Sabrina, A Rainha da Preguiça
1 Capítulo Único
Sabrina estava em sua casa, era a noite de Halloween e todos os seus amigos estavam fora. Menos Sabrina, ela era preguiçosa mesmo.
—Poxa. –Disse a garota, sozinha na frente de seu computador. -Eu deveria ter ido naquela festa, tinha comida lá, pelo menos.
O tempo estava fechando, e alguns trovões já podiam ser escutados de longe.
Clima perfeito para dormir.
Se aconchegando entre os lençóis, ela agradeceu por já estar morando sozinha, sem ninguém para dizer o que ou não fazer, como dormir ou comer na hora certa. Também né? Sabrina era preguiçosa mesmo.
Lentamente, ela foi fechando seus olhos, e quando os reabriu, teve que parar para analisar a cena.
—Que...? –Foi o que conseguia pensar enquanto tirava os fios loiros de seu cabelo da frente de seus olhos, aproveitando para colocar o óculos no lugar.
Sua janela estava aberta, pelo menos havia parado de chover, o que significava que nada estava molhado, menos mal.
Mas um homem estava em baixo dela, como se estivesse se escondendo. Espera, ele havia entrado pela janela? Era um ladrão? O que ele fazia aqui?
Pensando melhor, ele parecia assustado, suas roupas estavam esfarrapadas como se alguém tentasse agarrá-lo.
—P-Por favor! -Suplicou o homem. — Me deixe ficar aqui até elas pararem de me perseguir!
Sabrina o encarava sem reação.
—É sério! Aquelas moças doidas estão atrás de mim! Dizendo que eu sou o tal do Boto! Por favor me ajude! –Continuava a implorar o rapaz.
A menina tentou parar para raciocinar. Boto? De onde ouvira falar mesmo? Ah, sim, aquele cara estranho que havia invadido a sua casa dizia ser um protagonista das lendas que sua avó contava quando viva. Até agora tudo normal.
Dona Elsa era uma senhora muito gente boa que vinha do interior do Estado, quando Sabrina era pequena, a idosa contava várias lendas e causos que os outros lhe falavam, uma delas dizia sobre o Boto cor-de-rosa que de vez em quando virava um homem e vinha para a cidade. O diferencial é que ele sempre usava um chapéu para esconder... Espera! Aquele homem também usava um?!
—Boto? Aquele das lendas? –Arriscou, com certa insegurança.
—S-Sim! Mas aquele era meu irmão! -O moço se defendeu rapidamente. –Aquele irresponsável! Fica se mostrando para todo mundo!
O Boto tinha um irmão?!
—Como?
—Sim, sim, ele abandonou algumas moças, que agora estão atrás de mim! Algumas até com crianças nos braços!
—Mas você é o verdadeiro?
—Bem, ele sumiu do mapa então tecnicamente eu...
—Olha só, se minha fanfic não for aceita porque você não é o Boto de verdade eu...
Agora quem ficou confuso foi o moço.
—O quê..?
—Esquece.
Um silêncio meio constrangedor ficou no ar.
Que assunto se conversa com o Boto? Sabrina não sabia.
Já estava escuro lá fora, e meio que do nada, a barriga da menina começou a roncar.
—Eu vou comer, não mexe em nada. –Simplesmente disse Sabrina se virando para a porta do quarto. Por que ela deixaria o tal Boto ali sozinho? Simples. Preguiça é tudo amores.
Descendo as escadas devagarinho, ela se dirige calmamente até a cozinha, como se nunca tivesse visto um ser mágico invadir o seu quarto.
E olha que o quarto dela era o cômodo “sagrado” da casa, ninguém entra lá dentro. Razão? É só drama mesmo.
Ela via na dispensa se tinha miojo, um dos únicos “pratos” que sabia cozinhar. Quando tirou a cabeça dali, deu de cara com um garoto, sua pele era escura e vestia roupas vermelhas, junto com um gorro da mesma cor, ele tinha apenas uma perna.
Espera, esse não é o Saci?
Ela piscou, queria saber se não era algo da cabeça dela mesmo.
Não era.
—Ah, é aqui que a comida fica! -Exclamou o garoto, que aparentemente era o Saci Pererê, ele se espremeu para poder ver os alimentos guardados em um “mini cômodo” no espaço vazio de baixo da escada.
Antes que ele pudesse “atacar” a dispensa, Sabrina o segurou pelos braços, o fazendo tropeçar e cair.
Ela havia derrubado o Saci. Uau.
***
Depois de quase implorar para o moleque parar de chorar, ela conseguiu fazer o menino se acalmar.
—Agora o que eu estava fazendo mesmo? –Perguntou a si mesma, era bem fácil dela esquecer as coisas.
Saci a fitava, com uma cara confusa. Talvez ele não entendia como ela poderia ignorar quase que totalmente a presença dele ali. Será que eu vou ter que soletrar? P-r-e-g-u-i-ç-a.
Os olhos claros da garota se iluminaram ao lembrar de que ela havia descido para comer alguma coisa, ah sim, ela havia deixado um boto no seu quarto também.
Depois de remexer e revirar o pequeno armário que continha os alimentos da casa, ela se cansou. Mesmo com fome, não tinha vontade de comer nada que tinha ali.
Ela deu um olhar mortal para o Saci, dizendo:
—‘Cê tem 10 pila ai? Vou pedir um lanche, dou um pedaço pra você.
Saci a encarava, sem saber o que dizer.
Depois de mais algumas encaradas mortais, o moleque tirou uma nota de 10 Reais do bolso e entregou-a para Sabrina. Sem nenhum movimento brusco, claro.
Depois de caçar por algum lugar aberto, ela pediu seu lanche, um tempo depois, um homem chegou segurando uma sacola, mas não era um entregador.
—Meu Senhor quem é você? –Perguntou rapidamente Sabrina, qual bicho seria desta vez? O curupira?
—Não é assim que se trata uma visita. –Retrucou o homem, tentando jogar charme com uma voz grossa e roupas que pareciam caras.
—Você trouxe comida? –Perguntou, na esperança de sanar seu problema.
—Acho que você pode dar um sentido diferente para a palavra “comida” hoje. –Retrucou.
Ai, senti o impacto daqui, alguém ai também sentiu?
Sabrina ficou sem palavras por alguns segundos, até que pode ouvir o tal do irmão do Boto descendo as escadas, quase atropelando o pobre do Saci.
—Seu desgraçado! –Exclamou para o homem na porta. –Como você ousa deixar seu irmão?!
Espera, o homem na porta é o verdadeiro Boto?
Sabrina estava tão confusa.
O Boto verdadeiro, o encarava com um sorriso amarelo. Ele era mais alto e tinha um ar mais velho.
—Não é culpa minha se eu precisava de um tempo dos holofotes, irmãozinho. –Respondeu, parecia bem calmo.
Depois de um tempo discutindo, Sabrina pegou um pouco de milho e fez pipoca, dividindo com Saci enquanto acompanhava a treta entre os irmãos.
Sabrina adorava uma treta.
Mas ela nunca entrava em nenhuma, sabe por que? –Coro angelical por favor- Por que ela não queria mesmo.
O que? Vai me dizer que pensava que eu ia dizer que ela é preguiçosa?
Quando a briga começou a ficar chata, a campainha tocou, finalmente era o entregador. Saci o pagou e trouxe o lanche até Sabrina, passando bem no meio do fogo cruzado.
Saci saiu vivo, com sorte.
Ela arrancou o lanche das mãos de Saci, era óbvio de que ela não iria dividir.
Antes de morder, ela olhou para a treta e soltou a pérola:
—Que ótimo, estou rodeada de lendas do folclore, tomara que chegue mais um e eu comece a shippar vocês.
Todo mundo parou e a encarou.
—Ué, gosto não se discute. –Completou, antes de se voltar ao chesseburger.
Ela o mordeu.
Sabrina havia acordado.
Ainda estava chovendo, e ela ainda estava enrolada nas cobertas. Estava quentinho, mas ela ainda estava com fome.
Aquilo foi um sonho? Que pena, ela poderia ter comido o lanche antes de acordar, pelo menos.
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