Sagira

15 Capítulo 15 - Entre as vidas que prefiro


Resmungo e me espreguiço. Dou graças aos deuses pelo fato de não haver nenhum raio de sol entrando pela janela e batendo na minha cara.

Pensando bem, no castelo do papai eu também não sofria disso.

Dou de ombros e deixo o pensamento de lado.

Estou no Duat. E é incrível.

– Sagira — uma voz grave, hesitante e conhecida chama batendo na porta.

Minha respiração se acelera e espero que ele me chame mais uma vez.

– Não sei se está acordada — ele continua — mas se estiver, venha tomar café conosco.

Me levanto da cama num pulo e abro a porta de supetão, encarando seu rosto pálido como o meu, numa expressão surpresa.

– Ann! — grito e pulo em cima dele, agarrando-o num abraço apertado.

Ouço sua risada baixa ecoar e sinto suas mãos fazendo carinha em minhas costas, como quando eu era pequena e tinha dificuldades para dormir.

– Ei, já pode me soltar — ele diz pigarreando.

Eu o solto e dou um sorriso tímido de desculpas.

Convido-o para entrar no quarto.

– Preciso tomar um banho e me trocar — justifico e ele dá de ombros.

– Keb disse que chegou ontem ao entardecer — ele puxou assunto, sentando na cama para me esperar.

Ligo o chuveiro e começo a me lavar.

– Quem é Keb? — pergunto distraída, semicerrando os olhos para tentar ler os hieroglifos no azulejo lápis lazuli.

Sem sucesso. Sou uma egípcia de araque.

– Kebechet — ele responde como se fosse óbvio — minha filha…

Há uma pontada de culpa na ultima frase. Como se ele acabasse de perceber que o fato de nunca ter mencionado sua esposa e filha para mim antes, fosse algo importante.

Resolvo ignorar.

– Na verdade, Hórus me raptou bem de madrugada, eu estava tentando DORMIR no CASTELO DO MEU PAI — rosno, colocando ênfase em certas palavras e coloco um punhado de xampu qualquer no meu cabelo loiro oxigenado.

– Raptou? — ele pergunta, confuso.

Posso até imaginar Anúbis com o cenho franzido e os lábios comprimidos numa linha fina. Ele fica assim quando não compreende algo e não gosta disso.

Deixo escapar um riso fraco.

– Pensei que tivesse vindo por vontade própria — ele murmura para si mesmo.

Ele pensou que eu tivesse me rebelado quanto ao exílio que nossa mãe me impôs. Que eu tivesse mandado o “foda-se” pra mulher que ordenou que eu me mantesse longe do lugar onde nasci e tivesse vindo de qualquer jeito.

O exílio é uma ordem absoluta, que se quebrada, resulta em pena de morte.

E mesmo assim, aqui está ele me recebendo com um abraço e esperando que eu termine meu banho para podermos tomar café da manhã juntos, como uma quase-família.

Fecho o chuveiro e me enrolo na toalha.

– An — chamo sua atenção e abro a porta do banheiro — eu jamais faria isso.

Ele abaixa a cabeça.

Não porque estou de toalha, na frente dele. Sou sua irmã, dãr! É pelo que eu digo.

– Eu sei que não faria — ele dá um sorriso fraco — nunca fez, em todos esses séculos, por que faria agora?

Assinto, concordando e abro o closet com pegadores cor de rosa, selecionando um short jeans destruído e uma blusa preta. Os visto no banheiro e digo à Anúbis que estou pronta.

Não calço nada. Não é incomum ver An descalço, então imagino que eu possa fazer o mesmo.

Até porque não tenho sapatos.

Hórus me raptou em meu sono de beleza e tudo mais. Ou seja, sem sapatos pra Sagira.

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– Então você é Sagira — Anput divaga, me olhando dos pés à cabeça.

Por ser apenas a versão feminina de An no Duat, eu esperava que ela fosse gostar de mim. Ainda torço interiormente por isso, na verdade.

– Bom — ela bate palmas e sorri animada — eu estava ansiosa pra te conhecer, Anúbis fala de você cada vez mais a cada século que se passa.

Ela lança um olhar feio à An, que dá de ombros e encara o vazio, fingindo estar desinteressado no assunto.

Mas suas orelhas levemente pontudas se mechem, atentas à qualquer palavra.

Abafo o riso e ouço uma cadeira se arrastar.

Kebechet acaba de se sentar à mesa e começa a passar manteiga de amendoim no pão.

– Keb, cumprimente sua tia — Anput repreende.

– Olá Sagira — ela diz com um sorriso franco e volta sua atenção para a comida.

– Olá — murmuro de volta.

O ambiente se torna agradável com a chegada de um homem de pele tão escura que puxa ao azul.

Deve ser Osíris.

– Certamente és irmã de Anúbis — ele diz com uma voz grave e animada — tens o mesmo olhar rebelde dele.

An revira os olhos e toma uma xícara de café extra forte. Sei que é porque sinto o cheiro de onde estou.

Osíris me dá um peteleco e se apresenta formalmente. Sorrio. É o tipo de pessoa que se risse, eu riria junto.

– Minha mulher, Ísis, pede desculpas mas não poderá nos acompanhar na refeição da manhã de hoje — ele continua com uma expressão pesarosa.

Reparo sua mania de usar um linguajar antigo, mas ao contrário de quando Eros usa, não é irritante nem nada.

Mas por que estou lembrando de gregos quando deveria estar celebrando minha pequena experiência como egípcia?

Balanço a cabeça e dirijo minha atenção aos tamarindos à minha frente. É minha fruta favorita.

A mesa animada subitamente é silenciada com a chegada de dois indivíduos. Um deles eu reconheço.

Seus cabelos negros e cheio de pedras preciosas emolduram seu rosto moreno e suave. Seus olhos azuis, delineados cuidadosamente vasculham a sala e seu olhar para em mim.

Congelo no lugar e de repente, me parece que todo o tamarindo que ainda não comi será colocado para fora.

Mas então, ela simplesmente me ignora, como se nem tivesse me enxergado.

Senta-se à mesa, sorri para todos e age como se nessa cadeira ao lado direito de Anput não houvesse ninguém.

O homem careca e moreno ao seu lado possui olhos vermelhos e delineados.

Tem cheiro de… tragédia. Torço o nariz involuntariamente e vejo pelo canto do olho, seu cenho se franzir.

– Pai, coma — Anúbis pede, empurrando uma tigela de tamarindos em direção ao careca, que o ignora completamente.

O pai de An… Tento me lembrar do nome dele. Sei que não tem boa fama e é responsável apenas por maus atos, mas que ama a esposa acima de tudo. Eu me lembro das histórias...

Seth, irmão de Osíris. Minha mente estala quando me lembro de seu nome e ele imediatamente, sorri quase amigavelmente.

Como se soubesse que eu o havia esquecido e estivesse satisfeito com o fato de eu ter lembrado.

Desvio o olhar e mordisco um tamarindo.

– Onde está Hórus? — An pergunta, abrindo um sorriso forçado — preciso conversar com ele.

Néftis encara o filho com uma expressão de “tome cuidado, não faça bobagens”, do tipo que toda mãe lança à cria quando sabe que haverá encrenca.

Anúbis simplesmente dá de ombros.

– Ah, aquele moleque — Osíris estala os dedos e solta uma sonora gargalhada.

Para um deus confinado a viver no Duat pelo próprio irmão, ele é bem feliz.

– Ele disse alguma coisa sobre visitar Toth em busca de algum livro que ensine magia — Osíris continuou — deve ser pra Pequenina.

Estranho o fato de ele ter usado o real significado do meu nome, ao invés de dizê-lo.

Na verdade, tenho um dejavu que resolvo ignorar, pois agora Néftis me encara com total desprezo.

– Nosso faraó certamente é generoso, se preocupando com uma exilada — ela força um sorriso dócil.

Anúbis trinca o maxilar e Anput segura sua mão por de baixo da mesa, impedindo-o de se levantar.

– Um exílio que você impôs injustamente, sem a permissão ou apoio de ninguém — uma voz com raiva contida ecoa.

Todos os olhares se dirigiram à Hórus, que entra com os braços tatuados cheios de livros e pergaminhos velhos. O próprio deus está empoeirado da cabeça aos pés, como se tivesse passado horas revirando páginas amareladas e poeirentas à procura de algo.

Franzo o cenho. O que ele disse?

– Sagira tem minha permissão para voltar ao Egito — ele continua — na verdade, fui eu quem a trouxe, fui buscá-la pessoalmente.

Ouço Ísis abafar o riso e farejo seu cheiro. Orgulho. Está orgulhosa do próprio filho.

Os olhos de Néftis faíscam, mas ela abaixa a cabeça, submissa ao seu faraó.

– E por que? — Set pergunta, debochado e se pronunciando pela primeira vez.

Pela sua expressão e seu tom de voz, percebo que não é do seu feitio ficar calado. Ele está selado, com um feitiço de controle imposto por Osíris.

– Bem, eu…. — Hórus procura palavras e parece desconfortável.

– Ótimo, você me trouxe aqui e nem sabe para quê — solto e bufo.

Ísis me encara, surpresa. Como se eu fosse a bocuda aqui. Já Osíris desata a rir e bate as palmas das mãos na mesa, com força, tentando parar de gargalhar.

– Eu gosto dessa garota, filho! — ele consegue dizer em meio ao riso — certamente seria uma boa rainha pra você!

Franzo o cenho ao constatar que Hórus desvia o olhar e Anúbis bufa, indignado e ultrajado.

As coisas são sempre agitadas assim por aqui?

Me lembro de como estava levando a vida no Hades.

Todas as manhãs, Tanatos me arrastava para cima e para baixo (literalmente) à procura de algum espírito fugitivo e de pessoas à beira da morte. Era rude comigo quando bem entendia, e gentil quando eu menos esperava.

Mas ainda assim, entre minha vida no Hades e minha pequena experiência aqui no Duat, não consigo decidir qual prefiro.

– Sagira? — Hórus me chama a atenção, irritado.

– O que disse? — pergunto, piscando confusa.

– Que deixarei isso no seu quarto — ele repete — te ensinarei mais tarde.

Assinto e volto a mordiscar tamarindos.

Faço uma lista mental de motivos para preferir o Duat e adiciono o fato de Tanatos não estar aqui para me infernizar com seus belos olhos, humores inconstantes, asas negras que me protegiam sempre que um monstro me pegava desprevenida, sua beleza incomparável e seus músculos definidos. Bom, ao menos Hórus também é bonitinho e tem músculos definidos…

Espera, quando foi que notei isso?

Balanço a cabeça e volto minha atenção ao verdadeiro sentido da lista.

Que seja.

Nós não temos tamarindos no Hades.

Notas finais
Hmmmmmmmmmmmm.