Sacrament Of Wilderness - Para Roberta
1 Capítulo 1
Vida. Por toda a parte esse dom peculiar floresce, instigando os sentidos do jovem. Ele é capaz de sentir o frêmito selvagem da natureza na grama sob seus pés, na floresta ao seu redor, no céu noturno sob sua cabeça. A luz de Drás – a lua – lança um brilho prata e azul entre as copas das árvores. Os olhos dele faíscam e ele aguarda. Fareja o ar. Vida e caça nova, andando gentilmente em algum lugar não muito longe dali.
Quando uma nuvem cobriu a palidez do luar, ele pressentiu que a vida presente por toda a parte havia tomado forma, se apresentado a ele, tal qual a matriarca da alcateia havia dito que aconteceria. Não para mim, todos sempre duvidaram de mim. Porém, ele não hesita e faz uma reverência solene ao Lobo – Azyr'um – translúcido parado no centro da clareira. O animal fantasmagórico uiva para o astro lunar pouco visível por trás das nuvens. Então ele se escora nas patas traseiras e salta para a frente, em direção ao jovem.
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O silêncio daquela noite enluarada encontrava seu fim com a passagem do pequeno grupo de homens caminhando através da floresta. Traziam em suas mãos bestas armadas com flechas cujas pontas aqui e ali refletiam a iluminação do lampião nas mãos do guia dos caçadores. Traziam um cão farejador, montarias, correntes e redes. Sua tentativa de mover-se com furtividade era inútil, pois de qualquer forma perturbariam a calmaria de onde quer que passassem. O líder do grupo, poucos passos atrás do guia, trazia um arco de caça cujo suporte era entalhado com graciosos símbolos de louros entrelaçados. Era um homem jovem e bem vestido, enquanto os outros trajavam vestes bem mais rudimentares. Tratavam-se de um nobre e seus empregados.
Com olhos atentos, o jovem nobre mandava o guia iluminar esse ou aquele lado do caminho que percorriam, buscando por sinais de movimento.
– Essa é uma bela noite para uma caçada esportiva, meu senhor, a Lua vai tão alta e cheia que mal precisamos de nossas lamparinas! – disse um dos serviçais.
O nobre respondeu com um breve sinal afirmativo, seus olhos jamais desviando-se da trilha. Os caçadores engajaram em uma conversa animada, mas o bom humor dos demais não foi capaz de distraí-lo.
A comitiva prosseguiu pela trilha estreita entre as árvores. Embora fosse uma magnifica noite de primavera, a previsão feita pelo servo havia se mostrado incorreta. Após o longo trajeto, não haviam visto sequer um coelho.
– É culpa de Samsey. – disse um dos homens, apontando um dos companheiros. – Não parou de beber durante todo o caminho e agora fica pisando duro, assustando os animais.
– Retire o que disse! – Samsey falou, escondendo uma garrafinha dentro do colete.
– Silêncio! – ordenou o líder do grupo. Ele apontou para um alargamento na trilha, que dava em um córrego. Na outra margem havia uma corça bebendo água. O homem que havia se queixado de Samsey separou uma flecha, preparando-se para alvejar a criatura, porém foi impedido por seu amo. Ele apontou para um ponto atrás da corça.
O espanto foi geral entre o grupo. Na outra margem do riacho, prestes a atacar a corça, estava um enorme lobo prateado.
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Toda a floresta se desfez diante de seus olhos e, por um momento, ele foi parte da floresta. Viu longe e simultaneamente toda a vida, uma confusão de pulsações, passos de estranhos, água corrente, sangue, sons e as garras de um animal feroz rasgando seu peito, como se fosse um solavanco de ar sendo forçado em ser que respira sozinho pela primeira vez. Ele gritou. O eco daquela viagem ainda pulsava em seus ouvidos quando ele olhou ao redor e não estava mais vendo o mundo através dos próprios olhos. Mas esses são meus olhos... e minhas garras. Ele sente as unhas alongadas das garras afundando na terra úmida e brevemente se apavora com a profusão de sentidos, muito mais apurados que antes. Estica o pescoço e espreguiça as quatro patas, ergue o focinho no ar e uiva para a noite. Ele é o Lobo. Ele fareja a caça.
Nunca havia corrido tão rápido, ele pensa, vendo os movimentos perfeitos das próprias patas cobertas de uma uma pelagem grossa e prateada, como se o espírito que havia encontrado tivesse se tornado algo material. De certa forma, era o que havia acontecido. Ele corre com a urgência de um animal livre. Estava satisfeito consigo mesmo, seu exílio não havia sido em vão.
Ouviu o murmúrio de um curso d'água e de pequenos cascos triturando os cascalhos nas margens do riacho. Quase podia antecipar a imagem da corça curvando-se para beber.
Um quase sorriso se esboça no focinho da criatura que havia se tornado, quando após uma última disparada, chega ao rio e encontra a pequena caça exatamente como havia imaginado, no momento ainda desconhecedora de seu destino.
Ele prepara o salto fatal quando a corça baixa a cabeça delicada. Ele flexiona o corpo para trás e se projeta no ar, pura fera, os dentes afiados. As orelhas da corça tremem quando ela pressente o ataque. O som seco de um projétil cortando o ar assusta a corça, ela foge tão rápido quanto as frágeis pernas permitem. Ele sente o flanco da perna traseira arder como se estivesse em chamas. O salto falha.
Ouve gritos, na língua estranha e terrível que reconhece apenas como pertencendo aos homens da floresta de pedra, assim a Alcateia os nomeava. Não eram diferentes de si, pelo menos em aparência. Grita em resposta, mas tudo que consegue produzir são os grunhidos de um animal ferido. Uma criatura vergonhosa, uma espécie de lobo domesticado, late em resposta. Ele tenta correr dali, quase cego de dor. Seu enorme corpo falha. Havia veneno na seta que o alvejara? A dúvida estranha por seu estado logo se esvai, senso substituída por pânico. Sente que em breve o espírito da floresta irá abandoná-lo. Enquanto seus olhos se fecham, teme o que acontecerá quando descobrirem sua forma humana.
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– Não disparem! – o jovem líder ordenou, baixando o próprio arco com flechas especialmente preparadas para aquela ocasião. – Precisamos dessa criatura viva.
Não era necessário falar duas vezes, os homens pareciam catatônicos diante da visão do animal abatido. Samsey esfregou os olhos e observou os companheiros, querendo certificar-se que aquela estranha pelagem prateada da criatura caída não havia sido um delírio causado pela bebida.
– Depressa, precisamos amarrá-lo e retornar ao forte. – disse o jovem. Percebendo que não se tratava de uma mera caçada esportiva, os homens correram para ir buscar aquela fera estranha, um misto de medo e curiosidade em suas expressões.
O jovem assistiu enquanto o grupo de caçadores preparou uma padiola para carregar o lobo. Seu rosto transparecia cansaço. Ele murmurou baixo, consigo mesmo:
– Espero que Vicran esteja certo.
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– Coloquem aqui. – o nobre disse aos caçadores, indicando para que deixassem a padiola em uma mesa que os caçadores costumavam usar para retirar as entranhas das caças. Haviam retornado à Cidadela e estavam agora no barracão destinado ao estoque de carnes do castelo.
Os homens obedeceram, embora murmurassem entre si que aquela criatura deveria ser mandada a um taxidermista e transformada em um troféu no grande salão do castelo. Logo que depositaram o fardo, foram postos para fora sem muita cerimônia. O jovem nobre jogou para eles uma bolsa cheia de moedas e, com isso, parecem esquecer no mesmo instante de qualquer estranheza relativa àquela noite de caçadas.
Assim que o último caçador passou pelas pesadas portas de madeira do lugar, cerrando-as com uma batida, o rapaz virou-se para a forma coberta por uma lona negra e empapuçada com sangue. Querendo livrar-se logo daquilo, sacou do cinto um punhal ritualístico que havia recebido de Vicran e puxou o tecido que cobria a criatura atada ao transporte.
– Pelos deuses! – o jovem exclamou, deixando a faca cair de suas mãos. Ao invés do Lobo Prateado, estava ali um rapaz apenas um pouco mais jovem que si, ferido e desacordado.
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– Meu senhor, Duque da Cidadela! – um homem de face macilenta e sorriso enviesado fez uma curvatura pomposa ao cruzar com o jovem andando depressa pelos corredores do castelo. Os olhos do homem demoraram-se um pouco mais nos vidros de unguentos e gazes nas mãos do duque. – Você conseguiu?
– O veneno que você preparou estava errado, Vicran. Matou a criatura. O coração do animal já não podia mais ser removido.
– Oh, mas que terrível, meu senhor. – Vicran respondeu, em um tom afetado. – Que pena. Tomaremos mais cuidado na próxima vez. Embora não acredite que meus tônicos mantenham Madeline viva por muito mais tempo, e sabe, as condições astrológicas...
– Você que deve saber delas, Vicran. Faça o que for possível. – o duque respondeu, com certa rispidez. Percebendo que a conversa estava encerrada, o conselheiro fez uma nova reverência e prosseguiu seu caminho.
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Foram incontáveis períodos de terror e delírio febril. Ele chamava pela Alcateia, mas ninguém respondia. Estava sozinho, solidão corroía todo seu ser nos breves momentos de consciência, antes que uma dor indescritível tomasse sua mente. Bebidas de gosto forte eram forçadas entre seus lábios rachados. Quando tentava lutar contra a ministração de tais infusões, mãos fortes seguravam seus braços e os esfregavam até que ele se acalmasse. Tinha a impressão de ouvir vozes, uma voz, não compreendia nada. Talvez fosse parte de seus delírios, porque ele ouvia também as vozes de velhos conhecidos, porém tão, tão, distantes. Tremia de frio e medo. Estava tão exausto.
Então, tudo terminou. Após um longo período de sono sem atribulações, ele despertou, sentindo seu corpo aquecer novamente. A dor sobrenatural havia desaparecido, deixando apenas uma sombra pálida do horror que havia sido. Ele piscou os olhos, tentando compreender onde estava. E quase desmaiou ao olhar ao redor.
Estava dentro de um lugar feito de pedras empilhadas umas sobre as outras, deitado em um saco de pano recheado de algum material muito macio que ele não imaginava qual fosse. Havia um buraco na parede de pedra, emoldurado com madeira e uma espécie de superfície transparente, através da qual um mirradinho de luz solar entrava. Decorações esquisitas estavam por todo lugar e a estranhez delas faziam a cabeça dele doer. Fez menção de fugir daquele lugar medonho, mas foi contido por alguém, ao mesmo tempo que sentiu o ferimento que a flecha havia causado latejar dolorosamente.
Sem muita escolha, deixou que a pessoa o arranjasse de volta contra os travesseiros. A voz aveludada pronunciou palavras calmantes, embora ele não as reconhecesse, entendia que eram placitudes gentis. Trêmulo, olhou para cima, para reconhecer a face daquele que falava.
Tratava-se de um jovem de cabelos cacheados e muito escuros. Seus olhos eram azuis e estavam repletos de preocupação. Seus traços eram marcantes, nariz afilado, lábios finos e rosto oval. Nunca havia visto um homem da cidade tão de perto. Vencendo o medo, ergueu a mão e tocou a face bronzeada do rapaz.
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– Olá... – o jovem duque murmurou, deixando que o rapaz deitado tocasse sua face. Imaginou se ele poderia perceber o tom de admiração com que havia o cumprimentado. Mal podia acreditar que ele havia sobrevivido ao veneno, mas era verdade que aquele não podia ser uma criatura comum. Se perguntava se havia feito certo em tê-lo cuidado. Que outra escolha teve, afinal? – Você parece melhor.
O rapaz convalescente retraiu o braço que estava tocando a face do outro. Olhou ao redor, parecendo examinar melhor o lugar que o havia espantado quando despertara.
– Não há nada aqui que possa te machucar.
Ele não pareceu ter ouvido o comentário do outro jovem. Em um tom de voz cansado, ele desatou a falar muitas coisas, em uma língua completamente desconhecida. Ele apontava para fora, repetiu as mesmas palavras algumas vezes. O duque apenas encarou o outro rapaz, observando suas feições. Ele era magro e, embora estivesse abatido pelo longo período lutando contra o veneno, seu físico esbelto e forte era notável. Possuía cabelos loiros que davam nos ombros e olhos cor de avelã. O duque procurava por traços da criatura prateada que havia alvejado na floresta, mas tudo que via era um homem igual a qualquer outro.
Finalmente ele desistiu de falar. Fez um gesto com a mão, como se englobasse o pequeno quarto e mais além. Falou algo que parecia indicar dúvida. O duque procurou interpretar a mímica.
– Você quer saber onde está? Que lugar é esse? Hmm... – ele imitou o gesto que representava todo o lugar e apontou para si mesmo. – Esse é castelo do meu clã. Minha casa.
O enfermo pareceu surpreso. Ele apontou para o chão e, em seguida, para o duque.
– Largum Azyr'um dron Sarvoo aaran se'doh? Niguto!
O duque riu ao notar a confusão na expressão do acamado e imaginou o que ele poderia estar dizendo. Achou melhor mudar o assunto. Apontou para o próprio peito. – Meu nome é Riordano. Riordano. E você? – apontou para o peito do outro rapaz.
– Ri-or-daan-no? Ri'ordano aaran se'doh. Sarveen Ay'ansylar aareen se'nye.
– Ahn, o que?
Um breve sorriso passou pela face abatida do rapaz, para exasperação do duque.
– Ay'ansylar. – o rapaz apontou para si mesmo e inclinou levemente a cabeça para o lado.
– Oh, entendi. – o duque apontou para o rapaz e tentou repetir o nome, mas as sílabas pareciam se misturar em sua língua e soavam rústicas em relação à maneira musical com que o jovem havia dito o próprio nome. – Posso chamar você de Yan? – ele apontou para o outro – Yan?
O rapaz suspirou e acomodou-se contra os travesseiros, a breve conversa devia tê-lo cansado. Antes de adormecer, ele murmurou:
– Yan? Ke.
O jovem duque entendeu isso como um “sim”.
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Vários peticionários enfileiravam-se para requisitar justiça ao Duque da Cidadela, mas este mal os ouvia. Que o escrivão anote tudo, depois me preocupo com isso, pensou. Não que não se preocupasse com o bem estar da cidadela, mas assuntos mais urgentes ocupavam seus pensamentos. Evitava o olhar penetrante de Vicran, o conselheiro e médico do castelo. Este estava do outro lado do salão do trono, formalmente parado ao lado da entrada. Ele mantinha as palmas das mãos unidas, como se em oração, avaliando aqueles que entravam no palácio. O homem havia servido fielmente ao pai de Riordano e, até agora, jamais havia falhado ao filho, por mais que seu excesso de pompa fosse irritante. A função dele era intrometer-se, afinal. O duque imaginou se o conselheiro fazia ideia que a criatura que havia mandado abater era, na verdade, um homem.
Sacrificar um homem desconhecido, que sequer fala sua língua, por Madeline. Isso valeria a pena? Riordano procurou evitar tais pensamentos. Assim que suas funções de governo estivessem encerradas, iria tentar descobrir com o que estava lidando.
Antes que pudesse deixar o salão, agora vazio de peticionários e negociantes, foi chamado pelo conselheiro.
– Desculpe trazer esse assunto à tona, meu senhor. Porém, esqueci de perguntar. Como foi que os caçadores derrubam uma criatura tão extraordinária e não trouxeram a carcaça, meu caro senhor?
Riordano se perguntou por um segundo porque simplesmente não contava a verdade. Descobriu que não desejava a opinião de Vicran sobre o que fazer com o convidado inesperado.
– Não desejei perturbar a floresta mais que o necessário, Vicran. Não quero atrair mais mal agouro para esse clã.
– Prudente, meu senhor. – o homem respondeu, deixando o duque sozinho em seu grande salão repleto de troféus.
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Ay'ansylar sentia vertigem toda vez que se aproximava do “buraco na parede” e notava que estava tão alto, muito acima dos telhados de imitações várias vezes menores da construção em que se encontrava. Como era possível que aquele lugar aguentasse ficar em pé? Não era nenhuma caverna nascida do seio da terra, segura pelas próprias mãos do tempo. Aquilo era tudo tão louco. Esticou os dedos, tocando na superfície dura e transparente que cobria a passagem quadrada. Além dos muros da floresta de pedra, ele podia ver as pontas verdes das copas das árvores da outra floresta. Que saudade ele sentia da brisa fria, de tocar a terra com a sola dos pés e correr, correr.
Havia deixado a Alcateia para se tornar um adulto, um caçador verdadeiro, alguém que havia conhecido o espírito da floresta. Por um momento muito breve e glorioso, havia sonhado com as expressões surpresas de seus irmãos e irmãs e com o olhar orgulhoso da Sarvii – a matriarca – quando ele adentrasse o território da alcateia. Aborrecido e sentindo uma fisgada de dor onde havia sido alvejado, considerou que seria mais verdade que a alcateia o tivesse por morto, pois havia fugido semanas antes da lua cheia e agora já nem sabia a quantos dias estava encerrado nesse lugar estranho.
Mancou até a cama, tão grande que caberiam vários sarveen ali. Como havia ido parar naquele lugar? Tudo que lembrava era da mordida terrível da flecha, das vozes em uma língua incompreensível e então, escuridão. Será que o homem tão gentil, que o havia curado e agora trazia comida e remédios, estava entre os caçadores? Lembrou daquela vergonha de lobo domesticado, mas o pensamento de encontrar-se na mesma situação o nauseou de tal forma que achou melhor o evitar.
Um estalo vindo da entrada, um arco coberto por uma pesada superfície de madeira que somente abria se fosse inserida uma peça metálica numa espécie de mecanismo, chamou a atenção do rapaz.
– Yan? – Riordano havia entrado no quarto. Ele vinha trazendo várias coisas, entre as quais, comida. O rapaz considerava muito estranhos os alimentos dos homens daquele lugar, fatias finas de carne cheias de condimento e outras coisas que não imaginava o nome. Ainda assim, devorava tudo sem muito questionamento, sentia-se faminto após tanto tempo enfermo.
O jovem, que para estranhamento de Ay'ansylar, dizia-se Sarvoo do lugar, depositou tudo que havia trazido em uma pequena mesa e tornou a trancar a entrada, prendendo no cinto o instrumento que permitia que fosse aberta novamente. Após fazer isso, desatou a falar, embora fosse impossível para Ay'ansylar compreender uma palavra, além do nome com que era chamado pelo outro.
Riordano apontou pra o ferimento coberto por bandagens de Ay'ansylar, então para o chão. Fez um gesto veemente de negação. Ele queria dizer que não deveria andar?
Eu estou me sentindo melhor, vê? Ay'ansylar levantou da cama, se arrependendo em seguida, porque uma nova fisgada de dor o obrigou a agarrar o braço de Riordano para que não caísse. O outro o segurou firmemente e o levou de volta para cama. Certo, Ay'ansylar disse, traga a comida, então. Ele apontou para a refeição posta de lado, porém foi ignorado. Riordano estava pegando do chão as roupas que havia dado para o outro vestir.
Essas porcarias! Você podia devolver minhas coisas. Sentia falta de suas vestes feitas de couro macio. Preferia ficar nu a usar aquelas coisas sufocantes. Riordano percebeu o tom de voz do rapaz, porque respondeu jogando as roupas aveludadas em cima do jovem. Embora não soubesse a língua dele, Ay'ansylar teve certeza que Riordano havia dito algo como “não é tão ruim assim”.
Logo depois, ele trouxe os alimentos.
– Saar'dam-r'um! – agradeceu. Havia escolhido algumas coisas dos pratos (embora houvessem objetos para servir os alimentos, sabia apenas usar as mãos. Riordano havia estranhado a principio, mas logo dera como causa perdida.) quanto notou o olhar do outro sobre si.
– Saar...? – Riordano tentou imitar, mas a linguagem dele era cheia de sílabas duras e que em nada lembravam a língua de Ay'ansylar, tornando termos simples como um agradecimento quase impronunciáveis. Também desejava conversar com seu protetor, gostaria de entender porque estava naquele lugar. Sentiu o peito apertar, ao pensar que também deveria perguntar por quanto tempo ficaria ali. Tinha medo da resposta.
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Uma linguagem tão refinada e seu dono comia com os modos de um frequentador de uma taberna portuária e recusava roupas da melhor qualidade, preferindo afrontar a decência a vesti-las. Riordano ponderou sobre a cultura de seu hóspede. Queria muito aprender mais sobre ele. Havia pedido para que o bibliotecário separasse livros sobre espécies de lobos e também tratados de viagens que mencionassem outros povos.
Tentou repetir as últimas palavras de Yan mais uma vez:
– Sardrum? Saa-
Yan riu, lambendo manteiga dos dedos. Ele havia ficado muito desconfiado da culinária do palácio no primeiro dia, mas a fome o havia vencido e agora parecia apreciar tudo que era oferecido.
– Saar'dam-r'um!
– Tsc, eu realmente não consigo. – Riordano disse.
Yan colocou a fatia de pão que estava mordiscando de lado, parecendo pensativo. Ele encarou o outro rapaz e disse alguma coisa.
– Eu não consigo entender, oh! – ele exclamou, ao compreender a mímica de Yan. Ele estava apontando para uma série de objetos espalhados pelo quarto, uma expressão interrogativa em sua face. – Você quer saber o nome deles? Certo, certo, sim, talvez você consiga aprender minha língua. Mas, calma. – Yan continuava apontando para cada objeto presente. Riordano achou graça da atitude decidida do outro, mas estava cético da didática de simplesmente apontar o nome das coisas. – Calma, por favor!
– Por faa-vorr? – Yan tentou imitar.
– Sim, muito bom! Na verdade, bem melhor que eu.
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Era tarde da noite, mas Riordano estava bem acordado, em sua sala de leitura. Havia uma porção de livros, alguns abertos, outros fechados e com suas páginas marcadas com fitas de cetim, espalhados sobre sua escrivaninha. Trouxe o lampião para perto, tentando ler a caligrafia miúda do copista. Já havia recorrido a vários livros de taxinomia, manuais geográficos, tratados de povos, mas nenhum deles fazia sequer menção sobre uma espécie capaz de mudar sua forma física.
Pôs o livro que estava lendo de lado e massageou as têmporas. Não deveria estar lendo sob tão pouca luz. Talvez Yan fosse realmente um ser único. Não, isso não faz sentido. Ele tem uma língua e cultura próprias, isso são características de um ser que vive em grupo. Tampouco é um animal, justamente por esses mesmos fatos. Com um pouco mais de paciência, Yan aprenderia a língua do duque e poderia então explicar sua origem.
E se ele pedisse para ir embora? Riordano sabia que o correto seria deixar que Yan partisse assim que estivesse completamente saudável. Porém, pairava a dúvida: e se Vicran estivesse certo e aquela criatura, aquele homem, fosse a única chance de cura para Madeline?
Seus olhos buscaram o retrato de Dalila, na esperança que a imagem eternizada da face altiva dela lhe indicasse alguma solução. Se ela ainda estivesse viva, o que pensaria disso tudo?
Os pensamentos melancólicos do jovem duque foram interrompidos por batidas secas na porta. Ele procurou se recompor e mandou que a pessoa entrasse. Era uma das empregadas do castelo.
– Meu senhor. – ela disse, fazendo uma profunda reverência. – Madeline acordou, ela deseja ver o senhor.
Nunca haviam descoberto o que havia deixado Madeline doente, muitos diziam que ela era uma criança fraca, debilitada desde o parto que havia causado a morte de sua mãe. Sua doença tinha surtos, às vezes fazendo a menina passar um longo período em um estado de quase catatonia. O duque lamentava por não passar mais tempo cuidando pessoalmente de sua filha, mas ficava com o coração partido de acompanhar o estado da menina. Estava sempre esperando pela pior noticia. Lamentava muito isso, pois ela era a maior memória que poderia ter de Dalila, era injusto demais perdê-la também.
– Olá querida, como você está? – Riordano perguntou, quando entrou no quarto da garota. Madeline tinha a pele morena como a da mãe, mas estava tão pálida, como se fosse sumir a qualquer momento. Ele sentou na borda da cama da menina e segurou a pequena mão dela.
– Com saudades. – ela disse. Riordano abraçou a filha com todo cuidado, ela era pequena demais para uma garota de seis anos. – Eu sonhei com o Festival de Verão. Perdi ele de novo?
– Não, não! Ainda faltam três meses, minha querida.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios da criança:
– Então vou me esforçar para ficar melhor até lá.
Riordano suspirou, muito aborrecido. Não queria encarar as expressões penalizadas das criadas. Era também incômodo o olhar de Vicran, que estava parado junto à mesinha de cabeceira repleta de remédios. Ele sabia como fazer o duque se sentir culpado.
– Você não tem nada a dizer, meu duque? Nada que possa aplacar o sofrimento de sua filha? – Vicran comentou, seu tom de voz baixo o suficiente para que apenas Riordano pudesse ouvir. O duque ignorou a pergunta, ajeitando Madeline com cuidado entre as cobertas e travesseiros. Ela havia adormecido em seus braços.
Uma tempestade formava-se sobre a Cidadela e seu castelo.
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A mão de Riordano pousou sobre o punhal preso ao seu cinto. Seus dedos fecharam-se sobre o cabo trabalhado da arma. Com a outra mão, virou com cuidado o corpo do rapaz adormecido. No momento em que preparou-se para puxar o punhal, um raio cortou o céu, iluminando o quarto e revelando o rosto amedrontado do outro jovem. Haviam lágrimas prestes a cair de seus olhos. Riordano soltou o cabo do punhal.
Decidiu que deveria deixar Yan em paz, porém antes que pudesse sair dali, uma trovoada espetacular fez os vidros da janela tremerem. Yan lançou-se contra Riordano, escondendo o rosto do peito do rapaz.
– Oh, você tem medo de tempestades? – Riordano perguntou, sua voz sendo abafada por outro trovão. Yan apenas se encolheu mais ainda contra o tórax do outro e começou a chorar aos soluços. Riordano ainda tentou fazer com que ele o largasse, mas Yan parecia decidido a permanecer onde estava por quanto durasse a tempestade.
Dando-se por vencido, Riordano se acomodou o melhor que pode. Achou melhor permanecer sentado, as costas apoiadas contra a cabeceira do leito. Não é como se eu fosse deitar com ele, pensou. Desconsiderando o quanto aquilo era estranho, passou um bom tempo acariciando o cabelo de Yan. De alguma forma, achava o gesto calmante para si mesmo também.
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Ele estava sozinho quando acordou, mas tinha certeza que Riordano estivera ali na noite anterior e havia passado um longo tempo fazendo-lhe companhia. Ay'ansylar não gostava das tempestades, principalmente quando estava em um lugar que parecia estar prestes a desabar a qualquer momento. Quando haviam chuvas torrenciais, procurava com os outros sarveen mais jovens um lugar confortável, onde podiam acender uma fogueira e ficar abraçados, contando longas histórias. Certo que saudades adocicavam um pouco suas lembranças, outros sarveen achavam graça no medo que Ay'ansylar tinha dos trovões e isso era mais um motivo para dizerem que ele nunca se tornaria um sarveen caçador. “Você ficará com os velhos, os ajudando a cuidar das crianças” era isso que até mesmo a Matriarca dizia. Não por maldade, mas para que ele já se acostumasse com seu destino certo. No fim, todos eles erraram, pensou. Com um suspiro, dirigiu seus pensamentos ao presente. Por sorte, durante todo o tempo de sua viagem não havia sido surpreendido por esse tipo de clima. Estava preocupado que seu comportamento tivesse feito passar-se por covarde diante do outro homem.
Levantou da cama e andou até aquilo que agora sabia chamar “janela”. Bateu com a ponta dos dedos no “vidro”. Era incrível que essas coisas de aspecto tão frágil aguentassem uma chuva daquelas. Ajeitou melhor no corpo a túnica de veludo que havia recebido de Riordano. Apesar da época, estava sentindo frio.
Não sabia se traria algum bem aprender a língua de Riordano. Podia ser uma forma de passar o tempo, tentar decorar o nome de tantas coisas novas, mas o que ele mais desejava era dizer para Riordano que precisava ir embora. Não conseguia sequer ouvir as vozes do Sas'gu de onde estava e isso era terrível.
Suspirou. Não queria deixar-se tomar pela melancolia. Sentou no peitoril da janela e ficou observando as pessoas da “cidade” – esse era o nome que Riordano dava à floresta de pedra – ocupadas com seu afazeres cotidianos.
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Riordano mal podia acreditar na rapidez com que Yan havia melhorado. Sentia até uma ponta de inveja por Madeline, que seguia adoentada. O hóspede havia ficado apenas com uma cicatriz superficial onde a flecha havia atingido, mas após duas semanas parecia que não havia passado por qualquer incidente.
O duque o visitava todos os dias e passava muito tempo em sua companhia. Pouco a pouco, para Riordano, as visitas a Yan tornavam-se uma distração agradável dos seus dias cheios de preocupações e pesares. Para não causar suspeitas, pedia para que trouxessem almoço e jantar para sua sala de estudos, localizada em frente ao quarto onde havia escondido o jovem. Assim que o criado deixava a bandeja, ele dispensava o serviçal e levava a comida para dividir com Yan. Trouxe também livros com histórias que ele poderia ler para o rapaz, considerando que eles seriam um bom entretenimento, pois Yan parecia cada vez mais incomodado com o fato de estar preso, andando pelo quarto feito uma fera encarcerada. Riordano fazia o possível para agradar ao outro jovem, pois não queria que ele se sentisse um prisioneiro.
– Os, os guar... – Yan procurou lembrar a palavra correta. – Os guardas, tem muitos lá. – ele estava sentado no parapeito da janela, que havia se tornado seu lugar favorito.
– Sim, eles protegem o castelo.
– Niguto... – ele murmurou. Sempre usava essa expressão diante de coisas que não entendia muito bem e via com certo despeito. Pelo olhar dele, possuía algum comentário a fazer sobre os guardas treinando no pátio do castelo, mas não tinha conhecimento suficiente da língua de Riordano para explicar o que estava pensando. Ele parecia não apreciar a necessidade de tantas pessoas armadas sem um motivo tal qual uma caçada.
Ainda pairavam muitas perguntas entre eles. Yan logo pediria para deixar o confinamento, seus olhos percorriam com ansiedade das chaves no cinto de Riordano à porta sempre trancada. Riordano, por sua vez, ainda não havia conseguido que Yan explicasse sobre si mesmo. Havia mostrado a ele uma figura de um lobo. O rapaz fez uma reverência à imagem e então falou várias coisas em sua língua nativa, os conceitos que desejava expor ainda muito complicados para serem traduzidos. Ele havia coberto a imagem da criatura com a mão, em seguida a levando para o peito, sua expressão denotando profundo respeito.
– Você é uma pessoa notável, Yan. – Riordano disse, seus olhos acompanhando a expressão compenetrada com que Yan estudava um livro com imagens de duplas de dançarinos.
– Hm? O que quer dizer isso?
– É um elogio.
– Saar'dam-r'um! – disse Yan, fazendo Riordano rir. Ele mostrou uma figura no livro que estava lendo. Tratava-se de um casal de bailarinos executando uma dança folclórica. – Como faz isso?
– Como assim, está falando dessa dança? Você quer saber como se dança?
– Ke.
– Precisa de uma parceira, e de músicos. – Riordano respondeu, tentando evitar a imagem mental dele mesmo ensinando passos a Yan. Procurou desviar o assunto. – Seu povo não tem suas próprias danças?
Yan franziu a testa por um breve momento, tentando decifrar a pergunta. Logo ele compreendeu:
– Ke, eu tenho uma dança. – ele respondeu, saltando do seu lugar no parapeito da janela e se encaminhando para o meio do quarto. Riordano, que estava sentado na poltrona próxima à mesa onde sempre punha a bandeja do almoço, cruzou os braços na frente do corpo e observou com curiosidade.
Teve que desviar o olhar e conter um aceso de tosse quando Yan despiu a túnica que estava vestindo, ficando apenas com os calções. Já havia visto várias vezes o corpo torneado do outro rapaz, mas haviam sido em situações completamente diferentes. Do jeito que estavam, Riordano sentia-se assistindo aquele tipo de apresentação que algumas tabernas ofereciam, não que ele costumasse frequentar essas festas. Oras, estou só conhecendo uma cultura diferente, pensou consigo mesmo, não há nada de errado com isso.
Era uma dança hipnotizante, logo Riordano descobriu. Começava com Yan movendo apenas os ombros e logo, todo o corpo do rapaz parecia estar em um transe de movimentos complexos. Impressionado, Riordano tentou assobiar uma música folclórica muito antiga, que havia aprendido de sua avó quando ainda era um menino.
Quando Yan fez um movimento intenso, alongando os braços como em um gesto enfático de saudação, acabou derrubando um vaso de vidro que decorava a lareira do quarto.
– Ah! – Yan despertou de repente do transe de sua dança, ao mesmo tempo em que Riordano levantou agilmente da poltrona. O vaso quebrou em mil pedaços e Yan estava seguro nos braços de Riordano. E que olhos expressivos ele tem, o duque pensou.
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Onde ele estava? Havia uma grande lua prateada, ele estava deitado. Levantou lentamente e olhou ao redor. Estava em uma floresta toda azul. Riordano estendeu as próprias mãos, as examinando como se quisesse certificar-se que aquilo era real.
Realidade não era importante, porém. Ele precisava andar, seguir a trilha de pedrinhas brancas. Havia algo muito importante sobre tal caminho.
Em meio ao azul das árvores, havia uma dama com longas vestes douradas, como se flutuasse de dentro de um sonho. Ela era tão linda e querida, sua presença era tão bela, capaz de aquecer os corações mais frios.
– Dalila?
A mão morena dela acenou adeus, deixando apenas ausência em seu lugar. Riordano avançou através da estrada, feita de pérolas e cacos de um coração partido.
Chagou ao centro da floresta azul. Sabia que ali era o centro pois havia uma ara de mármore. Ao aproximar-se da ara, percebeu que havia alguém sentado sobre a superfície marmórea. Era um homem jovem, de cabelos loiros e longos o suficiente para alcançar os ombros. A face do rapaz estava oculta por uma máscara prateada que lembrava as feições de um lobo.
Ele segurou os braços de Riordano, delicadamente o trazendo para perto.
– Quem é você?
Ele não respondeu, apenas deitou sobre a ara. Suas mãos buscaram Riordano, deslizando sensualmente por suas costas e o fazendo inclinar-se sobre o jovem mascarado. Riordano sentiu os lábios quentes do outro rapaz traçando uma linha ao longo de seu pescoço. Respondeu com um suspiro, suas próprias mãos explorando o corpo do outro, sentindo os músculos definidos sob a pele macia.
Os dedos de Riordano tocaram o peito magro do rapaz. Podia sentir o coração dele, um ponto de luz avermelhada, pleno e vivo. Riordano precisava daquilo. Como se houvessem chamas, o tom azul da floresta se tingiu de vermelho. Uma chuva de pequenos pedaços de cristal partido e lágrimas. O peito muscular do rapaz mascarado havia se tornado uma rosa vermelho sangue, uma ferida aberta. E ele não vivia mais. Um sorriso feroz surgiu na face do duque, enquanto uma esfera vermelha pulsava em suas mãos sangrentas.
Chuva, vidro. Sangue.
– Ah! – Riordano despertou com um grito, estava suando frio. Olhou ao redor, estava em seu quarto, seguro e aquecido. Lá fora rugia uma tempestade torrencial. O jovem duque tateou em busca de um copo d'água sobre a mesa de cabeceira. Havia algo importante que estava esquecendo. Sonhara com algo que abalara seus nervos. A chuva fustigava a janela, um trovão terrível ecoou pelos corredores desertos do castelo. – Pelos deuses, Yan!
Jogou as cobertas para o lado, procurou por suas chaves e partiu depressa. Havia lembrado: Yan não gostava de tempestades, ele devia estar novamente acuado e tremendo de medo em seu quarto. Agradecendo aos céus que não encontrou ninguém ao longo do caminho, não demorou muito que estivesse diante da porta do quarto de Yan.
Abriu a porta depressa. Havia chuva, vidro e sangue.
– Yan! – no momento em que ouviu seu nome, o rapaz atacou feito uma fera, com unhas e dentes. Riordano foi rápido, jogou todo seu peso sobre o outro e, compensando-se do fato que era bem maior que Yan, conseguiu prensá-lo contra o chão.
– O que deu em você, Yan? – Riordano olhou ao redor, o outro rapaz havia usado um tição da lareira para quebrar o vidro da janela. É claro, naquele dia em que quebrou um vaso, ele descobriu que o vidro é um material frágil. A chuva pesada entrava no quarto, encharcando os tapetes e móveis. Sob a pouca iluminação, Riordano notou cortes feitos pelo vidro nas mãos e nos pés de Yan, cujo tórax subia e descia, parecendo ganhar controle sob si aos poucos.
Yan murmurou algo em sua própria língua, ainda parecia muito aborrecido, mas deixou que Riordano o recolhesse em seus braços e o levasse dali.
O duque deitou Yan com cuidado em sua cama. O pior da tempestade já havia passado. Foi até a lareira, atiçar as chamas que estavam quase reduzidas a meras brasas. Também acendeu a lampada de óleo que geralmente usava para ler. Usando alguns lenços e um pouco de álcool de cereais, cuidou dos cortes que o vidro havia causado em Yan. Ele estava bem acordado, embora até o momento não houvesse dito uma palavra.
– Por que? – Riordano perguntou.
Lágrimas começaram a surgir sob os enormes olhos castanhos de Yan. “Não faz isso” Riordano murmurou, secando as lágrimas do outro jovem.
– Eu tive medo... – Yan disse, agarrando o tecido da túnica de Riordano, como se estivesse preocupado que ele fosse desaparecer repentinamente. O olhar dele pareceu momentaneamente hesitante. – Queria voltar para casa.
– Oh, Yan! Eu sinto muito. – Riordano respondeu, abraçando o jovem. O duque sentiu-se muito culpado quando Yan assustou-se com o abraço. Porém, logo ele cedeu e procurou manter-se o mais junto que podia de Riordano. A tempestade havia abrandado, mas passaram toda a noite abraçados.
Pelos deuses, Riordano pensou pouco antes de adormecer, que sentimento errado é esse.
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– Por que eu tenho que ficar aqui, o que eu sou pra você? – Yan finalmente perguntou. Desde que havia acordado, seus olhos enchiam-se de cautela cada vez que Riordano dirigia-lhe a palavra. O rapaz pediu desculpas pelo que havia feito, mas seu tom de voz não escondia um crescente desespero.
– Eu... – a verdade feria demais para ser confessada. – Eu encontrei você na floresta, ferido por algum caçador. Não pude deixar você lá para morrer. – Riordano disse. Não era completamente uma mentira. – Não queria prender você aqui, mas você é muito diferente, as pessoas não iriam entender e poderiam machucar você.
Yan observou o duque em silêncio por um longo momento. Riordano não conseguiu decifrar a expressão pensativa do rapaz.
– Você foi muito... gentil. – Yan murmurou. – Mas eu preciso voltar, largum azyr'um...
– Eu queria que você ficasse. – Riordano disse. Seu tom de voz era quase o de quem fazia um pedido.
Yan sentiu o coração apertar de forma quase dolorosa. Já não tinha tanta certeza se queria ir embora. Tinha saudades da Alcateia, mas é verdade que nunca havia sido muito bem quisto entre os seus, por mais que acreditasse que as coisas fossem mudar quando retornasse. A maneira que Riordano falava dos outros humanos da cidade era quase assustadora, mas se Riordano era bom, ele não podia ser o único, não é? Sentia curiosidade em conhecer de perto a vida na Cidadela que, até então, havia apenas assistido através da janela. Seu coração estava dividido entre um anseio natural por liberdade e a aflição absurda que causava-lhe a perspectiva de nunca mais ver Riordano. Tinha que haver uma solução.
Finalmente pensou em algo, procurou as palavras corretas na língua de Riordano:
– Eu quero ganhar minha liberdade, para isso quero que você me... ensine... se ser como você.
– Isso quer dizer...?
– Tudo que você faz, como comer com seus talheres, como conversar com as pessoas, a maneira correta de vestir, quero aprender como vocês... dançam. Para poder viver lá fora.
– Dança? – Riordano repetiu, um pequeno sorriso curvando seus lábios. Yan mordeu os lábios, esperando que o outro entendesse o que havia pedido e torcendo para que ele concordasse. – Você quer ficar na Cidadela, é isso? – ele perguntou, transbordando de esperança. Recebeu um aceno afirmativo em resposta. Estendeu a mão para Yan. – É muita coisa, creio que devemos começar agora.
Yan sorriu, feliz em saber que Riordano havia concordado com tal ideia. Para Riordano, era com certa culpa que aceitava tal proposta. De alguma forma, via-se mutilando o ser que havia capturado, como se a cicatriz sobre a porção superior da coxa não fosse suficiente. Sentia-se domesticando e obrigando a ficar alguém que, na verdade, não pertencia àquele lugar. Dizia a si mesmo que estava fazendo isso pois ainda não estava claro o quanto aquele homem seria necessário para curar Madeline, mas a verdade é que haviam motivos ainda mais pessoais que não ousaria confessar.
– Saar'da- Oh, muito obrigado!
O duque – esse era o título correto, Yan aprendeu – pediu mais sete dias ao rapaz. Ele ansiava pelo dia em que deixaria o castelo pela primeira vez, farejando os cheiros da Cidadela através do vidro agora quebrado de sua janela. Esperou com paciência a passagem dos sete dias que Riordano havia prometido e procurou, com mais afinco que nunca, aprender tudo que podia sobre os humanos da Cidadela. Tentava abandonar suas expressões linguísticas, embora fosse muito difícil conseguir algo dessa proporção em tão pouco tempo. Faria o melhor que fosse capaz.
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Finalmente chegou o dia em que Yan – ele decidiu que era melhor adotar tal nome – iria à Cidadela. Riordano cumpriu a promessa, propondo ao rapaz como iria apresentá-lo.
– Posso dizer que você é o filho de um comerciante muito rico e importante, você pode ficar hospedado na taberna e...
Yan recusou. Ele havia percebido logo que existiam categorias de pessoas entre os humanos da cidade e não desejava ser desses que vivem como Riordano. Ele não sabia como dizer isso e, mesmo que soubesse, pela educação acabaria preferindo não dizer, mas sendo um homem rico e um líder, Riordano ainda era obrigado a andar pelas sombras do próprio castelo. Ele vivia cercado por homens e mulheres armados, um exército. Que tipo de liberdade era aquela, Yan se perguntava. Disse ao duque que desejava ser um homem simples, que fizesse algum trabalho manual.
– Ótimo, o que você sabe fazer?
Quando Yan não encontrou um resposta apropriada, decidiram que fariam um passeio pela cidade e Riordano o empregaria onde desejasse. Decidiram apresentá-lo como o pagem de um nobre visitante que havia sido deixado na Cidadela, por motivos diplomáticos.
– Quem é esse, meu senhor? – Vicran perguntou, quando encontrou Riordano organizando uma comitiva, seus olhos demorando-se na figura encolhida de Yan poucos passos atrás do duque.
– Bom dia para você também, Vicran! Esse é Yan, ele era pagem do barão que nos visitou, hm... dois dias atrás? Ele ficou conosco e vou arrumar um novo emprego para ele!
– Isso não é um pouco exagerado, meu senhor? – Vicran perguntou, mal disfarçando que não havia acreditado na história. – Você sequer está cumprindo suas tarefas burocráticas, meu senhor. Por que tanto interessem em um mero pagem?
– O que está insinuando, conselheiro?
– Nada, peço perdão. – Vicran fez uma reverência e os deixou. Yan ainda virou o pescoço para dar uma olhada naquele homem estranho. Antes que o conselheiro sumisse através de uma porta, lançou um olhar terrível ao jovem. Ele procurou ficar mais próximo de Riordano.
– Não ligue para aquela cobra velha. – Riordano disse. – Ele está aqui para isso, realmente não faz por mal.
Yan notou que o duque não parecia muito confiante quanto às próprias palavras.
Para surpresa de Riordano, Yan mostrou que havia levado a sério todas as explicações de como deveria se comportar. Se estava estarrecido com a profusão de novidades que a Cidadela abrigava, não demonstrou. Portou-se como se nada ali fosse uma novidade, embora seus olhos entregassem que mal estava conseguindo absorver tudo aquilo. O único comentário que ele fez foi uma pequena observação assertiva sobre as condições da população:
– O castelo é muito grande, contudo poucos vivem lá. Você tem tanto e divide tão pouco...
Conheceu quase todas as profissões artesanais que eram exercidas na cidade. Quando almoçaram em uma estalagem local – para interesse dos fregueses, que tiveram que ser contido pela comitiva de guardas para não rodearem o duque – Riordano perguntou se Yan havia escolhido alguma profissão.
– Ainda não. Eu gostaria de... – ele pensou na paisagem que via através de sua velha janela. – ...ir mais lá fora, depois das muralhas.
– Os campos? – Riordano perguntou, achando graciosa a satisfação com que Yan havia respirado fundo no momento em que alcançaram os campos onde eram cultivados os alimentos que abasteciam a Cidadela. Não podia deixar de incomodar-se um pouco com o fato que eram longe demais do Castelo e demasiadamente próximos da floresta comunal. Embrenhado-se um pouco mais além, não demoraria que chegassem ao lugar onde havia encontrado Yan.
– São lindos! – Yan disse. Ele olhou para Riordano. – Quero ficar aqui.
Riordano ainda tentou dissuadir Yan, explicando que o trabalho de um camponês é extenuante e que eles veriam muito pouco um ao outro. O jovem considerou as explicações, mas disse que provavelmente não suportaria nem um outro lugar. Temendo que obrigá-lo a permanecer protegido pelos muros da cidadela acabariam provocando outro incidente como aquele da noite de tempestade e a inevitável fuga do jovem, Riordano concordou.
Ficou decidido que Yan iria ajudar Carolo, um garoto desajeitado que vivia vadiando pela cidade, a cuidar dos gansos. Era um trabalho simples, Carolo explicou, eles deveriam levar os gansos do curral até uma pequena lagoa um pouco além das plantações e vigiar para que os animais não se perdessem. Riordano dispensou logo o garoto, seus olhos a cada momento procurando um momento de hesitação na expressão de Yan, mas ele estava decidido.
Yan também não aceitou que Riordano ordenasse que a alguma família que cedesse um cômodo de suas casas já diminutas para que o jovem ocupasse. Isso causou um breve momento de irritação em Riordano. Ele era o duque da cidade, por que estava tão preocupado de atender às vontades daquele pretensioso?
– Oh, eu posso ficar lá? – Yan estava apontando para um velho moinho de vento.
– No moinho? Pelos deuses! – Riordano exclamou, cada vez mais arrependido, mas Yan já estava avançando em direção ao moinho, parecendo maravilhado.
– Você tem certeza que ficará bem? – Riordano perguntou. Parecia loucura deixar Yan sozinho, dormindo no mezanino de um moinho enquanto ele estava prestes a voltar para os aposentos confortáveis do castelo.
– Eu acho perfeito. Obrigado! – Yan disse. Ele deu um passo repentino na direção do duque e deixou um beijo estalado na face do rapaz. “Que atrevimento” murmurou a guarda que os acompanhava, mas como o duque nada disse, permaneceu em seu lugar.
– Está certo, Yan. Procure-me se precisar de qualquer coisa. – o duque falou, quase que desejando que Yan o procurasse o quanto antes. Certificou-se novamente que Yan estava bem equipado com alimentos, um lugar para dormir, iluminação e cobertores suficientes. Acenou mais uma vez e partiu.
Assim que Yan percebeu que estava sozinho, não pensou duas vezes em deixar o moinho. A lua crescente era um sorriso no céu noturno. Arrancou os sapatos e aproveitando ao máximo a sensação do chão sob os pés descalços, saiu caminhando pela grama alta dos campos de trigo. Realmente os achava belíssimos, pareciam um lago dourado, crepitando sob os beijos do vento. Logo alcançou a borda da floresta comunal e precisou de muita força de vontade para não fazer dali o seu caminho de volta, se é que ainda era capaz de encontrá-lo, até a região muito distante, além das montanhas, onde vivia a Alcatéia. Não, não, eu prometi a Riordano. Achou que seria o suficiente acomodar-se encostado ao tronco de uma enorme árvore. De onde estava, via toda a Cidadela e, mais adiante, o castelo repleto de janelinhas iluminadas, com sua muralha abraçando o mar de casinhas.
Não demorou muito, estava ouvindo a voz da floresta, cantando as canções mais doces e nostálgicas. Naquele momento, ele soube que ficaria bem onde estava. Agradeceria Riordano eternamente por essa chance de vida nova.
Carolo odiava os gansos e o sentimento parecia ser mútuo. Os animais não o respeitavam, fugindo da trilha e obrigando o garoto a ter que arrebanhá-los todo momento.
– Posso tentar? – Yan perguntou. O guardador de gansos olhou feio para seu novo colega, mas arremessou para ele o cajado usado para tocar os animais. Yan riu.
– Eles vão atacar você! – Carolo gritou, sentado sobre uma cerca. Sua previsão se mostrou errada, porém. Sem recorrer ao cajado, Yan assobiou alto e longamente, enquanto andava ao redor das aves. Disse ao animais que não ficassem separados. Para exasperação de Carolo, os gansos obedeceram prontamente, permanecendo juntos e calmos, enquanto bicavam as próprias penas ou bebiam do lago.
Logo a antipatia de Carolo pelos gansos passou a ser dirigida a Yan. Ele parecia inconformado que o recém-chegado fosse melhor que ele em seu trabalho.
– Afinal, de onde você veio mesmo? – Carolo perguntou. Estavam terminado de guardar os gansos em seu cercado, assistidos por um homem chamado Samsey. Aparentemente ele e Carolo eram amigos e parceiros nos jogos de cartas.
– Sul. – Yan respondeu de acordo com o que havia combinado com Riordano.
– E porque o seu mestre te deixou aqui? – Samsey continuou o inquérito.
Yan forçou-se a entender o sotaque arrastado do homem.
– Ele teve seus motivos, senhor.
– Hum, tão formal! – Samsey caçoou. – Era pagem e agora guarda ganços? Deve ser um preguiçoso, foi abandonado aqui pelo patrão!
– Deixem ele! – alguém disse. – Vocês que são os preguiçosos aqui!
Yan virou-se para ver quem falava. Por um breve momento, achou que estava vendo a Sarvii, a Matriarca. Assim como ela, essa senhora era baixa e gordinha. Porém, logo ficava evidente que a aparência frágil não era mais do que apenas isso. Seus olhos pequenos eram muito perspicazes e sua postura era energética. Yan sorriu para ela, satisfeito em ver que os dois homens estavam indo embora.
– E o que temos aqui? – ela perguntou.
– Meu nome é Yan. – ele respondeu, fazendo uma reverência, ao que ela fez um sinal para que dispensasse as formalidades. – Quem é a senhora.
– Sou Nanadee, garoto. Você já guardou os ganços? Que ótimo, venha aqui. – ela entregou um cesto de vime para o jovem. – Preciso colher algumas ervas nos campos, preciso de ajuda de alguém que enxergue bem e possa carregar algum peso.
Yan duvidava que ela realmente precisasse de ajuda, mas percebeu que ela desejava conversar e descobrir mais sobre o recém-chegado. Ao contrário de Samsey e Vrassir, ela era extremamente gentil e suas perguntas de forma alguma possuíam o mesmo teor acusativo e desconfiado. Descobriu logo que gostava muito dela, quando ela contou alguma de suas histórias. A velha Nanadee conhecia o dom da vida, entregava os novos filhos da Cidadela e curava os enfermos através de ervas. Nunca imaginou que humanos da cidade possuíssem esse tipo de conhecimento. Quando ela pareceu satisfeita com a quantidade de folhas e raízes em seu cesto, agradeceu ao rapaz e se despediu, acrescentando que ele deveria visitá-la quando pudesse.
Perguntava-se quando Riordano viria, estava ansioso para contar a ele como estava feliz.
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Durante vários dias, Riordano não teve sequer uma hora de folga para visitar Yan. Vicran havia insistido que o duque vinha desperdiçando tempo demais e haviam muitas decisões a serem tomadas. Haviam tantos contratos para ler e casos para julgar que sequer tinha tempo de ir ver Madeline, embora uma criada houvesse dito que a menina parecia um pouco melhor, chegando até mesmo a ter levantado da cama e andado um pouco pelo quarto.
Quando finalmente o último pergaminho foi assinado, Riordano deixou bem claro a Vicran que não desejava ver mais nada relativo à administração do ducado. Se não fosse tão tarde, iria até o moinho. Queria muito dar uma olhada em seu morador. Julgando pelo horário, ele devia estar dormindo, após um longo dia de trabalho. Não havia um dia em que não pensasse no que Yan podia estar fazendo, se estava bem. Naquele breve momento, entretanto, seus devaneios tomaram um rumo muito inadequado. Em sua mente, pairava a visão de Yan, bonito, nu e deitado na cama simples, apenas esperando que Riordano o tomasse com paixão.
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Yan acordou de um sono agitado. Seu rosto estava quente e avermelhado. Em seu sonho, Riordano viera visitá-lo no meio da noite. Ao ouvir seu nome, Yan correu para a porta do moinho e, para sua felicidade, Riordano estava sozinho, sem nenhuma comitiva de guardas nos seus calcanhares. Ele recebeu o outro rapaz com um abraço caloroso e eles ficaram tão perto que Yan podia contar as estrelas refletidas nos olhos azuis do duque. Lembrando dessa parte do sonho, Yan cobriu os próprios lábios com a mão. Eles trocaram um longo beijo no sonho, então Riordano o carregou nos braços até a cama muito simples e estreita, exatamente onde estava agora e haviam feito amor. Seu rosto corou ainda mais ao pensar nos detalhes com que havia sonhado, os dedos de Riordano em sua boca, enquanto ele os sugava para ditar o ritmo...
Yan jogou a coberta para o lado, achando que seria bom andar um pouco. Não era a primeira vez que sentia vontade de tocar em Riordano, mas era a primeira vez que havia pensado nele dessa maneira. Era estranho, principalmente porque após tantos dias, julgava que o duque devia ter esquecido que amigo existia. Abriu a portinha do moinho e recebeu com gratidão a brisa noturna. Drás estava quase cheia. Sentia falta de usar seu dialeto nativo. Quando não usava o idioma dos homens da cidade, passava muito tempo em silêncio.
Caminhando pela relva ao redor de sua “casa”, Yan não resistiu a simplesmente deitar no chão. Respirou fundo, admirando a beleza da noite estrelada. Podia ouvir o murmúrio da vida vindo de dentro do chão fértil. Respondeu em sua língua, contando à noite tudo que havia passado até o presente momento. Havia achado que era tudo morto e domesticado na floresta de pedra, mas isso não era verdade. As mãos dos camponeses trabalhavam o chão com cuidado e animais que eles criavam inspiravam uma serenidade profunda. Sas'gu vivia entre eles, embora fossem poucas pessoas, tal como Nanadee, que notassem sua presença.
Um sorriso genuíno habitava os lábios do rapaz quando notou ao redor dele círculos concêntricos e prateados, pairando no ar. Dobrando-se à sua vontade, as luzes prateadas formaram lindos desenhos sobre o jovem. Ele viu Azyr'um perseguir a corça, então eles viraram um ganso desajeitado que, em um bater de asas, se dividiu em um cardume das carpas que viviam no lago. Quando desapareceram, Yan soube que bastaria sua mera vontade para trazer o vento e os animais obedecerem seus comandos. Mais ainda, poderia ser Azyr'um quando desejasse.
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Vicran foi chamado pelos guardas, pois eles não foram capazes de impedir o escândalo que um homem causava diante dos portões do castelo.
– Chamem o duque! – ele gritava.
– Que algazarra é essa?! – Vicran ralhou com o baderneiro, que cheirava fortemente a bebida. Reconheceu o sujeito, seu nome era Samsey e ele era o faz-tudo local. – O duque não está presente, ele foi chamado para um encontro na tríplice fronteira, sua presença fazendo-se necessária para arbitrar uma situação de guerra ou paz!
– Só falo com o duque, e é urgente! – Samsey insistiu.
Vicran deu um passo decidido na direção do homem, agarrou seus ombros e o sacudiu:
– Fale logo, homem!
Samsey recuou, fugindo do conselheiro e desatou em falar:
– Meu senhor, aquele garoto novo que ajuda Carolo a guardar os ganços. Aquele garoto é um bruxo!
Um sorriso enviesado torceu o rosto de Vicran por um breve momento.
– Oh, é mesmo, Samsey?
– Juro pelos ossos da minha mãe. Pergunte a Carolo, meu senhor, ele viu o rapaz falando com os animais e... os animais entendem! Além disso, eu estava caminhando pelos campos de noite, meu senhor, e vi o tal rapaz fazer algo muito estranho...
– Sem mais! – Vicran disse. – Chame seus caçadores, nós vamos terminar com isso agora.
Nanadee estava tendo um dia muito bom. Sua galinha havia posto muitos ovos e as crianças não haviam tentado roubar a torta que havia deixado esfriando na janela. Estava tão calma, que mal percebeu quando abriu uma toalha branca sobre a mesa, sinal que teria uma visão. Suas mãos enrugadas eram guiadas por uma vontade que não era sua, ela reuniu depressa uma série de pequenos objetos que em outro contexto não fariam sentido reunidos. Um pedaço de cordão de prata, uma pena de pavão, uma pétala de rosa amarela.
– Quem são vocês? – ela murmurou para as peças. Havia uma razão para que estivessem ali. Obedecendo aos instintos, acrescentou uma pedrinha vermelha que havia recolhido do leito de um rio, parecia um pequeno coração e conectava a pena e o cordão. Havia também algo sobre a pétala, ela era tão frágil... Nanadee estava quase compreendendo a relação entre os objetos, quando um pássaro de mal agouro entrou pela janela da cozinha e derrubou um vidro de nanquim sobre o tecido branco, cobrindo todos com sua escuridão. – Pelos deuses!
O sino da Cidadela estava tocando, dando aviso ao povo que o perigo estava próximo. Nanadee foi arrancada de seu transe, ela precisava correr.
O sino da Cidadela tocou alto, chamando a atenção das pessoas. Todos queriam saber o que estava acontecendo e quando Samsey correu pelas ruas gritando “bruxo, bruxo!” o pânico foi geral. Repentinamente todos os pequenos problemas tinha uma causa. Havia alguém amaldiçoando a cidade, causando febre nas crianças e fazendo o leite azedar!
– E quem é esse bruxo? – perguntou a esposa do peixeiro.
– Aquele moço estranho que cuida dos animais. – foi a resposta. – Vocês não acham estranho, ele surgiu de repente, colocado lá pelo duque.
– Ele está enfeitiçando o duque para se aproveitar da Cidadela, que horror!
A história espalhou depressa e os aldeões, os caçadores e alguns soldados, comandados por Vicran, partiram em busca do jovem guardador de ganços.
– Yan?
– Oh, olá Nanadee! – o rapaz cumprimentou a idosa. – Nanadee, a senhora está bem? – ele correu para ampará-la, ao perceber o estado aflito da parteira.
– Tudo bem, meu filho. – ela dispensou a ajuda. – Você não ouviu o sino?
– Hm? Passei o dia todo trabalhando, acabei de voltar do campo.
Nanadee parecia aterrorizada.
– Você precisa fugir, menino. Agora!
– O que...?
– Eles estão vindo, vão prender você por bruxaria. Depressa, vá embora!
Confusão e choque espalhou-se pela face do rapaz.
– Eu vou até o castelo e...
– Meu filho, o duque não está na cidade. Vi a comitiva dele partindo hoje cedo.
De repente, o som dos gritos enfurecidos de uma multidão podia ser ouvidos. Nanadee correu para a porta do moinho.
– Estão chegando, vá depressa, menino!
Mal agradecendo Nanadee e ainda sem entender muito bem porque precisava fugir, Yan escapou por uma janela do velho moinho de vento. Correu para os campos, onde foi visto por alguns agricultores. Entendeu porque alertavam tanto sobre o coração sombrio dos homens da cidade. Eles temiam tudo que não entendiam. E desejavam destruir o que temiam.
Os gritos e os cães, aquilo trouxe à tona a memória do dia em que alguns humanos o abateram. Chamou ao vento, pedindo para que este o ocultasse. Não podia acreditar, seus olhos ficavam cheios de lágrimas ao pensar, mas a memória era viva e não havia como evitá-la. Os homens, os gritos, a flecha e os cães. Riordano era o que tinha o arco nas mãos. Riordano que havia disparado a flecha envenenada, maldito, maldito!
Transformado em Lobo, ele disparou numa corrida frenética através da floresta. Sua vontade tornava o caminho estreito e hostil aos homens. Seu coração estava partido. Sentia-se abandonado por tudo. Quando ele retornou à forma humana, tudo que conseguiu fazer foi permanecer encolhido no chão, chorando.
-§-
Que dia terrível, Riordano pensou. Quando estava achando que teria algum sossego, recebeu um chamado das cidades vizinhas, cujos senhores queriam seu arbítrio quanto a demarcação de fronteiras. Esse sino maldito, não para de tocar. Considerou que seria uma boa ideia mandar retirá-lo. Sempre tocavam por motivos desnecessários. Mal havia despido a capa de viagem quando o bibliotecário veio ao seu encontro.
– Senhor, me dei conta que ainda haviam livros sobre os temas que você me pediu. – ele disse. – Tenho mais um livro, na verdade, mas Vicran está com ele faz meses!
– E que livro é esse, mestre Jansen?
– Material restrito, meu senhor. Creio que seja melhor falar diretamente com o conselheiro.
Riordano agradeceu. Ficou intrigado com tal noticia. Resolveu procurar por Vicran. Não o vendo em nenhum dos lugares habituais, decidiu ir até o quarto do homem. Bateu na porta mas não houve resposta.
– Vicran? – ele insistiu. Concluiu que o conselheiro não estava lá. Preparou-se para ir embora, então ocorreu que não deveria realmente ficar esperando se realmente quisesse entrar em um quarto em seu castelo. Dessa forma, abriu a porta com sua chave-mestra.
Era um ambiente organizado e sóbrio, com pouca decoração. Em uma mesa, havia um conjunto de química. Em uma mesinha de copista estava aberto um livro. Riordano correu depressa para pegar o tomo. Recolheu ele sem pestanejar e foi ler em seus próprios aposentos.
As folhas do livro estavam amareladas e eram muito frágeis, a tinta quase desaparecendo. Abriu com cuidado. Era um tratado sobre um povo considerado desaparecido, que o autor chamou de Filhos da Alcatéia, humanos que há muitos séculos foram viver além das montanhas, em pradarias e florestas completamente afastadas das cidades. O isolamento e a vida comunitária fez com que eles descobrissem canais de magia natural, algo que os humanos que viviam em cidades não tinham mais capacidade. Quando atingiam maturidade para controlar esses poderes e invocar forças da natureza, esse povo era capaz de transformar-se na expressão do espírito da floresta, em Lobos.
Com os batimentos do coração muito acelerados, Riordano virou mais algumas páginas. Vicran sabia, então. Quando mandou que o duque procurasse por um lobo prateado, sabia que estava encomendando a morte de um ser humano. Por que?
O jovem duque prosseguiu a leitura. De acordo com o autor, haviam relatos que o isolamento havia mudado de tal forma os Filhos da Alcatéia, que eles não sofriam mais as mesmas doenças que afetavam os humanos. Sua conexão com a natureza os fazia imunes a maioria dos males, exceto a morte por velhice ou acidentes muito graves. Era capazes de resistir até mesmo a diversos venenos.
Com os dedos trêmulos, Riordano chegou a uma parte do livro que não parecia pertencer ao original. As páginas eram mais novas e a caligrafia, diferente. Com cautela, ele leu. Conforme avançava através dos parágrafos caprichosamente traçados, horror tomava sua face. Tratava-se de uma descrição medonha de como se extrair essência vital do coração ainda vivo arrancado de um ser humano ou animal. Havia uma hipótese que a vitae concentrada de um Filho da Alcatéia poderia conferir dons incríveis a um humano comum. Era nojento e terrível. Jogou o livro para o lado, não suportaria prosseguir com aquela descrição maligna. Riordano sentiu lágrimas encherem seus olhos, não podia usar algo tão mau para curar Madeline.
Ainda horrorizado, Riordano decidiu que precisava ir buscar Yan. Precisava vê-lo, queria pedir desculpas. Ele nem saberia o motivo. Tinha que protegê-lo, pelos deuses! E se esse livro caísse nas mãos de alguém com mais agência que Vicran? O povo de Yan vivia isolado e a vinda do jovem parecia ter sido acidental, uma coincidência astrológica! Se aquele povo fosse encontrado, corriam o risco de serem caçados como animais, apenas para que uns anos a mais de vida de alguns poucos fossem comprados.
Decidido, jogou o livro nas chamas da lareira e então, partiu em busca de Yan.
– O que está havendo aqui? – Riordano chegou aos campos a cavalo. Havia achado estranho deparar-se com a cidade praticamente deserta. Descobriu toda a população circundando a floresta comunal além dos campos, ameaçando queimar as árvores. Seu peito ferveu de ódio ao descobrir quem os liderava. – Vicran! Vicran, explique isso!
Ao ver o duque, o conselheiro se ajoelhou.
– Você deve executar esse bruxo, meu senhor!
– Não!
– Mas, meu senhor...
– Não aceito livros de magia das trevas em meu castelo, Vicran. Você sabe do que estou falando.
– Senhor, eu...
– Calado. Preste atenção, você deve curar Madeline, sim. Porém usando métodos que não sejam moralmente reprováveis. Se eu souber de mais alguma coisa dessas, se você tentar me enganar de novo, Vicran, serei obrigado a pessoalmente te acusar de traição e bruxaria.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Vicran pareceu aliviado que, apesar de ter sido repreendido, nenhum castigo pior havia sido-lhe destinado.
– Guardas! – Riordano chamou. – Acompanhem essas pessoas de volta a Cidadela. Levem o conselheiro Vicran para o castelo e certifiquem-se que ele fique em seus aposentos. Depressa, movam-se! Vocês cometeram um engano, não há nenhum bruxo aqui!
Pouco a pouco, a multidão se dissipou. Ninguém desejava ficar apara trás e arcar com a ira do duque da Cidadela.
– Você, Samsey! – o duque chamou um dos retardatários. – Venha cá, onde está o rapaz que meu conselheiro acusou injustamente?
Samsey fez uma profunda reverencia. Seu plano era deixar a Cidadela o quanto antes. Tinha certeza que a corda quebraria do lado mais fraco e aquele conselheiro era um réptil ardiloso.
– Fugiu para a floresta, meu senhor. Dizem que ele se transformou em um animal enorme, meu senhor. O senhor não tem certeza se...
– Suma daqui, depressa! – Riordano ordenou. Samsey não precisou de mais incentivo.
Quando desmontou do cavalo e dirigiu-se à entrada da floresta, Riordano pensou se estava cometendo um erro. Talvez Yan devesse ser deixado em paz. Seria melhor que ele retornasse para seu povo. Porém, Riordano descobriu que não poderia arcar com mais perdas, Yan o deixando para sempre e Madeline definhando aos poucos sem que ele pudesse fazer nada.
Com esses pensamentos, ele adentrou a trilha estreita da floresta comunal.
O silêncio era tumular.
– Yan? – Riordano chamou, sem ouvir qualquer resposta. Não lembrava do caminho ser tão traiçoeiro, cheio de espinhos cruéis, teias de aranha grossas como fios de cabelo, troncos bloqueando a passagem e tantos outros obstáculos. Era como se a floresta inteira tivesse se movido para obstruir a trilha.
A noite veio depressa, mas nuvens encobriam a lua. Não era mais possível ver por onde estava andando. Embora o bom-senso ordenasse que ele deveria voltar, Riordano não era um homem de desistir com facilidade. Ao invés de chamar Yan pelo nome, ele resolveu entrar no jogo do outro rapaz.
Fechou os olhos. Era difícil se concentrar estando suado, cansado e todo coberto de arranhões causados pelos espinhos. Ainda assim, procurou esvaziar a mente e apenas ouvir a floresta. Yan, onde está você? Eu preciso de você comigo, eu não tinha percebido o quanto estava isolado antes de você chegar. Estava consumido por perda e pesar, enterrando-me em solidão. Preciso muito da sua companhia, Yan.
Começou como um som muito baixo, quase imperceptível. Pouco a pouco, o choro e a respiração ofegante do outro rapaz foram ficando mais fortes, como se ele estivesse ao lado de Riordano. Quando o jovem duque abriu os olhos, o caminho até Yan parecia tão claro como se fosse uma linha reta e repleta de luz. Ele não precisava ver para enxergar essa trilha, tudo que deveria fazer era percorrê-la.
-§-
–Yan?
As nuvens descobriram a lua cheia. A clareira onde estavam se encheu de luz. Yan parecia estar diante de uma assombração. Ele levantou muito devagar de onde estava aninhado em posição fetal, seus olhos vermelhos de tanto chorar.
– Por que? – ele murmurou.
Riordano apenas conseguiu ir até o outro jovem e abraçá-lo.
– Eu sinto muito. Foi um erro, um erro. Você perguntou uma vez o que você é para mim. Eu respondo agora. Você é importante demais. Não posso perder você.
– Você sabe quem eu sou? – Yan perguntou. – Você não tem medo, como os outros?
– Você é o ser humano mais incrível que eu já conheci.
– Ah, Saar'dam-r'um. – ele murmurou. Riordano sentiu o corpo do jovem contra o seu cada vez mais frio. Ele devia ter gasto muita energia para fazer toda a floresta comunal se mover. Aquilo devia ser um feito incrível, mesmo para um filho da alcateia.
– Fique comigo. – Riordano disse, esfregando os braços gelados de Yan. Precisava mantê-lo acordado e aquecido. – Eu prometo que nunca deixarei nada de mal acontecer com você.
– Oh, você está falando daquele seu conselheiro? Ele não gosta de mim. Ele sabe quem eu sou?
– Ele não sabe de absolutamente nada, Yan. – Riordano disse. Yan abriu os olhos. Eles estava tão perto que podia ver a si mesmo refletido nos olhos azuis de Riordano.
Riordano inclinou a cabeça para baixo, fechou os olhos e o beijou.
Por algum tempo, ficaram apenas com os lábios encostados, respirando juntos, o mesmo ar pertencendo aos dois. Então os lábios de Yan se moveram com suavidade, cariciando com delicadeza o outro jovem. O beijo se aprofundou, digno de apaixonados.
– Preciso levar você de volta para o castelo. – Riordano murmurou no ouvido de Yan. O rapaz estava quase adormecido, acomodado em seus braços.
– Sas'gu guia você... – Yan respondeu, antes de fechar os olhos. Para surpresa de Riordano, havia surgido um lobo, muito semelhante ao que Yan era capaz de se transformar, porém translúcido. Ele fez uma breve reverencia e Riordano respondeu ao gesto. A criatura fantasmagórica farejou o ar, escolheu um caminho e seguiu por ele. Confiando nas palavras de Yan, ele seguiu o espírito da floresta, que o levou com segurança até onde as árvores davam lugar ao trigo.
Achou muito curioso como seu cavalo não pareceu incomodado quando se aproximaram do lugar onde o havia deixado. Pelo contrário, a presença de “Sas'gu” parecia acalmar o animal. Riordano despediu-se do guardião da floresta e retornou ao castelo. Assim como no dia em que havia conhecido Yan, uma belíssima lua cheia decorava o céu. Considerou aquele um bom sinal de recomeço.
-§-
Yan despertou envolto pelo perfume delicado de flores silvestres, o calor da água morna da banheira e o conforto sensual de estar bem acomodado contra o tórax de Riordano.
– Como você está se sentindo? – o duque perguntou, enquanto acariciava o corpo de Yan com uma esponja macia.
– Melhor...
– Mais aquecido?
– Muito.
Yan moveu-se de forma que estava sentado sobre as pernas de Riordano e voltado de frente para o duque. Eles se beijaram longamente, línguas se encontrando em uma dança adocicada.
– Hm, você se recupera depressa, não é? – Riordano perguntou, fazendo Yan rir. Pelos deuses, que lindo que ele é!
– Riordano, eu quero você... – o jovem disse, distribuindo beijos no pescoço do duque. – Eu quero você em mim.
Riordano apertou o corpo esguio e forte de Yan em seus braços e o beijou passionalmente.
-§-
Nanadee estava cantarolando baixo enquanto varria o piso de barro batido de seu casebre. Não gostava daquele duque, se perguntassem para ela. Não gostava daqueles que detinham o poder, em geral. Eles tendiam a ignorar muitas coisas importantes e a perder a cabeça com promessas falsas, sim, feito aquele pássaro de mal agouro. Apesar disso, o duque seria bom para o garoto. Ele tinha um dom muito especial e aquele lá poderia protegê-lo das pessoas que não o entenderiam.
A idosa reuniu os objetos que representavam os personagens daquela história. Um pedaço de cordão de prata, uma pena de pavão, uma pétala de rosa amarela. O pequeno cristal vermelho em forma de coração. Faltava algo ali para ser compreendido, mas Nanadee sabia a forma correta de perguntar. Imagens formavam-se em sua mente como desenhos na areia. Havia chuva e a cor vermelha.
– Sangue? – Nanadee perguntou, estudando atentamente as peças sobre sua mesa. A resposta foi bem clara. – Oh, sangue não é necessário? – ela bateu na própria testa. É claro! Uma metáfora! Ela sorriu quando compreendeu ainda mais aquele segredo. Como eram belos os caminhos daquela arte da qual as pessoas pareciam ter esquecido nos dias atuais! A imagem da ave agourenta novamente obstruiu a resposta poética. Nanadee empalideceu ao perceber o que aconteceria se eles não soubessem da verdade. Precisava avisá-los! Assim que o sol nascesse, iria direto ao castelo. Se o duque não a ouvisse, Yan certamente ouviria.
-§-
Riordano recitou declarações de amor o tempo todo. Nem sempre Yan entendia o que tais palavras queriam dizer, ainda assim respondia no mesmo tom, sussurrando palavras carinhosas em sua própria língua. Recebeu beijos por todo seu corpo. Era a primeira vez que recebia toques tão íntimos, ele pensou, quando sentiu a boca de Riordano explorando a pele da parte interna de suas coxas.
Abriu as pernas, deixou que seu amante o acariciasse intimamente com mãos e língua. Cada gemido, cada suspiro cheio de prazer parecia ser um presente para Riordano, aos quais ele respondia intensificando as caricias que os causavam. Usando os dedos e óleos perfumados, o duque o preparou com cuidado o corpo de Yan. O rapaz quase chegou ao ápice apenas com a boca de Riordano em sua ereção e dois dedos dele massageando um ponto dentro de seu corpo que, se tocado, o deixava em um estado de total rendição.
– Riordano, vem... – ele suspirou, quase se desfazendo.
O outro rapaz sorriu e o beijou. Retirou os dedos de dentro dele com cuidado e os substituiu por seu membro. Entrou devagar, saboreando cada instante e cada expressão doce que Yan fazia apenas para ele. Amaram-se durante toda a noite, deliciando-se com o prazer infinito que um podia proporcionar ao outro.
-§-
Os dias passaram lentos e agradáveis para Yan. Riordano inventou uma história que o havia promovido a seu pagem pessoal, mas todos sabiam que eles eram amantes. Apesar de algumas fofocas, isso não era algo tão incomum e logo a maioria dos criados estavam acostumados com a presença de Yan no castelo. As criadas o achavam encantador e brigavam entre si para pentear seus cabelos loiros e ajudá-lo com as vestes mais complicadas.
Entretanto, alguns segredos permaneceram bem guardados. Riordano não queria mencionar Madeline ao amante. Era injusto que ele não soubesse da menina, mas se conhecia Yan, ele não aceitaria que não fizessem nada para curá-la. Como Riordano não era capaz de escolher entre um dos dois, achou melhor deixar que o destino encontrasse uma solução.
– Você está feliz? – Riordano perguntou para ele, numa noite em que estavam confortavelmente acomodados em um divã armado em uma sacada do castelo. O céu estava cheio de estrelas e as noites eram cada vez mais curtas, marcando a aproximação do solstício de verão.
– Uhum... – Yan murmurou, deixando um beijo na curva do pescoço do outro rapaz. – Eu gostaria de visitar Nanadee.
– Oh, a feiticeira?
– Sim, ela era minha amiga. Por algum motivo, sinto que deveria falar com ela.
– Providenciarei isso o quanto antes. – Riordano comentou, trazendo Yan para perto. O rapaz riu da atitude do duque, ele era demasiado protetor, quase ciumento.
– Ela é uma velhota, sabe? – Yan comentou, dando uma leve cotovelada em Riordano. – Na verdade, ela lembra a Sarvii... – o rapaz concluiu, deixando que seus pensamentos divagassem para uma região muito distante.
-§-
– Eu preciso entrar! – a idosa insistiu.
– Vá para casa, Nanadee. – o guarda falou. – Você sabe que a entrada é limitada durante a preparação do Festival de Verão.
– Oras, garoto! Eu fiz você nascer, não está dizendo que eu ira tentar contrabandear alguma coisa! Tenho um recado importante para dar ao duque.
– Pois entre na fila de peticionários. – o outro guarda explicou. Estavam começando a achar que Nanadee estava caducando, pois era a milésima vez naquele mês em que ela demandava que deixassem ela entrar no castelo.
Ela balançou negativamente a cabeça e foi embora dali, reclamando da falta de educação dos dois porteiros.
-§-
– Senhor Yan? – uma voz serpentil chamou o rapaz. Yan sentiu uma onda de mal estar ao perceber que estava sendo requisitado por Vicran. Após o incidente, o conselheiro havia restringido-se às suas funções burocráticas e Riordano praticamente não permitia que ele e Yan estivessem ao mesmo tempo na mesma sala.
– Não tenho nada para dizer a você. – Yan falou depressa. Já estava saindo de perto o homem, quando sentiu uma mão o puxando pelo ombro.
– Espere. Você já visitou a ala direita do terceiro andar?
– O que...?
– Oh, pelo visto o duque não te contou sobre a querida Madeline. – Vicran falou, soltando o ombro do rapaz e caminhando depressa para longe do corredor onde haviam se encontrado.
Quem é Madeline? A pergunta pairava sobre ele, sobrecarregando seus pensamentos. Lembrou de um quadro representando uma mulher lindíssima que ficava no escritório de Riordano. Não havia perguntado quem era, pois o assunto parecia repleto de pesar e capaz de roubar toda a felicidade de Riordano. Será que havia uma duquesa para o duque, oculta em uma ala que nunca havia visitado do castelo? O lugar era enorme o suficiente para que dois moradores não precisassem jamais se encontrar. Sentia-se usado ao contemplar tal perspectiva. Um bicho de estimação para um porco mimado.
Quando chegou à tal ala, sua irritação deveria ser tão evidente que nenhum criado tentou impedir sua passagem. Para sua surpresa, haviam apenas quatro cômodos na ala direita do terceiro andar. Uma sala de música que parecia ser raramente usada, um quarto que era usado pelas empregadas, uma sala de banho e o quarto que devia pertencer à tal Madeline.
Ignorando o apelo de uma criada, ele abriu a porta.
Riordano estava lá, de fato. Porém em uma situação completamente diferente do que havia imaginado. O duque estava sentado em uma cadeira junto à lateral da cama. Ocupando o leito, pequena e frágil como um botão de rosa, estava uma menininha. Uma versão em miniatura da mulher do quadro.
– Ela parece com a mãe. – foi tudo que conseguiu dizer.
– Ela é tão delicada. Por que você não me contou? – Yan perguntou. Estavam no salão onde as refeições eram servidas. O jovem pousou sobre a mesa o copo de vinho que lhe haviam oferecido para refazer-se do susto.
Vicran também havia sido chamado. Riordano tinha certeza que ele estava envolvido nessa história. De fato, antes que pudesse ser ordenado calar-se, o conselheiro contou:
– Foi por uma boa razão, senhor Yan. Sem a vitae do coração de um sarveen, como você diria, Madeline vai morrer.
– Você sabe que vai ser expulso por isso. – Riordano resmungou. Um sorriso cínico distorceu os lábios do conselheiro.
– Diga-me, sarveen, você está disposto a viver enquanto uma criança inocente definha?
– Riordano, isso é verdade?
O duque permaneceu em silêncio.
– Embora ele tenha destruído um livro com informações muito importantes, eu fiz uma cópia dos pontos principais, se o senhor desejar vê-los. Oras, foi exatamente por isso que precisávamos de um dos seus, sarveen.
Riordano fechou os olhos por um momento, então tornou a abri-los e dirigiu-se a Yan como se Vicran não estivesse presente.
– É verdade. Só posso pedir perdão. Eu realmente não sabia que ele estava mandando destruir a vida de um ser humano, Yan. E depois... Como poderia fazer algo assim com você?
– Pois deveria! – Yan explodiu. – Você tem que cuidar dela! Seu... egoísta!
A expressão na face de Vicran era perversa.
– Temos um impasse... – Vicran comentou.
– Você está rejeitando meu sacrifício por você! – Riordano esbravejou contra Yan. – Acha que isso tudo é fácil para mim? Quem é egoísta agora?
– Pois que se dane! – Yan gritou. – Não aguento mais um dia aqui! – Ele se transformou em um majestoso Lobo Prateado, deixando que a cadeira onde estava sentado caísse com um estrondoso ruído no chão. Ele saltou depressa e correu, escapando espetacularmente por uma janela térrea.
– Eu disse a você, meu senhor. – Vicran falou. – Cedo ou tarde, a astrologia levaria a esse momento. Vá buscar o arco, traga o coração da fera e tenha sua amada filha de volta.
-§-
As ruas da Cidadela estavam repletas de dançarinos mascarados comemorando o festival de Verão. Uma maravilhosa lua cheia completava a festa e estavam todos tão entretidos com os fogos, bebidas e bolos, que não notaram a fantástica criatura correndo em disparada através das ruelas e vias estreitas, logo alcançando os campos e mais além. Yan sentia um grande desprezo por aquelas criaturas. Se estivesse em sua forma humana, teria cuspido no chão ao mencionar a existência de um grupo tão infeliz e mau.
Estava decidido em voltar para seu povo. Possuía tal controle sobre Sas'gu que, se desejasse poderia requisitar seu próprio Largum Azyr'um. Olhou com desprezo para a floresta comunal, com seus limites bem demarcados. Passaria a noite na estrada e então iria para a vastidão sem fronteiras.
Eu sou um tolo, pensou. Podia ouvir cada uma das batidas de pés, patas ou cascos contra o chão de toda aquela região, por uma extensão de quilômetros, se assim desejasse. Acima de tudo, reconhecia bem demais a aproximação de Riordano, estivesse ele a pé ou usando uma montaria. Desviando da estrada, embrenhou-se no campo. Repreendia-se mentalmente por não ser capaz de dar as costas à Cidadela e deixar tudo aquilo para trás. Daria uma caçada ao duque, se essa era a única forma de obrigá-lo a decidir.
– Você sabe que isso é ridículo! – Riordano gritou para a noite. – Não vamos resolver nada desse jeito.
A figura prateada do lobo surgiu sobre uma pilha de pedras não muito distantes. Ele uivou para a lua, sobretudo, para atrair a atenção do duque.
– Eu não vou atirar em você! – Riordano gritou, ainda assim, por precaução, manteve o arco preparado.
Yan obrigou que Riordano o perseguisse através dos campos, até finalmente embrenhar-se em uma região alagada, que a montaria do duque teria dificuldades em transpor. Praguejando contra as atitudes do sarveen, Riordano desmontou do cavalo e adentrou no charco, suas botas afundando na lama. Yan havia feito de prepósito. Sob a noite enluarada ficavam evidentes suas pegadas lupinas.
– Yan, você vai mesmo fazer isso comigo? Estava praticamente abrindo mão da minha família por você. Algo assim não tem valor nenhum? Teria sido melhor eu ter matado você de uma vez naquele dia, ent... Ah!
Foi empurrado no chão pelas patas musculosas da criatura. Um golpe de garras bem aplicado o acertou no flanco, perfurando a carne, uma réplica do ferimento que havia dado a Yan. Quando atingiu o solo, porém, eram mãos humanas que estavam sobre ele, o presando no chão enlameado.
– Eu perdi seu coração? – Riordano perguntou, virando o corpo dolorido para que pudesse encarar o rapaz. Yan permaneceu sobre ele, fazendo o possível para imobilizá-lo. Encararam-se por alguns instantes, então Yan o beijou de um modo arrebatador, quase roubando todo o fôlego do duque.
– Meu coração já é seu, caçador, você pode fazer o que quiser dele.
– O meu também é seu, pra sempre, se você assim desejar. – Riordano respondeu.
– Devo considerar dia da caça, então? – Yan provocou.
– O que deu em você? – Riordano perguntou. – Eu sei que eu mereci, mas...
Yan soltou os braços do amante. Seu tom de voz era sério:
– Vamos voltar, Madeline precisa de nós.
Riordano suspirou:
– De acordo.
– Lá estão eles, guardas, peguem o bruxo, ele tentou sequestrar o duque em pleno solstício!
– Vikran, chega! – Riordano gritou. Vinha mancando, apoiado por Yan. Ambos estava cobertos de lama da cabeça aos pés. Nada respeitável, o duque sabia.
– Esse pássaro de mal agouro! – uma voz estridente chamou a atenção de todos. Nanadee finalmente havia conseguido entrar no castelo. Ela estava apontando para Vicran. Os guardas pareciam confusos sobre o que fazer.
– Deixa ela falar. – Yan disse.
– Deixem essa senhora falar! – Riordano orientou.
– Ele pediu um sacrifício de sangue, não foi? – Nanadee falou, indicando Vicran com um movimento de cabeça. Riordano concordou. – Pois ele está errado. Sacrificar um ser puro... – os olhos dela dirigiram-se a Yan. – ...um ser que que carrega em si o espírito da floresta é uma profanação terrível. Isso traria desgraça sobre aquele que empunhou a adaga e sobre o beneficiário do sacrifício.
– Madeline e eu. – Riordano murmurou, percebendo a conspiração de que havia sido vítima. – Com a minha morte e de minha herdeira, o ducado ficaria aberto para um golpista qualquer e Vicran era a pessoa mais próxima do trono.
– O traidor está fugindo! – gritou um guarda. Vicran já havia atravessado os portões do palácio, seria quase impossível de encontrá-lo em meio ao baile de máscaras. Um reflexo prateado passou diante dos olhos de todos os presentes. Vicran foi derrubado e um enorme lobo prateado tinha uma das patas sobre as costas do homem. Chega de segredos, Yan pensou. Transformou-se novamente em humano, a única coisa quebrando o silencio daqueles que haviam presenciado a cena eram os aplausos entusiasmados de Nanadee.
– Meu nome é Ay'ansylar, sou um Filho da Alcateia. Vocês não conhecem meu povo, mas até pouco tempo atrás também não conhecia vocês e tinha medo de tudo que vocês representavam.
-§-
Uma metáfora. Nanadee não precisou explicar muito para que ambos compreendessem. Haviam entendido no momento em chegaram a um acordo. Afinal, Yan sabia o quanto seu coração pertencia a Riordano. De alguma forma, ele o havia arrebatado quando decidira entregar seu próprio coração partido para que Yan consertasse.
– De mim para você, de você para Madeline. – Yan falou. – Que a vida prospere entre nós.
Riordano selou o contrato com um beijo sobre os lábios de Yan. Logo depois, abraçou a filha e deixou um beijo sobre sua testa. Ela estava dormindo, porém um sono calmo dos que convalescem. Nanadee disse que antes que terminassem os festejos pelo auge do verão, ela estaria correndo com as outras crianças.
– Ela é adorável. – Yan disse. Ele e Riordano estava sentados lado a lado, observando Madeline brincar com o gato angorá que vivia no castelo. Parecia outra criança, sua pele morena estava corada e cheia de vida. Havia engordado bastante durante o decorrer da estação e quase não haviam mais sinais de que havia passado tanto tempo doente.
– Acho que ela ficou um pouco como você. – Riordano disse.
– Ah, do que você está falando. – Yan respondeu, fingindo que não havia notado que um gato arisco estava obedientemente seguindo a menina para onde quer que ela fosse. – Nanadee vai saber o que fazer com ela.
– Nós vamos precisar dela, sim. Mas achei que você fosse ficar comigo... – Yan sentiu a mão de Riordano buscar a sua. Deixou que seus dedos fossem acariciados pelo outro homem. – ...me ajudar a cuidar dela.
– Oh, puxa! – Yan exclamou, rindo.
– O que foi?
– Esse por acaso era seu plano desde o início?
Os meses passaram e Yan permaneceu ao lado de Riordano. Não resistia à voz aveludada do duque dizendo o quanto o amava e também estava encantado por Madeline, como se ela fosse realmente sua filha. Algumas vezes, tinha suas escapadas, nas quais dizia que iria fazer uma caminhada e passava alguns dias vivendo como um legítimo sarveen, ainda que na limitada floresta comunal. “Será que estou virando um lobo domesticado?” perguntava a si mesmo. Estava satisfeito em notar que Riordano havia levado seus comentários em consideração e estava fazendo o possível para melhorar a qualidade de vida da população da Cidadela. Não seria tão cedo que perceberiam as vantagens da vida comunal da Alcateia, mas tudo era uma questão de paciência. Aprendia diariamente a apreciar diferenças e semelhanças, a ser crítico quanto ao lado ruim, ao mesmo tempo em que apreciava o lado bom daquele povo.
Era seu terceiro ano ao lado de Riordano e embora o amasse mais a cada dia que passavam untos, explicou que deveria partir. Não porque sentia-se aprisionado ou qualquer outra razão pessoal, ele disse. Percebeu que tinha uma missão. Deveria intermediar o contato entre os povos.
– Nós vivemos isolados por muito tempo, precisamos aprender a conviver e apreciar a cultura um do outro. Temos muito que aprender um com o outro.
Ele mostrou para Riordano o dicionário que vinha compondo. Uma pequena parte de um projeto ambicioso. Ele desejava construir uma ponte entre dois mundos. O duque apreciou os projetos do companheiro, disse que eram nobres, grandiosos e muito necessários. Yan não deixou passar uma certa tristeza em seu tom de voz.
– Você não quer que eu vá, não é?
– Não ligue para mim, olha só, você querendo tornar o mundo um lugar melhor e eu sendo egoísta.
– Eu considero galante. – Yan respondeu, ganhando um beijo em resposta.
Finalmente não haviam mais argumentos ou desculpas, Yan deveria partir se quisesse dar continuidade ao seu projeto. Por pouco, não mudou de ideia quando Riordano mostrou o lindo quadro que havia encomendado, para substituir o retrato de Dalila: o artista havia ilustrado Riordano e Yan lado a lado, Madeline entre eles, segurando próximo ao coração um relicário com o retrato da mãe. Mais difícil que despedir-se de Riordano, porém, foi convencer Madeline que ela não poderia acompanhá-lo.
– Ela vai ficar bem. – Riordano falou, quando a garota foi para o próprio quarto clamando que nunca mais falaria com nenhum dos dois. – Eu também tenho vontade de ir com você.
– Seu lugar é aqui. Pelo menos enquanto Madeline for muito criança para ocupar seu lugar.
– Isso não vai ser muito tempo. Elas crescem rápido. – Riordano suspirou. – Mas vou sentir sua falta todos os dias.
– Eu também. Nós vamos nos ver de novo, em breve talvez.
– Quem sabe não acabe caçando você de novo, sarveen?
– Apenas se for seu dia, caçador.
Eles trocaram um apaixonado beijo de despedida.
O tempo passou, Madeline realmente se tornou uma governante inteligente e assertiva, também dona de certos dons incomuns.
Riordano contou cada um dos dias até que pudesse entregar o governo à menina – agora moça – e partir. Pela primeira vez deixando a Cidadela para uma viagem tão longa e sem previsão de retorno.
Em seu dia, havia arrastado Yan para o seu mundo, havia feito com que ele mudasse e desejasse ficar. Não era justo que ele permanecesse o mesmo, quando o sentimento entre ambos deveria se reciproco. Em um sacramento das terras ermas onde não haviam fronteira, atravessaria a ponte dos mundos em busca de seu amado. Enquanto estivessem juntos, fosse dia da caça ou do caçador, tudo estaria bem.
-§-
Vocabulário:
Lobo – Azyr'um
Alfa da Alcatéia – Sarvoo (a letra v é pronunciada como se fosse ü)
Matriarca da Alcatéia – Sarvii
Filho da Alcateia, usado come nome autorreferencial e para falar de outros membros da alcateia coletivamente – Sarveen
Alcatéia – Largum Azyr'um
Lua – Drás
“Você é” – aaran se'doh
“Eu sou” – aareen se'nye
Espírito da Floresta – Sas'gu
Obrigado – Saar'dam-r'um
“Mas que bobagem!”, “Que estranho!”. Indica surpresa negativa. – Niguto!
Sim – Ke!
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