Sacrifício
10 9.
-E você continua vivo... Vaso ruim não quebra mesmo hein — o careca cuspiu as palavras na minha cara, um sorriso de demente preenchendo seu rosto.
Continuei a encará-lo, incapaz de formular uma resposta.
-Mas vamos acabar com isso aqui mesmo — ele disse, seu dedo aproximando-se do gatilho.
Ele ia atirar, eu sabia que ia atirar, e ali, preso naquele lugar sem nada que eu pudesse usar a meu favor, eu teria que contar somente com a sorte — isso se ela estivesse ao meu favor. E, para a maior e mais surreal das minhas surpresas, ela estava sim.
Ele aproximou-se como um fantasma, um caçador à espreita de sua presa. O careca não viu aquele que alcançava suas costas; apenas eu podia vê-lo. Trocamos um olhar mudo, antes dele finalmente agir.
Gabriel acertou o homem numa parte distinta do pescoço, o indivíduo no mesmo instante caindo inconsciente no chão. Não sabia que técnica era aquela, mas fiquei eternamente grato por ele salvar a minha vida.
Corri até Gabriel, o garoto apenas sorrindo enquanto via eu me aproximar. Abri a boca para agradecê-lo, só que alguma coisa a nossa volta chamou pela atenção dele.
-Corre! — ele gritou, sua mão se juntando à minha antes de sairmos em disparada pela rua.
-O que foi que você viu?! — perguntei, o fôlego parecendo querer fugir de mim.
Gabriel, alguns centímetros a minha frente, me olhou pelo canto dos olhos. Havia uma espécie de chama que incendiava o verde de seus olhos. Eu nunca o vira assim.
-Tem mais deles, Cris — ele disse, minha pele corando com toda a atenção que ele finalmente dava a mim — Mas eu sei de um lugar que podemos nos esconder. Me siga!
E eu, irremediavelmente, não tinha porquê dizer não. Aquela mão que estava junto à minha... Eu não iria soltá-la nunca mais.
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