Sacrifício
1 Uma tarde ensolarada
Notas iniciais
— Chá? — Hinata ofereceu, sentando-se ao lado do primo em posição de lótus.
Era uma tarde quente, o sol brilhava e o céu estava tão azul quanto o mar. O cheiro de verão ainda marcava o ar e as árvores que compunham o jardim do clã Hyuuga balançavam de acordo com o movimento do vento em uma dança quase sensual.
Neji acenou com a cabeça em sinal de confirmação, tentando voltar a atenção para o pergaminho. Em tardes como aquela, ficar na varanda da mansão principal para ler sobre antigas técnicas era, para o gênio do clã, uma prática quase sagrada.
Ele se orgulhava de todo o autocontrole que conquistou durante os treinos, até mesmo de sua personalidade disciplinada. Conseguiria se concentrar, com sucesso e facilidade, em todos aqueles pergaminhos, se não fosse pela presença da jovem ao seu lado.
Sentiu o coração dar uma palpitada mais forte e engoliu o seco. Há algum tempo isso vinha acontecendo e, mesmo que soubesse exatamente o porquê daquela bagunça em seu interior, não admitiria nem se fosse pago. Neji era um homem centrado, mas quando se tratava de Hinata, simplesmente não sabia ao certo como agir ou o que sentir. Quando dava por si, já estava com os olhos fixos na garota, observando todos os detalhes; o que aconteceu naquele instante não foi muito diferente.
Os raios solares iluminavam o rosto delgado e Hinata parecia brilhar, quase flutuar, com os olhos fixos nas diversas flores que enfeitavam a entrada da casa principal. Então, subitamente, ela se jogou para trás, deitando-se no chão de madeira e fechando os orbes perolados. Neji respirou fundo, mas baixinho para ela não escutar, e tentou controlar-se quando vislumbrou o casaco dela subir, revelando um palmo de pele intocada.
— O dia está lindo. — Hinata comentou, ainda de olhos fechados.
— Realmente. — não demonstrou muita emoção na voz, voltando a leitura.
Apesar de estar com os olhos fixos nos kanjis, o cheiro da morena impregnava todo o local e ele amaldiçoou ter nascido com os sentidos um pouco mais aguçados que o normal. Podia sentir o calor emanando da garota e quase conseguia ouvir o coração dela.
— Nii-san.
— Hmmm.
— Porque você ainda me protege?
Essa era uma boa pergunta. Havia refletido sobre isso há algum tempo, no silêncio de seus aposentos, e acabou chegando a conclusão que, por mais que não tivesse mais a obrigação de protegê-la, necessitava ficar ao lado dela. Não só necessitava como também queria, mesmo que ela só tivesse olhos para Naruto e que não houvesse qualquer chance disso mudar.
Tudo o que mais queria no mundo era que os sentimentos da prima pelo loiro sumissem, mas Naruto já a tinha. O Uzumaki tinha tudo nas próprias mãos sem se dar conta disso. E o coração de Neji enchia-se de inveja e raiva, porque sabia que Hinata jamais seria sua.
Isso doía no âmago de seu ser, rasgava sua alma e lhe quebrava o coração.
A morena ainda esperava, ansiosa, por uma resposta. O rapaz limitou-se a olhar um ponto fixo no horizonte. Alguns pássaros cantarolavam ali perto e fechou os olhos, apreciando o som da água que caía de uma fonte localizada próxima ao local em que se encontravam. Por fim, resolveu abrir a boca e revelar o segredo que vinha guardando há tantos anos.
— É porque eu amo você, Hinata.
Ela permaneceu quieta por longos e tortuosos segundos. Então, sorriu com os lábios e, depois, com os olhos.
Nesse instante, ela o teve inteiramente.
— Também amo você, nii-san.
O tom fraternal na voz da Hyuuga apenas o fez concluir o que já esperava: Hinata pensava que ele a amava como irmã. Neji não era trouxa e sabia que a prima compreenderia sua declaração erroneamente. A moça sempre foi pura e inocente demais para entender que os sentimentos dele iam muito além.
Mas há tempos havia se contentado com o que tinha. Não esperava que fosse recíproco. Na verdade, nunca esperou.
Ao menos, agora, ele entendia Hinata por inteiro. Entendia o que ela passava ao indiretamente expor os próprios sentimentos à Naruto e compreendeu que o amor é feito de dores e alegrias — em seu caso, mais dores que alegrias.
Concluiu, também, que o amor é feito de sacrifícios. E por Hinata, sacrificaria qualquer coisa, até mesmo a própria felicidade apenas para vê-la sorrir.
Mesmo que não fosse correspondido, tê-la por perto era suficiente.
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