Notas iniciais
Quando cheguei em casa minha tia ainda estava trabalhando, como sempre, era muito ocupada e sempre estava no seu consultório, ela era neuro cirurgiã ou algo do tipo, por isso sempre estava trabalhando ou fazendo plantões. Eu não me importava, gostava de ficar sozinha em casa e já estava acostumada.
Assim que eu cheguei no meu quarto eu fui tomar banho para tentar me acalmar e quando isso não funcionava, sempre havia uma saída ou duas. Eu tomei banho, peguei uma toalha rosa e me enrolei, sequei meu cabelo e sentei no chão do banheiro, encostei a cabeça na parede e comecei a chorar de novo, talvez ficar sozinha não era a coisa mais legal do mundo, se eu estivesse me sentindo triste, se minha mãe ainda estivesse viva, ela iria me deitar na cama e fazer carinho em mim até eu dormir, mas com a tia Jill sempre ocupada eu não esperava isso de ninguém. Apesar de tudo eu tinha jeitos de me acalmar, talvez por alguns minutos e tudo voltava a ser como era antes outra vez, mas a sensação no momento era de alívio, e eu sempre recorria a isso, já havia virado uma rotina, eu não me orgulhava daquilo, eu sabia que não era certo, mas era o único jeito e eu não queria parar.
Eu abri o ármario de madeira que ficava debaixo da pia do banheiro, o que eu procurava estava no lugar de costume, eu peguei a pequena lâmina e com o a mão trêmula, fiz um corte na minha barriga logo depois da minha costela, era um lugar discreto e ninguém veria aquilo. Eu senti a lâmina rasgar minha pele, o sangue escorrer, doía mas, a sensação de alívio superava a dor, haviam vários outros cortes espalhados pela minha barriga, alguns mais recentes, outros mais velhos. Eu peguei uma toalha e enxuguei o corte, fazendo um curativo logo depois.
Eram 5 horas da tarde quando recebi uma mensagem de Alec perguntando se ele podia me dar carona para a escola no dia seguinte, eu sem querer ter que ouvir as insistências dele, aceitei. Quando desci para jantar, Jill me contou que iria viajar para Califórnia amanhã e só estaria voltando no domingo e ela me perguntou se eu tinha algum problema em ficar sozinha em casa, eu disse que não e realmente não tinha. Ela disse que deixaria dinheiro para alguma emergência dentro do armário da cozinha.
Depois de jantar eu subi pro meu quarto e comecei a ler A Culpa é das Estrelas até cair no sono. Eu acordei com o barulho ensurdecedor do meu despertador e me arrumei pra ir pra escola, fui tomar café e esperei a mensagem de Alec dizendo que já estava na frente da minha casa, eu havia pedido pra ele buzinar quando chegasse, mas aparentemente ele percebeu que não havia sido uma boa ideia, levando em conta que eram 6:30 da manhã e ele iria acordar todos os vizinhos. Eu fechei a porta atrás de mim e a tranquei, desci os degraus da entrada de casa e entrei no Volvo preto de Alec
–Bom dia ruivinha –ele disse
–Bom dia, Alec –eu disse. Ele aproximou o seu rosto do meu e me deu um beijo na bochecha, eu fiquei meio surpresa, mas tentei não demonstrar
Ele ligou o carro e dirigiu em direção a escola, no caminho nós conversamos e rimos muito, eu tinha que confessar que estar com Alec me fazia sentir bem, porém eu não podia dizer isso pra ele já que ele iria se gabar pelo resto da vida. Uma música dos Smiths chamada “Ask”, começou a tocar e eu ele nos olhamos ao mesmo tempo e rimos. The Smiths era a nossa banda favorita e eu havia descoberto isso no caminho, nós dois começamos a cantar e quando a música acabou nós chegamos no colégio. Ele me acompanhou até o meu armário e quando o sinal tocou ele se despediu e me deu um abraço.
As aulas passaram devagar e eu não via a hora do sinal para o intervalo tocar. O meu professor de inglês lia um poema atrás do outro e ninguém prestava atenção no que ele falava. Quando o sinal finalmente tocou eu me encontrei com Emily e Maggie e nós fomos para o refeitório, as duas começaram a conversar sobre uma festa que iria acontecer amanhã, mas eu não prestei muita atenção
–Carrie ? –Emily me chamou
–Oi –eu respondi
-Então você vai para a festa ? –Emily perguntou
–Que festa ? –eu perguntei
–A que vai ter na casa do Matt, ele é da nossa classe de história –ela disse
–Eu não sei, eu não conheço ninguém –eu respondi
–Por isso mesmo que você devia ir –Maggie interrompeu- é uma oportunidade de conhecer algumas pessoas
–Talvez eu vá –eu falei
Eu realmente não estava com vontade de ir a nenhuma festa, a única coisa que eu queria era ficar em casa sozinha e aproveitar que minha tia não estava lá, para ficar em paz.
Quando as aulas terminaram eu mandei uma mensagem para Alec pedindo pra ele me encontrar no estacionamento pra podermos ir pra casa. Ele respondeu a mensagem pedindo que eu o encontrasse no jardim atrás da quadra de basquete. Quando cheguei lá, Alec estava sentado em um banco de madeira que ficava debaixo de uma árvore e fazia uma sombra perfeita, dava até vontade de dormir naquele banco. Eu me sentei ao lado dele
–Esse é o meu lugar preferido do colégio –ele disse- você já tinha vindo aqui ?
Eu balancei a cabeça negativamente
–Eu passo todos os intervalos aqui, é muito calmo –ele falou
–É muito bonito, com certeza melhor do que o caos do refeitório –eu falei
–Pois é, você devia passar os intervalos comigo –ele falou e deu uma piscadinha logo depois
–Não seja convencido –eu falei
Eu olhei em volta do jardim, era cheio de flores de todas as cores, árvores altas e bonitas, a grama era verde. Era até difícil acreditar que aquele lugar ficava no colégio. Alec olhou pra mim, os olhos curiosos, eu olhei pra ele e ele continuou me encarando
–Você é linda, Carrie –ele falou
Eu ri
–Não sou não, Alec –eu falei
Ele aproximou o seu rosto do meu e quando eu menos esperava, nossos lábios se tocaram, eu senti arrepios percorrerem todo o meu corpo. O beijo era lento e calmo, confesso que me deixei levar pelo momento, mas eu não podia deixar aquilo acontecer. Quando ele parou de me beijar eu olhei pra ele espantada e me levantei
–Carrie –ele falou nervoso
–Desculpa, eu não posso deixar isso acontecer –eu falei
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