Sagittarius

1 You should come home


Notas iniciais
Como eu disse: não é pra fazer sentido! Continue por sua conta e risco. Alias, eu não fazia ideia de qual gênero colocar... Desculpe por isso huehuehue Boa leitura

I.

Você atira flechas para todos os lados, torcendo para que uma, pelo menos uma, acerte o alvo ou algo que chegue o mais perto disso — nem precisa, na verdade. Você ouve um barulho e espera que seja o agonizar final de um bicho. Se acertou, terá o que comer e com o que se cobrir quando o inverno — que está muito próximo, por sinal, você percebe quando olha para o céu e vê que ele tem cor de água de lavar louça — chegar. Se não acertou, bem, se não acertou você terá que caçar um coração tolo com os próprios dentes.

Após uma sucessão de erros, após atirar centenas de vezes e errar centenas de vezes, você realmente aprendeu a como fazer isso, e pegou gosto pela coisa. Todos adoram as histórias que você e seus arco e flechas têm para contar — mas apenas quem viu de perto os olhos da besta e teve o coração arrancado por você conhece a verdadeira dor.

Você não sabe nem a metade.

II.

Algumas vezes, pode acontecer em Novembro ou Dezembro, você é pego de surpresa que nem band-aid e se vê responsável pelas feridas abertas de alguém qualquer. Te toma como remédio, você escorrega pelo esôfago e se afoga em fluídos estomacais e o que diabos alguém qualquer quer que você faça? Ele devia ter lido sua bula: como ele espera que você cure dor no peito se você é feito pra febre?

Você deixa um vazio na cama de alguém qualquer e ele te olha parado na porta, casaco embaixo do braço e celular no bolso. Ele diz que sua vida é uma bagunça, mas se você ficar, ele pode arrumá-la e dar um jeito em todo o caos que você está pisando. Mas você vai mesmo assim, porque sua intenção nunca foi ficar — nunca é —, e você não seria capaz de lidar com aquele coração quebrado.

Você é analgésico. Não cura sentimental.

III.

Você decidiu sair da casa da mamãe e foi. Nada no mundo é capaz de impedi-lo em qualquer coisa que queira fazer. Você saiu com quase nada além da roupa do corpo sem nem saber onde ia parar, trotou e trotou e trotou e o que é qualquer coisa depois disso? Foi para Norte, Sul, Leste, Oeste, mas nunca houve um lugar que você pudesse se sentar e permanecer e chamar de lar. O seu lar, talvez, não exista, mas você não se importa, de verdade. Quando você aparece, de alguma forma sabem que não devem confiar em você para ficar — você é itinerante, andarilho, mochileiro, e o horizonte brilha em seus olhos feito ouro. O Universo é maior do que tudo que cabe dentro da sua cabeça, e o mundo já é grande o suficiente para te deixar fascinado.

O que mamãe te disse quando você foi visitá-la é que o mundo não é tão fantástico quanto você espera que seja, querido, você devia voltar para casa.

(Você não deu ouvidos a ela.)

IV.

Você esperava ouvir música, mas há um tipo triste e ruidoso de silêncio que vem do mundo. Você o abraçou e ele murchou em seus braços. As pessoas agora são universos em contração, e buracos negros sugam todo o resquício de luz. Cadáveres em movimento, crueldade e indiferença. Afinal, para quê temer a morte se você pode temer a vida como ela é?

Pelo menos, você ganhou algo com isso: seus dentes e garras ficaram mais afiados. E aprendeu a fazer as suas próprias flechas.

(Você devia voltar para casa.)

V.

É o apocalipse, mas você já sabia disso. Começou em você — de dentro para fora. Quando procurou um lugar para esconder-se, sob um teto ou num colo, o calor de uma fogueira para aquecer seus cascos congelados, te mandaram embora porque sabiam que era você e quem você pensa que é para criar o próprio caos e sair ileso? Ou: quem você pensa que é para puxar os outros para suas ruínas?

Os monstros chamam o seu nome e você não sabe se eles estão na multidão ou dentro da sua cabeça, mas continua correndo, correndo e correndo. O problema dos seus demônios não é que eles são mais fortes que você, e sim que eles são invisíveis. Você junta as mãos e desfia o rosário das lamentações e pede deus tenha piedade eu não pedi por isso eu não quero essa vida por favor por favor por favor—

Você atira flechas para todos os lados, mas nenhuma acerta.

É hora de caçar com os dentes. Mas não sobrou nenhum coração.

Alguém qualquer desapareceu com o início do inverno.

Mamãe morreu.

Você devia ter voltado para casa, criança.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!