Sacrificed Blood - O Baile da Morte
6 Capítulo 5
Notas iniciais
– Você tem certeza? — Mike me perguntou quando eu liguei para ele no dia seguinte depois da escola. Era uma tarde de quarta e eu estava esperando Alison para passar o restante do dia com ela, afinal, além de eu precisar de um pouco da loucura dela naquele momento, sair seria bom pra respirar um pouco e quem sabe isso ajudasse a pensar com mais clareza.
– Tenho, claro que tenho. Mas os cabelos obviamente eram naturais de uma cor castanha, não coloridos como ela. Porém os traços, Mike, os traços, os mesmos olhos, expressão, foi tão perturbador. Tenho quase absoluta certeza que a Mirela, irmã de Elizabeth, é uma ancestral de Alison. Isso explica porque ela desmaiou quando tocou o colár. É tudo questão de laços sanguíneos!
– Tá... — ouvi ele suspirar. Sua voz tinha soado como alguém que já estava com problemas demais e eu só estava piorando tudo.
– Aconteceu alguma coisa?
– Jenny cancelou o casamento.
Fechei os olhos. Droga!
– Por quê?
– Eu não sei. Pra mim, nós estávamos indo bem e, de repente... Ela diz que desistiu.
– Você tentou conversar com ela?
– Só umas milhares de vezes.
– Ah, Mike, eu sinto muito.
– Vai ficar tudo bem, eu só preciso de um tempo pra pôr as ideias no lugar, uma bebida fresca e logo estarei novo outra vez.
– Tem certeza?
– Tenho. Agora vou desligar, meu cliente quer o relatório pro caso dele e eu preciso reunir as provas na hora do julgamento e fazer uma boa defesa.
– Ok. Te ligo depois, então.
Larguei o celular na cama, pensando em como meu irmão se sentia. Eu sabia exatamente como era. A sensação de abandono, que aquela pessoa que você amava simplesmente te deixou, sem dizer adeus, sem uma explicação concreta. Nada. E você não tem ideia de como preencher o buraco que ficou no peito. Recordo dos beijos, ainda sentindo a maciez de seus lábios nos meus, de como nossos corpos se moldavam, em perfeita sincronia com a calor que transitava de um para o outro. Tudo. Aperto as unhas nas palmas das mãos, não vou chorar. Porém, antes que eu perceba, uma lágrima pesada já escorreu por meu rosto, e nessa lágrima eu senti toda a dor ignorada por um ano se esvair em
um sopro. Me sentia um pouco melhor.Passei a mão pela bochecha, limpando-a quando ouvi a campainha. Era Alison.
– Ei! — disse sorrindo em meio a um suspiro.
– Oi. — ela respondeu, desligando o celular ao me ver — Está pronta?
– To. — chequei para ver se meu próprio telefone estava no bolso. Sim — Vamos. — sorri, apesar de o gesto ter exigido esforço.
Durante o trajeto, fiquei olhando disfarçadamente para ela, lembrando de como era parecida com a irmã de Elizabeth, assim como eu era parecida com ela. Será que ela era a reencarnação da irmã da princesa? E se era, por que seu colár havia causado aquela reação nela, por que o meu não fez o mesmo comigo?
– Por que não quer ir ao baile dos almofadinhas? — ela perguntou quando chegamos ao destino.
Decidimos visitar o parque que estava na cidade para variar um pouco as opções encontradas para lazer em Seatle que se encaixavam em nossas restrições. Lá continha diversos brinquedos, variando de "perigosos" a "tranquilos ao extremo", ou seja, para crianças. Uma roda gigante se destacava por sua altura e luzes coloridas piscando constantemente, mesmo que ainda não tivesse
escurecido, os brinquedos já iluminavam o local. Ainda não havíamos entrado, tinha muitas pessoas ao redor, procurando informações, comprando ingressos e fazendo filas pra entrar.
– Por que eu não tenho par? — respondi em tom óbvio — Além disso... Concurso de dança? — fiz careta — Eles pegaram uma coisa clichê e tornaram mais ridícula ainda.
– Nisso você tem razão. Seria mais legal se fosse no estilo dos Jogos Vorazes, sabe? Todo mundo se matando pra pegar a coroa. Aí eu queria ver quem iria querer participar.
Eu ri.
– Boa ideia.
Andamos em uns cinco brinquedos antes de dar fome, pois as filas estavam grandes demais e passávamos mais tempo nelas, conversando do que realmente brincado. Esse era o verdadeiro preço a ser pago pra ir no melhor parque que já passou por aqui. Alison pediu dois hambúrgueres e duas latinhas de refrigerante, nos sentamos e lanchamos. Daí decidimos ir ao banheiro, que era mais uma cabine larga, com cinco vasos sanitários, cinco pias e um espelho enorme em cima delas, a cabine era feita de metal e fedia pra caramba a urina e desinfetante podre juntos, como se alguém tivesse tentado limpar a sujeira dos visitantes, mas
não houvesse conseguido. Desisti de fazer minhas necessidades no instante em que entrei.
– Eu vou pegar uma AIDS nesse lugar. — comentou ela — Você me espera?
– Não tá falando sério.
– Quer pagar pra ver. — ela entrou em uma cabine — Tenta não agarrar ninguém até eu voltar. — eu ri, vendo a porta se fechar. Fiquei em frente ao espelho ajeitando o cabelo.
– Que nojo! — eu disse, observando o lugar, até encontrar minha imagem refletida. Aqueles olhos azuis já não eram mais tão estranhos para mim, eles me lembravam de tudo o que passei e que agora me tornara outra garota, completamente diferente do que eu era.
– Gosta do que vê? — escutei-me falar. Mas... Não era eu. Era meu reflexo, quer dizer, apenas ele. Eu mesma não mexera um músculo sequer de meus lábios — Assustada, criança? — ela riu — Não se preocupe, não sou real, pelo menos, não pra alguém além de você. Então? Gosta do que vê?
– Quem é você? — sussurrei pra que ninguém me ouvisse.
– Eu? — riu outra vez — Acho que você já sabe a resposta. A pergunta certa é: quem é você?
Semicerrei os olhos, a encarando, sem conseguir emitir um mínimo som por um momento.
– Você é a chave para salvar os vampiros de sua extinção, é uma Viajante. — quando não respondi, ela continuou — Não tenho muito tempo aqui, só consegui falar com você graças à porta que abriu ao deixar sua amiga, ou melhor, nossa irmã tocar em seu colár. E também, claro, aos bruxos obscuros. Antes eu só poderia aparecer pra você, mas agora... Consigo me comunicar! — sorriu.
– Bruxos obscuros? — soprei.
– Não posso dizer mais. Minha consciência tem que voltar para esse maldito colár até você pensar em mim outra vez, não nos decepcione, Ammy!
Então, a mulher refletida voltou a imitar apenas os meus movimentos. Pelo menos ela confirmou minha teoria de que Alison era a reencarnação de Mirela.
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