Saga: Herança de Ódio Livro 2: O Acorde Rebelde
1 Capítulo 1: O Muro de Vidro
O ronco do motor da Ducati de Lorenzo cortou o silêncio da manhã de domingo na Gold Coast. Ele estacionou de qualquer jeito, tirando o capacete e sacudindo os fios ruivos, agora rebeldes e mais escuros, que caíam sobre os olhos.
Ele estava pronto para entrar em casa e enfrentar mais um sermão de Dante sobre "responsabilidade", quando algo — ou melhor, alguém — chamou sua atenção na propriedade vizinha.
Uma garota estava sentada no parapeito da janela do segundo andar da mansão Thorne. Ela tinha um telescópio ao lado e um livro grosso no colo. Não usava maquiagem, e o seu cabelo castanho estava preso num coque desleixado.
Lorenzo, acostumado a ter todas as raparigas da escola a suspirar por um olhar seu, encostou-se na mota e deu o seu sorriso mais convencido.
— Ei, Julieta! — gritou ele, cruzando os braços tatuados (uma rebeldia que Dante, ironicamente, não pôde proibir). — O telescópio é para me vigiar ou as estrelas são mais interessantes que eu?
Maya nem sequer levantou os olhos do livro. Ela apenas virou a página calmamente.
— As estrelas estão a milhões de quilómetros de distância e, ainda assim, conseguem ser menos vazias do que o teu ego, Vancamp.
Lorenzo travou. Ninguém falava assim com ele. Nunca.
— Tu sabes quem eu sou? — perguntou ele, aproximando-se da grade que separava as propriedades.
Desta vez, ela olhou. Por trás das lentes dos óculos, os olhos dela eram de um castanho frio e analítico.
— Sei. Tu és o rapaz que acorda a vizinhança inteira porque precisa de atenção constante. Sugiro que leias algo sobre o Efeito Doppler. Talvez assim entendas que, quanto mais rápido te fores embora, menos eu tenho de ouvir esse barulho insuportável.
Ela voltou para o livro, fechando a janela de vidro duplo logo em seguida, deixando Lorenzo parado no jardim, com o sorriso morto no rosto e o coração a bater num ritmo que ele não conhecia.
O Desafio
Lá de dentro, Aria observava a cena pela janela da sala. Ela sorriu para Dante, que apareceu logo atrás com um jornal na mão.
— Ele finalmente encontrou alguém que não se curva, Dante — comentou Aria, lembrando-se de como ela mesma era quando conheceu o marido.
— Ele vai enlouquecer — respondeu Dante, com um brilho de diversão nos olhos. — O nosso filho herdou a tua teimosia, Aria. Mas parece que a vizinha herdou o meu gelo.
Lorenzo entrou em casa furioso, chutando os sapatos.
— Quem é aquela miúda da casa ao lado? Ela é... estranha.
— O nome dela é Maya — disse Aria, calmamente. — Ela é bolsista em Harvard aos 17 anos. E, pelo que vi, Lorenzo, ela é a primeira pessoa que te enxergou de verdade.
Lorenzo subiu as escadas sem responder, mas o seu pensamento estava preso na rapariga da janela. Ele sempre teve tudo o que quis, mas Maya Thorne era uma equação que ele não sabia resolver. E, para Lorenzo Arthur, não havia nada mais viciante do que um problema sem solução.
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