Sagira
17 Capítulo 17 - Entre "não ser capaz" e "não querer estar"
Notas iniciais
Encaro meu reflexo no espelho com desgosto.
Depois da pergunta idiota de Hórus, a imagem de Tanatos me assombrou durante o sono e não fui capaz de dormir adequadamente.
As olheiras gigantes que forma uma bolsa embaixo dos meus olhos são a prova disso.
Faço a minha higiene sem pressa alguma. O bom de estar no Duat é que ninguém requisita minha presença. Eu não tenho que cumprir ordens ou qualquer coisa do tipo.
É como estar de férias no mundo inferior.
Me dou conta de que tanto no Hades quanto no Duat, eu fora levada à força.
Bufo e me troco, dessa vez sem demorar.
Ao abrir a porta, dou de cara com Hórus, que parece nervoso.
– Posso perguntar o que está fazendo aqui? — pergunto de forma grosseira.
Ele tropeça nas palavras enquanto pensa no que responder. Arqueio a sobrancelha e Hórus suspira.
– Você dormiu por dois dias, então eu sempre vinha me certificar de que estava bem — ele responde.
– Certo, obrigada — pisco, surpresa.
Ele assente e coça a cabeça. Reparo que cortou o cabelo, ficando quase careca e abafo o riso.
– Eu andei pesquisando com Toth a causa da sua fraqueza — ele diz enquanto andamos rumo à cozinha.
– Eu não estou fraca — minto.
– … e isso ainda é um mistério — ele continua, ignorando o que eu dissera — parece que fatores psicológicos estão envolvidos.
– Eu estou bem — insisto — não preciso de um psicólogo nem nada.
Hórus para de andar, e tenho que fazer o mesmo.
Ao encontrar seu olhar, me surpreendo com a seriedade e preocupação concentrados nele.
– Sagira, você não está nada bem — ele teima — sei que se regenera com uma rapidez incrível, mas algo está errado com você.
– E o que você acha que é? — rosno, irritada.
Ele fica em silêncio e cruzo os braços, incentivando-o a responder.
– Talvez esteja sentindo falta do seu pai — ele responde.
Mas não parece ser isso que quer dizer. Franzo o cenho, desconfiada.
– Ou de Tanatos — ele diz finalmente.
Suspiro, exasperada.
– Eu estava perfeitamente bem antes de começar a ser arrastada pra lugares onde não quero estar — explodo em raiva — então pare de agir como se eu fosse uma garotinha apaixonada com saudades do amado, porque eu NÃO sou.
Sinto algo fervilhar dentro e mim e um rosnado baixo sai involuntariamente da minha garganta.
Me afasto de Hórus e me apoio na parede.
Ele tenta se aproximar novamente, mas ao ver meu rosto contorcido, permanece onde está.
Solto um grito de dor quando meus caninos saem para fora, rasgando minha gengiva e o desespero toma conta de mim quando tenho certeza de que me descontrolarei novamente.
“Não, não”, eu repito para mim mesma, com o intuito de me acalmar. De dizer ao meu corpo que sou eu quem mando, e que não quero que isso aconteça no momento.
Respiro fundo até me sentir bem novamente e suspiro.
– Eu sou amaldiçoada, Hórus — resolvo lhe contar, olhando no fundo de seus olhos bicolores e iridescentes que ficam cada vez mais desapontados — não sou capaz de me apaixonar, muito menos de amar.
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