Saint Seiya - Águia Dourada
47 Abismo
Notas iniciais
O salão estava silencioso, exceto pela respiração pesada de Marin. Sua armadura prateada, quebrada e suja, parecia pesar mais do que nunca.
Acima, na escuridão, Nix observava. Seus olhos eram dois pontos prateados no vazio.
— Marin de Águia… — disse Nix com um tom quase suave. — Você viu Adão e Lilith. Viu a perfeição ser destruída. É hora de ver o que nasce quando a perfeição morre.
A fissura negra aberta atrás dela pulsou. Um vento gélido soprou, carregando murmúrios incompreensíveis.
— Estes… são os Lúcios do Abismo. Não nascidos de um dom divino, mas de algo muito mais profundo: o caos e a distorção.
Marin manteve a postura, mas sentiu o ar pesado.
— De onde eles vêm? — questionou.
Nix sorriu.
— De lugares que não deviam existir. São fragmentos de realidades alternativas, ecos de tempos apagados, pedaços de histórias que se perderam. Misturados e forjados em um corpo, eles são aberrações que não seguem leis. Cada um é imprevisível. Cada um é a negação da ordem.
A fenda se abriu por completo. Sombras distorcidas ganharam forma.
Sonia de Escorpião Reverso surgiu à frente. Seu cabelo rosa contrastava grotescamente com o rosto, onde presas afiadas surgiam nos cantos da boca. Sua armadura parecia viva, recoberta de placas orgânicas, inchadas e cobertas de muco, tremendo como um animal em sofrimento.
— Os frágeis se quebram… — ela murmurou com voz animalesca, alternando entre grunhidos e frases desconexas — …e eu adoro quebrar.
Izo do Lamento de Capricórnio veio logo atrás, seu corpo se retorcendo como se não houvesse ossos fixos. Partes dele quebravam e regeneravam. Ele arrancou uma vértebra do próprio corpo e a afiou como lâmina, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Para cima, para baixo… para os ossos, tudo é o mesmo.
Minos de Grifo Abissal avançou ereto, impondo uma presença sufocante. Sua armadura lembrava um fardamento de opressão, cheia de símbolos distorcidos de poder. Ombreiras afiadas erguiam-se como grades de prisão.
— Ordem não é escolha… é destino. E vocês… são súditos do meu tribunal.
Por último, Sorento de Virgem Despedaçado caminhou lentamente. Seu rosto calmo contrastava com a armadura cravejada de ícones religiosos quebrados, manchados e invertidos. Sua voz era suave, mas cada palavra era blasfêmia.
— A fé é uma mentira bem contada… e eu sou o herege que a reescreve.
Eles avançaram juntos. Marin ergueu o cosmo, mas cada golpe era imprevisível. Sonia atacou com garras venenosas, Izo lançava ossos em ângulos impossíveis, Minos criava ondas de pressão esmagadoras, Sorento distorcia o espaço com ilusões profanas.
A amazona recuou, arrastada pelo ataque incessante. (Eles… não têm padrão…)
Um golpe de Sonia abriu ainda mais a armadura de Marin. Izo quase a acertou com um osso afiado. Minos a lançou contra uma coluna com força brutal.
Ela caiu de joelhos, o cosmo oscilando.
— Mais criaturas dessa mulher? — Uma voz soou, cansada, ferida.
Shaina surgiu na entrada, a armadura de Ofiúco destruída em vários pontos. Ela estava pálida, sangrando, mas seus olhos ardiam.
— Vamos acabar com isso… juntas.
Sonia riu.
— Outra presa para caçar.
Uma melodia ecoou, suave, como vinda de outro mundo.
Orfeu apareceu — ou melhor, sua projeção espiritual. A distorção do caos havia criado uma fresta entre mundos, e através dela, sua figura surgia com a lira nas mãos.
— Lamento e caos… sempre dançam mal juntos.
Izo inclinou a cabeça, rindo.
— Uma canção? Então vamos dançar até quebrar todos os ossos.
Uma rajada de cosmo atravessou o salão.
Mayura surgiu, não de corpo presente, mas como uma projeção dourada vinda da Ilha de Andrômeda. Sua presença era forte, ainda que distante.
— Profanar o sagrado é tocar fogo na própria alma, Sorento.
Sorento sorriu, distorcendo a ilusão ao redor dele.
— Então vamos queimar juntos.
Marin se ergueu com dificuldade, encarando Minos.
— E tiranos caem…
Minos sorriu friamente.
— …mas antes julgam.
Acima, Nix observava, o sorriso frio nunca desaparecendo.
— Vamos ver quanto tempo resistem.
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