento musical.
O jovem que recitava aquela melodia estava parado no centro do palco daquele auditório totalmente tomado. A plateia, em unanimidade, mostrava-se perplexa, hipnotizada. Todos pareciam encantados suficientes a ponto de não mover um músculo sequer do corpo, de não piscar temendo perder uma única nota, controlando a respiração, sentindo o coração acompanhar os dedos que dançavam sobre aquela flauta.Sorento. Foi assim que se apresentou diante de todos para aquele sarau em homenagem ao patrono daquela academia. Era jovem, um austríaco em seus 22 anos com uma beleza levemente andrógina pelos delicados traços de seu rosto e olhos pequeno, porém penetrantes. Os cabelos cheios e ondulados, que mal tocavam aos ombros remetia uma aparência clássica digna dos artistas da música erudita.As suas vestimentas com uma gravata tipo lenço presa ao pescoço por um camafeu como abotoadura em ouro e madrepérola, com uma mulher com asas esculpida, fechava a imagem um tanto poética.Ao fim daquele sarau solo, do seu último sopro que encerrou sua suave melodia, ele apenas sorriu discretamente, mantendo ainda flauta próxima o bastante dos lábios. Abriu lentamente seus olhos rosados para fitar aquele público, como para 'quebrar o encanto' do qual mergulhara a todos, para somente então pudessem reagir com uma ruidosa salva de palmas que durou mais que alguns segundos.Mesmo Sorento não conseguiu evitar sentir uma satisfação enorme por aquele tipo de reconhecimento. Embora sempre se dedicasse à tocar sua flauta, não estava acostumado a fazê-lo com aquela finalidade.Cumprimentou a todos com a mão direita, a mesma que segurava sua flauta, sobre o peito e curvando-se sutilmente para frente, em agradecimento. Recebeu os elogios do diretor da Academia de Música que encerrava aquele encontro chamando o patrono da instituição que estava dentre os que aplaudia junto à mesa da diretoria, à direita do palco.— Chamamos aqui o Sr. Julian Solo. — disse o diretor, um homem de meia idade abrindo espaço no púlpito.O jovem flautista voltou seus olhos rosados para a figura de longas madeixas alouradas presas por uma fita escura e discreta. Levantou-se da poltrona onde estava até então, arrumando seu paletó azulado. Tinha uma postura imponente e uma presença enigmática que fazia todos se voltarem para ele incondicionalmente.O mais surpreendente foi a reação de todos saberem que o patrono e herdeiro das Fundações Solo era um homem jovem com não mais que 23 anos, mas com um porte maduro e olhar incisivo de um velho lobo dos mares. Era o mais jovem empreendedor bilionário do mundo.O musicista até mesmo voltou a se curvar, desta vez reverenciando-o, ao vê-lo passar à sua frente. Quando começou a falar, o burburinho foi silenciado e sua voz, igualmente forte, ressoou tão hipnótica quanto à melodia de sua flauta prendendo a atenção de todos.Exceto de um só homem.Ao levantar-se, Sorento pousou seus olhos sob a figura ao fundo do auditório, alguém que já os observava há algum tempo e parecia sempre estar seguindo os dois em todos as reuniões e eventos possíveis. Tinha os cabelos pouco abaixo dos ombros num tom de vinho, cheios e ondulados caindo sobre a face coberta por um óculos escuros tipo ray-ban. Viu quando este se levantou, arrumando o paletó escuro que vestia, para então se retirar, mas não sem que fosse descoberto quem era.Seguia pelos corredores sem muita pressa, e nem mesmo interrompeu seus passos quando chamado pelo flautista. O olhar poético e amistoso no palco dera lugar a um olhar mais frio que cingiam sobre a figura misteriosa que continuou a caminhar sem parecer se incomodar com o chamado. Pelo contrário, pareceu sorrir discretamente.— Ei, você. Espere! Quem é você? — indagou Sorento seguindo em sua direção e vendo-o cruzar a esquina daquele corredor, fazendo-o correr ao seu encalço.Ao virar, seus olhos se arregalaram em perceber que ali não havia qualquer saída senão uma grande parede. Aquela área nada mais era que uma sacada para a bela imagem do Mediterrâneo com o mar bater contra os rochedos metros abaixo. Não havia portas ou janelas para que o estranho desaparecesse. Como uma reação natural, apoiou-se no parapeito e olhando para baixo. Apenas uma grande parede rochosa, sem acesso a pavimentos inferiores. Quem quer que fosse, nem mesmo emanou uma fagulha de Cosmo.•••Retornou ao auditório a tempo de ouvir a despedida de Julian Solo para os presentes e mais uma recepção calorosa de palmas. Sorento tinha um semblante sério, intrigado com aquela presença constante. Não era a primeira vez que tentara abordá-lo, mas sempre escapava e de maneira surpreendente como aquela, e isso o preocupava bastante.
— Algum problema, Sorento? — indagou Julian Solo para ele quando finalmente a sós na limusine. Havia cumprido todas as formalidades e bajulações daquela manhã e agora voltavam para um merecido descanso.— Não, Sr. Solo. Nenhum problema. Apenas cansaço por uma semana movimentada. — forçou um sorriso e soltando um suspiro. Em seu colo trazia apenas uma maleta onde deixara sua flauta, onde dedilhava mostrando seu ar pensativo enquanto seus olhos róseos recaíam sobre o jovem à sua frente.— Sim, tivemos uma agenda apertada essa semana. — disse Julian com uma voz apática, bem diferente daquela em seu discurso no auditório. — Pensei em descansar nos próximos dias. Quando partiríamos em viagem novamente?Julian dizia isso olhando para o Mediterrâneo pela janela do carro. O olhar era vago e sua expressão enigmática. Sorento estava sentado à sua frente, olhando para a mesma direção com os olhos perdidos no mar de águas escuras, com alguns barcos velejando ao longe.— O mais tardar amanhã com uma reunião com os sócios, em Viena... — Sorento não pôde conter um ar nostálgico. — Apenas uma reunião de praxe.... — comentou por fim, olhando de volta para Julian já adiantando o que seria solicitado. — Nada muito importante de fatoJulian nada disse, e isso era a resposta da qual Sorento já esperava. Ficou a olhá-lo por mais alguns instantes e tocando levemente em seu broche escamado.Ao chegarem na Propriedade Solo, ambos seguiram diretamente para o escritório onde Sorento faria os contatos anunciando a indisposição de Julian Solo e cancelando o restante da maratona de viagens daquela semana, algo da qual estava a fazer, coincidentemente, há algum tempo.— Viena é sua terra-natal, não é mesmo? — comentou Julian fitando Sorento com certa curiosidade, e aquilo tomou o flautista de surpresa fazendo-o apenas confirmar. — A terra do prolífico e influente musicista do período clássico, Wolfgang Amadeus Mozart. — sorriu por aquilo. — Não somente hoje, mas sua música encanta muitos, Sorento. Ela é simplesmente... hipnotizante.Sorento caminhava para frente a Julian Solo enquanto o ouvia falar sobre aquilo, agradecendo por aquele lisonjeio. Perguntou se ele deseja algo em particular, sendo pedido apenas uma bebida da qual preparava no bar, para os dois a pedido do próprio Julian.— Você tem família em Viena, Sorento? Alguém que desejava visitar? questionou Julian sorvendo de seu drinque.— Não, não há ninguém mais. — respondeu Sorento sentando-se num sofá ao lado e cruzando as pernas. — Os meus pais morreram quando estava no internato. Eu tinha 16 anos, sou filho único.— Entendo. E a música foi um refúgio para essa dor da perda? — perguntou Julian sem desviar os olhos para Sorento.— Sim, foi um alento. — respondeu Sorento com um misto de curiosidade daquelas perguntas com lembranças da própria família. — Recebi essa flauta exatamente quando fiz dezesseis anos de meu pai alegando ser uma herança da família, juntamente com esse camafeu. — e tocou a abotoadura que prendia o lenço em seu pescoço.— Parto do pressuposto que carrega um legado? — e Julian arqueou um semblante.Aquelas palavras tomaram Sorento de surpresa. Olhou em direção da maleta onde carregava sua flauta e remetendo àquele ano que foi presenteado por seus pais por aquela flauta em seu aniversário. Havia um grande orgulho de seu pai ao fazer aquilo. "Um legado de nossa família, Sorento", disse seu pai tomado pela emoção.Quando ele abriu seu 'presente' e encontrou aquele objeto antigo e tão brilhante, tocou sua primeira nota sem que nem mesmo jamais tivesse realizado aquele feito antes. Foi algo que o fez de maneira tão natural e sublime que surpreendeu até mesmo ele próprio.— Um legado...? — Sorento se perguntou e voltando seus olhos para Julian Solo, estes incisivos e brilhantes, como vira naquela noite.— Sim, um legado. Afinal, parece ter herdado uma habilidade única quando entoa a sinfonia de sua flauta, como se ela fosse mágica. — e Julian cruzava os dedos após repousar o copo na mesa ao lado, continuando a fitar Sorento."Flauta Mágica?", perguntou-se Sorento mentalmente. Era assim que seu pai chamou aquela herança da qual o presenteou aos 16 anos, juntamente com aquela abotoadura que passou a acompanhá-lo desde então. O mais interessante era de que Sorento lembrava-se bem de ver aquela flauta guardada numa redoma de cristal, da qual seu pai sempre dizia ser "o grande orgulho da família e o maior tesouro passado por gerações", do qual seria ele a guardá-la naquele momento. Jamais imaginou o peso daquelas palavras.— Lembro quando se apresentou num sarau à minha família, Sorento. Assim como hoje, não houve quem não ficasse encantado com a poesia de sua flauta. — comentou Julian ainda fitando-o. — Aquelas notas despertaram algo grandioso em mim, e também para você, não?Sorento engoliu a seco ao ouvir aquilo. Sabia bem do que estava sendo falado. Já estava no internato naquela época e seu talento chegou ao conhecimento da distinta Família Solo, no Mediterrâneo. O pedido de que se apresentasse numa noite de dezembro surpreendeu a ele, mas nem tanto os seus pais.No sarau, quando iniciou sua apresentação, realmente foi como no auditório daquela manhã: olhares hipnóticos e todos compenetrados em sua sinfonia, inclusive o próprio Julian Solo. Nessa noite, Sorento sentiu algo realmente despertar dentro dele, ascender violentamente.A sua canção naquele momento tornara-se ainda mais intensa e sua mente fervilhar de imagens da qual o assustou ao despertar suado em sua cama. Naquele momento, nem bem se lembrava quando chegou ao seu quarto, somente de tocar diante de um seleto grupo.— Sobre o que exatamente estamos falando, Sr. Solo?— foi a vez de Sorento de questionar aquela conversa, sem afronta ou desafio, apenas curioso.— A sua música tem algo que encanta as pessoas, Sorento. Ela os hipnotiza, deixando-as... vulneráveis.— dizia Julian fitando-o e gesticulando com as mãos. — Ouso dizer que fariam qualquer coisa enquanto encantado por sua música. Acredito até mesmo que poderia levar as pessoas à destruição, se assim quisesse.Sorento mantinha um olhar sério para com Julian, estudando suas palavras e onde ele queria chegar com aquela conversa. Até algumas semanas todo e qualquer assunto como aquele era evitado e não havia qualquer referência sobre ele ser um General Marina ou mesmo dele ser o escolhido para ser receptáculo de Poseidon.Contudo, o seu olhar havia mudado assim como suas expressões. Era o mesmo olhar daquela noite de dezembro, quando, invisível a olhos de todos, sentiu seu Cosmo manifestar-se tão intensamente.A sua mente se apagou e ele despertou em um quarto, sem conhecimento do que realmente havia acontecido. Já havia acontecido algo semelhante antes, principalmente quando tocava sua flauta, mas naquele momento foi mais intenso, como se algo realmente explodisse. A partir daquele dia, sua vida se transformaria por completo.Quando retornaram para casa, em Viena, Sorento retornou ao Internato, onde mais maturou sua performance com sua flauta e, realmente, encantou a todos como bem quisesse. No entanto, aquele conceito de ‘destruição’ dita por Julian Solo seria melhor explicada em seu retorno de férias para Viena, no último ano do colegial. Sua propriedade sofreu uma investida exatamente na busca de sua ‘flauta mágica’. O seu uso no Internato havia chamado a atenção de um seleto grupo que se intitulava de Cavaleiros Negros, responsáveis em matar seus pais atrás daquele precioso tesouro.Tomado pela ira, sentiu como se algo dentro de si despertasse e assumisse o controle de seu corpo, embora ele mesmo ainda tivesse consciência de seus atos. Nem mesmo conseguia se lembrar do momento em que pegou a flauta e se colocou a tocar. Jamais havia tocado sua flauta com tamanho desejo e a melodia soado tão sombria como naquele momento.Não gerava encanto aos ouvidos daqueles dois Cavaleiros Negros, mas desespero em seus olhos e uma dor excruciante que aumentava a cada instante. Os olhos de Sorento lacrimejavam, mas reluziam intensamente com seu Cosmo.
“Quem diabos é você?”, eles perguntaram, mas Sorento não os respondeu, apenas entoava uma nota ainda mais forte, quase como denotasse um clímax final que atingiu aqueles dois Cavaleiros Negros quando ameaçaram atacá-lo. Seus corpos pareciam secar naquele momento, como se tivessem todas as suas energias drenadas por aquela canção e se tornassem um punhado de cinzas.A flauta juntou-se a elas para que o jovem fosse ao encontro dos pais. A mãe já estava morta, com os olhos abertos expressando terror; o pai ainda agonizava, conseguindo dizer somente “Capri… Ilha de Capri” antes de falecer nos braços do filho.O pedido do pai foi atendido após a missa solene. Pesquisou sobre a Ilha de Capri e viajou até a distante ilha no golfo de Nápoles. Com ele, as cinzas de seus pais, acreditando ser aquele seu último desejo. Porém, ouviu um belo canto ecoar próximo aos rochedos e sendo atraído por ela, encontrando uma tríade de aves que o guiava a um caminho tortuoso até o nível mais baixo da ilha.O mais impressionante, e que assustou Sorento, foi seu nome ecoar meio aos gracejos daquelas aves. As águas tornaram-se mais violentas, e antes que ele pudesse se dar conta de onde estava, foi engolido por uma grande onda, deixando a urna com as cinzas sendo levada pelas águas.
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