Sacrilégio - Hiatus
2 Assassinato
Notas iniciais
Mark, por um momento, parou olhando estático para Alice, as mãos suavam como no dia em que a pedira em namoro, talvez um pouco mais devido a circunstâncias. Assim como no dia em que ela aceitou o seu pedido, ele dizia para si mesmo que deveria agir, mas suas pernas não obedeciam aos comandos de seu cérebro. Ele continuava imóvel. Alice levantou-se deixando o caderno de lado e caminhou devagar até ele, seu sorriso se desmanchando a cada passo que dava.
– O que houve? – perguntou visivelmente preocupada e segurou a mão de Mark.
O rapaz olhou a mão delicada que segurava a sua. Tentou pensar em algo que pudesse dizer, mas não conseguia formular frases inteiras, então simplesmente a puxou para um abraço e permitiu que os soluços viessem a tomá-lo por completo novamente.
– Viva... – murmurou permitindo que um sorriso aparecesse em meio ao mar de lágrimas.
Alice enxugou as lágrimas do rosto de Mark e perguntou novamente o que estava acontecendo, porém ele, ainda atônito, gaguejava palavras desconexas enquanto as lágrimas desciam continuamente por sua face. O jovem sentiu como se houvesse ficado recluso do mundo inteiro por um ano, depois houvesse voltado e agora precisasse reaprender como viver. Confuso, porém esse sentimento vinha acompanhado da esperança de que poderia ter Alice consigo novamente.
– Você está viva... – disse permitindo que os joelhos falhassem como se estivessem esperando que ele dissesse uma frase relativamente completa para esquecerem como se sustenta um corpo.
Mark conseguiu dar dois passos antes de cair sentado no sofá. O rapaz passou as mãos pelo rosto tentando controlar a respiração.
– Eu não deveria estar viva? – perguntou Alice franzindo o cenho.
– Você morreu, Alice. Não devia estar aqui... – disse mais para si mesmo do que para ela, por mais que tenha sido insensível, Alice não se importava. Ela também tinha esse defeito.
– Eu... morri? – a jovem pareceu confusa, mas logo seu semblante se suavizou. Quem a visse naquele momento sem saber o contexto de sua expressão, de certo ponderaria que ela estivesse se lembrando de um episódio que havia ocorrido na infância e não de sua recente morte. – Sim... Então é isso que acontece depois... – a voz dela falhou dando espaço a um suspirou trêmulo. Alice se sentou cabisbaixa ao lado do rapaz, o semblante repentinamente apreensivo.
O clima voltou a pairar tenso.
Silêncio.
– Por que se suicidou? – Mark perguntou hesitante quando as lágrimas começaram a cessar.
Não houve resposta.
O rapaz inconscientemente passava a culpar Alice pela dor que havia sentido ao ver seu corpo inerte dentro de um caixão. Recordou do dia em que recebera a ligação de sua avó, que com um timbre choroso, gaguejava que Alice fora encontrada em um apartamento no centro da cidade. A jovem tinha um facão ao seu lado, uma caixa de comprimidos vazia e a camisa do Nirvana que deixava parte de seu ombro à mostra, encharcada do conhecido líquido rubro que atendia pelo nome “sangue”.
– Por quê? – gritou o rapaz com os olhos voltando a lacrimejar – Será que não passou pela sua mente que a sua morte doeria muito mais em certas pessoas do que em você? Não cogitou a ideia de que a minha vontade de viver poderia ser enterrada junto a você? – os olhos irradiavam a raiva repentina que sentia.
Os olhos de Mark nunca mentiam quanto a seus sentimentos.
– Eu... Não... – antes que ela dissesse o que quer que fosse o rapaz a interrompeu se levantando do sofá.
– Você não tem noção do quanto doeu te ver dentro de um caixão sendo enterrada, nem do que é correr a um hospital às três da manhã para receber a notícia de que sua namorada se suicidou, quanto mais o que é ouvir os policiais dizerem que ela possivelmente cometeu suicídio e que o caso foi arquivado por falta de provas! – ele parou de falar e a olhou com um ódio jamais visto por Alice.
Os olhos castanhos de Mark brilharam consumidos por uma fúria insana. A garota se limitara a abaixar a cabeça novamente e, mordendo o lábio inferior (um hábito que vinha da infância e que Mark aprendera a reconhecer como sinal de nervosismo e ansiedade) permitira que uma lágrima lhe descesse a face.
– Acho que me deve explicações, não? – indagou arfando, porém o que a garota lhe dissera em seguida fez com que ele se arrependesse de cada palavra dita:
– Ponderei todas as reações que você poderia ter quanto a minha morte, mas é impressionante... – ela parou e olhou dentro de seus olhos praticamente penetrando em sua alma e arrancando de seu peito toda a fúria ali contida – Mesmo depois de morta, você continua a me surpreender.
Ela fechou os olhos e com um suspiro se levantou do sofá. Andou pesadamente até a porta, Mark esperou que ela dissesse algo. O arrependimento por ter se dirigido de forma tão dura a ela começara a corroer seu peito. Já estava quase pensando que ela iria ir embora sem dizer mais nada quando faltando apenas um passo para que ela atravessasse a porta Alice virou-se e o olhou de uma forma fria que não condizia com sua real personalidade quando se dizia respeito a Mark.
Por um momento ele sentiu vontade de evaporar e poder recomeçar partindo do momento em que a encontrara sentada em seu sofá.
– Não acredita realmente que eu me suicidei, não? Eu lhe conheço. Por trás dessa máscara repleta de sorrisos existe um garoto melancólico que a pouco afogava suas mágoas em goles de Tequila. Parece ingênuo, porém no fundo sempre soube que eu de forma alguma encurtaria mais ainda o pouco tempo que tinha para viver ao seu lado. Fui assassinada, Mark. – a voz de Alice que antes tinha um timbre sarcástico repleto de escárnio e rancor suavizou repentinamente, como se alguém houvesse quebrado a pedra que se alojara em seu coração no momento em que ela havia esclarecido o que ocorrera na noite de sua morte que até o momento fora uma completa incógnita para Mark – Assassinada. Agora quero que olhe em meus olhos e diga o que disse há pouco tempo atrás.
E com essas palavras, Alice deu um último e preciso passo atravessando a porta, logo sumindo corredor afora e levando com ela toda a frieza do rapaz que antes havia se dirigido a garota de forma incrivelmente rude.
Uma única palavra martelava na mente de Mark "assassinada, assassinada, assassinada". O rapaz se arrependeu amargamente de tê-la julgado tão cedo. Foi atrás de Alice já formulando um discurso com suas mais sinceras desculpas. Ela entrava no elevador. Mark apressou-se em entrar a tempo de ouvir as portas fechando atrás de si, porém não a viu.
O rapaz a viu entrando, porém não dentro do elevador. Subiu novamente ao seu apartamento e, evidenciando seu nervosismo ao passar as mãos pelos cabelos, deitou no sofá logo após fechar a porta.
Assassinada, assassinada, assassinada.
Mark estava estirado no sofá com a palavra na sombra de seus pensamentos, a mesma de minutos atrás. Por mais incrível que pareça,
Alice não era doce, não fingia amar as pessoas e era de uma frieza incalculável, apenas quando a conheciam melhor que ela permitia que o seu lado doce, delicado e emotivo ficasse à mostra.
Agora que tudo fora esclarecido, o jovem sabia que Alice estava morta.
Que não se suicidara, fora assassinada.
Não sabia ao certo se sofria ou não de esquizofrenia.
Porém, tinha a absoluta certeza de que o assassino pagaria, nem que fosse necessário fazer justiça com as próprias mãos.
Mark pensou na primeira vez que a vira. Ela usava uma calça jeans e uma camiseta preta com os dizeres "Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar" em uma letra que se assemelhava a de grafiteiros ou pichadores, os cabelos castanhos estavam soltos e havia um sorriso em seus lábios e que permanecia neles, não chegava ao seus olhos. Pessoas felizes não vão sozinhas a bares no centro da cidade. Ela havia pedido uma segunda (e generosa) dose de Vodca e mesmo estando em uma mesa longe da de Mark ele conseguia ver seus olhos marejados.
Enquanto isso Mark estava sentado acompanhado de seu melhor amigo Eddie e sua namorada Jenny, Bryan que já estava bêbado e havia sumido (provavelmente estava agarrando alguém) e Bruce, amigo gay de Jenny que acabara se enturmando com Mark e os outros e havia levado o namorado Sam. Mark estava na sua primeira dose de Uísque e por mais que estivesse acostumado a beber, prometeu a si mesmo que não passaria disso, alguém tinha de dirigir, além do mais, ele já havia ficado bêbado semana passada na casa de Eddie e digamos que não fora uma experiência agradável. Ficou ali apenas observando Alice ingerir o fim da sua segunda dose rapidamente e pedir uma terceira. Deus, o que ela estaria pensando? Perguntou-se mesmo sabendo que de certo estava fazendo o que ele mesmo fizera diversas vezes.
Afogando suas mágoas.
– Vá falar com ela. – disse Eddie dando um gole em sua Black label em seguida.
– Tomou quantas doses disso? – perguntou, sabia bem como Eddie ficava quando bêbado.
– Acho que essa é a segunda. Agora vá falar com ela. – falou apontando para Alice.
Mark começara a se preocupar, Eddie bebia com mais frequência que ele, mas mesmo assim, suas doses de Black label era muito, Mark não conseguia ingerir essa quantidade de álcool. Mesmo assim, fechou os olhos e deu outro gole em seu Uísque pacientemente, se o amigo quisesse beber até que suas pernas não conseguissem sustentar o seu corpo, o problema não era dele, o rapaz tinha apenas que se preocupar em ficar sóbrio para deixá-los em casa, da última vez, fora Eddie que deixara de beber para levá-los, agora era a vez de Mark.
– Não estou com ânimo hoje. – disse dando o último gole em seu Uísque.
O pai de Mark, Krist, havia morrido há um ano e a mãe havia sumido mundo afora depois de seu nascimento. Hoje era o aniversário de seu pai. Ele completaria sessenta anos. O rapaz voltou o olhar para Alice que já deveria estar bebendo a quarta dose de Vodca e perdida em seus pensamentos, não notou que ele pensava nela.
– Aposto vinte reais. – disse Eddie dando outro gole.
– Aposta o quê? – perguntou Bruce que havia acabado de voltar à mesa com uma Ice em mãos.
– Vinte reais que o nosso grande Mark pega aquela ali. – falou apontando.
Sam apareceu com uma Red Label sentando ao lado de Bruce puxando-o pela gola da camisa e o beijou o impedindo de dizer o que quer que fosse.
– Aposto vinte também. – falou assim que Sam o soltou, ambos ofegantes.
Mark sorriu passando as mãos pelos cabelos. Só os amigos mesmo para animá-lo.
– Ok, vocês venceram. – ele riu e quebrou a promessa que fez a si mesmo quando sentou ao lado do balcão onde Alice estava sentada e pediu uma Vodca para acompanhar a garota. – Você tem nome?
– Alice Gentlesarcasm. – cuspiu o sobrenome dando um longo gole e Mark fez o mesmo.
– Mark Breackson, o que te traz a esse bar? – perguntou, definitivamente, Mark não era bom quando se dizia respeito a garotas. Olhou de relance aos seus amigos pedindo ajuda, mas eles estavam ocupados demais gargalhando de seu constrangimento.
– Motivos que não lhe dizem respeito. E eu não irei perguntar o que te traz aqui. – disse ela se referindo à mesa onde estavam sentados – Está querendo uma distração e eu estou querendo me distrair. – disse e sorrindo por pouco não terminou o seu copo, em seguida pegou Mark pela nuca puxando-o para um beijo com gosto de Vodca e Uísque.
Mark abriu os olhos e piscou para Eddie que olhava a cena boquiaberto. Alice pegou o copo de Vodca do rapaz assim que terminou o seu e o beijou novamente, desta vez colocando a mão dentro do bolso da calça do jovem e apanhando alguns reais.
– Obrigada. – ela disse ao garçom e pagou com o dinheiro de Mark – Quanto a você, quero deixar bem claro que não serei sua distração, esse beijo foi apenas uma forma de pagar pelas bebidas e de você calar a boca de seu amigo ali. – disse apontando para Eddie – Não ouse me procurar novamente.
Mark definitivamente não conseguiu manter a promessa que fizera a si mesmo. Procurava Alice no fundo de cada copo, e mesmo sem encontrá-la, seu rosto aparecia no líquido lhe dizendo "Não ouse me procurar novamente". A frase continuou em sua mente por semanas.
Saiu do bar junto aos seus amigos assim que o local fechou. Todos alterados. Dormiram na casa de Bryan que havia sido encontrado agarrando uma garçonete.
Despertando de seus devaneios, Mark olhou o relógio. Meio dia. Não demoraria muito e a sua avó estaria ali. Passado meia hora, os cabelos grisalhos e óculos que camuflavam o azul de seus olhos reconfortantes que realçavam o brilho de um sorriso delicado e convidativo apontaram na porta. Ela era diretora de um colégio próximo ao apartamento e prezava mais que qualquer coisa a pontualidade. Chegava em casa sempre meio dia e meia. Sem exceção.
– Olá, onde dormiu essa noite, querido? – perguntou deixando um monte de papéis sobre a mesa. O apartamento era pequeno, havia duas suítes e a sala e a cozinha eram divididas por uma grande mesa de madeira.
– Com... Alice. – disse sincero, ele havia avisado à Meggie que iria ver Alice na noite anterior e ela compreendera imediatamente o que ele quis dizer com as duas singelas palavras.
– Oh querido, tem de aceitar o suicídio... – começou, mas o garoto a interrompeu.
– E se... Alice não tivesse se suicidado?
Sim, o assassino pagaria, ou melhor, Mark o faria pagar.
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