Saint Seiya - Águia Dourada
43 Paraíso
Notas iniciais
O castelo de Prometeu ergue-se como uma fortaleza sombria, cravada no coração da montanha. As portas imensas, de ferro escurecido, rangem ao vento frio. Marin avança com passos pesados; a armadura está trincada, faltam placas nos ombros e nas pernas, e o sangue seca sob o metal quebrado.
O mundo abaixo já mergulhou na sombra: o fogo, a ciência, a escrita, a leitura, a matemática, a música e a filosofia se foram. Os humanos caminham agora sem luz, sem memória e sem direção.
Ao caminhar, Marin sente algo estranho. Por um instante, na escuridão do corredor, parece ver uma sombra avermelhada se mover entre as colunas.
— De novo... — murmura, lembrando-se de vislumbres rápidos durante as batalhas contra alguns Réquiens. Sempre achou que fosse ilusão causada pela fadiga, mas agora a sensação era real.
Uma voz feminina, suave e cortante, interrompe seus pensamentos.
— A Águia chega... tarde, como sempre.
Marin ergue os olhos para a sacada e vê uma mulher de manto negro. Ela não reconhece o rosto, nem a voz.
(“Quem... é ela?”)
A figura sorri. Com um movimento sutil, traça um círculo no ar. Do centro, surgem dois guerreiros.
Adão e Lilith.
Adão é alto, cabelos castanho-claros, curtos e desalinhados, olhos acinzentados que não mostram emoção. A armadura é de aço escuro com detalhes prateados, impecável, como se tivesse acabado de ser forjada.
Lilith é magra, cabelos longos e negros caindo pelos ombros, olhos de um azul profundo. Sua armadura é de tom cinza-azulado, perfeita e reluzente.
Marin para, os músculos tensos.
(“Esses dois... não são como os Réquiens. Algo neles é... diferente.”)
Ela tenta avançar, mas a perna falha. Cambaleia, quase caindo — até ouvir passos firmes atrás dela.
— Marin!
Shaina surge, tão ferida quanto a amiga. Sua armadura de Ofiúco perdeu quase toda a proteção no ombro direito e nas manoplas, mas mantém imponência. Marin a encara, e o alívio transparece na firmeza da voz.
— Shaina...
Shaina mantém o tom orgulhoso.
— Ainda precisando que eu limpe seu caminho, Águia?
— E você ainda fingindo que não gosta de aparecer na hora certa — responde Marin, com serenidade.
Antes que possam dizer mais, um som ecoa pelas paredes: um arrastar de vinhas ressecadas, passos lentos...
Goethe.
A Nota de Uipata ainda cobre parte de seu corpo, mas as vinhas estão secas e trincadas. Sua presença faz as duas amazonas se voltarem prontas para o combate.
— Você... — diz Shaina, elevando o cosmo. — Pensei que tivesse caído com os outros.
— E ainda traiçoeira — completa Marin, firme.
Goethe levanta as mãos, com um sorriso torto.
— Calma, amazonas. Não vim para lutar contra vocês.
— Então por que está aqui? — questiona Marin, sem baixar a guarda.
Goethe encara Strella na sacada.
— Porque... estava do lado errado da história. E, acreditem ou não, não pretendo ver Strella vencer.
Shaina mantém o cosmo elevado.
— Não sei se devo acreditar em você.
— Não espero que acredite — retruca Goethe. — Mas me ouçam. Aquela que está diante de nós é Strella, a bruxa das estrelas, braço direito de Prometeu. É ela quem executa a vontade do titã e quem deu vida aos que estão à frente de vocês.
Marin mantém a postura firme.
— Esses dois... não são Réquiens.
— Não — responde Goethe. — São Lúcios. Criados com o fogo da Tocha de Héstia, moldados com argila e pó de estrelas. Eles não têm falhas, não se desgastam, não vacilam. São guerreiros perfeitos, Marin... superiores aos Réquiens que vocês mal conseguiram derrotar.
Na sacada, Strella sorri levemente, sem dizer uma palavra, como se confirmasse cada acusação com o silêncio.
Marin respira fundo.
— Se o que diz é verdade... então por que está nos ajudando?
Goethe hesita por um instante.
— Porque, por mais que eu tenha seguido Prometeu, não fui criada para ser descartada. Strella... não tem lealdade. Ela é perigosa até para o titã.
Um breve silêncio. Marin e Shaina trocam um olhar rápido.
— E quer que lutemos ao seu lado? — pergunta Shaina.
— Quero que sobrevivam — corrige Goethe. — E que um de nós leve Strella abaixo.
Nesse momento, Marin nota novamente o vulto vermelho entre as colunas. A figura de armadura vermelha, cabelos longos e prateados, máscara dourada em forma de sol. O cosmo é silencioso, estranho, impossível de identificar.
Shaina percebe também.
— Ele está aqui de novo...
Antes que pudessem dizer mais, a figura desaparece como névoa, deixando apenas mais dúvidas.
Adão dá um passo à frente. Lilith acompanha, impecável e silenciosa.
Goethe respira fundo.
— Eu seguro Adão. Shaina, Lilith é com você. Marin... siga em frente.
Marin hesita por um instante, mas percebe que não há tempo.
— Shaina... cuide-se.
— Eu sempre cuido — responde ela, fria, mas o tom carrega um leve traço de afeto.
Marin avança, desaparecendo nos corredores em direção a Prometeu.
A luta começa.
Shaina ataca Lilith com as Garras do Trovão, mas a Lúcio se move com velocidade inumana, desviando e contra-atacando com golpes que estremecem o chão.
Goethe lança vinhas afiadas contra Adão, que bloqueia com facilidade, sua armadura permanecendo intacta.
— Não é tão simples, não é? — Goethe sorri, cuspindo sangue.
Os golpes se intensificam. Lilith derruba Shaina várias vezes, mas a amazona insiste. Adão pressiona Goethe, partindo as vinhas como se fossem frágeis galhos secos.
Shaina cai de joelhos, esgotada. Goethe a olha e entende que não há outra saída.
Ela toca a própria armadura.
— Uipata... última dança.
As vinhas começam a se desprender, as pétalas de metal flutuam ao redor, formando uma flor imensa, de pétalas infinitas. No centro, a escuridão se condensa. Um buraco negro começa a se abrir.
Adão e Lilith tentam resistir, mas a força de sucção é implacável.
— Que ironia... — Goethe sorri — morrer pelo lado certo, finalmente.
O buraco negro engole Goethe, Adão e Lilith.
Shaina é puxada, mas o vulto vermelho surge e, com um gesto rápido, a empurra para longe, salvando-a.
O buraco negro se fecha, e o silêncio cai sobre o salão.
Shaina, ainda deitada, olha para o vazio.
— Goethe... — murmura. — Seu sacrifício... não foi em vão.
Na sacada, Strella observa, serena.
— Continue, Águia... Prometeu espera.
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