Safe And Sound
1 Map of the Problematique
– Senhor, as áreas 25 e 67 estão tendo problemas no fornecimento de energia – a voz daquela mulher era objetiva e não demonstrava emoção alguma – As tempestades tropicais danificaram as redes de transmissão, e a população está solicitando reparos.
– Sim, sim, eu estou ciente disso – o homem disse – Enviaremos pessoas para cuidar disso assim que possível. Mais algum ponto a ser discutido? Você, talvez, senhorita Honda?
– A presença de algum dos representantes principais da Omni na cerimônia de inauguração do Centro de Reabilitação da área 48 é requerida, senhor – a mulher era pequena, delicada, e sua expressão era neutra, embora a voz baixa demonstrasse o quão intimidada ela estava.
– Estarei lá. Bem, acho que devemos encerrar a reunião de hoje. Estão dispensadas, senhoritas. Até mais.
As duas mulheres fizeram uma pequena mesura, antes de saírem da sala impecavelmente organizada e atravessarem o corredor que levava às demais salas do prédio. Tudo era tão organizado que aquele lugar poderia ser muito bem um grande centro de negócios. Mas, enquanto soltava os cabelos louros cuidadosamente presos num coque apertado, a primeira suspirou:
– Eu odeio esse cara. Eu odeio. Esse. Cara. Com todas as minhas forças!
– Alice, acalme-se – a segunda se aproximou – Não vai adiantar você fazer isso. Além do mais, você sabe que eles não ficam na mesma área por mais de três meses, logo ele irá embora.
– É, e então aparecerá outro cretino pedante como ele – outro suspiro irritado – Eu já estou cansada disso, Sakura. Cansada demais...
– Você teve alguma notícia... deles? – a outra murmurou, falando baixo. A primeira, por sua vez, apenas balançou a cabeça, respondendo desolada:
– Nada além do que sai nos jornais. Eles não tem se movimentado muito nos últimos dias. O que é bom, eu soube que a Omni tem aumentado a vigilância desde os últimos ataques aos arsenais deles. Mas acho que isso demorou demais. Admita, eles estavam ficando bem atrevidos nos últimos meses...
Então, as duas passaram por um homem de cabelos muito claros e olhos num interessante tom avermelhado. Assim que o viu, Sakura estreitou os olhos, mas fez uma pequena mesura cordial assim que ele sorriu na direção delas.
– Ora, se não são as senhoritas Honda e Kirkland! Como vocês estão?
– Eu agradeceria se você não me fizesse essa pergunta, Beilschmidt. Agora, se me dão licença, tenho alguns relatórios para preencher. Mata ne.
Ela se afastou com passos rápidos, deixando os outros dois para trás. O homem a observou, alguma emoção estranha tingindo seus olhos, mas logo ele os voltou para Alice, dizendo, com um sorriso de sarcasmo:
– É, Honda ainda me odeia. Pelo menos ela ainda é mais educada que os outros.
– Gilbert – Alice o encarou – Você sabe porque todos o tratam assim. E você sabe também que eu sou a única que não cai nessa sua atuação barata.
– Vamos ter essa discussão de novo, Kirkland? – ele manteve o sorriso – Você é mais teimosa que o seu irmão. É tão difícil assim aceitar que essa é a minha escolha e que eu gosto das coisas como elas estão agora?
– Tão difícil quanto acreditar nas suas bobagens a respeito do seu “incrível eu” – ela replicou, os olhos verdes por trás dos óculos faiscando na direção dele – Eu não quero brigar com você, Gil. Ao contrário de quase todo mundo aqui, eu ainda te considero um amigo.
– Você é péssima em escolher amigos, Alice.
– Como se os seus fossem muito melhores.
– De pelo menos um deles eu tenho certeza que você gostava muito.
– Cale a boca.
– Vamos ficar nessa discussão pelo resto do dia? – por fim, ele deu uma risada –Eu sei que você não começou a falar comigo para me catequizar. O que você quer?
– O de sempre. Informações. Você me deve isso, Gilbert.
– O que sempre te faz pensar que eu sei mais do que você?
– Cut the crap out, Gil. Você está muito mais próximo dos altos círculos do que eu.
– Tá, tá, entendi – ele passou a mão pelos cabelos, impaciente – Bem, que eu saiba não aconteceu nada de extraordinário. Eles estão reforçando a vigilância em cima dos Neutros, mas não houve nenhuma ocorrência até agora. E, claro, a área 16 continua dando dor de cabeça. Mas sério, Alice, por que você vive me perguntando essas coisas? Isso está despertando suspeitas para você, daqui a pouco alguém vai pensar que você está armando uma rebelião ou algo assim.
– Você sabe o motivo – a voz dela baixou – Se alguma coisa acontecer com eles, você vai ser o primeiro de nós a saber.
Ele ficou em silêncio, desviando o olhar. E então, disse:
– Até onde eu sei estão todos bem. E, sinceramente, eles são os mais durões entre nós. Só acho que...
A frase morreu nos lábios dele, porém. De repente, uma sirene se fez soar, e os dois, ao mesmo tempo, correram na direção da janela mais próxima. Um grande tumulto podia ser visto na rua lá embaixo. Três carros disparavam pela rua, sendo perseguidos por uma frota inteira de carros de polícia. Um pouco depois, carros pretos com o logo da Omni nas portas apareceram também e se juntaram à perseguição.
– Eu sabia que isso ia acabar acontecendo... – sibilou Gilbert – É melhor irmos ver o que está havendo!
Então, os dois dispararam na direção do primeiro elevador disponível. A calmaria havia acabado. E, se as suspeitas deles se confirmassem, eles sabiam exatamente quem estava sendo perseguido naquele momento.
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Quatro horas antes
– O que você tem na cabeça, Emily? Não tem como isso dar certo!
– Precisamos de armas, não precisamos? Tenho tudo sob controle.
– Mas esse arsenal fica a três quadras da sede regional da Omni, sua desmiolada!
– Exatamente. É por isso que esse plano pode dar certo!
– Você não tem salvação mesmo.
– Enfim, repassando. O time de distração vai passar em frente ao arsenal na direção da sede, assim podemos tirar alguns guardas de lá. Nesse time, vão Julchen, Toni e Marianne, cada um em um carro. Enquanto isso, eu, Ivan e Arthur vamos para o arsenal. Feli, você vai ser o nosso motorista de fuga.
– Ainda acho isso loucura.
– Pare de frescura, Artie, você tem alguma idéia melhor?
A vários quilômetros dali, uma grande e inflamada reunião acontecida numa sala subterrânea, montada no que havia sido um dia uma linha de metrô. Ela era presidida por Emily Jones. Apesar de sua aparência ser a de uma garota jovem e despreocupada, ela falava muito sério quando descrevia o plano aos demais.
– Ainda podemos nos virar por dois meses ou mais sem precisar de reposição – Arthur Kirkland, um homem cuja aparência severa e ríspida era reforçada pelas enormes sobrancelhas, ainda tentava dissuadi-la daquela idéia – E temos outros arsenais mais isolados, também. É um plano precipitado demais e não podemos nos arriscar a perder mais pessoas.
– Se você está com medo, Arthur, eu chamo outra pessoa no seu lugar – ela estreitou os olhos na direção dele, fazendo-o abrir a boca para contra-argumentar – Estamos ficando sem tempo e não podemos permitir que eles reforcem ainda mais as defesas. Se não pudermos conseguir suprimentos, toda a nossa causa estará perdida. É tão difícil assim entender isso?
– Temos que nos certificar de não envolver a sede em si – observou Ivan Braginsky, um homem alto e corpulento de cabelos louro-claros – Alguns dos nossos trabalham lá, se pensarem que eles trabalharam conosco eles podem ser mortos.
– Bem, só vamos passar com os carros em frente à sede – respondeu Antonio Carriedo, um rapaz de cabelos escuros e grandes olhos verdes – Eles vão ver isso apenas como uma provocação, até perceberem o que realmente está acontecendo.
– E temos que pensar também numa rota de fuga – observou Julia Beilschmidt, uma mulher miúda com longos cabelos brancos e uma cicatriz no rosto – Eles não vão facilitar a nossa vida nos arredores dos prédios deles.
O plano continuou sendo repassado e revisto, até que todas as pontas soltas visíveis tivessem sido aparadas. Por fim, Emily se levantou, dizendo:
– Temos pouco tempo. Precisamos sair daqui agora.
Os quatro carros foram preparados. Todos os seus ocupantes estavam armados até os dentes. Um deles, Marianne Bonnefoy, observava ao longe, visivelmente preocupada. Um outro rapaz, Feliciano Vargas, se aproximou dela e perguntou:
– Sorella, o que houve?
– Se eu ao menos soubesse onde diabos o Francis está... – ela murmurou – Julchen e Arthur sabem, pelo menos. E eu? Nem posso dizer com certeza se ele está vivo ou não.
– Não se preocupe, ele deve estar bem – Feliciano tentou sorrir – Ele não tinha prometido que não iria morrer antes do Arthur? Pois bem, ele ainda está vivo, não está?
– Sim, você tem razão – ela acabou sorrindo também – Ele faz o tipo de pessoa que faria questão de sobreviver por um motivo besta como esse. Enfim, é melhor irmos logo.
Os carros partiram, com uma pequena distância entre eles. O primeiro foi o de Emily, cantando os pneus e sumindo pelo túnel, seguido pelos outros. Depois de uma sequência curta e tortuosa de túneis escuros e cheios de poeira, eles finalmente chegaram à rua. Eles não se falaram durante o percurso, e as primeiras palavras foram ouvidas a partir dos rádios.
– Vocês estão conscientes dos riscos envolvidos, certo? – era uma voz masculina, muito séria e austera – Nossos inimigos conhecem os rostos de vocês, mas presumimos que essa informação seja reservada somente aos membros do alto escalão deles.
– Lud, sabemos de tudo isso. Você está desperdiçando nossa eletricidade só para nos dizer essas bobagens ou tem algo importante para nós? – Julchen o cortou pelo rádio. A voz dela também pôde ser ouvida dos demais carros, assim como um suspiro exasperado do homem.
– Conseguimos contato com a Área 4. Eles estão criando uma rede de comunicações entre as nossas bases, além de um fluxo direto de dados vindo das bases inimigas. Provavelmente não terá uma aplicação muito prática para nós pelos próximos dias, mas em breve seremos capazes de acessar os sistemas deles. De qualquer forma, já estamos conectados às outras bases, o que quer dizer que podemos nos comunicar livremente.
– Maravilha! – vibrou Emily – É melhor mantermos todos atentos. Quando conseguirmos invadir os sistemas da Omni, é melhor colocarmos todos os nossos hackers lá ao mesmo tempo. Não conseguiremos manter esse canal aberto por muito tempo, então quanto mais informações obtivermos, melhor.
– Mais uma coisa – a voz do homem foi engolida pela estática por um segundo – Precisaremos que vocês utilizem o caminho secundário para voltar à base. Alguns dos nossos batedores apontaram que há movimento de carros oficiais perto da entrada principal. Não podemos nos arriscar a perdê-la até conseguirmos outro lugar para nos instalar.
– Entendido – a resposta nos quatro carros foi a mesma.
– Estou tentando rastrear os arredores do arsenal, entrarei em contato se conseguir algo útil. É melhor não se machucarem, ou acabo com todos vocês quando chegarem. Câmbio final.
Depois, apenas silêncio. Que foi quebrado pela voz debochada de Marianne:
– Ludwig é mesmo adorável, não é?
– Bem, vocês o escutaram – outra voz se fez ouvir pelo rádio. Antonio, dessa vez. – De quanto tempo precisaremos para essa missão? Quatro horas, como as outras?
– Com as plantas do arsenal, será tempo de sobra – respondeu Ivan – Precisamos ser tão rápidos quanto possível.
O planejamento continuou, pelo rádio. Aquela era uma freqüência segura, estabelecida especialmente para as missões de rua. O grupo era especializado em invasões de instalações oficiais, um trabalho tão arriscado quanto necessário para a causa defendida por eles. E, para isso funcionar, comunicação era a questão mais crucial de todas.
A viagem não durou muito. Em breve, estavam na cidade, e prontamente se separaram. Dirigiam devagar, misturando-se aos demais carros da rua. Tantas pessoas ali seguiam suas vidas normalmente, sem ter idéia de que estavam no meio de uma guerra. Emily pensava nisso, enquanto continha-se para não voltar a acelerar. Queria terminar logo aquela missão. Queria que aquela guerra acabasse. Queria destruir aqueles que a começaram.
Então, eles chegaram nos arredores do arsenal. Era a hora. Ligando o rádio, ela disse, numa voz muito séria:
– Okay, pessoal. É hora do show.
E, então, o inferno começou.
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Um pouco antes, a apenas algumas quadras dali, Sophie Zimmermann corria.
Ela estava atrasada – outra vez. Tentando se equilibrar sobre os saltos dos sapatos, ela corria pela calçada, tentando chegar à livraria onde trabalhava. As suas visitas ao hospital sempre se estendiam mais do que deviam, e seria difícil explicar à sua chefe por que estava chegando atrasada pela quinta vez só naquele mês.
Atravessando a rua sem ver, não percebeu quando um carro furou o sinal vermelho e quase a atropelou. O carro só não passou por cima dela porque alguém a puxou para trás. Quando se refez do susto, alguns segundos depois, ela se permitiu encarar o estranho gentil que a salvara. Era um homem, aparentando pouco mais de vinte e cinco anos. Cabelos louros na altura do rosto, olhos azuis, barba por fazer e um meio-sorriso torto.
– Ma chère, tome cuidado! – ele disse – As ruas desta cidade são um caos, você poderia se machucar muito seriamente! E seria uma pena que uma garota tão encantadora se ferisse.
– Garota... encantadora? – ela olhou em volta, confusa, até se dar conta de que ele falava dela mesma – O-oh... obrigado, senhor!
– Ah, perdoe meus modos, senhorita! – ele fez uma pequena mesura – Não era minha intenção constrangê-la – só então ela percebeu que estava corando – Meu nome é Francis Bonnefoy. Posso perguntar qual é o seu? E por que a senhorita estava correndo de forma tão descuidada por esta selva de pedra?
Ele era um galanteador, isso era óbvio. E um dos bons porque, mesmo que ela soubesse que ele provavelmente dizia aquilo a qualquer garota que visse, suas palavras faziam seu coração disparar. Sophie não estava acostumada a elogios daquela natureza. Muito magra e meio baixinha, tinha cabelos louros lisos, sempre trançados, olhos castanhos escondidos por trás de óculos, e uma série de pequenas manias que provavelmente irritavam todos ao seu redor. Enfim, nada que chamasse muito a atenção por aí.
Mas havia algo mais a respeito daquele homem bonito, de fala macia e um sotaque cheio de charme... algo que ela não conseguia decifrar.
– Meu nome é Sophie – ela respondeu, por fim – Trabalho numa livraria aqui perto e estou atrasada outra vez... Droga, minha chefe vai se zangar comigo...
– Tenho certeza que a senhorita tem uma excelente razão para ter se atrasado, mademoiselle – ele respondeu – Importa-se se eu for com você até lá? Acabei de me lembrar que tenho que comprar alguns livros...
Ela murmurou um “sem problemas” tímido, e os dois começaram a andar na direção da livraria. O que era aquela sensação? Por que ela sentia que havia algo muito diferente naquele homem e ela não fazia idéia do que era? Por que ela não...
– Me perdoe a indiscrição, mademoiselle, mas me permite perguntar o que a perturba? – ela percebeu que os olhos dele estavam fixos nela. Ela sorriu, e respondeu, tímida:
– Não é nada, senhor... apenas uma curiosidade boba.
– Se for algo relacionado a mim, pode perguntar – ele fez um gesto exagerado, que a fez rir – Sou um livro aberto.
– O seu sotaque. O senhor é da Fran... Área 82?
Ele a encarou por um momento, aparentemente surpreso. E, então, sorriu, dizendo:
– A senhorita ainda se lembra do antigo nome desta bela terra, então... fico feliz por isso – sua voz estava baixa, nostálgica – Sim, pode-se dizer que eu sou de lá. France. Nunca vou aceitar chamá-la por um número.
Sophie engoliu em seco. Ela também odiava a idéia de chamar nações por números. Era quase como eliminar a própria essência de cada um daqueles países tão lindos. Já fazia alguns anos, mas ela ainda se lembrava de como era antes. E do que aconteceu depois.
– Me perdoe. Sou apenas um cara velho e saudosista, não me leve a sério – ele disse, por fim. Seu sorriso parecia triste.
– Eu não diria que você parece velho, Sr. Bonnefoy – ela respondeu – Pelo contrário.
– Não. Nada disso, me chame apenas de Francis. E é muito gentil da sua parte, mas acredite em mim quando eu digo que sou um pouco mais velho do que pareço ser. É aqui?
Eles pararam em frente à livraria. Era uma construção antiga e charmosa, enfiada entre dois grandes prédios modernos. Sophie o convidou para entrar, e assim que se aproximaram do balcão, já havia uma mulher a esperando, com uma expressão zangada.
– Sra. Holmes, eu posso explicar, eu... – Sophie começou, gaguejando, mas Francis a interrompeu, dizendo:
– Essa adorável senhorita estava me ajudando – o tom dele era tão convincente que até mesmo ela era capaz de acreditar naquela história – Sou novo na cidade e acabei me perdendo. Ela estava me dando coordenadas para a prefeitura, não é mesmo?
– É-é, isso mesmo! – ela confirmou rapidamente – Acha que consegue chegar por conta própria?
– Provavelmente, com as suas instruções precisas – ele deu uma piscadinha – Mas, então, ela mencionou que trabalhava numa livraria e, uau, como este lugar é encantador! – ele olhou para a balconista, que corou. É, ele era mesmo um galanteador – Espero que as senhoritas não se incomodem se eu ficar e dar uma olhada.
– De maneira nenhuma, senhor! – a sra. Holmes agora exibia um imenso sorriso – Fique à vontade, por favor!
Ele fez uma mesura, e sumiu entre as estantes. A sra. Holmes fez um sinal de positivo para Sophie, que apenas revirou os olhos. Ela realmente se deixava levar por argumentos muito baratos.
De repente, um som ensurdecedor a fez se jogar no chão. Carros passando muito rápido, vidros estourando, sirenes, tiros. “De novo não!”, ela murmurou, cobrindo as orelhas com as mãos. Fazia tempo desde o último ataque, e da última vez pessoas haviam morrido. Então, ela sentiu um toque no seu ombro, e se encolheu.
– Sophie, venha comigo – era ele. Francis – Precisamos sair daqui agora mesmo, em breve os agentes da Omni estarão aqui.
– Mas... mas... – ela murmurou, confusa. Por que deveria temê-los? Eles mantinham a ordem, não mantinham? E ela não havia feito nada.
– Me desculpe por envolvê-la, mademoiselle. Prometo que nada irá lhe acontecer.
Então, sem aviso, ele a suspendeu e a colocou nos ombros. Ela fez menção de gritar, mas logo mudou de idéia, à medida em que eles corriam na direção da porta dos fundos e, então, desapareciam, descendo em direção ao metrô. Naquele momento, a mente dela não funcionava mais, apenas absorvia todo o volume de novas informações sem se dar ao trabalho de processá-las. E ela mantinha sua mente o mais longe possível da pergunta óbvia.
Quem era aquele homem?
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Assim que o tumulto nas ruas começou, Gilbert e Alice foram para a rua, tentando descobrir o que havia acontecido. Quando desciam os andares, podiam ouvir o som de tiros contra as janelas e vidros quebrando. Eles sabiam o que estava acontecendo, e quem estava por trás daquele ataque, mas evitavam falar entre si. As paredes tinham ouvidos naquele prédio...
Quando chegaram à calçada, havia outros ali. Sakura estava lá, juntamente com um homem de cabelos escuros e óculos com uma pinta no queixo. Assim que os encontraram, Gilbert já perguntou, com uma nota estranha na voz:
– Quem estava naqueles carros? Vocês conseguiram ver?
– Julchen estava dirigindo um deles – respondeu o homem – Não vimos direito os outros, mas presumo que seja o grupo de sempre. Eles vão acabar sendo fuzilados desse jeito...
– Roderich... você viu se... – Alice começou a perguntar, mas antes que ela terminasse ele disse:
– Não. Mas não vi com certeza, os carros passaram muito rápido.
Os quatro olharam para a rua. Vidros quebrados por todos os carros, alguns carros batidos, um hidrante estourado, e muitas pessoas perto do pânico ao redor. As tropas da Omni já começavam a se mobilizar ao redor. Eram muitas, provavelmente vindas de todas as instalações ao redor. O que fazia sentido, já que aquele era o centro de poder de toda a Área.
Mas, se estavam todos ali, significava que o arsenal estava...
– Provavelmente estavam só fazendo arruaça – Gilbert disse em voz alta – Não houve maiores danos, e eu duvido que eles tenham conseguido entrar no prédio.
Ele havia entendido também. E, como ela, havia decidido não dizer nada.
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Não foi difícil passar pela primeira guarda do arsenal. Havia poucos guardas, e eles precisavam ser tirados de circulação discretamente. Arthur era o homem mais indicado para isso. Aproximando-se dos guardas no mais absoluto silêncio, ele os golpeou e os deixou inconscientes com uma precisão cirúrgica. Logo depois, ele sinalizou para os outros dois.
Se os mapas estavam corretos, havia uma saída rápida para o depósito superior a poucos metros da guarita. Os três rumaram para lá rapidamente, tentando fugir de todos os guardas e câmeras que podiam. Pelo visto o plano de distração estava funcionando maravilhosamente bem. Eles não iriam às salas mais profundas do prédio, apenas ao depósito de transporte. Ali ficavam as armas que seriam levadas aos quartéis nos próximos dias.
A porta deu um pouco mais de trabalho. Foi a vez de Ivan atuar, arrombando a fechadura com um pontapé. O elemento-surpresa não iria durar mais muito tempo, então não havia por que ser delicado. Havia caixas de armas e balas ali, de todos os tamanhos e calibres possíveis, além de alguns carregamentos de facas, armas de choque e cassetetes.
– O nosso foco principal aqui são as munições, então peguem o quanto for possível – comandou Emily – Principalmente as de .12, elas são...
Ela ficou em silêncio, porém, ao ver algumas caixas vermelhas. Ela conhecia aquelas balas. E sabia que o mundo só estava de pernas para o ar daquela forma graças a elas. Sem dizer nada, pegou uma caixa e a guardou em sua bolsa, voltando suas atenções ao restante da tarefa logo depois.
Não demorou muito, e o alarme se fez soar. Os três se levantaram, alarmados. As bolsas já estavam cheias de armas novas e balas, além de algumas armas de choque. Emily foi a primeira a pegar duas pistolas do próprio depósito, carregá-las com cartuchos e correr na direção da porta, sendo imitada pelos outros dois.
Do lado de fora, já haviam vários guardas armados esperando por eles. Era um contingente até menor do que eles esperavam. Não foram necessárias palavras ou comandos, e no segundo seguinte os três já começaram a correr na direção do portão, golpeando todos os guardas do caminho. As armas de choque se mostraram muito úteis nesse momento; se pudessem terminar aquela missão com o mínimo possível de perdas, seria o melhor.
– Vocês são tão irritantes... – Ivan dizia num tom quase jovial, enquanto socava os guardas. A força física dele era algo brutal, e a expressão facial dele só o tornava mais assustador – Emily, é melhor nos apressarmos. Em breve os reforços deles vão chegar aqui.
– Eu sei, eu sei – ela abriu um sorriso feroz, enquanto disparava a arma de choque contra um guarda que se aproximava mais – Por sorte temos o Feli na direção.
Os guardas, então, começaram a disparar. Provavelmente não para mata-los, eles sabiam que a Omni havia dado ordens de capturar qualquer um deles vivo. Mesmo assim, desviar de balas era um passeio no parque para quem havia passado por tantas missões e batalhas ao longo do tempo. Foi apenas preciso que Ivan abrisse caminho pelo portão, e para que os três entrassem outra vez no carro. Um segundo depois, ele disparava insanamente pelas ruas da cidade, enquanto o seu motorista parecia calmo e animado.
– Eu tenho mais medo de você dirigindo do que deles atirando! – praguejou Arthur. A perseguição havia começado. Vários carros já os seguiam. Ele e Ivan começaram a tentar atirar nos pneus deles, pela janela – Tire a gente daqui de uma vez, está difícil manter a mira!
– Ve... – Feliciano murmurou – Eu já estou indo o mais rápido possível. Mas dá pra tirar eles da nossa cola.
Então, vindos de outras ruas, os outros carros se juntaram a eles. Havia marcas de tiros nas portas, mas aparentemente ninguém havia se ferido. Eles haviam tomado o cuidado de escolher carros muito parecidos para aquela missão, então não levou muito tempo para que os perseguidores não soubessem ao certo em quem atirar. E só foi preciso um tiro bem-disparado num dos pneus deles para que um dos carros rodasse, fazendo os outros baterem e causando um engavetamento enorme.
E, então, os quatro desapareceram em direção aos túneis do metrô.
– Maravilha, não fomos seguidos! – Marianne comemorava pelo rádio – A missão foi um sucesso, pessoal!
– Não vamos precisar voltar lá tão cedo – disse Emily, rindo alto – E nem vamos poder, duvido que eles vão ser idiotas de cair nesse truque de novo. Mas o que... FELI, PARE O CARRO!
Eles quase não viram duas pessoas andando pelos túneis desativados, e por muito pouco não atropelaram o que parecia ser um homem carregando uma jovem. Todos prenderam a respiração. Seria um espião? Será que ele sabia onde aqueles túneis iam dar? A reação foi imediata, e todos nos carros se prepararam para atirar, se necessário.
– Que falta de modos a de vocês! – a voz que ouviram, porém, afastou qualquer temor – Vão mesmo atropelar um velho amigo? Especialmente quando ele está carregando uma pobre donzela assustada nos braços?
– Não é... possível... – murmurou Arthur, descendo do carro e indo até ele – Mas... mas...
– Qual é a surpresa, Sobrancelhas? – o homem sorriu – Não reconhece um velho amigo quando o vê?
Entre todas as pessoas do mundo, tinha que ser logo ele. Arthur queria soca-lo.
Francis Bonnefoy.
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