Sacrifício
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O som da roda da carruagem passando sobre as pedras e folhas secas era nostálgico. Fazia Emily se lembrar dos tempos em que ia aquele lugar. Naquela casa. As gotas de chuva ainda caiam, pela janela do vidro. O céu estava nublado e escuro, foi como se tivesse escolhido justamente aquele dia para deixa-la solitária, mais do que já estava. A sua única companhia era o seu fiel mordomo Henry, que aceitou acompanha-la até ali. Ele já era um homem de idade, possuía hipnóticos olhos azuis claros. Ele facilmente poderia ser o seu avô materno, a quem nunca conheceu. A noite já se aproximava assim como o vento indicando para onde soprar. Emily usava o seu suntuoso vestido de velório, nada muito extravagante. Um espartilho preto com cordas finas atrás, prendia o seu busto, deixando os seus ombros a mostra. Exceto por um manto preto que estava por cima. Um acolchoado de rendas negras caiam em cascata a partir do espartilho. Usava ainda luvas pretas e jóias que herdara de sua falecida mãe. Seu cabelo negro caia sobre os ombros, e a fazia parecer uma princesa da noite. Seus olhos cor de esmeralda, estavam vermelhos. Tinha passado os últimos dias chorando e pensando no Jeffrey. Desde que estavam no útero de suas mães, foram destinados a se casarem. Era para terem um futuro incrível juntos, mas graças a um espirito maligno que possuiu o corpo de Jeff, ela perdeu sua mãe, seu pai, seu tio, sua irmã e inclusive o Jeff. Na verdade ele tinha sido tão gentil a ponto de aceitar limpar o porão de sua nova casa, tudo estava indo nos conformes. Era para dar certo. Mas deu tudo errado. Ele tinha se transformado, numa criatura maligna, e a única coisa que conseguia pronunciar era:
Fome. Fome. Fome.
Tinha sido ele quem havia matado sua família , mas ela não o culpava. Ele era uma vítima. Mas agora tudo estava prestes a mudar, Emily estava disposta a se sacrificar pelo Jeff. Afinal o amava mais do que tudo no mundo.
Quase sem perceber já havia chegado na mansão dos Lilian. Henry havia parado a carruagem de frente para o portão. Era uma mansão isolada, ficava praticamente nas montanhas. Fazia três anos desde o dia do porão, mas tudo parecia diferente.Pinheiros rodeavam a casa. Ela parecia estar velha e mal cuidada, e isso fez Emily lembrar da época em que aquele lugar era alegre e as roseiras brilhavam em cores vibrantes. Agora a grama estava seca e as roseiras não tinham mais cor. A casa era bege, tinha muitas janelas e trepadeiras ziguezagueavam por entre elas. O portão de ferro fundido continuava intacto, do mesmo jeito que antes fora. Isso de certa forma aliviava a dor de Emily.
Desceu da carruagem levantando a barra vestido para não sujar. O mordomo deu a mão para ajudar.
– Obrigado Henry.
– De nada Sra. Emily — respondeu.
– Obrigado por me acompanhar. Mas você já pode ir embora.
– Como assim? a Sra. Stephen quer ficar nesse local? — falou surpreso.
– Exatamente Henry, e não precisa se preocupar em vir me buscar.
– A Sra. está sendo insensata, se me permite dizer. Qual o motivo que te prende a esse lugar?
– Henry não se preocupe. O pagamento pelos anos dos seus serviços prestados, já foi colocado na sua conta.
– A Sra. Emily está me dispensando?
Emily somente virou-se em direção a ele, e o tocou em seu rosto já velho. Deu tudo de si para mostrar-lhe um sorriso agradável.
– Oh Henry, meu velho amigo. como eu já disse fique tranquilo.
Henry continuava lá parado, tentando assimilar suas palavras. Dizendo isso virou-se e andou em direção ao portão. Não foi preciso muita força para abri-lo. Enquanto caminhava pelo terreno em direção a mansão dos Lilian, sentiu um forte cheiro de sangue no ar. Aquilo a fez lembrar de quando viu Jeff matar os seus próprios pais. Três anos atrás enquanto estava escondida atrás de uma mesa tinha visto tudo. Desde ele abrindo os corpos até ele comendo o coração deles. Foi nojento, mas durante o processo Emily não desviou o olhar uma única vez. Sem perceber lágrimas silenciosas escorriam pela a sua pele branca. O que mais a deixou mal foi que quando eles chegaram em casa, ela não conseguiu gritar para a Sra. Lilian e nem para o Sr. Lilian, que deveriam ir embora, e por conta disso eles foram mortos. Aquele Jeff não lembrava de sua identidade, era frio, e por mais que chamasse o seu nome ele não reconhecia ninguém.
A noite já havia caído e Emily estava diante da porta. A culpa rapidamente a alcançou quando a abriu. Milhares de corpos estavam no cômodo da entrada, empilhados um sobre o outro. Emily Stephen havia matado todas aquelas pessoas. Durante três anos enviou serviçais para aquela casa, com a promessa de um bom emprego, mas na verdade estava mandando todos eles para a morte.
Depois de algumas pesquisas ela havia descoberto que o espírito que possuía Jeff não poderia sair daquela casa nunca. Nenhum espirito pode sair de seu lugar de origem. E por conta disso ele não ficaria perambulando por todos os lados, mas o problema era Jeff. Se o espirito não se alimentasse das pessoas, ele ficaria fraco porém Jeff também ficaria. Aquela mansão ficava isolada, ninguém nunca iria para lá, por isso ela havia enviado pessoas inocentes para lá. Apesar do que todos pudessem dizer, foi por amor. Somente por amor.
O cheiro que impregnava em suas narinas era de podridão pura. Sem hesitar passou pela porta e de relance olhou para trás. Henry ainda estava lá, esperando por ela. Isso a deixou com o coração apertado, provavelmente nunca mais o veria de novo. Fechou a porta atrás de si, e continuou andando por entre os corpos podres. Viu uma mulher com roupa de serviçal de renda esparramada pelo chão, a quem tinha mandado recentemente ao trabalho. Ela se chamava Lúcia e tinha um buraco no lugar do peito. Estava sem o coração. Emily fazia questão de lembrar o nome de todas as pessoas, que matava. Era uma forma de consideração, o sacrifício deles não seriam em vão. Pelo menos era o que ela acreditava. Encontrou muitos esqueletos em diferentes tipos de decomposição, alguns até estavam com larvas. Emily se segurava para não vomitar. Saiu daquele cômodo e foi para sala. Ele estava igualmente infestado de corpos. A casa estava escura e o piso rangia sobre cada passo que Emily dava, se perguntava se Jeff já sabia que ela estaria lá. Com certeza já sabia.
De repente começou a ouvir um barulho estranho, de algo se rasgando. O barulho vinha de um dos quartos. O seu coração começou a acelerar, fazia três anos desde que ela tinha visto ele. O medo era grande mas a vontade de vê-lo superava tudo. Tudo.
Subiu as escadas depressa e virou no primeiro quarto. Era o Jeff. Ele estava de costas, agachado sobre uma pessoa. A pessoa em questão era uma garota chamada Cyntia, ela estava com os olhos vidrados olhando para ela, o que fez Emily se sentir culpada. Suas tripas saiam pela sua barriga e uma poça de sangue se formava em volta. O quarto estava todo ensanguentado, uma crosta de sangue aparentemente velha mostrava na parede uma marca de mão que seguia se arrastando. Jeff estava comendo o coração de Cyntia, o que fez Emily se lembrar de coisas do passado. O seu cabelo castanho havia crescido tanto que ele estava irreconhecível.
Ela não aguentou a emoção e disse com lágrimas nos olhos:
– Jeff... -chamou-o
Ele nem sequer se virou, diante das palavras dela.
– Jeff — disse com mais confiança.
Ele só se virou quando terminou de saborear a fonte de vida de Cyntia. Os olhos dele estava completamente preto. Sangue escorria por entre seus lábios.
– Fome. Fome.Fome. — ele falou com a voz de Jeff.
Ele começou a andar em direção a Emily. Isso em outra ocasião a deixaria feliz mas Jeff estava possuído. Sem olhar para trás ela começou a correr em direção ao único lugar que poderia por um fim em tudo. O porão.
O vestido dificultava tudo, mas ele era da sua mãe e por isso significava muito usa-lo naquele dia. A quantidade de corpos aumentava cada vez mais que se aproximava de lá. Enquanto andava por entre aquelas vidas — mortas — cantou uma canção de ninar, que sua mãe cantava para ela dormir.
Venham criancinhas, venham comigo
Salvas e felizes vocês vão ser
Longe de suas casas, vamos correr
Com Hypno, vocês terão muita diversão
Oh, criancinhas, por favor não chorem
Hypno não faria mal a uma mosca
Sejam livres, sejam livre para brincar
Venham para a minha caverna ficar
Oh, criacinhas, por favor não fujam
Essas cordas, eu sei, irão lhes segurar firme
Hypno diz que isso é verdade
Mas infelizmente, Hypno estava mentindo
Oh, criancinhas, vocês não podem fugir
Suas famílias por vocês sofrerão
Suas mentes irei descuturar
Para assim, eu poder lhes assombrar
Mas certamente, tudo que vocês precisam saber
Já é a hora de vocês partirem
Oh, criancinhas, vocês não foram inteligentes
Agora vocês devem ficar comigo para sempre!
Só depois de terminar a canção Emilly percebeu o quanto ela era macabra. Ao fim da música já havia chegado no porão. Ele era pior do que todos os outros cômodos, o cheiro de sangue ali ardia em suas narinas mais do que sal em ferida. A aparência era assustadora, e algo fez Emily pensar que Jeff não havia sido o primeiro. Quando se virou lá estava ele. Não tinha mais para onde fugir. Não queria fugir.
Emily abriu os braços e sorriu. Como ela planejara ele foi em sua direção. O golpe foi único e certeiro. Jeff a acertou bem no coração, mas assim que fez isso algo mudou em seu rosto. Seu rosto que antes não tinha expressão agora mostrava alguém ligeiramente surpreso. Emily continuou sorrindo, ela sabia que isso ia acontecer. Era o destino. Com o braço de Jeff ainda atravessado no peito de Emily, ela fechou os braços em torno dele. Era isso o que tanto esperava. Só precisava vê-lo e tocá-lo mais uma vez. Antes que esquecesse tirou uma agulha de dentro da manga de sua roupa, e enfiou nas costas nuas de seu amado. Era veneno o que continha na agulha. Ele gritou
Não sabia se mataria o espirito com aquilo, mas pelo menos livraria Jeff daquela maldição. Não aguentava mais ver o rosto sorridente dos candidatos ao emprego na casa dos Lilian. Eles falando sobre suas qualidades e como eram bons serviçais. Sempre respondia de forma fria:
– Você conseguiu o emprego parabéns — dizia — E muito Obrigada. — completava angustiada, mal sabiam que estavam caminhando para a morte certa.
Devia muito a todas aquelas pessoas. Essa era a verdade.
Jeff se contorceu de dor, mas aos poucos seus olhos voltavam a cor Azulada que sempre foram. Emily olhou para baixo e viu seu corpo perfurado, encharcado de sangue. Ela caiu de joelhos. Mas precisava esperar até que Jeff voltasse completamente a si, precisava saber que tinha dado certo.
Algo estranhamente negro saiu do corpo dele. Mas Emily ainda o abraçava, e dizia coisas doces em seu ouvido.
– Eme — balbuciou rouco.
– Jeff.. — respondeu emocionada — Que bom que você reconheceu minha voz — Lágrimas saiam dos meus olhos. — Que Bom.
– Eme.. Eme... Eme — ele só conseguia dizer isso. Ele falava do mesmo jeito de quando dizia : Fome. Fome. Fome.
Emily não conseguia mais suportar a vida fluindo no corpo, a morte a chamava. O seu corpo desabou junto ao do Jeff. E seus rostos ficaram frente a frente. Ela sorriu para ele e ele sorriu fracamente de volta. Com dificuldade se aproximou o bastante para que seus lábios se colassem por uma fração de segundo antes que a vida se esvaísse de seus corpos.
A última coisa que ouviu foi algo balbuciar não especificamente para ela mais para Jeff também.
Fome. Fome. Fome.
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