Eu não ouvi a resposta de Gabriel, as palavras que saíam de sua boca pareciam estar longe demais para chegar até meus ouvidos. Como uma amiga possessiva, a escuridão tomou conta de mim, me envolvendo com toda a força de que era capaz. Quando achei que nunca mais iria abrir os olhos, a culpa pareceu tomar conta de mim.

Eu havia falhado.

Risos de anjos me tiraram de meu torpor. Zonzo, nunca foi tão difícil abrir os olhos.

O lugar a minha volta parecia cálido, acolhedor e familiar. Então era essa a sensação que tomava conta da gente quando morríamos? Eu quis acreditar que sim.

As duas não viram meu olhar a observá-las. De mãos dadas, ambas dividindo a mesma poltrona acolchoada, elas trocavam sorrisos e carinhos. Estava claro que elas foram feitas uma para a outra.

-Crystal... — o nome, agora não tão familiar assim, não fez eu me mecher. Apenas quando ele entrou no meu campo de visão que eu entendi tudo.

Sim... Aqueles que salvaram a minha vida continuavam a meu lado, só esperando eu despertar... Meus anjos estavam mesmo ali.

-G-gab — tentei falar, o dedo do garoto encostado de repente no meu lábio me deixando muda. Pelo sorriso dele, eu sabia que tinha corado.

Bella e Marine, notando que eu acordara, se aproximaram de mim.

-Como ela está? — a loira, Bella, perguntou.

O olhar dos três caiu preocupado sobre mim. Eles estavam vendo alguma coisa que eu não via ainda.

-Por que estou aqui? — perguntei a eles — Por que eu não morri?

O sentimento de ter falhado me atingiu em cheio, as lágrimas inesperadas inundando meu rosto.

-Eu recuperei a fita — Gabriel começou — Fui correndo buscá-la, porque eu não iria deixar você morrer assim, Crystal.

-Crystal? — perguntei, ainda sem entender a quem aquele nome pertencia.

-Você ainda não viu, não é? — sério, Gabriel me lançou a pergunta.

Sacudi a cabeça, negando.

-Tragam um espelho, por favor.

Correndo, Marine chegou a um guarda-roupa no fundo do cômodo. Não demorou um minuto até ela me entregar o objeto.

Meu corpo inteiro tremeu quando viu o que havia acontecido comigo.

-Sou eu! — exclamei, apalpando meu rosto sem acreditar — Voltei a ser uma garota, Gabriel!

Enxuguei as lágrimas, meu sorriso não cabendo no meu rosto.

-E espero que você continue assim para sempre — o garoto murmurou, tocando minha mão — Por que é assim que te quero a meu lado, e pelo resto dos meus dias, se possível.

As palavras dele pararam meu coração. E-eu havia entendido direito?!

-Eu te amo, Crystal — ele me beijou, tão subitamente que sequer consegui fechar os olhos — Você não precisa ser um garoto para que eu ame você.

Um segundo. Dois segundos. E então eu gritei, tão feliz e surpresa que nenhum deles conseguiu me parar.

-Para todo o sempre? — perguntei.

-Sim — Gabriel confirmou, sorridente — Para todo o sempre.

O desejo que sempre inundava meus sonhos enfim se realizou. Eu não sabia o que aquela fita tinha causado em mim para que eu voltasse a ser quem eu era. Mas agora, diante de todo o sacrifício que fiz, os frutos finalmente vieram. Gabriel estava a meu lado, e me amava. É isso que importa.

FIM

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