Saint Hikaru Gaiden
1 Agonia
Ela trajava seda, feita da própria vida que habita o caule. Era meiga, dócil. Seus olhos refletiam a inocência de uma criança e seus lábios traduziam sua ignorância vivaz. Para ela, aquilo era parte de uma brincadeira de humanos. Para ele, certamente o era. O laço que prendia o braço da ninfa bruscamente a içou, de modo que ficasse pendurada sob a árvore. E aquilo apertou seus pulsos de modo a trazer a dúvida: “por que dói?” Em dúvida e silencio permaneceu, enquanto... Uma agulha. Uma testa. Um Grito. Os olhos se arregalaram de modo a falar. Para ele, os olhos convidavam a ser os próximos a brincar. Duas agulhas. Lágrimas de sangue. Ela sentiu o frio sobre seu corpo, uma sensação incomum no jardim de eterna primavera. As duas giraram... Era uma lobotomia, feita com uma fina ferramenta, de modo que seu cérebro pudesse se manter tangível por mais tempo. As veias saltavam sob a pele dela, como pulsações de um compasso que entoava uma canção fúnebre. Uma canção sem fim, uma morte que não chega. Língua, agulha, umbigo, agulha, calcanhar, agulha. Vinte dedos, vinte unhas, vinte agulhas. E ela desfaleceu em meio ao néctar que jorrava de seus ferimentos. A língua dele passava sobre o corpo, de modo a apreciar lentamente cada gota.
-- Luca, você quer uma dose? – questiona o homem velho, que vestia um traje dourado, feito de metal.
O elmo possuía oito detalhes pontiagudos, que lembravam as patas de um caranguejo, em cada um dos lados de sua mascara. Era aberto, de modo que se podia ver o rosto e os longos cabelos dele. Quando o néctar secou, sua face transmuda-se em um rosto jovial, mesmo que seus cabelos permanecessem grisalhos. Seus olhos vermelhos observavam o céu, como de alguém que aguardava a resposta de Luca. E Luca não queria. Não era sexta-feira. E não era para Luca que ele olhava.
-- O vampiro... Então este é Death Agony de Câncer? – questiona aquele que observava pelo reflexo mágico de um espelho.
O espelho era talhado em madeira em um formato pensado pelos romanos -- era o signo de Saturno, o planeta. Não era único. Aquele que via, também via outrem. Lá, via Luca.
-- Hoje não é sexta-feira, é dia de trabalhar. Hélios-sama, a quem devo levar o convidado? – questiona o velho, que também trajava uma indumentária similar ao outro, mas completamente negra e com asas que lembravam as enormes patas do caranguejo de Hera.
O velho e o jovem eram contrapartes antagônicas quanto a aparência. O velho tinha longas costeletas grisalhas que eram encobertas pelo elmo. Sua pele era pálida como um vampiro e seus olhos vermelhos. Suas rugas e sua sobrancelha unida chamavam a atenção. Seu longo cavanhaque completava a feição do diabo. O Sabreador da Morte, como Luca é conhecido pelos seus aliados, é um dos caçadores, os guerreiros das constelações negras. Como um dos doze signos malignos, detinha a ligação com Câncer. Sua função é proteger a entrada do submundo, para que ninguém acessasse o Vale do Rio da Noite, local onde ficava o Santuário de Nix. Já o aparentemente jovem Hélios detinha uma belíssima aparência e um poder ainda maior. Com pele alva, um excelente condicionamento físico e uma estatura que completa sua sensação de virilidade, estrala os dedos e um mar de chamas se ergue, transformando o rio, antes feito de sangue, em um mar de lava que iluminou o local:
—- Bem melhor! Não suportava esta escuridão, Hélios — diz o caçador.
—- Este lugar me dá repúdio — olha para o rio e vê a imagem de pessoas queimando na lava que formava suas aparentes águas.
O Vale do Rio Nix, antes um lugar de escuridão e silêncio, transmuta em um mundo de fogo, dor e sofrimento. Esta prisão esquecida é o destino daqueles que foram mortos antes de nascerem. Um terreno macabro, governado pelo homem mais cruel que a Terra teve o desprazer de conhecer. O fosso é um dos poucos lugares no inferno que não é governado por Hades, já que está próximo da entrada do reino da morte. Em vez disso, Nix governa aquele mundo com os anti-deuses, criaturas que nasceram dos deuses esquecidos pela história. Não se sabe ao certo quantos existem, mas naquele lugar, estavam no campo de vista: Hélios, o anti-Sol, um garoto com cabelos de fogo, um olhar de sangue e a talhe de um grego. Selene, a deusa da lua nova, uma garota com longos cabelos negros e ligeiramente lerda. Além de Deathsaber e Nix, a deusa da noite que este narrador não pôde ver o rosto. Também notei outras quatro pessoas no local, mas nenhuma delas estava sob o alcance da luz que Hélios criou.
Deathsaber de câncer reuniu no vale os sete deuses mais cruéis e sombrios de todos. Liderando-os, estava a deusa da noite, a deusa que inspirou a criação daquele mundo cruel:
—- É um prazer estar aqui, deusa Nix — diz Selene para a deusa.
—- Não fiquem de formalismo. Vamos nos preocupar com aquilo que realmente importa — responde Nix.
—- Eu lhe trouxe o que me pediu — diz Deathsaber mostrando um espelho enorme, com cerca de 1,5 metros de altura.
Todos ficaram admirados com o artefato.
—- Este é o seiscentos e sessenta e seis — diz Selene.
—- Sim, um belíssimo espelho de Aeon — explica Deathsaber.
—- Não nos servirá – afirma Nix – se não é o número zero.
Aquele artefato era idêntico ao do observador, que mantinha-se fitando pelo reflexo. Como tudo nesta história, não havia um único observador. Quando uma organização maligna se reúne por qualquer motivo, espera-se uma catástrofe humanitária. Para evitar tais injustiças, os deuses e os humanos inventaram a ferramenta de contenção de crimes, chamada de governo. Cabe a esta ferramenta a capacidade decisória sobre o que é ou não justiça. A justiça é aquilo que o mais poderoso, capaz de impor sua vontade, diz que ela é. A humanidade possuía tal governo, mesmo que este não fosse conhecido dela como um todo. Também possuía seu poder e o seu conceito de justiça, antagônico ao definido pelos deuses. A justiça humana é a que prega a paz, a esperança, a amizade e quaisquer clichês que são comuns em uma trama de anime genérico. Para sustar o poder, o governo precisa de inteligência. Por inteligência, entenda espionagem. De espiões vive o poder.
—- Temos um intruso.
O homem se perguntava sobre como havia sido descoberto. Percebeu que sua armadura, dourada como o ouro, estava emitindo uma luz que contrastava com aquele lugar escuro.
Pensava: “É claro! As armaduras de ouro foram criadas com o poder dos raios de Sol. Esta armadura emite uma luz intensa, não posso me esconder com ela.” Rapidamente, o espião vê o Sabreador em sua frente. O canceriano moveu-se com tanta destreza que parecia poder se mover como a luz:
—- Quem é você? — questiona Deathsaber.
Os olhos de Deathsaber brilham em um vermelho vivo. Memórias surgem na mente do espião. Santuário. Atena. Adaga. Dourados. Morte. Assassínio. Cronos. Shura. Aiolos...
—- Saga de Gêmeos – afirma o sabreador.
Quando o coração humano é preenchido por vergonha e culpa, tende a se desalinhar. Quanto mais forte e mais recorrente um sentimento é, mais fácil se deixa levar pelas emoções. O canceriano parecia poder extrair do coração suas memórias. A cerca de quase vinte anos atrás, uma força maligna começou a agir no santuário com o objetivo de tomar o lugar de Atena. Certamente, a deusa do santuário morreria se não fosse por Aiolos que a salvou em seu berço. Infelizmente, este foi um ato heroico que custou a vida de Aiolos. Já Saga de Gêmeos era o homem que nasceu sob a maldita constelação que divide a alma de seus cavaleiros. Sua estrela maligna o amaldiçoou com o filho do destino desastroso. Quando consumido pelas trevas, tornou-se o responsável por um banho de sangue que levou a vida de Aiolos e de muitos outros cavaleiros. Há quase duas décadas Gêmeos sofre por arrependimento. Mas finalmente tinha a chance de compensar, salvando aquele que enfrentou no passado:
—- Não lhe respondi a pergunta sobre o convidado, Deathsaber. Entregue-o ao novo hospede do nosso humilde lar – Hélios ironiza.
O canceriano se move lentamente até uma cratera, de aproximados vinte metros de profundidade que estava pouco atrás do local onde os anti-deuses mantinham-se de pé, de onde salta. Silêncio. Segundos de nada. Arremesso. Uma estrela dourada saiu da cratera rumo ao céu. Do céu, um anjo caiu. O anjo aos pés de Gêmeos.
—- A... Ai... Aiolos?! – Saga estava surpreso porque tinha certeza que seu amigo Aiolos permanecia no santuário até aquele momento.
—- Este pastelão era interessante. Por alguns segundos, suas flechas paralisaram meu corpo. Claro, isso não é efetivo em mim – Deathsaber desprezava o cavaleiro.
Governos agiam em duas frontes: guerra e espionagem. A espionagem era a garantia da paz, uma vez eu era a garantia da sustentação do poder hegemônico. Porém, quando o espaço para a espionagem e a guerra fria acaba, só resta a guerra. Resta apenas explodir uma imensa explosão atômica sobre os inimigos, mesmo que não pareça grande ameaça. Hélios sabia da sua condição divina e da condição humana de Saga. Ele certamente não teria motivos para matar o geminiano. No entanto, há motivo real para exterminarmos as baratas? O extermínio é algo que cabe aqueles que nos incomodam, mesmo que sejamos maiores que eles. Com os braços voltados para o céu, Hélios reúne seu cosmo na forma de uma enorme esfera de energia flamejante. A esfera é então lançada em uma velocidade hiperluminal e colide com o chão provocando uma grande explosão nuclear. Um mar de chamas toma o local da explosão, consumindo tudo ao menor toque. E sem tempo, Saga revidaria.
—- Fusão Nuclear! – Hélios.
—- Explosão Galáctica! – Saga.
A Explosão Galáctica era o golpe mais poderoso de Saga, cujo poder dizem ser "capaz de destruir as estrelas da galáxia". Saga lança no alvo uma poderosa onda de choque explosiva, que assume a forma de diversos planetas. Quando a onda está prestes a explodir, os planetas se chocam violentamente, gerando uma força suficiente para igualar-se ao interior de uma supernova, de forma que, quando atingir o alvo, pode pulverizá-lo por completo. Mas os golpes estavam em rota de colisão. Por mais poderoso que fosse o golpe de Saga, o nono sentido de Hélios não pode ser sobrepujado. O dourado conseguiu anular uma boa parte do poder, mas se feriu gravemente pelas chamas. Mesmo assim, não se moveu um centímetro se quer. Permaneceu de pé, em frente a seu amigo, protegendo o sagitariano desacordado. Saga sabia que ao menor vacilo, não poderia salvar Aiolos.
O anti-deus do Sol, por outro lado, mudou a percepção que tinha do seu adversário. A barata transmuda-se em uma ameaçadora viúva negra, fácil de ser exterminada, mas que possuiu o poder de te matar, caso não tome cuidado. Foi então que Hélios mais uma vez atacou:
—- Nunca precisei usar meu golpe duas vezes. Não admito que um humano viva após isso! Fusão Nuclear!
Na segunda vez em que a assombrosa técnica foi usada. O poder assombroso da explosão que sobressaia a destruição das galáxias era aterrorizante até mesmo para os deuses que observavam o confronto. Saga precisava deter o golpe de qualquer forma. Não tinha tempo para pensar, mas era necessário. Por fim, ele revida com uma variação diferente de sua Explosão Galáctica. Desta vez, os planetas implodiram em seu punho direito, para que quando lançasse o golpe, todo o extremo poder atingisse em um único local:
—- Sua Fusão Nuclear é uma técnica terrível, mas um mesmo golpe divino não funciona duas vezes com um cavaleiro de Atena. Se não possuo poder o bastante para anular todo o seu fogo, basta anular somente aquele que vem para cima do corpo de Aiolos — diz enquanto seu corpo queima.
Saga não se importava mais com sua vida, apenas queria salvar o amigo. Com todo poder concentrado, anulou somente a onda de choque que mataria Aiolos. Assim, seu próprio corpo foi destruído e quase não tinha forças para ficar de pé. Se Hélios atacasse de novo, certamente morreria:
—- Um humano imundo?! Como resiste ao meu golpe? Está certo. Não precisei usar outra técnica contra ninguém durante toda minha eterna existência. Você está passando dos limites — resmunga Hélios bravo ao notar a resistência de Saga. – Receba as chamas primordiais! Ionização da Coroa Solar!
A Ionização da Coroa Solar é o golpe mais poderoso de Hélios, que nunca precisou usar contra ninguém. Este golpe consiste em superaquecer todo o ar ao redor dos combatentes. O ar aquecido começa a se transformar em plasma até que sua temperatura supere 140 x 10³⁰ °C. Além do extremo calor, este poder ainda extingue todo o ar ao redor fazendo o inimigo sofrer com descompressão e falta de oxigênio. Nada no universo poderia ser mais destrutivo. Nada exceto um calor de mesmo de mesmo nível:
— Exploda cosmo supernova! — Saga gritava tentando ignorar a dor de seus ferimentos. — Explosão Galáctica!
— Sobressaia ao Sol, cosmo! Ruptura Infinita! — outra pessoa aparece voando no céu e auxiliando Saga.
Inúmeras flechas cósmicas caem das nuvens, exterminando o fogo e aniquilando a luz que antes iluminava aquele local sombrio. O patamar de cosmo era algo descomunal. Seu golpe criou uma nuvem de raios que correm com tanto poder que se transformam em plasma. Seria impossível ver o aliado caso não tivesse luz própria também. Os dois cosmos sobrepujam o poder primordial de Hélios. Dois cosmos que pareciam se completar. No entanto, o que realmente intrigou Saga não foi o poder que atingiram, mas quem o ajudou: o cavaleiro que era conhecido por ser um dos maiores dourados de todas as eras. O herói que salvou Atena, Aiolos de Sagitário atacava com seu golpe supremo.
E Saga não podia crer que Aiolos tivesse acordado. De fato, não tinha. Aquele que o ajudou não era a mesma pessoa, pois seu amigo continuava caído, derrotado no chão:
—- Saga! Salve meu sósia – pede Aiolos.
Sem entender, o cavaleiro de Gêmeos rapidamente usa seu poder para abrir um portal para outra dimensão e escapar, caindo no tempo perdido. O cosmo do segundo sagitariano logo se apaga:
—- Finalmente, quando tive a chance de salvar meu amigo, deixei outro morrer. Nunca serei abençoado com uma chance de fazer o que é certo -- Saga chora.
No Vale da Noite, Hélios estava completamente ensanguentado. Três braços estavam caídos sobre o chão. O corpo do anjo dourado dividia-se em dois, como se tivesse sido partido por uma lâmina afiada:
—- Esse foi rápido — Deathsaber chuta o corpo de Aiolos. -- E agora, deusa Nix?
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