Sabe o que é isso aqui? Humanidade.
1 Sabe o que é isso aqui? Humanidade.
Eu nem sei mais.
Tentei pensar em um bom começo pra isso aqui, sabe? Um desses começos bonitos e impactantes. Não consegui. E não importa, tanto faz. Talvez eu não seja capaz de poesia nesse momento, talvez esse texto só sejam meus pensamentos passando por cima das palavras e vice e versa. Nem sei se vai sair coerente, só posso esperar que sim.
Em meio a uma pandemia, a realidade da morte anda pairando sobre nossas cabeças há meses. Morte para qualquer um, sem seleção. Pelo menos não do vírus. A gente sabe bem que, em sua negligência, em sua arbitrariedade, o governo, as instituições e o lucro decidiram quem vai morrer mais, e em silêncio.
O que está acontecendo agora, e o que é tão enfurecedor, é essa morte arbitrária, premeditada. Escuta, eu não nasci ontem. Eu sei, eu vejo e eu choro o assassinato do povo negro há anos. Mas isso… Isso parece diferente.
Parece diferente porque mesmo no meio de uma pandemia, a polícia ainda entra nas favelas e atira em uma criança. Parece diferente porque dessa vez o assassinato de um homem negro foi gravado, e mesmo assim foi preciso que as pessoas saíssem às ruas para que se propusesse a investigar o que tinha acontecido. Investigar. Um assassinato gravado.
De novo, isso não é novidade. Matam pessoas trans todos os dias, seja por suicídio ou a facadas. Despejam e assassinam indígenas sem que uma palavra chegue à grande mídia. Só que dessa vez não há silêncio.
É claro que te incomoda ver a comoção que está acontecendo quando se estava acostumado ao silenciamento e a possibilidade de poder ficar calado de consciência limpa, sem que lhe cobrassem um posicionamento já, agora, nesse exato instante, porque não dá para esperar nem mais um segundo.
Não é ideal que tenhamos protestos em meio a uma pandemia. Eu rezo e torço para que essas pessoas nas ruas possam continuar saudáveis, e que continuem fortes, demandando pelo que já deveria ter sido dado a elas sem que precisassem pedir. Não posso me juntar às pessoas nas ruas. Não posso correr o risco de contrair o vírus. Não consigo, não tenho coragem. E é por isso, por saber que o mesmo medo e receio que eu sinto também está nas pessoas que estão lá fora, que o respeito que tenho por elas é imenso. Elas conseguiram vencer algo que eu ainda não pude. Não é o ideal, mas não deixaram outra escolha.
Estou com essa trava na garganta que não vai embora. Parece com vontade de chorar, mas até agora não caiu uma lágrima. Às vezes me pego com as mãos tremendo, de raiva e de medo. Tem tanta coisa acontecendo que eu não consigo fazê-las caber todas nesse texto escrito de impulso. Não tem coerência no sentimento que eu quero passar por esse texto, assim como não consigo encontrar coesão no que está borbulhando aqui, mas de uma coisa eu sei.
Sabe o que é isso aqui? Humanidade.
E eu não quero saber. Vou correr o risco de ser taxativa, injusta, rude. Mas se não tem um mínimo de revolta, tristeza, preocupação ou pura falta de reação instalado dentro de você, você está errado. Não tem mais humanidade aí dentro.
Eu não faço ideia de como é ser uma coisa oca. Imagino que deve ser mais fácil. Imagino que deve doer menos.
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