Sacrifício
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Tudo naquela aldeia fedia a cinzas, doença e a morte que seguia. Poucas casas foram mantidas de pé, e se fosse corajoso o suficiente para pisar naquele solo e prestar atenção, poderia ouvir o lamento daqueles abandonados debaixo dos escombros das velhas construções, acometidos pela peste e deixados lá para morrer de fome ou de doença, isso se os cachorros que percorriam o território não os encontrassem primeiro.
Esquecida no meio daquele cenário desolado jazia uma criatura que poucos acreditariam que há menos de um mês tinha aparência humana e saudável. Os cabelos outrora cheios e cor de cobre já mal existiam na cabeça manchada, resumidos a uns poucos tufos de pelos acinzentados e quebradiços. Os dentes brancos como teclas de piano há muito haviam caído da boca, assim como as pontas de seus dedos e as orelhas. A perna esquerda lhe faltava, resultado do incêndio que colocara abaixo o casebre onde se abrigava e ela não usava nada além de um trapo para cobrir o corpo pustulento. Sua voz ardida e quase inexistente era a única coisa que quebrava o silêncio da destruição. Seu peito ardia e a garganta parecia sangrar por dentro. Não se lembrava da última vez que bebera água, muitos dias atrás com certeza, mais do que deveria ser possível para uma pessoa continuar viva.
Desde que o sol nascera ela gritava com todas as forças todas as blasfêmias que conhecia e nomes profanos de que se lembrava, convocava tudo o que era impuro e renegava toda a bondade que havia presenciado em vida. Agora o sol se punha e ela continuava gritando, logo os cachorros surgiriam e lhe rasgariam a garganta.
Mas ela sabia que ele chegaria primeiro.
– Não vai atrair nada de bom com essa gritaria.
Ela, que há dias não enxergava nada além de sombras, conseguiu ver perfeitamente a silhueta do homem encostado num muro que ainda se mantinha de pé. O sol poente, grande e vermelho, desaparecendo aos poucos atrás da esguia figura que, ela sabia, olhava diretamente em seus olhos.
– Você veio por mim? – Ela não reconheceu o som da própria voz.
– Eu vim porque você me chamou, mas o que pode querer de mim alguém tão perto de morrer? Deseja viver mais, é isso? Deseja que eu a cure?
– Não – ela grunhiu – nunca desejei nada tão intensamente quanto desejo a morte, mas há outro por quem preciso que você interceda.
– Um filho. – Ele sorriu e se aproximou com passos lentos. Ela sentia medo, mas há muito tempo perdera as forças para fazer qualquer movimento. Conforme ele se aproximava, ela conseguia distinguir suas características: cabelo negro, olhos de um marrom avermelhado como a terra sobre a qual um escravo sangrara, pele muito branca e uma roupa negra elegante como ela nunca havia visto, e um sorriso que acima de tudo a amedrontava.
– Sim – seus olhos quase mortos brilharam pela primeira vez – um rapazinho de grandes olhos azuis, de quem há muito me separei.
Contra o silêncio da aldeia destruída, a gargalhada do demônio foi tão alta que doeu os ouvidos da mulher e a encheu de desespero:
– Você vendeu o seu filho.
–É verdade! – o choro rasgou a garganta da mulher – Sim, vendi! Ele não sobreviveria ao meu lado! Meus seios estavam secos como os de um cadáver e eu estava adoecendo! Não tinha dinheiro para nos alimentar, e aquele casal parecia tão bondoso! Moravam numa grande casa, com empregados e boas roupas, e a jovem sofria tanto por não conseguir parir um filho vivo! Ai de mim, eu tinha certeza de que ele estaria melhor com eles do que morrendo comigo!
O demônio ajoelhou-se de frente para a mulher, tocando-lhe os cabelos levemente, sentindo-os quebrar e cair a cada toque.
– E agora, o que me pede?
– Peço para que dê ao meu menino a vida que eu teria dado, se pudesse. Peço para que cuide dele, que ele seja feliz! Que em vida ele jamais se depare com o cenário que causou a morte da mãe. E em troca minha alma é sua por toda a eternidade, e não me restam dúvidas de que você dará a ela melhor uso do que eu dei.
Um arrepio de excitação percorreu com violência todo o corpo do demônio.“Um sacrifício!”, o amor e a devoção daquela mulher pela raquítica criança que ela sequer batizara eram tão grandes que o perfume de sua alma havia afastado por completo o fedor da peste que descolava sua pele dos ossos. Ele voltou a tocar-lhe a face e, de olhos fechados, respirou fundo. Precisava localizar o moleque humano antes de devorá-la, e o que viu resultou-lhe em nada além de frustração.
– Sua criança deixou este mundo há muito tempo. A alma lhe foi ceifada e o corpo retornou ao pó. – E que vida de misérias o garoto havia tido. Fora vendido quando ainda era um bebê de peito, e ao completar seis anos, que surpresa foi quando sua mãe adotiva conseguiu engravidar e dar à luz a um menino grande, robusto, cheio de vida! E quem poderia imaginar que ao carregar a própria cria nos braços, a jovem e tão requintada dama desenvolveria um nojo tão grande da criança que comprara. O menino viveu os dias trancado no pequeno quarto, privado de água, comida e qualquer visitação; a mãe adotiva o escondia atrás de uma terrível doença inventada e tratou de esquecê-lo o quanto antes, tanto que, quando fora vê-lo pela primeira vez em meses, seu cadáver já estava há muito ressecado. – Não há nada que eu possa fazer por ele. – O demônio levantou-se, preparado para partir.
– Espere!– O grito da mulher saiu rouco, quase um latido. – Em nome de tudo aquilo o que lhe é de valor, demônio, responde a pergunta de alguém que há muito foi esquecida por Deus! Há de voltar, demônio? A alma do meu menino há de voltar para esta terra tão desolada?
– Reencarnação?... Sim. A alma voltará em outro corpo, em outra era, não posso dizer quando ou em que forma, mas há de voltar. –“E a desgraça da vida passada acompanhará a alma para sempre, e o corpo nunca conhecerá a felicidade”. A mulher sorria e chorava como se tivesse um vislumbre da bondade de Deus, sem nem imaginar que se tratava exatamente do contrário.“Deus, em sua imensa crueldade, fará a alma sofrer novamente, até que não haja nada pelo que pagar”.
– Então aguarda, demônio, e cuida para que a alma do meu menino conheça a felicidade que eu lhe proporcionaria se pudesse.
– Você sabe que não posso proporcionar felicidade verdadeira. Eu posso cuidar dele, dar-lhe segurança, uma boa vida material, mas não posso, sozinho, torná-lo feliz.
– Apenas cuide dele, para que ele não sofra os dissabores desta terra, e a felicidade há de encontrá-lo. É este o meu desejo.
– Muito bem, você tem um trato. – Ansioso e faminto, o demônio tentou se aproximar, mas a decrépita mulher reuniu forças suficientes para erguer o braço:
– Aguarda demônio! Há algo mais! Não priva meus fracos olhos da verdade. Guarda esta máscara que ostenta e beija-me com teus verdadeiros lábios. Deixe-me olhar nos olhos do Mal deste mundo, deixe-me conhecê-lo como realmente é, para que a última coisa que eu veja não seja uma mentira assim tão bela!
Aquilo arrancou do demônio um sorriso verdadeiro.
–Se é o que deseja.
Asas negras como a peste surgiram de suas costas, abertas, majestosas e aterrorizantes, cobrindo o céu cor de sangue do dia que acabava. Os olhos outrora vermelho-terrosos agora ostentavam um brilho vivo de rosa em chamas, como se o próprio Inferno dançasse em seu olhar. A elegante camisa havia sido rasgada pela presença das asas, revelando o peito nu, pálido e repleto de cicatrizes. Os braços eram cobertos quase inteiramente por luvas negras brilhantes como a noite, deixando os dedos de fora, exibindo grandes garras, tão afiadas quanto os caninos que ele exibia em seu sorriso. Os saltos das botas negras perfuravam a terra que parecia tremer a cada passo seu. Os cabelos, antes curtos, agora passavam da altura dos ombros, e acima das orelhas havia chifres que se curvavam sobre si mesmos.
A mulher sorria com dificuldade, as lágrimas iluminando o amarelo de sua pele esburacada pela doença. Ela mantinha o braço erguido e o demônio, ajoelhado de frente para ela, tomou-lhe a mão e a aproximou do próprio rosto. No rosa de seus olhos ela viu, por mais incrível que possa parecer, que não havia maldade ou rancor. Havia um sofrimento terrível e uma tristeza maior do que a dela própria, nada além de tristeza.
–Ai de mim. – ela disse, tocando-lhe a face gelada. –Por que Deus, em Seus mistérios, faria o demônio tão mais bonito do que os anjos das pinturas?
E com cuidado, quase com carinho, o demônio a pegou no colo como uma criança, e num bater de poderosas asas negras, ambos desapareceram na noite que nascia.
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Muito tempo havia se passado. O demônio, em seu sono, envolto em suas próprias asas, não havia se preocupado em contar os anos. Fora a voz do menino que o despertara. Uma voz fraca, mas que ecoava a voz da mulher de eras atrás e a promessa a ser cumprida. Um laço havia se formado, ele e aquela pobre alma se pertenciam e, assim sendo, se atraíam quase com magnetismo. A alma clamava por ele e ele tinha pressa em atendê-lo.
O corpo era muito diferente do que teria sido em outra vida, mas os grandes e desesperados olhos azuis permaneceram. Assim como o demônio previra, nada de bom estava reservado para aquela alma, mas era seu dever atenuar seu sofrimento tanto quanto fosse possível. Era sua obrigação dar ao menino uma vida onde fosse possível encontrar qualquer resquício de satisfação ou felicidade. E o garoto, em seu ódio infinito, clamava por um contrato.
–Diga seu nome, garoto.
– Ciel... Phantomhive.
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