Safe And Sound
1 Prólogo
Notas iniciais
A começar pelo prólogo.
Apenas mantenha distância do vidro.
Com a enfatização da ordem, dei três passos para trás, me separando um pouco mais do vidro.
A garota lá dentro estava sentada na maca, abraçada aos seus joelhos. Ela fechou seus olhos, e começou a se balançar. Para frente, para trás. Para frente, para trás. Seu balanço tinha um ritmo, e eu comecei a segui-lo.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis.
Uma parada.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis.
Seu balanço se tornava cada vez mais intenso e brusco.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis.
Ela parou de repente, com um olhar vazio no rosto.
- O que ela está fazendo? – Perguntei à médica que estava ao meu lado.
Ela não me respondeu.
A garota ruiva levantou de sua maca de modo aterrorizante, com as mãos imitando garras e sua coluna curvada em uma posição dolorosa.
Olhei para os enfermeiros, que evitavam ver a cena que se passava por trás do vidro.
A ruiva andou pesadamente até a parede ao lado da porta, e se jogou ali, gritando aos quatro ventos e praguejando.
- Por que tudo isso? – Perguntei para ninguém em especial. A médica me encarou, e se limitou a dizer “esquizofrenia”.
Repassei em minha mente os sintomas da esquizofrenia.
- Esquizofrenia residual? – Falei, enquanto a via arranhando a parede.
A médica assentiu suavemente.
- E os remédios?
- Não surgem mais efeitos.
Quando fui comentar sobre a terapia com ECT (eletro-choque), ouvi um baque no vidro.
A garota havia se jogado nele, e seus dedos ensanguentados faziam desenhos abstratos, que ora se pareciam com animais, ora com pessoas, ora com cenas de destruição total. E o tempo todo ela murmurava:
Un, deux, trois, quatre, cinq, six.
Un, deux, trois, quatre, cinq, six.
Un, deux, trois, quatre, cinq, six.
Un, deux, trois, quatre, cinq, six.
Un, deux, trois, quatre, cinq, six.
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