Sadique

8 Tentação


Notas iniciais
Olá, olá! Com quatro dias de atraso, mas acho que ainda to dentro do prazo, não? De qualquer forma, obrigada pelo carinho de vocês e divirtam-se~~ MUITO OBRIGADA por fazer dessa fic o yaoi com mais favoritos do fandom, seus FOFOS AAAAA

O primeiro aspecto que percebera ao pousar suavemente sobre a varanda e adentrar no apartamento foram as pontas rebeldes das madeixas dele enlaçadas num elástico. E este era consequência da segunda circunstância: Félix estava de costas, concentrado na louça que ocupava a pia.

Chat Noir deixou escapar um sorriso travesso ao aproximar-se, sorrateiro. Eram as raras as vezes em que conseguia pegá-lo desprevenido, e se havia algo que aquele gato adorava brincar era de apanhar suas presas com surpresa.

Envolveu-o por trás, aproveitando-se dos braços erguidos na lavagem dos pratos para abraçar o torso esguio. Após um segundo de aturdimento, o rapaz reconheceu as garras a contornar sua cintura, e relaxou da postura inicialmente tensa. Adrien ergueu-se então na ponta dos pés, para depositar um beijo sobre o encontro entre o pescoço e as costas dele. Porém, as intenções originais se converteram num farejar quase espontâneo. Não demorou para que Félix evidenciasse a própria incredulidade:

― Você está mesmo me cheirando?

― Não consigo resistir ao aroma dos seus sabonetes ― justificou-se, friccionando-se à pele levemente úmida.

― Não sabia que 'banhos' estavam entre seus fetiches. ― Adrien gargalhou contra as costas dele ao ouvir a tão familiar ironia em seu tom, causando uma comichão agradável no mais velho. ― Muito menos 'bibliotecários de cabelos presos'.

Oh, ele usara as palavras exatas que o herói escrevera. Divertiu-se consigo mesmo ao imaginá-lo a reler a pergunta diversas vezes; a folha já amarrotada após ser esticada e dobrada repetidamente. No entanto, era óbvio que ele nunca iria admiti-lo em voz alta, assim como de modo deliberado ignorava as mãos de Chat a dedilhar sua barriga sobre a blusa. Sim, estava atrapalhando-o de propósito; sim, Félix disfarçaria que aquilo o distraía até o fim dos tempos; e sim, ambos se divertiam com aqueles pequenos jogos.

― Pelo visto você encontrou o bilhete ― ronronou o jovem, como se já não soubesse.

― E pelo visto um gato não resiste à curiosidade.

― São meus instintos ― defendeu-se, e como um felino passou a arranhá-lo por cima do tecido, ainda abraçado ao homem que tentava limpar a própria cozinha.

― Instintos de invadir a privacidade alheia? ― Apesar da sentença, seu timbre não transparecera dureza. Mais se assemelhava a uma provocação para rebater as benditas mãos a apalpá-lo.

A resposta não foi mais que um sussurro:

― Eu não precisaria invadir sua privacidade se me contasse mais sobre você mesmo.

― Não é como se eu soubesse tudo a seu respeito também.

Durante o diálogo, as frustrações físicas e emocionais manifestaram-se de forma simultânea, como se fossem equivalentes. Aparentemente o contato nunca era suficiente ― desejavam sempre mais, e quanto mais tinham um do outro, mais a avidez crescia, demandando doses maiores. Não bastava saber onde ele trabalhava ― Adrien queria entender seus motivos, seu passado, suas ambições. Para Félix, a satisfação estava além de um nome. Do que ele mais gostava? Por que sua identidade era confidencial? O que o deixava tão chateado em certas noites? Apesar disso, como era simples resumir seus desejos em uma única frase.

Quero conhecer ele melhor.

E, antes que pudesse reagir, ele girara o corpo em sua direção, apoiado à bancada a brilhar de tão limpa. Droga, desta vez não vencera a concentração férrea que ele mantinha durante as atividades domésticas. Contudo, suas distrações não foram ineficazes: pela maneira com que ele lhe encarava, conseguira suscitar no rapaz a vontade de beijá-lo de imediato, sem fazer com que tivesse de ansiar até o último segundo.

Mas não foi em um beijo que se converteu o olhar fixo, e sim numa constatação a respeito de seu estado. Afinal, naquela tarde a dupla de defensores de Paris enfrentara Le Farceur¹, e a criatura circense com poderes pirotécnicos lhes dera uma boa surra antes que o combate se desse por encerrado.

―Você não está ferido.

― Claro que estou bem ―desdenhou, como se fosse possível se machucar seriamente quando era tão incrível. ― Em minhas pawtas tudo está sob controle.

― Nas mãos de Ladybug, quer dizer.

― Hum... ― Aquela era uma competição injusta. ― É, não vou negar que ela é incrível.

E percebera uma sutil diferença no homem à sua frente para que o provocasse:

― Félix...

― Nem pense nisso.

― Félix ― repetiu, o sorriso denunciando a própria diversão. Seu questionamento, todavia, foi completamente sincero: ― Você sente ciúmes da Ladybug?

E ali estava. Os olhos azuis a fugirem do encontro com os seus, focados em qualquer superfície da cozinha que não fosse o verde infinito sob a máscara. O cenho franzido a exteriorizar as emoções mais íntimas de maneira indireta: uma ligeira irritação? Talvez constrangimento? E a melhor das reações: quando ele enfim admitia o que sentia, mesmo que não quisesse senti-lo.

― Eu sei que é... irracional ―confessou, após fechar os olhos brevemente e deixar escapar um suspiro. ― Não tem qualquer sustentação lógica, nem ao menos faz sentido. ― Sua voz adquiriu um tênue tom repreensivo, tocando uma das bochechas do felino: ― E você não devia sorrir como bobo quando isso é tão possessivo e fere qualquer individualidade.

― É que é tão raro e bonitinho te ver corado. ― Imitou o gesto, apontando para as maçãs do rosto dele também. Continuou a brincadeira, erguendo os cantos da boca dele com os dedos: ― E se você sorrisse o meowmento seria purrfeito.

― Talvez se você melhorar seus trocadilhos ― respondeu, embora bem-humorado.

Quando a cozinha se mostrara desconfortável demais para que continuassem, prosseguiram no ambiente de estar, sobre o sofá. O herói já não se reprimia ao aninhar-se contra o rapaz, sentando-se sobre seu colo sem qualquer cerimônia. 'Meowbusado', como descrevera em um de seus trocadilhos mais terríveis.

Aproveitando-se do clima ameno e descontraído, Chat Noir garantiu ao homem sob suas pernas que seu relacionamento com a parceira era restrito à amizade ― uma amizade sólida, que o acompanhava já fazia quase três anos. Félix estava prestes a interrompê-lo com os protestos racionais de que não eram necessárias quaisquer justificativas (afinal, o “erro” era dele), mas rendeu-se ao ver o jovem tão empolgado a explicar uma pequena parte que fosse da própria vida.

― Ela é minha melhor amiga. ― Esboçou um sorriso caloroso ao falar sobre a joaninha. ― É difícil... Não, é impossível não admirar a força e a coragem dela. ― Os olhos brilharam como os de uma criança. Completamente fanboy. ― E nós nos damos muito bem. Queria te apresentar a ela um dia.

― E como você iria me apresentar? ― arqueou as sobrancelhas com certa desconfiança, embora fosse uma dúvida genuína.

Afinal, a relação deles ainda não tinha um nome. Amantes? Namorados? Amigos com benefícios?

― Não é óbvio? ― murmurou, inclinando-se mais para perto, no que esperava ser um timbre sedutor. ― Um funcionário da Biblioteca Nacional muuuito atraente.

― Se sou muito atraente, você seria o quê?

Adrien demorou alguns segundos para compreender o que ele dissera: o tom de sua voz, o modo com que o olhara, a intenção de suas palavras. Dentre todas as possibilidades, nunca iria prever uma resposta positiva aos seus flertes, e muito menos o acontecimento inacreditável diante de seus olhos: Félix estava flertando de volta.

Apesar de ligeiramente envergonhado com o elogio implícito, acrescido à consciência de que estava acima dele, envolvendo seu quadril com as pernas, o herói não deixou que o rosto a esquentar o impedisse de aproveitar a situação inédita. Na verdade, a maior dificuldade ao respondê-lo foi não se entregar ao entusiasmo espontâneo. Disfarçou como podia o brilho empolgado do olhar, com o charme já frequentemente atribuído a Chat Noir.

― Um gato de rua ― murmurou, dedilhando o contorno da gola da roupa dele, roçando com muita sutileza a pele muito branca de sua clavícula. Não resistiu à vontade de desafiá-lo: ― Que você está ansioso pra domesticar.

― E o que te faz pensar que ainda não consegui? ― refutou o rapaz, com outra provocação. E Adrien pelo visto não era o único a servir-se de contato físico, pois simultâneo à fala foi o toque veemente à parte de trás de suas coxas.

― Eu pareço dócil pra você? ― E para comprovar seu argumento, as garras enluvadas passaram a arranhar a nuca exposta devido aos fios presos.

― Atrevido, sem dúvidas ― concedeu Félix, e a seriedade e leve presunção de sua voz somada à proximidade que fazia do calor das respirações de ambos um só incitou em Adrien um arrepio aprazível. Ele era bom. Muito bom. ― Mas é fácil lidar com você.

― Então me mostre como faria.

A resposta foi imediata ― foi dita quase que ao mesmo tempo em que surgira em seus pensamentos. Porque Adrien queria tanto que ele o beijasse, e avançasse muito mais se aquela droga de veste permitisse. Porque queria que ele fosse o primeiro a desistir daquilo que se tornara um novo jogo entre eles. Porque aquele diálogo tão curto o estimulara de forma inacreditável.

Não que nunca houvessem trocado palavras na cama, mas era a primeira vez em que conseguiam ver um ao outro enquanto o faziam. E como havia diferença! Chat esperava que a própria expressão fosse capaz de transmitir tanta avidez quanto o do rapaz, porque se sentia a criatura mais desejável que já pusera os pés no mundo diante da maneira voraz com que ele o encarava.

― Não preciso fazer muito. ― E Félix pareceu se divertir com o ruído irritado que nasceu do fundo da garganta do felino ao ser subestimado de novo. Foi sobre seu ouvido que sussurrou: ― Porque você mal resiste quando falo que é um bom garoto.

― Também parece gostar de me ouvir, senhor ― replicou, inteiramente insolente, embora a expressão o tenha afetado mais do que demonstrara. Droga, ele o queria ali mesmo, naquele sofá. Porém, não esperava que, em vez de discordar, ele o incentivasse:

― É difícil resistir quando você implora por mais. ― A respiração de Adrien já estava instável antes mesmo que ele completasse. Além disso, o bibliotecário eliminou toda a distância ao puxá-lo para perto, envolvendo-o com muito mais intensidade que as carícias suaves. ― Porque então só quero te devorar inteiro ― murmurou, deixando o herói ainda mais quente e excitado. ― Marcar cada pedacinho seu. ― Oh, deus, ele não seria capaz de aguentar ― E te recompensar quando você é tão obediente.

E apenas aquele timbre baixo e macio, tão sexy, fazia com que qualquer revide impertinente sumisse de sua mente. Chat sabia que nem mesmo a máscara conseguiria encobrir a bagunça avermelhada que deveriam ser suas faces naquele momento, contudo só queria se entregar por completo ao homem à sua frente. Queria mais de suas mãos, mais de seus lábios, mais de sua libido. Era mais que uma vontade: era necessidade.

― Até mesmo essa boca petulante fica sem palavras? ― desafiou ele diante de seu silêncio, friccionando o dedo em seu lábio inferior.

Estava prestes a dizer que preferia usar a boca de outras maneiras, porém Félix antecipara sua resposta. Porque antes que pudesse ou quisesse contestá-lo, ele o beijara. E nem mesmo em pensamentos seria capaz de impedi-lo.

Após tanta restrição, o modo com que corresponderam um ao outro era igualmente faminto. Segundo um ritmo irregular e indecente, os lábios e línguas exploravam-se de maneira mútua, enquanto os dedos agarravam-se a qualquer superfície a qual pudessem estimular. Mesmo sob o uniforme, Adrien sentia o corpo a aquecer mais e estremecer a cada novo acariciar ― e deliciou-se ao perceber que proporcionava uma reação idêntica ao parceiro.

Tudo que o rapaz transmitia era calor: calor da pele que suas mãos conseguiam atiçar, calor de sua urgência ao provar do jovem cujo gosto era seu preferido, calor de seu ímpeto que se multiplicava a cada gemido arrastado cujo som ambos continham nos lábios um do outro. Desfrutavam da vibração destas manifestações de prazer instintivas entre suspiros e arrepios, sem restrições apesar dos inconvenientes.

Como todo o tecido que obstruía o toque livre e mais ousado. Eram capazes de pressionarem os músculos enrijecidos sob a camada de roupa que os envolvia, mas ansiavam por mais. Profundamente necessitado, o herói apertara mais as coxas contra o quadril de Félix quando sentira as mãos a apanhar seu traseiro coberto por spandex, puxando seu lábio inferior entre os dentes. Não conseguia mais suportar, e de forma quase selvagem o arrancara do colete e camisa social, esforçando-se ao máximo para não interromper o beijo tão obsceno.

― Quer rasgar minha calça também? ― Apesar da provocação, o bibliotecário também estava ofegante, e não oferecera qualquer resistência.

― Eu nunca disse que seria justo.

E até mesmo Adrien estava sério ao respondê-lo, trazendo-o mais uma vez até sua boca para que pudesse continuar o contato tão saboroso. Porque sim, era completamente injusto que o despisse até o estado da seminudez quando o máximo de pele sua que ele poderia alcançar não chegava nem ao pescoço. No entanto, estava concentrado demais em arranhar o peito e as costas agora expostos para se prender a estes pequenos detalhes.

Baixou a boca até sua garganta, mordendo e chupando a pele cálida cuja textura suave tornava o gesto tão viciante, e foi pego de surpresa quando, não satisfeito com a atmosfera inflamada de desejo, Félix puxara-o contra a própria pélvis de súbito. O mais leve roçar das ereções uma na outra fez com que ambos gemessem, e o jovem incitou ainda mais a situação já intolerável ao esfregar-se lenta e sensualmente em seu colo.

Era mais do que conseguia aguentar, Adrien sabia; mesmo entregue às sensações ao voltar a experimentar dos lábios quentes com ainda mais voracidade, tinha ciência de que apenas aquilo não iria saciá-lo. E muito menos a Félix. Esperar até que chegassem ao quarto, repetindo o mesmo ritual para esconder sua identidade também não era possível. E a tentação para romper as regras era tão, tão intensa. Por isso abocanhara todo o trecho desde o queixo do rapaz e perguntou sobre seu ouvido:

― Posso vendar você?

***

Embora Chat não tivesse transparecido qualquer insegurança ao pedir permissão a ele para que cobrisse seus olhos, ainda assim achou surpreendente quando o bibliotecário aceitara. Afinal, o próprio parceiro nunca havia feito o mesmo, visto o quanto aquilo era desnecessário no escuro. Porém, ele entendera suas intenções de imediato ― e parecia muito disposto que as levassem adiante.

Usou da gravata para bloqueá-lo da visão, e Félix deixou-se vendar sob seus dedos. Mais uma vez, não era justo que pudesse vê-lo tão claramente enquanto ele permanecia no escuro, mas ambos estavam excitados demais para se concentrarem nestes artifícios para que sua identidade permanecesse secreta.

Como sempre fazia, foi no banheiro que desfez a transformação. Mas, ao contrário do hábito já consumado de conceder ao kwami a ida à cozinha, desta vez teria de mantê-lo ali escondido. Talvez porque não teria acesso a todo o queijo da despensa, Plagg parecia ligeiramente mais emburrado que de costume. Mesmo que não censurasse num sermão inequívoco, Adrien sabia que a criatura pensava que ele estava arriscando muito mais que o normal desta vez. Não que discordasse.

― E ele só não pode descobrir sobre você, não é? ― tentou amenizar, sem nenhum sucesso.

Plagg apenas suspirou e revirou os olhos. Oh, moleque teimoso.

Após uma breve visita ao quarto para apanhar o que lhes faltava, o jovem voltou à sala cuja iluminação parcial e indireta, através de arandelas e não lâmpadas, tornava a atmosfera muito mais convidativa. Mesmo que contra a vontade, estava mais tímido que durante o flerte, como se a ausência do traje o fizesse subitamente consciente do que estava prestes a fazer. Era, sim, muito mais arriscado; no entanto, estava mais que disposto a assumir esse risco. Estava ansioso.

Largou sobre o estofado ao lado do rapaz o lubrificante e os preservativos, subindo em seu colo de novo antes que pudessem prosseguir os amassos que interromperam. Ainda estava assimilando a satisfação por enfim se sentir tão próximo a ele, sem as barreiras da escuridão total e do uniforme preto e colado, mas Félix não parecia disposto a esperar nem mais um minuto. Trouxera-o contra seus lábios mais uma vez, num beijo úmido e lascivo, enquanto as mãos ocuparam-se de despi-lo sem demora.

Muito mais rápido do que previra, Adrien se viu livre de tudo que cobria seu tronco; suas roupas foram atiradas ao chão como fizera com as do rapaz. E, sob o toque faminto e agora sem restrições, sua pele nua era marcada por rastros de unhas e dentes, sensível diante da ânsia com que ele o arrebatava.

Quando ele liberara sua boca para percorrer com a língua o pescoço e clavícula, apertando seus quadris um ao outro, o jovem abriu os olhos para aproveitar a vantagem daquela circunstância que talvez nunca voltasse a se repetir. Geralmente penteado de modo meticuloso, as madeixas loiras do parceiro eram mais compridas que as suas, e lhe pareciam ligeiramente maiores nos meses em que ele não as aparara. Contudo, os fios que antes, mesmo mantidos atrás das orelhas, desalinhavam-se apenas nas pontas, após seus puxões e afagos estavam uma bagunça a envolver seu rosto. E como ele ficava ainda mais atraente com o cabelo rebelde. Deixou escapar num murmúrio:

― Você é lindo.

― Acredite, você é muito mais. ― E friccionou-se tentadoramente contra o sexo de Adrien enquanto explorava-o com os dedos e lábios para compensar a visão obscurecida.

― Nem consegue me ver ― arquejou ele com o contato, a milímetros de mais um beijo.

― Não preciso.

Suas respostas eram curtas, pois dedicava a atenção em saboreá-lo sem o maldito spandex em seu caminho. E para o jovem era mais que um prazer corresponder à sua avidez. Não demorou muito até que as calças, sucedidas pelas roupas íntimas, também se espalhassem pelo piso do cômodo.

― Alguém está impaciente ― brincou o herói, ainda que em um arfar necessitado quando os fios da nuca foram puxados sem cuidado.

― Você não faz ideia. ― E o puxou para que continuassem a se perder um no outro.

Adrien sentiu-se enrijecer diante da nudez do parceiro, pois era a primeira vez em que podia observar com detalhes seu corpo pálido e bem proporcionado. Queria também enxergar seus olhos cujas íris azuis deveriam estar obscurecidas pela lascívia, mas já era o bastante que conseguisse vê-lo. E sua reação não passara despercebida, pois em contato direto, era evidente a pulsação de seu membro contra o dele.

Antes mesmo de conseguir exteriorizar o quanto era delicioso aquele atrito, Félix contornara as ereções com seus dedos longos, apertando-as juntas para iniciar o estímulo simultâneo aos dois. Enfim nasceu da garganta do jovem um gemido rouco, entregue à carícia capaz de fazê-lo delirar. Não era gostoso apenas a mão a envolvê-lo de maneira tão habilidosa, deslizando desde a base até o topo num ritmo arrastado e provocante; a proximidade estreita ao órgão tão quente e rijo quanto o seu incitava em ambos um latejar delicioso.

Mesmo que não pudesse olhá-lo, o rapaz era capaz de ouvir o herói enquanto masturbava-os ao mesmo tempo, e ele gemia alto o bastante para equilibrar a ausência de visão. Além disso, com o tato conseguia sentir os músculos dele a se retesarem cada vez que o vai e vem constante reiniciava, e o quanto ele inteiro se contorcia sobre seu colo. A lubrificação de ambos, mesclada por compartilharem do mesmo espaço, lambuzava-os e tornava o friccionar mais fácil e prazeroso.

Ávido por alívio, o jovem tentara beijá-lo de novo, mas afastava-se de sua boca tão logo ofegava e grunhia, quando de alguma maneira Félix encontrava uma maneira diferente de explorar a extensão de suas ereções firmes e embebidas em fluidos. A cada novo roçar, a sala convertia-se mais e mais num ambiente ruidoso, entre suspiros e incentivos desconexos do casal. Cada vez que ouvia o rapaz gemer seu nome, Adrien agradecia mais a si mesmo por tê-lo contado.

A preparação não deveria durar muito; excitados como estavam, a vontade mais urgente envolvia mais que mãos e línguas. Contudo, com os dedos encobertos por lubrificante, o bibliotecário passara a remexê-los e enfiá-los no interior de Adrien com uma lentidão deliberada e insinuante ― aguardando apenas os protestos do herói para que não o provocasse quando faltava tão pouco para conseguir o que queria.

― Não sou o único impaciente ― murmurou contra seu ouvido, e se não estivesse tão desesperado o jovem perceberia a ironia sutil em seu tom.

Félix. ― O nome soara como súplica, quando enfim permitira que ele se sentasse sobre seu membro. Por favor.

Não era apenas difícil resistir quando ele implorava. Era impossível.

E qualquer outra tentativa de incitá-lo sumiu de sua mente ao senti-lo, apertado e insanamente quente. Adrien descera devagar sobre seu membro, ajustando-se à nova posição para que não houvesse qualquer desconforto. No entanto, para o rapaz havia somente a noção de quão delicioso ele era, além de ardor, desejo e fome ― latejou de novo, desta vez dentro dele, que fincara os dedos em seus ombros e jogara a cabeça para trás em resposta.

De início lento, adaptando-se a um ritmo constante de arremetidas, o herói passara a baixar e subir com um vigor gradual, apoiando-se na espádua de Félix para se impulsionar com mais intensidade. E logo as investidas do rapaz somaram-se às suas, tornando a experiência mais potente e libidinosa. Ambos gemiam diante do arrastar obsceno, do calor que emanava da pele, das línguas a se encontrarem em beijos molhados.

Sua voz falhou quando, simultâneo a uma mordida descomedida ao peito que provavelmente levaria alguns dias para desaparecer, os braços compridos do parceiro o envolveram. O contato estreito, reduzindo toda a distância entre eles, fez com que arqueasse as costas e arfasse com mais dificuldade. Conseguia mesmo sentir o toque possessivo das mãos que pareciam reivindicá-lo, e o jovem estava mais que disposto a isso enquanto se movia, ávido por mais.

Ainda que sem muito sucesso, Adrien tentava manter ao máximo os olhos abertos para apreciar o homem sob suas pernas. Vendado, ofegante e a murmurar seu nome em uma veemência extasiada, naquele momento ele era seu. Apenas seu. Mesmo quando o prazer o engolia por inteiro, levando-o ao limite enquanto se movimentava de maneira quase impetuosa, sua presença era a única de que ainda tinha ciência. E não poderia querer estar em outro lugar.

***

Quando ouviu alguns de seus ex-colegas a sugerirem outra visita à Biblioteca Nacional, ofereceu-se como acompanhante de imediato. Aparentemente, o irmão mais velho de um dos garotos da classe trabalhava lá, e muitas das garotas estavam interessadas no rapaz. Adrien era capaz de entendê-las, porque o motivo de sua visita era o mesmo ― ainda que seu funcionário preferido não fosse o mesmo do restante das alunas.

No entanto, ao contrário das visitas em que foi desacompanhado, desta vez não se planejara com antecedência. A própria decisão de juntar-se ao grupo fora praticamente involuntária, como se a vontade de ver Félix já houvesse se transformado em um instinto. Foi sem muito cuidado que adentrou nas sequências de salas do ambiente elegante que já reconhecia tão bem. Afinal, estava disfarçado entre tantas pessoas.

Por uma coincidência estranha e conveniente, o tal ídolo das estudantes compartilhava o mesmo recinto que seu talvez-namorado, embora ocupassem mesas em pontas opostas da grande sala. Da distância segura e entre seus colegas, permitiu-se espiadas breves, porém constantes, na direção do rapaz loiro que dividia a atenção entre um notebook e um amontoado de exemplares ainda não catalogados.

Vê-lo tão depressa após a noite anterior fez com que as bochechas se esquentassem ao lembrar-se de tudo. Já se conheciam há bons meses, contudo era impressionante como a intimidade e a confiança que compartilhavam pudesse continuar a crescer, pouco a pouco. Como ainda havia tanto a descobrir um sobre o outro. Como era tudo tão fascinante e vívido. Concentrado em seus pensamentos e na visão fugaz do único homem loiro na sala além de si mesmo, não notou que as pessoas com quem viera já estavam prestes a deixar o lugar.

― Ei, Adrien! ― chamou-lhe um garoto ruivo de pele sardenta. ― Estamos saindo.

Prestes a virar-se para responder ao colega, pelo canto dos olhos percebeu que a visão de Félix não estava mais voltada para os livros ou a tela do computador ― e sim fixa em sua direção. Como se pela primeira vez distinguisse sua presença, diluída entre outras tantas. Os olhos, arregalados, denunciavam seu choque. Porque ele ouvira a palavra de seis letras já tão familiar, e voltara-se na direção de quem a dissera por reflexo. E deparou-se com ele: um jovem de porte tão similar, mesma tonalidade dos olhos e das madeixas, ainda que os penteados divergissem; tantas semelhanças que era difícil ser coincidência.

Quem poderia prever que seria ao revelar o próprio nome que poria o segredo da própria identidade em risco.



Notas finais
¹ Le Farceur é 'O Bobo da Corte' em francês. Oops.