Sacrifício
2 1.
Você já sentiu falta de algo que não devia se lembrar mais?
Um nome, uma vida, um passado. Nada disso são meus agora. Aquela que eu era ganhou um novo corpo, um novo livro em branco para ser cuidadosamente preenchido.
Eu não era mais ela, e sim, ele.
Quando acordei das trevas pela primeira vez, um chão frio e cinza me acolheu numa noite desconhecida. Abrindo os olhos devagar, eu sentia meus músculos doerem. Não sabia ainda onde estava e, na escuridão, eu era incapaz de enxergar meu novo eu — sozinho ali, eu era como um bebê que via o mundo pela primeira vez, a única diferença era que não havia ninguém para me segurar nos braços quando eu abri os olhos...
Nada nesse mundo me fará esquecer desse primeiro dia... Largado num beco escuro, uma dor distinta latejando, latejando sem fim... Mesmo sem quase ver nada, levei uma das mãos à cabeça, e foi então que senti o sangue quente escorrendo num dos lados do meu rosto e impedindo parte da minha visão.
Eu havia renascido no corpo de um cara que acabara de morrer. Eu era a segunda chance dele neste mundo. Preso naquela escuridão e naquelas dores, na hora eu não notei o tamanho da responsabilidade que caíra em minhas mãos.
Foi no instante em que pensava nisso que senti a tensão concentrada nos músculos de uma das minhas mãos. Baixando os olhos, lutei para enxergar através das sombras. Escondido na palma da minha mão direita, aquele punho fechado protegia uma fita de cor quente, estimulante. Curioso, girei devagar o pulso e desprendi meus dedos.
Um laço de cabelo vermelho. Era tudo o que eu tinha em mãos.
Quando os primeiros raios de sol pintaram o céu, eu já havia limpado com a água de um bebedouro o sangue que começava a secar em meu rosto, a mochila do garoto balançava em minhas costas e suas roupas, outrora imundas de sangue, foram trocadas por um velho moleton escolar que descansava amassado no fundo daquela mochila. Olhando em volta, para as ruas que começavam a ganhar brilho e cor, de uma coisa tinha certeza... Eu finalmente estava na cidade em que ele morava.
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