Sagira
3 Capítulo 3 - A teimosia da vida
Notas iniciais
Já faz uma semana que estou presa em uma coleira. Como se não bastasse, sou arrastada para as tarefas árduas de Tanatos. Seria bom se ele simplesmente me deixasse de camarote, mas como sempre, estou ajudando-o a recolher os que morrem tranquilamente.
Não acho necessário dizer que ele é o deus da morte. Aliás, eu digo que ele é a própria Morte. Que seja. Ele está me olhando com uma cara nada boa.
– Que é? – pergunto irritada.
– Você deixou a garota escapar – ele responde.
– Mas você a pegou, então tudo bem – respondo dando de ombros e olhando pra garotinha de aproximadamente 13 anos, que agora acompanha Tanatos com cara emburrada.
Se você pensa que ver crianças mortas procurando que caminho seguir pra chegar ao submundo é algo triste, está enganado. Aquela garotinha gostava de ficar no mundo humano atormentando adolescentes e causando problemas. Ela não queria partir.
E tenha certeza de que existem muitos outros assim também.
– Essa era sua parte – ele argumenta franzindo o cenho.
Dou alguns tapinhas em seu braço musculoso. Tanto pra enfatizar o que tenho a dizer, quanto pra conferir se ele é tudo aquilo mesmo. Não tem como alguém ter lindos olhos dourados, cabelos de dar inveja em qualquer celebridade, músculos de tirar o fôlego e um par de asas negras pra combinar. Reviro os olhos pra mim mesma. Estou sendo tão patética quanto as garotas de romances platônicos, e olha que não, não estou apaixonada por Tanatos. A idéia me faz ter vontade rir eternamente. E "eternamente" é muito tempo.
– Você é forte, aguenta – pisco fazendo-o ficar lisonjeado.
Mas não dura muito tempo. Tanatos não se deixa levar por elogios ou por qualquer tipo de charme.
Me arrependo de ter tentado bajulá-lo. Ele joga a garota em minha direção e quando eu a agarro soltando um palavrão, ele bate as asas com força e viaja nas sombras, me arrastando junto.
Viajar nas sombras é muito bom. É reconfortante. Faz um filho de Hades se lembrar de quem ele realmente é e dos infortúnios que sofreu na vida. E dos que um dia sofrerá. Pode parecer sarcástico, mas é realmente muito bom. Como se Viajar fosse algo que você quer fazer pro resto da vida.
Mas não quando se está com uma coleira de cachorro no pescoço e sendo conduzida por um deus da morte que sabe que você não morre e por isso mesmo não se importa em te arrastar em uma Viagem. Pouco importa pra ele se metade de mim for pra um lado e o resto pro outro!
– TANATOS – rosno furiosa.
Ele vira o rosto em minha direção enquanto ajuda a garotinha a se levantar.
– Sim? – ele pergunta calmamente.
– VÁ PRO INFERNO – grito me levantando e batendo o pé.
– Já estou nele – ele suspira.
Quando penso que se trata de alguma piada sobre o submundo, ele completa:
– Afinal, tenho que ficar com você o tempo todo.
O encaro com raiva. Tanta raiva que... Meu corpo está arrepiado e quando vou xingá-lo, não são palavras que saem da minha boca. São rosnados. E estou sobre quatro patas, embora eu ainda tenha 1,60 m.
Estou na minha forma de loba que era pra estar selada.
Entro em desespero. Meu pai não pode saber que o selo foi quebrado. Se ele souber...
Se ele souber, terei que encarar minha mãe. Como há dois séculos.
~Flashbacks
– O que você está fazendo aqui? – ouço minha mãe sussurrar com raiva e nojo exalando pelos poros.
Ela é a deusa mais amável, dócil e benevolente do Egito.
Até eu aparecer e ela se tornar a pior.
Aquilo como sempre, me magoou. Eu quero tanto, tanto e tanto que minha mãe me ame... Ou que ao menos me aceite como meu pai. Mas ela insiste em me repudiar. Me exilar. Eu tenho de ficar longe de Anúbis por culpa desse seu ódio. Meu irmão é coisa mais importante que eu tenho em minha vida e ela o tirou de mim mesmo assim.
– Estou com problemas em controlar Sagira – meu pai diz apressadamente – ela se transforma em loba e se tranca no quarto o tempo todo... Ou foge pra longe, pro meio dos humanos.
– Pois sele esta praga, sele a forma lupina dela – ela grunhe puxando os cabelos da nuca – se os outros souberem que ela ainda vive...
– Ninguém saberá Néftis – meu pai a consola.
Rapidamente, ela entoa um feitiço. Sem se preocupar se está fazendo certo. Sem pensar nas palavras que vai usar. E eu começo a chorar enquanto a ouço cantar em egípcio, porque ela quer que eu morra. Como loba, tenho instintos a mais e sei o que as pessoas sentem. Ela me odeia mais que tudo.
– Está feito – ela diz rispidamente – leve essa cachorra daqui.
– Não fale assim dela – diz uma voz severa atrás de mim.
Me viro. É Anúbis e felicidade me define. Contenho o sorriso que tenta escapar de meus lábios, porque sei que ele não está aqui pra me dar um abraço. Ele quer se certificar de que nossa mãe não me mate.
– Nunca mais fale assim de Sagira – ele rosna e vai embora.
Anúbis é parte de mim. Ele pode ser um chacal e eu uma loba. Ele pode ser o deus de tudo relacionado à morte, enquanto eu sou a teimosa vida, mas através de uivos por muitos anos nós nos comunicamos. Era assim até Néftis decidir que minha vida era mais do que insuportável: era inadmissível.
E de repente, eu não estou mais magoada.
Eu estou quebrada. E ninguém mais pode me juntar de novo.
– Sagira! – Tanatos me sacode com um olhar preocupado e desconfiado, tendo o cuidado de ficar longe de meus caninos.
Odeio lembranças. São... Empecilhos. Me impedem de seguir em frente, de me conformar com o que sou.
De volta ao presente, desmaio.
Também odeio desmaiar.
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