Sagira
6 Capítulo 6 - Perséfone quer ser o cupido de Cupido
Notas iniciais
Eros é igual à Cupido.
Eros é o nome grego, enquanto Cupido é o nome romano do "mesmo" deus.
Por incrível que pareça, consigo agir normalmente perto de Perséfone. Tudo está indo como sempre fora. Exceto pelo fato de que Tanatos fica todo agitado. Suas asas batem sem parar e nesse momento, estou no chão por causa de mais um de seus chiliques.
– Controle essa asinha nervosa — rosno.– Asinha nervosa que quase perdi ontem — ele me fuzila com o olhar e eu me encolho.É palpável a culpa que sinto por tê-lo arrastado daquela forma. Mas que escolha tínhamos? Encaro seu queixo machucado e seu pulso roxo devido a coleira. Não que meu pescoço esteja muito diferente.– O que queriam falar comigo hoje a tarde? — meu pai pergunta enquanto jantamos.Tanatos pigarreia. Lanço-lhe um olhar indignado."Foi sua ideia!", grito e chacoalho a cabeça."Mas ele é SEU pai", ele diz através de um olhar certeiro e posso jurar que ele deu de ombros.– Queremos que retire a corrente — eu digo desviando totalmente do assunto que deveria ser original — está nos machucando e eu não vou mais fugir, prometo.Hades franze o cenho e sua boca se contorce numa careta. Ops. Péssimo dia para irritar o papai.– Sagira, não é assim que funciona — ele diz com uma voz retumbante.Perséfone finge tédio enquanto gira a taça de vinho pra lá e pra cá.– Funciona sim — sibilo — você enfiou esse troço em mim, você é que tem que tirar.Vejo Tanatos engolir em seco pelo canto do olho. Que se dane! Já irritei meu pai por coisas piores...– A corrente não vai sumir nunca — Perséfone intervêm.Hades lhe lança um olhar repreendedor e suplicante ao mesmo tempo.– Ela descobriria um dia — ela dá de ombros — enfim, o máximo que vocês vão conseguir é fazer com que ela se torne psíquica.– Psíquica? Tipo, eu e aquele cara teremos uma ligação eterna e psíquica? — pergunto apontando para Tanatos e arqueando a sobrancelha.– Basicamente, sim — ela responde ainda encarando a taça de vinho.– Você não tinha dito nada sobre isso — Tanatos se dirige ao meu pai, irritado e chateado.– Err... Não que eu soubesse dos efeitos colaterais. — Hades confessa.– Pai! — grito e me levanto da mesa.– Sagira, sente-se — Perséfone adverte com o cenho franzido numa expressão cansada.Afasto a lembrança de quando ela tinha a mesma expressão cansada enquanto me acalentava quando eu era uma bebê.– Me diz que essa coisa — aponto para a corrente em meu pescoço — não é uma das invenções de Hefesto!Bato o pé enquanto espero a resposta. A demora da mesma indica que sim, essa coisa é uma das invenções de Hefesto. – Bem, ele fez uma promoção e eu não sabia o que fazer com você... — ele começa envergonhado.Rosno e começo a tremer. Sinto os pelos da minha nuca se eriçarem de forma agradável e uma onda de raiva gostosa invadir meu corpo. É incrível como eu sou emotiva, mas de todas as emoções, a que mais gosto é sentir raiva pra emergir em minha verdadeira forma.– Sagira... — Tanatos se levanta alarmado.Perséfone se levanta já prevendo o que vai acontecer. O olhar dela é tão assustado e vulnerável que me choca. Tento parar a transformação e Tanatos se aproxima para me ajudar.– Não chega perto! — digo mas parece mais um gemido.– Você precisa de ajuda, Sagira — ele insiste chegando mais perto e me segurando quando começo a cair.Tento parar a transformação de novo, mas meu corpo se recusa e sinto aquelas dores típicas de novo. Costelas, coluna, estômago... tudo é massacrado.Me solto de Tanatos com uma cotovelada e caio de quatro no chão. Sentiria vergonha do meu estado se a dor não fosse maior que meu orgulho. Grito alto enquanto sinto minha coluna se recurvar.– Oh deuses... — Perséfone coloca a mão na boca.Não consigo ver se ela sente horror à mim ou ao meu sofrimento durante a transformação. Hades está ao seu lado, segurando-a para que não caia, enquanto Tanatos fica o mais perto possível de mim.– Sai de perto de mim! — grito e no final, uivo.Resolvo aceitar a transformação mas é tarde demais. Me contorço em agonia e me dou conta de que nunca antes tinha me transformado tantas vezes dentro de um período de tempo tão curto. Eu estaria ferrada pra voltar à forma humana.Engasgo e quando penso que não aguento mais, percebo que infelizmente, aguento sim."Aceite". Ouço uma voz familiar dizer em minha mente e uma dor no peito me atinge."Aceite quem você é sem culpar os outros pelo seu passado" diz a voz de novo, severa como um irmão que cuida de sua irmã mais nova.Irmão mais velho... Anúbis! Arquejo e busco oxigênio enquanto soco o chão e consigo estabilizar a transformação. Não entendo o que ele quis dizer, mas me ajuda muito.Me levanto e olho a palma das minhas mãos que sangravam, mas que agora já estão curadas. Tanatos, Hades e Perséfone estão me encarando.– O que é? — pergunto irritada ao máximo.– Você parou na metade da transformação — ele diz hesitante e coloca a mão nos bolsos.Franzo o cenho e dou de ombros.– E daí? Não é como se minha verdadeira forma fosse a bonitinha que você vê sempre — rosno e volto a me sentar na mesa.
Estou faminta e de repente, não ligo mais para minha aparência.Alguém entra no salão sem que ninguém perceba. Mas eu percebo.A pessoa continua nas sombras, até eu me irritar com a presença dando uma de todo-misterioso.– Sai daí, eu vi você entrar — aponto o garfo em direção à um pilar grego cheio de fuligem e balanço as sobrancelhas.Perséfone me olha com preocupação contida e encara o escuro, para onde apontei. Ela abre a boca para dizer algo confortador, do tipo "tomou remédio hoje?", mas a pessoa dá um passo à frente e ela arqueja.– Eros — Tanatos quase cospe o nome.Não me importo com o problema que Tanatos tem com esse cara. Ainda tem uma lasanha à minha frente. Percebo que estou mau humorada demais.– Que lua temos hoje? — pergunto casualmente ao meu pai.– Lua nova — ele responde ignorando o tal Eros também.Suspiro. Lua nova me faz ficar mais irritada.Eros pisca confuso. Pela visão periférica, reparo nele."Sou algum imã de caras alados?", é o primeiro pensamento que passa por minha cabeça. Tudo o que eu sei sobre Eros é que sua mãe é Afrodite e seu pai é Ares. E que ele é lindo pra caramba. Suas asas, ao contrário das de Tanatos, são cheias de cor.– O que faz aqui, Eros, querido? — Perséfone suaviza a voz e a expressão.Ela está totalmente hipnotizada! Bem na frente do meu pai! Franzo o cenho. Tanatos está tão rídigo que imagino que ele vá estourar.– Venho em nome de minha mãe, convidar-vos para um baile que ela está a organizar — ele sorri angelicalmente.Não contenho minha careta ao ouvir seu modo antigo de falar. Tanatos segura a risada. Para mim, multiplique Eros por mil e se todos continuarem a falar daquela forma, encanto algum haveria.– Claro, querido — Perséfone concorda e faz sinal para que ele se sente à mesa — Hades e eu iremos, não é querido?Meu pai murmura um "sim" e volta a comer. Eros sorri novamente e eu batuco a mesa, impaciente.– Mas ela não está a convidar somente o casal do submundo — ele complementa olhando para mim — minha mãe e eu adoraríamos que a adorada filha de Hades comparecesse também.Agradeço à mim mesma por não ter colocado nada na boca. Teria cuspido ao engasgar.– Sagira não pode ir! — meu pai brada finalmente saindo de sua auto-piedade por não ser bom o suficiente para obter a atenção de Perséfone com a presença de Eros.– E por que não poderia? — o anjo colorido pergunta confuso e tentando continuar sorrindo.– Porque estou presa à essa droga de corrente, com esse cara — respondo balançando a coleira e apontando para Tanatos.Nunca apreciei tanto esas desculpa. Algo me diz que não devo ir à esse baile.Eros franze o cenho aborrecido e estala os dedos várias vezes. Me pergunto o que ele está tentando fazer.– Ela não sai — Tanatos grunhe satisfeito por ver o outro falhar na tentativa.– Bom, então Tanatos vai junto — Eros cruza os braços ficando irritado.Finalmente ele falou sem aquele linguajar do arco da velha!– Bom, se Tanatos vai junto... Sagira pode ir — meu pai murmura assentindo e planejando algo que me recuso a imaginar — é, ela pode ir...Arregalo os olhos e me encosto na cadeira.– Está tudo bem, pai, eu não quero ir — balanço a cabeça freneticamente.Perséfone me lança um olhar indignado.– Mas é claro que você vai! Você vai! — ela bate a mão na mesa de forma nada elegante e depois se envergonha — desculpe, Eros...Ele dá aquele sorriso de "sem problemas". Tanatos respira fundo e nós encaramos um ao outro numa conversa silenciosa.– Acho que não custa nada nós irmos — ele disse inexpressivo.Balanço a cabeça negativamente para que só ele perceba. Algo me diz que não devo me envolver com Afrodite. Ela vai bagunçar minha vida!Rosno e Perséfone se ira.– Sagira! Onde estão os seus modos? — ela se levanta e me ajeita na cadeira.Que droga é essa? Perséfone está agindo como uma mãe que encara a fila de pretendentes para a filha... Ah não. Deuses. Ela acha que Eros e eu formamos um bom casal. Posso ver isso no olhar dela agora que estamos perto.– Não faça loucuras, Perséfone, sabe que eu não me controlo com coisas assim — digo em alto e bom tom — uma corrente dessas não vai me impedir se você pisar na bola.Ela me encara séria e eu devolvo o olhar. Qual é!– Você vai e ponto — ela finaliza e se senta elegantemente, como se a discussão não tivesse acontecido.Suspiro e cruzo os braços.– Então está combinado — Eros dá um sorriso satisfeito — nos vemos por aí, Sagira."Nos vemos por aí" nunca pareceu tão ameaçador para mim. Reviro os olhos e murmuro uma despedida para os que estão na mesa. Tanatos tem que me seguir.Quando ficamos presos um ao outro, me recusei terminantemente a dormir no mesmo quarto que ele. Então nos mudamos para quartos que ficam um ao lado do outro, assim esticamos a corrente e deixamos a porta aberta. A privacidade é fantástica.– Ele vai seduzir você — Tanatos diz antes de entrar em seu quarto.– Ele vai tentar — rosno mostrando os caninos que sei que estão à mostra.Ele ri e se despede com um aceno de cabeça. Faço o mesmo e logo estamos dormindo.
Notas finais
Me desculpem se houverem erros de português ou tempos verbais. Escrevi correndo e essa é a única fic que escrevo no "presente". Então quando eu escrevo várias fics por dia (como hoje...) buga o cérebro hahah.
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