Dentro do quarto exalando o cheiro de cigarro e incenso barato, o dia e a noite eram indistinguíveis na ausência de luz externa.

A lâmpada piscava. Agonizava seus últimos momentos. Insistia em brilhar sua débil luminescência, como se ainda lhe restasse algum glamour.

A mão que tremia involuntariamente, derramando gotas de conhaque do copo, era a mesma que não mais sentia saudades dos acordes da guitarra Fender esquecida, tão esquecida que nem a persistente lâmpada alcançava. Ou não queria alcançar, absorta em acender mais uma vez após uma falha. E mais uma vez. E outra.

Uma brasa moribunda atravessou o ar, seguida por uma fumaça débil que desenhou a circunferência de uma trajetória clássica — ascensão e queda. Ao fim do trajeto, nem mesmo um resquício do brilho alaranjado restava na ponta de cigarro atirada na escuridão. Descansou, sem a mesma insistência da lâmpada, no escanteio onde outras semelhantes se amontoavam. Um desagradável monumento de algo que um dia foi e já não é mais.

Descartado.

Ali também era o cemitério das ideias anotadas, cuja única luz que viram foi aquela, da teimosia irritante. Havia nas letras rabiscadas em tinta azul o desleixo típico da apatia, do desanimo, do desinteresse.

Não se reacende restos de cigarro.


Sem nenhum alarde, ela apareceu novamente, com a casualidade com que amantes se atraem e se afastam. Trazia nos lábios o silêncio que se rebelava e o beijo que os abandonara.

E, como sempre, vestia vermelho.

A fumaça do incenso ainda tecia os emaranhados de seus cabelos anelados, flutuando e dançando em um espetáculo privado e ordinário. Como se fosse qualquer coisa.

Em sua fleuma casual, ela leu as anotações amarrotadas, uma a uma. Afinal, eram dela. Ou melhor, eram presentes rejeitados com dissabor.

Procurava nele o olhar de fogo que conhecera, encarava silenciosa enquanto a luz dava seus últimos suspiros.

Esperava, como todos os dias, a resposta para a pergunta.

Não soube quanto tempo se passou naquela espera. Naquele quarto onde a luz desistiu de brilhar, o dia e a noite e as horas e minutos se iam, indistinguíveis. Então, fez-se um único movimento — a mão que tremia colocou um cigarro à boca. Não havia gana de acendê-lo.

Então, a musa o deixou para sempre, ignorando os lábios que soltavam o cigarro ao se moverem silenciosos e débeis.

O tempo mostrará

Quando, eu não sei.

Notas finais
Contos Musicais é uma série de histórias curtas e recortes de um cenário qualquer, sobre alguém sem importância, com algum elemento fantástico geralmente inserido de modo vulgar e barato.
Serão momentos descartáveis, talvez aleatórios, de personagens casuais.
O que realmente importa são as músicas. Selecionarei, ao escrever cada texto, uma canção na qual tirarei uma inspiração qualquer, como quem sorteia um papel premiado de olhos fechados.
É a música a razão disto. Como disse um desses músicos quaisquer, "os homens passam, as músicas ficam".
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!