Saint Maria

10 Capítulo 10


A madrugada no hospital foi bastante perturbadora, pois eu entrava em uma sala, saia em outra, foi a verdadeira loucura. O que mais me dava medo eram as agulhas. Tinha uma maior que a outra e sempre ficava aos prantos. Se não fosse minha mãe, acho que desmaiaria. Foi uma noite cansativa e confusa. Não era para menos tudo aquilo, o que passei foi horrível e cruel.

Na manhã seguinte bem cedo saímos do hospital. Doutora Simone nos levou para casa, pois seu plantão havia terminado e a rota seria a mesma. Parou o carro, cujo modelo era do ultimo ano, desceu, pois aceitou o convite de minha mãe para entrar e tomar um café junto da gente. Meus pais e ela me levaram para o quarto e me fizeram deitar. Pelo dia inteiro fiquei deitada, só levantava para ir ao banheiro. A refeição fazia no quarto mesmo, até por que o repouso era importante para minha total recuperação. Dr. Simone apareceu na mesma tarde em minha casa para dar noticias ótimas sobre meu caso. Os exames não mostraram nenhum tipo de lesão ou distúrbio, sinal de que eu não havia ficado com trauma. E realmente não fiquei. Apenas sentia medo de ir sozinha para a escola, mas isso com o tempo passava. Poderia voltar às aulas no outro dia mesmo.

E assim foi. No outro dia vimos que meu caso saiu nos telejornais, e em jornais da cidade, fiquei famosa mesmo sendo um incidente gravíssimo. Pouco sabia dessas coisas, pois o que eu pensava era na minha festinha que estava chegando. Comecei receber presentes antes mesmo da hora e isso foi fazendo com que eu esquecesse todo o ocorrido.

Quando estava indo para escola, avistei novamente o grupo de rapazes naquela esquina. O garoto sorriu como nunca havia sorrido antes, parecia que sabia de toda a minha situação, no entanto nem estava lá para ver. Uma coisa me chamou a atenção neste dia: os quatro estavam cantando, na verdade o garoto do sobretudo preto estava cantando e os outros acompanhando com um violão. Sua voz era muito bonita. Fiquei surpresa, pois eles haviam parado de cantar e naquele momento deu para notar que, eles estavam voltando para a vida que eles mesmos deixaram para trás. Suas músicas também eram muito bonitas, falavam de amor, de atitude, falavam da vida. Fiquei feliz por eles, torcendo para que voltassem a fazer o mesmo sucesso de antes.

Na escola tudo parecia normal. Poucas pessoas, ou melhor, poucos alunos sabiam do ocorrido. As professoras evitaram tocar no assunto e eu também nem fiz questão, pois a lembrança dos momentos ruins ficou na minha mente e isso, obviamente, nunca mais se apagaria. Trataram-me como um dia normal, mas eu sabia que não era. A cada dois minutos a diretora da escola dava uma passada pela minha sala, claro que para ver como eu estava. Minha amiga, Ana, ficou muito preocupada e seus pais ligavam varias vezes ao dia para acalmá-la.

Meus pensamentos pareciam de gente grande, e isso ia se aflorando cada vez mais, porém não para pior, e sim para melhor. Não sei como superei tão rápido o seqüestro, talvez alguma força sobrenatural estivesse sempre ao meu lado, amenizando todas as minhas dores. Passei a rezar todos os dias, para agradecer meu anjinho da guarda. Provavelmente ele estava lá, na hora certa e no lugar certo.

Passou segunda, terça, quarta e quinta. Neste último dia pela noite, arrumei minha roupa e minha mochila para o passeio ao Museu da cidade. Fui dormir pensando como poderia ser as imagens, os objetos, se ia dar medo... Tudo isso. Já fui preparando meus ouvidos para aquela manhã que seria legal. Mamãe colocou algum dinheiro na minha polchete de moedas, caso precisasse.

Na manhã seguinte, acordei com um aperto no peito. Acabei por desistir do passeio, mas minha mãe me convenceu de voltar atrás. Seria bom pra eu ver coisas novas e gente nova. E também para meu próprio conhecimento.

Mais uma vez, minha mãe verificou minha mochila, viu que todas as coisas estavam no lugar, mas ainda faltava uma coisa: meu lanche. Esse sim eu iria me preocupar se não o achasse dentro dela. Torradas e suco de laranja, meu favorito. Guardei na minha lancheira e voei tomar banho. Até me empolguei novamente e comecei a cantar no chuveiro. Músicas não faltavam dentro de minha cabeça. Sai do banheiro com o Preto, meu irmão do meio, reclamando. Eu já estava acostumada com a rebeldia dele. Nós brigávamos muito, mas eu amava muito também. Não poderia jamais viver sem meus irmãos.

Coloquei uma roupa bem bonita, toda cor-de-rosa, mamãe penteou meu cabelo com todo cuidado, pois ainda tinha o machucado, fiz uma trança e fiquei pronta para sair. Neste dia, quem me levou para a escola, foi meu irmão mais velho, ele iria sair aquela mesma hora. Passamos por eles, os garotos de moto, naquela esquina. Foi engraçado, o garoto que sempre me sorria não estava lá, nem seu irmão. Mas os outros estavam, e nem sequer me olharam. Já era costume receber todos os dias um sorriso. Eu gostava de vê-lo ali sentado em sua moto preta, com seus cabelos diferentes, olhos circulados com linhas escuras e sua roupa de couro fino. Infelizmente aquele dia não estava comum.

Chegando à escola, meu irmão seguiu e eu fui para um ônibus que estava nos esperando no outro lado da rua. Minha professora aguardava quem ainda estava por chegar, e eu fui uma das primeiras a chegar. Queria saber o motivo de ele não estar lá, vai ver ele tinha ido embora mais cedo, não sei.

Todos meus colegas chegaram e pudemos partir. O museu não era nem um pouco longe dali, por isso não demoramos a chegar. Descemos do ônibus e fomos entrando curiosíssimos pela grande porta da frente. Ele era escuro, mas bonito. Minha professora começou a discursar, mas eu nem prestei atenção. Olhava atentamente cada detalhe das peças antigas que se encontravam a amostra. O teto era coberto por pinturas, mas eu não conseguia entender nenhuma. Entramos em uma sala onde só tinha esqueleto de dinossauros. Ossos gigantescos, desenhos mostrando como eles possivelmente eram no passado. Tudo isso me deixava encantada.

Encontramos também, vários modelos de locomotivas usadas na viação férrea que ainda existia na cidade, mas não era mais utilizada como antigamente. Fotos de antigos prefeitos, e de celebridades que passaram por lá. Realmente essa cidade era bastante cultural. Havia também, fotos de imigrantes italianos e alemães que foram os primeiros povoadores dessa região.

Bem lá fundo do grande salão de fotos e objetos antigos, havia outro objeto, totalmente cercado por vidros e alarmes. Caminhei bem devagar até chegar a ele. Apenas eu estava ali. Meus colegas estavam prestando atenção na professora que explicava a historia de cada foto que os mostrava. Fiquei encantada, porém assustada. Mal sabia ler, mas fui juntando cada silaba e descobri que ele havia sido descoberto há mais de vinte anos pelo pesquisador morto John Kaulitz. Ele havia morrido em um acidente automobilístico, sem causas definidas, e isso já fazia mais de dez anos. Na mesma hora em que lembrei daquele sobrenome, minha professora chamou-me atenção por não estar perto dela. A ideia me fugiu e esqueci do que estava pensando.