Sacrilégio - Hiatus
3 Suspeitas
Notas iniciais
Alice não costumava ser doce, em verdade, a doçura era, de longe, de suas virtudes a mais ausente, mas isso não a fazia grossa, e sim, um meio termo: apenas simpática. Mark gostava de refletir sobre questões psicológicas e chegara à conclusão de que Alice era um pouco insegura, talvez por ser órfã... O rapaz nunca esquecera a forma como ela o olhava, e, com um sorriso no canto dos lábios, Alice reclamava, "Suas psicanálises acabam com a individualidade das pessoas. Posso não ser única, mas quem você pensa que é para me impedir de alimentar minhas fantasias?". Algo que não era alterado independente de Alice estar sendo fria ao conversar com desconhecidos, ou simpática com amigos era o seu inestimável humor, fosse ele irônico ou negro.
O interesse de Mark em questões psicológicas já lhe rendera boas discussões.
Recordava como se o episódio tivesse ocorrido recentemente. Alice tinha os olhos fixos na poesia de Edgar Allan Poe e ele tinha os olhos fixos nos dela.
– Não entendo o porquê de você se identificar tanto com essa poesia... – comentou distraído.
– Não tem de entender. Não gosto de teorias me definindo, senhor Psicólogo... – disse ainda concentrada na poesia.
Os dois estavam sentados em uma mesa atrás de uma estante e na frente da janela, assim, o lugar era claro e só era possível ver a mesa se estivesse na frente do computador da bibliotecária, o que dava um ar pessoal, como se pertencesse a eles e a mais ninguém. Logo, a Biblioteca Municipal Longsmith ou, para os mais íntimos, BML, já havia se tornado o ponto de encontro dos dois. A mesa já havia sido denominada "nossa" por Mark e Alice. O rapaz morava praticamente ao lado da biblioteca, e a jovem quase que morava na casa dele, logo, eles iam frequentemente à BML.
Alice costumava usar apenas um fone de ouvido e deixar o outro cair para que pudesse ouvir música eo que os outros diziam ao mesmo tempo. Seu cabelo quase sempre estava solto, e um sorriso lhe enfeitava os lábios enquanto ela lia e sussurrava parte de uma música. Porém, a biblioteca era um caso à parte. Os dois dividiam os fones de ouvido e ficavam em silêncio. Cada um em seu livro. Em um universo próprio.
Alice morara em um orfanato até os dezoito anos. Aos dezessete, descobrira que seu pai, Frederick, era um rico empresário, e que ela era fruto da traição dele a sua esposa, Martha, com sua advogada. Martha o ameaçara com o divórcio e a separação de bens. Frederick pediu piedade, e ela disse que esqueceria o assunto desde que ele colocasse Alice em um orfanato e nunca mais tivesse contanto com ela.
Frederick aceitou.
Após optar por esquecer sua filha, Frederick reconstruiu sua família tendo um filho com sua esposa Martha. Passado alguns anos, ambos morreram em um acidente de carro, deixando o filho à própria sorte. Não houve mais notícias a respeito dele desde a morte de seus pais. Quanto à advogada, mãe de Alice, enlouqueceu logo que Frederick a abandonou e colocou sua filha para a adoção depois de ganhar uma batalha judicial e ter sua a guarda (cujo juiz com certeza foi comprado), restou a ela ser internada.
Alice não contestou o testamento de Frederick e Martha que seria lido no ano de sua morte. Quando Alice contara a Mark, foi como se ela estivesse lendo uma notícia no jornal: distante. Como se a ficha ainda não tivesse caído. Como se ela ainda não tivesse aceitado que um mau caráter e uma vadia louca fossem seus pais.
Mark interrompeu seus pensamentos, com uma suspeita crescendo em sua mente. Se um pai colocou sua filha em um orfanato por causa da ameaça de sua mulher de tirar cada centavo de seu bolso, era bem possível que um parente de Alice a tivesse matado por causa da herança.
Qual era o próximo na linha de sucessão?
Seu meio-irmão... Mas ele já ficaria com boa parte do dinheiro, já que sua mãe tinha parte da empresa de Frederick e dos bens em geral. A menos que ele fosse muito ganancioso ou que estivesse precisando loucamente do dinheiro.
Mark tinha que encontrá-lo.
O rapaz se pegou indo ao pequeno apartamento dela. Dirigindo o carro da avó, só conseguiu chegar em vinte minutos ao seu destino devido a um congestionamento que lhe roubou a metade do tempo. Apenas "Savior" do "Rise Against" para abafar sua ansiedade.
O rapaz subiu. Ele tinha a chave, e o porteiro o conhecia, portanto, não havia nada que o impedisse de entrar. Subiu pelo elevador de paredes amareladas e chegou finalmente ao apartamento. Havia apenas dois cômodos, a cozinha americana e a suíte.
Assim que pisou no quarto de Alice, sua mente foi invadida por mais lembranças que, mesmo sendo incômodas, eram inevitáveis.
De repente, Mark estava de volta a BML, na segunda vez que vira Alice. Ele fora para a biblioteca às quatro da manhã, não tinha conseguido dormir e resolvera que o William’s Bar não era uma opção, porque Mark se recusava a ir sozinho. Jenny e Eddie haviam terminado há dois meses e desde então o amigo não saía de casa. Bryan iria a uma festa, já que era domingo, e Mark não iria com Sam e Bruce para segurar vela, fora o fato de que já era madrugada e, provavelmente, todos já estariam entretidos com algo, se não, dormindo.
Restou a Mark ir à biblioteca.
Uma das vantagens da BML é que ela ficava aberta vinte e quatro horas. Diana e Renata eram as bibliotecárias que dividiam os turnos: Diana das seis da manhã às seis da tarde, Renata das seis da tarde às seis da manhã.
Mark abriu a porta da entrada, subiu as escadas chegando enfim na biblioteca. Foi até Renata, que estava dormindo. Para entrar na biblioteca, era necessário escrever em um papel o seu nome e o horário que entrou e saiu da biblioteca para que Diana e Renata tivessem o controle de quem entra e sai. Mark se surpreendeu ao ver na fileira das duas da manhã um nome escrito: Alice Gentlesarcasm, e pelo que ele viu, ela ainda não tinha ido embora.
Gentlesarcasm... Ele já havia ouvido esse sobrenome antes...
Então se lembrou da noite no bar e foi impossível controlar o sorriso que insistiu em aparecer.
Olhou para trás.
Todas as mesas vazias.
Deu um passo, ficando em frente à mesa de Renata, mais especificamente, em frente ao seu computador. Olhou para trás novamente e dessa vez pode vislumbrar um fone de ouvido entre as estantes. Anotou seu nome na fileira das quatro da manhã e foi até a mesa. Assim que chegou, se deparou com um par de olhos negros o encarando. Elétricos. Alice usava uma blusa de frio com uma espécie de gnomo desenhado e a frase "Eu Vi Gnomos" em cima. Mark teve de conter o riso para não acordar Renata.
– Gnomos? Prefiro unicórnios. – sussurrou Mark.
– Gnomos não têm chifres. – ela respondeu, entrando na brincadeira.
– Por isso mesmo que prefiro os unicórnios, chifres são para os fortes. – argumentou.
– Corno... – pigarreou alto o suficiente para que ele ouvisse.
– Maconheira... – disse no mesmo tom. Mark reprimiu o riso enquanto seus olhos pediam a permissão de Alice para rir, ela respondeu com uma gargalhada abafada por sua mão. – Posso me sentar? – Mark disse ainda rindo e enxugando os olhos que lacrimejavam. Um efeito de rir além da conta.
– Lógico, tenho a impressão de que já te vi antes... – Alice respondeu desbloqueando a tela do celular e mudando a música para "Can’t Pretend" do "Tom Odell".
– No William's Bar, acho. – respondeu Mark se sentando e fingindo indiferença. Certo silêncio se seguiu até o jovem quebrá-lo com uma pergunta, evidentemente tentando começar uma conversa. – O que está lendo?
– O Cão Dos Barkervilles – ela respondeu e Mark franziu a sobrancelha deixando claro que não sabia de que livro se tratava – Conan Doyle...
– Ah sim, ótimo livro. – mentiu, conhecia o autor, não o livro.
Assim a conversa seguiu até às seis da manhã, quando as pessoas começaram a chegar à BML, o que passou a incomodá-los. Trocaram telefones e saíram seis e meia da manhã. Mark chegou em casa no momento em que sua avó Meggie ia para o colégio onde trabalhava.
– Chegando agora, Mark? – perguntou com um sorriso malicioso.
– Estava na biblioteca. – revirou os olhos – Apenas na biblioteca. – repetiu dando ênfase no "apenas".
Assim que Meggie saiu, Mark apanhou o celular e mandou um "Oi" para Alice pelo Messenger. Não queria que ela pensasse que ele estava muito interessado, mas também não queria parecer indiferente.
Cinco minutos se passaram até que o celular vibrou. Era Alice respondendo. Ficaram ali conversando banalidades até o meio dia, quando Eddie mandou uma mensagem o chamando para almoçar com ele e Bryan.
Mark acabou levando Alice junto.
Ele a pegou na porta da faculdade de letras. Os dois foram para um restaurante no centro da cidade, ele, Eddie e Bryan não acreditaram ao ver que o caso de Mark com a "garota do bar" tinha dado certo e fizeram questão de deixar isso bem claro assim que os dois chegaram. Alice esclareceu que eles eram apenas amigos e Mark completou mentalmente com um "por pouco tempo". Desde então o garoto fez questão de não perder contato com Alice.
Como ele sentia falta de seus lábios...
As lágrimas já desciam sua face continuamente. Tinha que parar com os devaneios. Mark agarrou o travesseiro o mais forte que podia enquanto os soluços tomavam conta de si, sentando-se na cama, o travesseiro abafando a raiva do jovem.
Como a vida é injusta.
Mas em meio ao mar de lágrimas, surgiu algo que lhe chamou a atenção. Em cima da mesa de cabeceira estava um papel com um número de telefone e um endereço escritos com a caligrafia de Alice. Mark foi até lá e apanhou o papel, sendo necessário piscar algumas vezes para que a visão embaçada entrasse em foco. O rapaz não pensou duas vezes antes de ligar para o número.
– Oi? – disse uma voz grave do outro lado da linha.
– Sou Mark Breackson, quem fala? – não conseguiu camuflar a voz trêmula e hesitante.
– Augustus Fletcher, mas pode me chamar de Gus, o que deseja? – perguntou com seu timbre grave enquanto Mark escutava o barulho de teclas de um computador do outro lado da linha, como se Gus estivesse digitando ao falar com ele.
– Informações... Sem querer ser inconveniente, mas senhor está falando de onde? – perguntou.
– Orfanato Santa Edwiges.
– Oh... Obrigado.
Mark desligou o celular.
Era por aí que começaria a "investigar".
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