Safe And Sound

1 Capítulo único: Desespero.


"E quando parece que nada vai melhorar? E quando tudo que você conhece e ama se perde? E quando você sabe que não importa o que faça, nada irá adiantar e nada irá aliviar aquela dor? E quando toda esperança se torna inútil e o futuro já não significa nada? E quando o fim se torna algo extremamente desejável? Você pode imaginar a resposta?"

Aqueles braços eram o único conforto que ele conhecia fazia tempo. Sentia-os abraçados ao seu redor com força enquanto ele escondia o rosto e levava as mãos ao lado da cabeça, apertando os ouvidos com toda força que podia, tentando não escutar, não ouvir, nunca mais. Aquele espaço apertado, úmido e com pouca luz tinha se tornado quase seu lar nos últimos meses desesperadores em que se encontrava.

Outro estrondo mais acima e ele empurrou mais o rosto contra o ombro da mãe que sussurrava baixinho palavras doces, tentando acalmá-lo. Mas não era uma tarefa fácil se manter calmo e são quando a cada minuto explosões se faziam ouvir logo acima deles.

As lágrimas desciam devagar pelo rosto dela enquanto apertava o menor nos braços. Temia por sua vida, temia pelo que poderia lhe acontecer. O marido já se fora levado para servir na guerra e a filha mais velha estava desaparecida. Saíra um dia de casa e nunca mais voltara.

Se perguntava em seu porão escuro o que fizera para merecer tal coisa. Seus filhos eram inocentes. Sua família era inocente. O pequeno não dormia, não queria comer, e a cada estrondo que os fazia correr escadas abaixo até aquele lugar, era um motivo pra ele se enfiar em seus braços e passar longas horas ali, sem sequer se mexer. Doía em seu coração de mãe ver aquele garoto naquele estado. Com o psicológico em frangalhos. Mas aquilo era a guerra e ninguém era poupado nela. Jovens e velhos, mulheres e crianças, todos ganhavam suas cicatrizes e levariam elas pelo resto da vida. Isso é, se sobrevivessem.

—Feche os olhos – Começou a cantarolar baixinho enquanto embalava o pequeno nos braços. – Você vai ficar bem/Ninguém pode feri-lo agora/Você e eu vamos estar são e salvos.

Repetiu as frases curtas por um tempo que parecia infinito, até que novamente o silêncio se instalasse e apenas sua respiração se tornasse audível dentro daquele pequeno espaço. O menor já adormecera, mas mesmo durante o sono as lágrimas empapavam as roupas da mãe. Parecia que nem mesmo naqueles breves instantes que ele conseguia fechar os olhos e adormecer seus sonhos eram poupados da dor.

Devagar ela abriu a mão direita, que até então estivera fechada contra as costas do menino. Na palma, 3 compridos se amontoavam, um tanto quanto sujos graças à sujeira que se impregnava na pele da mulher. Fitou aquelas pequenas formas durante um longo tempo. Olhava de seu filho para os comprimidos. Não era mais capaz de ver sua criança inocente sofrendo daquela maneira. E a perspectiva de o perder para a guerra lhe doía mais que tudo. Aqueles tempos eram cruéis, sujos e desesperadores e ela não queria mais ver as lágrimas que banhavam o rosto da sua criança. E ela própria já não agüentava a tortura que era viver dia após dia esperando, temendo, chorando pelos que perdera e pelo medo de perder o que lhe restava.

Dar um fim aquilo tudo parecia ser o melhor, era o que pensava dentro de sua cabeça confusa e perturbada. Acordou o pequeno com delicadeza, o que não foi uma tarefa muito difícil visto o sono leve do menor. Ele bocejou por um breve instante antes de erguer os olhos extremamente azuis na direção da mãe.

Ela permaneceu em silêncio por um breve instante enquanto mirava aqueles olhos. Os olhos do pai. Sentiu o coração apertado no peito quando pensou naquilo. Não tivera mais notícias dele desde que partira, nem mesmo sabia se estava vivo. Pegou uma das mãos do pequeno colocando um dos pequenos compridos na mão dele e tateou sua volta, em procura da pequena garrafa de água que levara para lá. Assim que a encontrou mostrou pro pequeno que deveria colocar os compridos na boca da maneira que ela fazia e ele a imitou. Talvez acreditasse que fosse só algum tipo de remédio comum, nada mais que isso. Entregou a garrafa de água para ele que tomou poucos goles e em seguida a devolveu, logo ela imitando o gesto do outro. Deixou o recipiente de água pro lado e abraçou o pequeno mais junto ao corpo, se encostando numa parede próxima. Ele apenas se aconchegou aos braços da mãe, fechando os olhos lentamente. Imaginava se quando acordasse ainda haveria bombas. O que ele não sabia era que nunca mais acordaria. Ela acariciava devagar os fios do cabelo loiro do filho enquanto chorava baixinho. Ambos pegaram no sono quase que ao mesmo tempo. Um sono profundo que não tinha volta.

Notas finais
♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!