Notas iniciais
Boa leitura!

"Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar das fontes igual à deles; e era outro o canto, que acordava
o coração de alegria
Tudo o que amei, amei sozinho. "

Edgar Allan Poe

Era noite de halloweenenada mais. Quando a aurora cruzou o tempo, fazendo cair sono para os mortais, uma felicidade estranha fez brotar sorrisos em rostos pálidos. Um encontro de almas opacas, vítimas notívagas... jovens. Ah! Jovens e mais jovens eles aglomeravam-se aos montes naqueles corredores e saletas e aquela casa metida em um subúrbio enchia-se mais e mais. E havia movimento na porta; entravam e saíam dos cômodos como que em um frenesi. Um bando de estereotipados chegou e outro de nerds chapados foi-se embora. A decoração da festa era como um clichê, entediante. O brilho das luzes de néon refletia um vazio que todos buscavam esquecer, mas estava ali latejando, como sempre. Sem dar a mínima, jovens casais extrapolavam ali mesmo; naquela pequena sala, cercados por dezenas de desconhecidos. O amor os prometera uma juventude eterna.

Sucedendo-se assim, o surgir de uma moça jovem formosa aos olhos; tinha jaspe em seu olhar e sua pele era como cobre, tinha corpo longínquo e um cabelo castanho-claro mui volumoso. E logo que entrou, o que trajava foi hipnótico a todos. Todavia, seu olhar era mórbido, tétrico pois ela era nobre aos outros e fraca a si mesma. O lugar inescrupuloso fazia jus à reputação dos miseráveis, chapados e insólitos seres viventes que frequentavam um mesmo colégio. Maiorias estereotipadas versus insólitos versus nerds. Um festim, um verdadeiro templo de hipocrisia! Caindo sobre o sofá fedorento, a jovem, que tinha nome e era Gênesis, ingere um pouco mais de cerveja.

Era outono e todos vestiam-se com tons pastéis de bege e verde, a adolescente mirou as horas no celular eram quase uma da manhã.

Quando uma nova música soou, Gênesis dirigiu-se sobre a multidão fazendo movimentos leves com seu corpo, intensificando-os para acompanhar o rápido ritmo eletrônico da música, seus pés descalços deixam o chão vez ou outra. Os cabelos estavam desgrenhados e um tênue sorriso brincava no canto de seus lábios. Gênesis finalmente entregou seu corpo à noite e assim ele fez; o movimento da garota era agitado e sensual, similar aos das batidas. Ela vivia pelo que era, apenas por quem era.

—Gee! –Ouvindo um grito desesperado, a jovem olhou ao seu redor. Avistou Emma, uma amiga que estava indo em direção a ela.

—Oi, Emma. O que houve?

Emma era uma garota grande e ruiva com bochechas levemente rosadas e media menos do que um metro e sessenta.

—Seu irmão, Christian, me ligou. Ele pede para que você vá ao hospital, agora.

—Porquê?

—Eu não sei. –A garota ruiva replicou. —Christian está preocupado demais com você. Vá logo! –Gênesis anuí com a cabeça, joga sua jaqueta preta sobre os ombros e sai desesperadamente dali.

▪ ▪ ▪

As ruas do subúrbio eram sujas e vazias, uma bela paisagem perdida entre o caos e o abandono, uma figuração bem retratada de Gênesis naquele instante. Magoada, pensara apenas nas coisas apavorantes que poderiam ter acontecido. Seu coração não estava inteiro, havia se partido em mil estilhaços. Uma dor apertava-lhe o peito e tirava-lhe o fôlego, porém o seu lado forte se opunha contra si mesma, e não permitia que as lágrimas manchassem seus olhos verdes. Surgia dentro dela, um turbilhão incontrolável. Rezava aos céus para que não desabasse ali. Parou em frente à uma cafeteria, contorceu os joelhos e apoiou as mãos sobre eles, percebendo que a jornada até o hospital já estava no fim. O suor escorria lentamente da testa, enquanto sua respiração estava ofegante o coração batia freneticamente em seu peito entoando um barulhinho inaudível aos ouvidos de outras pessoas, mas não o dela. Ela ergueu-se novamente e continuou a vagar perante a longa noite. Ela foi-se embora, acompanhada por suas dores e o vazio da madrugada. Cruzou a rua e chegou à frente do hospital assim que seus pés tocaram o chão, as portas se abriram diante dela. Avançou até a frente do balcão de informações aonde reconheceu Jaliyah, uma enfermeira de aspecto árabe amiga do irmão.

—Gee, você já sabe o que aconteceu?

Quando Jaliyah proferiu aquela pergunta, algo dentro de si desabou. Um sentimento antigo que crescia dentro dela e a devorava.

—Não.... Eu não sei de nada. Christian está bem?

—Vem cá, te levarei até seu irmão.

▪ ▪ ▪

Elas adentraram uma sala meio vazia, meio escura. Era uma situação de grande estranheza, havia caos lá fora... Porquê? Uma coisa muito ruim acontecera, uma coisa que levou as esperanças de Gênesis para longe. A janela transmitia a imagem de um amanhã próximo, o sol estava chegando. Quando a porta foi aberta, Christian brotou ali, como um antigo guerreiro medieval que nada temia certificando a garotinha de que o seu irmão poderia livrá-la de todo o mal. Um sorriso meticuloso estava enfiado em seu rosto da mesma maneira que ele, um cardiologista, estava metido por debaixo de um branco e longo jaleco.

—O que aconteceu com seu cabelo? –Ele pôde ouvir uma risada da irmã, que tanto amava, que tanto zelara para estar bem.

—Eu literalmente saí correndo até chegar aqui.

—Estou feliz por você estar aqui.

—O que aconteceu? Posso lidar com isso, sou quase uma adulta.

Ele riu.

—Lembra de quando caí da árvore do quintal e quebrei o braço? Você entrou no meu quarto, deitou junto comigo e disse: "Ei Chris, não quero que se sinta sozinho, então vou ficar aqui com você. Até a sua dor passar. " É mais ou menos isso, a dor passará. Assim como uma bela erva que cresce e floresce sobre a terra, mas é designada para um fim que ela desconhece. Sabe qual é a diferença entre homens e plantas? Sabemos que a morte chegará e ela está aqui, entre nós.

As palavras soadas chegaram ao íntimo da garota, uma sensação de medo fez o seu coração palpitar freneticamente, ela sentia o suor escorrendo por suas mãos até a fluorescência tão chamada de esperança vazar de seu corpo. Agora, tudo o que havia dentro dela era medo.

—O que aconteceu? –Gênesis indagou com um grande pesar.

—Algo gerou um incêndio, e, a mamãe está morta.

—Ah, merda! Eu deveria estar em casa! Eu não podia ter ido aquela festa! Mamãe não permitiu que eu saísse hoje, se eu tivesse ficado em casa isso poderia ter sido evitado, assim como a morte dela.

Entre sussurros e gritos seu coração sangrava. O destino cantarolava uma canção de desespero e somente Gênesis ouvia. Aquela voz aguda sussurrava em seus ouvidos: "Eis aí o fim de tudo e de todos os homens! A morte nada espera, nada teme; vem com sossego e calmaria. Percorrendo cada traço de um corpo até que vossos olhos estejam fechados e que tu digas uma última vez: eu vivi! "

—E o que há para lamentar? Para quem pedirá desculpas? Suas palavras não mudarão o que aconteceu. O que tens de fazer é lembrar o quão forte ela te amou. Entendeu bem?

—Sim, mas ainda há algo aqui dentro que pesa e causa dor.

—É o medo, disto eu não posso protege-la. –Disse Christian ponderadamente.

—Eu posso ser alguém diferente, sei que posso. –Ela choramingou.

—Alguém diferente, sim. Alguém melhor, talvez não.

Gênesis fez uma breve pausa, depois disse-lhe:

—Somos humanos, mudamos com frequência. Foi assim que evoluímos.

—Apenas os fortes sobrevivem quando as verdadeiras guerras precisam ser travadas. Você é forte Gênesis?

—Não o bastante para ficar sozinha.

—Então vamos para casa! –Christian sorriu abertamente. —Falei mais cedo com Jaliyah e você sabe como ela é.... insistiu para ficaremos hospedados na casa dela, mas eu a convenci de que não será por um tempo longo. Raymond está lá e não quero você perto de nenhum homem desconhecido. Eu não seria forte o bastante, não conseguiria te ver naquela situação outra vez; entrando e saindo de consultórios, tomando remédios de tarja preta...

—Christian! –Gênesis o interrompeu com grito.

Arrependido, ele mirou o chão.

—Lamento, não percebi o que estava dizendo.

Um longo suspirou depois, a moça jovem responde:

—Vamos para casa, irmão.

Não temos mais uma casa. Ele pensou.

Sem olhar para trás, Christian e Gênesis levantaram-se e seguiram caminho. O futuro está sempre em movimento. Esta é a vida! Então, vamos de vive-la! Que haja esperança em seu caminho.

Notas finais
Olá! Gostou do capítulo? Comente! Beijinhos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.