Sacada
1 Ateei fogo no divã - único.
Notas iniciais
Tô na sacada, em Macaé
Tô jogando as cinzas do cigarro na maresia
Tô sentindo o Rio de Janeiro se encolher no canto da Lapa
Cansada das algias e dos bem feitores
De saco cheio dos contrabandistas e dos vagabundos da meia – noite em ponto
A cama desarrumada no quarto de hotel
Eu já nem sei se é em São Paulo ou Porto Alegre
Só porque na semana passada eu acordei na Bahia
Escrevi vários livros sobre Copacabana e Ponta Negra – e quase todos eles incluem você
Escrevi nas minhas artérias a minha plena impertinência
E rasguei minha aorta com um alicate
Enfiei uma tesoura enferrujada no meu lobo frontal
Ateei fogo no divã
Porque a sanidade me impede de você
E a autodestruição atemporal é meu vício inerente
Porque a Jane Austen me ensinou que amor tem desfecho direito
E você me fez acreditar que é natural me trazer em casa ás cinco da manhã depois de muito porre
E ir embora no dia seguinte
Eu escrevi sobre você
Cada verso num corpo novo
Na minha pequena supernova
E me apaixonei todo dia por alguém diferente
Mas amor é um conceito falho
Coloquei fogo na porra do divã
E a mente continua sã (nem fodendo)
Porque o problema nem tá nas pessoas
Tá mesmo é na minha monomania
Tô te jogando da sacada com os agouros
Mandando teu sotaque para os poemas de outra pessoa
Porque eu realmente realmente realmente te odeio e acho que esse lance de cara metade é babaquice
Então me faça o favor
De não pegar o próximo elevador
Nem o próximo metrô
E Pelo Amor de Deus
Nem a próxima estação
*
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