Sagira
8 Capítulo 8 - Dois tipos de Morte pra você!
Notas iniciais
É a milésima vez que Perséfone suspira durante o dia.
– Qual é o motivo desse cacete de suspiro agora? — pergunto rangendo os dentes e já não suportando a atitude dela.
– Olhe o linguajar — ela me repreende com o nariz franzido — estou apenas feliz porque as coisas entre você e Eros parecem ter dado certo ontem.
– O quê? — pergunto indignada e surpresa.
– Vocês até mesmo foram ficar à sós, o que é uma surpresa vindo de uma selvagem como você — ela diz em tom orgulhoso.
– Não aconteceu nada entre a gente — eu digo irritada, tentando manter um tom convincente.
– Isso é uma pena, porque Eros vem jantar conosco hoje — ela diz sorrindo.
– Que pena, porque hoje eu vou sair pra caçar — digo sorrindo também.
Perséfone franze o cenho e parece se esquecer de que fazem décadas desde a ultima vez que saí para caçar. Meu interior se contorce de felicidade com a ideia de correr como loba e comer alguma coisa fora dessa forma humana que detesto. Meus olhos não voltarão a parecer humanos enquanto eu não me alimentar, e Perséfone parece odiar isso. São consequências do esforço para me manter sobre duas pernas quando estou livre, leve e solta para ficar de quatro.
– Eu estou faminta, Perséfone — eu digo dando ênfase no “faminta” quando vejo que ela abre a boca para protestar.
– Comida humana costumava saciar você — ela pisca confusa.
– Comida humana o tempo todo não é o suficiente — murmuro.
– Você caça, volta e participa do jantar — ela decreta se levantando da mesa do almoço e saindo do cômodo.
Me deixando sozinha com meus milhões de argumentos bons. Suspiro e tento manter a calma quando me levanto da cadeira lentamente. Minha vontade é de pegar cada móvel de madeira antigo e bater freneticamente contra as colunas gregas, além de dar um golpe de karatê nessa mesa gigantesca (aprendi durante minhas aventuras no Japão).
Mordo o lábio inferior e arrasto Tanatos em direção à sala do trono. Ignoro suas tentativas de me fazer desistir do que pretendo. Ele sabe exatamente o que quero fazer.
Abro as portas duplas de ferro negro e adentro o salão, surpreendendo meu pai que estava pensativo no trono.
– Enfie na cabeça de sua mulher que ela não é nenhuma Hera casamenteira — rosno em sua direção.
– O quê? — ele pergunta confuso.
– Ela pensa que Eros e eu devemos ficar juntos! — grito em agonia.
– Ahn?! — ele se levanta ultrajado com os planos às ocultas de sua mulher.
– Ela o convidou para jantar hoje — continuei tentando manter a calma — mas hoje eu vou sair pra caçar e ela não me deixa em paz!
– PERSÉFONE! — ele brada, já no auge de sua paciência e raiva.
– Sim, querido? — ela se aproxima segundos depois de ser chamada, como se não soubesse do que Hades queria falar…
– Cancele o jantar de hoje a noite — ele disse depois de pigarrear — Sagira não passa bem e precisa caçar.
– Mas ela pareceu muito bem ontem a noite, querido — ela rebate, ardilosa.
Engulo em seco e sei que se ela fizer meu pai acreditar que estou afim do anjinho arco-íris, ele irá apoiar essa ideia maluca.
Tanatos parece compreender meu raciocínio lógico, porque abre as asas em tom defensivo.
– Eles estavam num clima tão romântico ontem que Tanatos precisou interferir para que pudéssemos vir embora — ela continua e se abana com as mãos, os olhos brilhando em drama.
Hades franze o cenho e alterna o olhar entre Perséfone e eu.
– Bom, se você gosta dele, querida… — ele diz encabulado.
– Não! — grito desesperada — você entendeu errado, pai…
– Quero dizer, não se manda no coração — ele continua, falando mais pra si mesmo do que pra mim.
Abro a boca para argumentar, mas vejo que já perdi.
Perséfone empina o nariz e me lança um olhar de “eu venci”. Lhe devolvo com um de “vença a batalha e perca a guerra, otária!” e saio batendo os pés, com Tanatos me seguindo confuso com o que acabara de acontecer.
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Enfio meu pé esquerdo no coturno preto e tento me manter concentrada em amarrar os cadarços, mas a voz cantarolante de Perséfone parece vir das quatro paredes do castelo.
Ela está tão feliz, tão feliz que eu quase cedo e fico pra jantar essa noite.
Mas mesmo que eu tente, não conseguirei. Meus instintos estão à flor da pele. Não dá pra aguentar mais.
A noite escura, iluminada apenas pela lua lá fora parecem me chamar para uma caçada com muita correria e emoção. Como se dissesse “o que esses deuses babacas tem a te oferecer num banquete comparado à uma bela caçada ao luar?”.
Estremeço e coloco os cabelos rebeldes atras da orelha.
A porta se abre, me pegando de surpresa embora minha audição esteja ampliada.
Não ouvi ninguém chegar.
Lanço um olhar fuzilador à Tanatos, que está parado de braços cruzados na porta.
– O que foi agora? — pergunto irritada e cansada.
– Vai jantar assim? — ele pergunta desconfiado.
Olho para mim mesma e não vejo problemas em jantar vestida assim.
– Se eu fosse jantar COM VOCÊS, sim, sem problemas — respondo dando de ombros e ergo a alça da minha blusa cinza.
Meus jeans escuros e rasgados estão em estado precário, eu sei. Mas vestir algo confortável hoje é essencial.
– Então você não vai ficar — Tanatos conclui surpreendentemente inteligente.
E estou sendo sarcástica, caso não tenha percebido.
Lhe direciono um sorriso cínico.
– Eu adoraria, mas cada parte de mim pede por carne sendo dilacerada e ossos quebrando — respondo.
Ele franze o cenho, mas não parece abalado pelo que eu disse. Simplesmente coça a nuca, dá de ombros e libera a passagem do quarto.
Passo por ele, desconfiada.
– Simples assim? — pergunto lhe olhando de soslaio.
– O que? — ele não entende.
– Vai me deixar ir? — reformulo a pergunta — tipo, você vai ter que ir junto e tudo mais.
– Vamos voltar cedo e participar minimamente — ele respondeu direto e reto, me arrastando para fora do castelo de forma furtiva.
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Fora dos portões de ferro estígio, dou um grito de alegria e êxtase. Viajamos para o mundo humano e então… pulo feliz e caio no chão em forma de loba.
– Você é bem exagerada — Tanatos comenta com uma voz entediada.
Fungo e tento correr, mas ele puxa a corrente, me trazendo de volta.
Solto um rosnado, que passa completamente ignorado pelo alado da morte, então eu volto à minha forma humana para reclamar.
Mas antes que eu me levante do chão, ele me mantém aqui de quatro e ri da minha cara.
– Tanatos — rosno com a voz controlada — me solta.
Ele nega com a cabeça, num ataque de riso. Depois me encara sério com os olhos dourados subitamente se tornando prateados e de repente, estou com medo dele.
Consigo sair daquela posição e me manter a uma distância segura dele, mas ele é rápido também. Eu devia ter me lembrado de que fora Tanatos que me capturara durante minhas fugas em séculos.
Tanatos me choca contra a parede e sinto todo o oxigênio fugir dos meus pulmões.
– Tanatos, está me machucando — consigo dizer e empurrá-lo um pouco.
– É isso que eu faço, Sagira — ele diz numa voz fria — eu machuco, não sou bom.
– E porque diabos tá fazendo isso comigo? SAI! — me irrito.
– Porque você também está me machucando — ele responde depois de alguns segundos confuso.
– Quê? — pergunto sem entender nada — não fiz nada pra você, quero dizer… Se você está falando de quando quase perdeu o braço porque viajei nas sombras de forma improvisada…
– Não — ele corta, irritado — não tem nada a ver com isso, Sagie.
– Sagie??? — repito AINDA mais confusa.
Ele me solta bruscamente.
– Vá caçar alguma carne pra dilacerar — ele diz em tom autoritário e zombeteiro.
Sinto que não devo rebater, então saio correndo e olho para tras algumas vezes, só pra conferir se o Tanatos Normal voltou. Mas os olhos prateados continuam lá, acompanhando minha corrida.
Bufo e me transformo, pra logo eu me embrenhar numa mata escura e só voltar de lá muito, muito satisfeita.
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