​A notícia caiu como uma bomba no café da manhã de Lorenzo. Aria, elegante em seu robe de seda, deslizou um convite de papel de algodão com bordas douradas sobre a mesa.

​— Convidei os Thorne para o jantar de gala da Fundação amanhã à noite — disse ela, calmamente, tomando um gole de seu chá. — A mãe de Maya, Sarah, é uma enfermeira brilhante e a fundação está interessada no projeto comunitário que ela gerencia.

​Lorenzo quase engasgou com a torrada.

— Você fez o quê? Mãe, ela me odeia! Ela acha que eu sou um troglodita com conta bancária.

​Dante, atrás do seu jornal, deu um sorriso de lado que Lorenzo reconheceu bem.

— Então prove que ela está errada, Lorenzo. Ou será que o herdeiro dos Vancamp-Moretti foi finalmente derrotado por uma garota com um livro de astrofísica?

​A Chegada dos Thorne

​Na noite seguinte, a mansão estava deslumbrante. Lustres de cristal, o som de um quarteto de cordas (que Aria insistia em manter como tradição) e a elite de Chicago circulando.

​Lorenzo estava encostado a uma pilastra, vestindo um terno sob medida, mas com os cabelos levemente bagunçados e o olhar entediado. Até que a porta se abriu.

​Maya não usava um vestido de baile bufante. Ela estava em um vestido preto simples, de corte reto, que realçava sua pele clara e o contraste com os cabelos escuros. Os óculos de grau haviam sido substituídos por lentes, revelando olhos castanhos afiados que escaneavam o salão como se estivessem analisando um experimento de laboratório.

​— Feche a boca, Vancamp. Entra mosca — disse ela, passando por ele sem parar.

​O Confronto no Terraço

​O jantar foi um suplício para Lorenzo. Ele teve que assistir Maya conversar animadamente com Aria sobre música clássica e com Dante sobre investimentos em tecnologia espacial. Ela era brilhante, e o pior: ela não estava nem um pouco impressionada com o brilho do ouro ao seu redor.

​No meio da noite, ele a seguiu até o terraço. O ar estava frio e o céu limpo.

​— Veio conferir se o telescópio que eu te dei consegue ver o seu ego daqui? — provocou ele, parando ao lado dela.

​Maya suspirou, apoiando os cotovelos no parapeito de pedra.

— Sabe o que é engraçado, Lorenzo? Seus pais são lendas. Eles construíram um império sobre as cinzas de uma guerra. E você... você parece estar tentando desesperadamente transformar tudo em cinzas de novo só para ver se alguém te nota.

​Lorenzo sentiu o golpe. Foi direto no ponto que ele tentava esconder com as corridas e as brigas.

— Você não sabe nada sobre mim, Maya.

​— Eu sei o suficiente. Sei que você toca guitarra escondido na garagem quando acha que ninguém está ouvindo. E sei que você toca com a mesma raiva que sua mãe tocava violoncelo antes de encontrar a paz. — Ela se virou para ele, a luz da lua batendo em seu rosto. — Mas enquanto você for apenas o "filho rebelde", você vai ser a parte menos interessante desta família.

​Lorenzo deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. A tensão elétrica era quase física.

— E o que eu teria que fazer para ser "interessante" para você, Maya? Resolver uma equação de segundo grau? Me tornar um CDF?

​Maya sorriu pela primeira vez. Não foi um sorriso de deboche, mas um desafio puro.

— Você teria que ser você mesmo. Sem o sobrenome, sem a moto, sem o dinheiro. Mas acho que você tem medo demais de descobrir quem esse cara é.

​Ela se afastou, deixando o cheiro de limão e canela no ar. Lorenzo ficou sozinho no escuro, o coração martelando contra as costelas. Ele queria gritar de raiva, mas, pela primeira vez na vida, ele queria algo muito mais difícil: ele queria que Maya Thorne o olhasse e visse Lorenzo, não o herdeiro.