Sagira

23 Capítulo 23 - Emboscada de lobos


Notas iniciais
Tentei escrever outras fics hoje, mas tô afim de Sagira! haha espero que gostem :p

Acordo e resmungo palavras incompreensíveis até a mim mesma.

Passo as mãos pelo colchão, procurando embrulhar minha cabeça e evitar que essa luz infernal continue a queimar meus olhos.

A cama é demasiada macia e me sento num pulo, desperta.

Não estou no Hades.

Não estou no Duat.

Franzo o cenho e olho ao meu redor.

A cama tem um dossel negro que vai até o chão.

O lençol e os travesseiros são igualmente pretos e tenho de admitir que são lindos.

Mas não faço ideia de onde estou.

Levanto e corro para a porta.

Tento abri-la, mas parece impenetrável.

Chuto a mesma, irritada.

Corro para a janela.

É grande, ocupa metade da parede e…

Cheia de barras de metal.

Tento usar minha força para arrombá-las, mas não consigo.

Não entendo como pode entrar tanta luz destas frestas.

Semicerro os olhos e me viro, com os instintos à flor da pele e na defensiva.

A porta se abre e Cronos entra.

— Se quer sair é só dizer, querida — ele sorri — aliás, bom dia.

A cada passo que ele dá em minha direção me esforço para não recuar.

— Tanatos não virá por mim — digo, sem me importar com suas gracinhas.

— É disso que tenta se convencer todos os dias? — Cronos sorri — de que não está apaixonada por ele?

Franzo o cenho.

— Do que está falando? — pergunto.

Ignoro o formigamento pelo meu corpo e recuo um passo.

— Não pode ser TÃO ingênua, Sagira — num segundo ele está diante de mim.

Seguro a respiração quando ele solta meus cabelos do rabo de cavalo habitual.

— Nunca parou pra pensar no motivo de todos quererem você? — ele pergunta e se afasta.

Ergo a cabeça e sinto meu corpo ficar tenso.

— Sua selvageria encanta — Cronos diz — até mesmo a mim.

— Selvageria? — pergunto.

— O que tem dentro de você — ele sinaliza em minha direção com o indicador — é diferente de qualquer coisa que qualquer deus já viu ou imaginou.

— Está dizendo que sou um monstro — resumo.

— A concepção de “monstro” hoje em dia está bem alterada — ele revira os olhos.

— Ninguém me deseja de fato — rosno — ninguém deseja um monstro.

— Diga isso ao querido Tanatos — Cronos sorri — ele está vindo para cá agora mesmo, não é o que você faria por ele também?

— Eu salvaria Tanatos e quem quer que eu possa salvar — cruzo os braços — não blefe comigo.

Cronos dá de ombros e abre as portas do quarto.

A vista do oceano é incrível.

Me pergunto o que Poseidon acha disso: Cronos em alto mar.

— Não seja tola — o titã sorri, adivinhando meus pensamentos — nós estamos no Mar Vermelho.

Sinto um piano cair em meu estômago.

Anúbis, Hórus… Eles correm risco.

Não podem vir até a mim.

— Como você mesma disse, Pequenina — Cronos sai do quarto — você fará qualquer coisa pra salvar quem poder.

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Narrado por Tanatos.

— Cronos está com ela! — grito.

Não me contenho.

Estão me olhando como se eu estivesse louco.

Talvez eu esteja?

Sinto Sagira em minha mente.

Ela tenta me dizer pra nunca, em hipótese alguma ir atrás dela.

— Iremos recuperá-la — Afrodite diz, tentando me acalmar — não posso permitir um absurdo desse com minha nora, mas planos devem ser feitos.

— … não acredito que ele voltou e veio atrás DELA — ouço uma ninfa sussurrar.

Fuzilo a fonte da voz com o olhar.

— Tanatos — Perséfone me adverte.

Sagira.

Somente ela tem a capacidade de fazer meus olhos retornarem à cor fria da morte de outrora.

Somente ela me tira do sério e me deixa louco.

Eros está com as asas coloridas inquietas.

Ele mantém seus olhos vidrados no vazio, preocupado.

Sua preocupação me irrita.

Ele não estava lá quando a deusa-loba precisou ser aceita novamente no submundo.

Claro que não.

— Nós a recuperaremos — Zeus diz, pacientemente.

O que há pra recuperar?

Sagira não é um objeto.

Todos os deuses estão reunidos, mas não é por ela.

“Sagira é dispensável’.

“Sagira é substituível”.

“Pobre híbrida”.

É tudo o que eles pensam.

Os olhos azuis de Zeus repousam sobre mim.

— Acalma-te, Tanatos — ele diz — mantenha a ordem natural das coisas.

Fecho minhas asas e faço uma reverência.

Preciso pensar, longe do cheiro de néctar que inunda o grande salão.

Me deito sob algumas árvores alaranjadas depois de andar por alguns minutos.

Uma sombra cai sobre mim e sinto sono, mas não cedo.

— Hypnos — cumprimento meu irmão com um aceno de cabeça e me sento.

Ajeito as asas, dando-lhe espaço.

Meu irmão retribui o aceno e se senta ao meu lado.

Seus olhos caídos e cabelos longos nunca mudam, não importa a era em que vivamos.

— Sagira corre perigo, eu sei — digo, já adivinhando o que ele dirá.

— Não é só ela, meu irmão — Hypnos me encara.

Trinco o maxilar.

— Eu sei — respondo somente.

Claro que eu sei.

Só um tolo não saberia que se apaixonar por Sagira é uma emboscada de lobos.

Não me entenda mal.

Eu sei o que sinto.

Sei que a quero, e isso é errado.

Me rasga por dentro vê-la sendo obrigada a fazer coisas que não quer.

Vê-la sendo obrigada a prestar contas diante de pessoas que desprezam sua existência.

Mas é necessário, além disso, já me apaixonei antes.

A profecia prevê que Eros é seu futuro.

Só um par de asas coloridas pode salvá-la do que está por vir.

Amores vêm e vão.

A Morte não.