SOS - Em má companhia
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Não tinha porque o segundo dia ser melhor que o primeiro, a questão do tempo era, definitivamente, a longo prazo, nenhum sentimento de pânico ou tristeza diminuiu ao passar da noite, e até mesmo uns poucos acordaram com a cara vermelha, inchada, com o pequeno tumulto que estava acontecendo ali fora.
Reiner, na posição de responsabilidade que assumiu, se levantou bruscamente do assento, sentindo de imediato uma dor na coluna pelo movimento repentino após a noite mal dormida.
– O que está acontecendo? — Perguntou retoricamente, pois já saia pra ver e os outros ainda estavam naquela nuvem sonolenta de quem mal despertou.
Um atrás do outro, após espreguiçadas e bocejos, seguiram Reiner para constatar o que acontecia. Não deveriam ficar surpresos ao notarem que era nada menos que Eren e Jean em mais um episódio problemático. Só que dessa vez, rolavam pela areia.
– Parem já com isso! — Reiner correu até os dois, tentando puxar o primeiro em que tocasse para suspendê-lo, afastando do outro. Connie logo foi em seu socorro, para segurar quem sobrasse.
Annie e Petra pararam junto ao avião, Petra horrorizada, com a mão na boca. Mikasa ainda nem havia descido, olhando-os da porta, e Armin se juntou a ela, parando ao seu lado.
– Que porra é essa? Não tinha percebido que a situação precisava ficar ainda mais crítica. — Trovejou Reiner, quando conseguiu finalmente puxar Jean, quase rasgando sua camisa.
Sua boca estava partida, um corte no lábio inferior que sangrava, mas além disso, estava inteiro. Já Eren, cujo um Connie puto da vida por ter sido acordado mantinha-o ali com uma mão espalmada no seu peito, começava a apresentar uma bochecha vermelha
– Vai ficar muito crítica, se esse otário não ficar longe de mim. — Respondeu Eren, exaltado, gesticulando com a mão e andando em direção ao outro. Connie aplicou mais força no seu aperto, mas Eren o ignorou, empurrando seu braço.
– Nunca havia percebido o quanto você é um garoto sensível. — Zombou Jean, com o melhor sorriso de babaca que ele tinha.
Eren deu dedo pra ele enquanto andava de costas. — Me solta, Connie. — Disse uma vez antes de virar-se e marchar pra longe dali, em direção à mata.
Mikasa pulou do avião e foi atrás dele, correndo um pouco para alcançá-lo. Já dentro da vegetação ela o chamou, uma, duas vezes.
– Espere, Eren. — Ela pediu.
– Mikasa! — Rosnou entre dentes, sem parar ou olhar pra ela. — Dá. Um tempo.
Ela o alcançou e puxou seu ombro, virando-o.
– O que houve? — Perguntou.
Ele respirou fundo, só pra demonstrar o quão irritante era pra ele ter que falar com ela.
– Pra quê quer saber? Vai anotar em algum caderno e depois contar para os nossos pais?
Ela não saberia dizer o que a tinha surpreendido mais, ser acusada de dedo duro ou ter sido implicado algum parentesco com ele. Os dois casos a deixaram duplamente furiosa.
– Você é tão idiota! — Disse, quase sem conter a raiva. — Acha mesmo que eu saio por aí te dedurando para os SEUS pais? Seus pais, Eren, nunca se esqueça. Nem sei se rio por você ter acabado de implicar que eles eram meus, já que você me detesta tanto. Com certeza foi um lapso que não vai se repetir.
– Com certeza. — Respondeu simplesmente.
– Não precisa mais se preocupar Eren, porque eu cansei. — Ela lhe comunicou, não menos zangada que há dois segundos atrás e voltou-se para a praia. — Tenta não se perder. — Completou enquanto andava de volta. — Você não precisa ser um fardo maior do que já é.
Mikasa aproveitou o fato dele não poder ver seu rosto para fechar os olhos enquanto dizia, mas não deixou a dor transparecer na voz.
Nem em mil anos Eren admitiria que as palavras dela tinha o atingido como um soco, muito pior do que a infantilidade encenada por ele e Jean há quinze minutos atrás. Ele não sabia por quê a tratava como se ela fosse uma dor de dente, além do fato de que ela estava sempre tentando protegê-lo como se ele fosse uma criança, e isso o irritava até o inferno, então de fato ele agia como uma, e fingia não se importar.
Ele inutilmente tentava provar alguma coisa, o que só fazia piorar a situação, então era rude para que conseguisse a atingir de alguma maneira, e nisso ele era bem sucedido. Esfregando o rosto, frustrado, passou as mãos pelo cabelo e rosnou, xingando Jean de tudo o que era nome, pois estava cheio de areia. Por mais que estivesse longe do ideal, ele pensou em se jogar no mar, só pra depois ficar cheio de sal. Ótimo.
Dois minutos se passou e então, se rendendo, voltou. Os outros estavam meio que em um círculo, discutindo os planos para o dia. Ainda havia banana, mas não poderiam viver só disso.
– Precisamos encontrar um lago, riacho… água doce. — Estava dizendo Mikasa, e Eren a olhou. No que provavelmente era a primeira vez, ela não retornou o olhar.
Isso não significava que ela não sabia que ele a olhava, se podia sentir a presença dele sem vê-lo, com certeza estava sempre atenta para quando ele a olhava, o que a deixava brava, se sentindo uma bocó. Mas ignorou, e assim o faria de agora em diante. Ela espera e achava.
– Sim. — Armin concordou com ela. — Não temos nenhuma previsão de quando sairemos daqui, nesse meio tempo, banho não vai cair mal.
– Vocês estão certos. Então, faremos como ontem? — Reiner se pronunciou, ao que foi respondido por resmungos de concordância e dúvida, além de gestos de cabeça. — Isso me pareceu um sim. 2 horas dessa vez? Pra cobrir a distância anterior e avançar mais? — Os outros voltaram assentir, exceto Eren.
Eren suspirou, ainda não satisfeito. E antes que eles fossem, disse:
– Eu não vou. — Todos olharam pra ele. — Sugiro que alguém do grupo de Petra passe para o seu, Reiner, para me substituir e assim ter mais um par de mão para carregar alimento. Vou ficar aqui, tentar pescar.
Todos só olharam pra ele durante alguns segundos. Mas além do “Puft” de Jean, ninguém protestou. O que não era o mesmo que consentir.
– Ok. — Respondeu Reiner, em dúvida. — Tá bom. — Afirmou, dessa vez mais firme.
Como sempre fazia quando o Eren agia inusitada, imprudente ou perigosamente, Armin olhou pra Mikasa, que dividia com ele a preocupação pelo amigo, mas sem retorno desta, ele só deu de ombros. Deu tapinhas em seu ombro quando passou por ele e seguiu os outros.
Já haviam se passado 50 minutos quando Mikasa achou ter escutado alguma coisa. Uma movimentação ou um galho quebrando, que a fez parar, alerta, tentando apurar os ouvidos. Ao que ela congelou no momento, em expectativa, um grito soou bem do seu lado. Sua cabeça ricocheteou até Petra, que segurava o tornozelo.
– O que foi? — Perguntou Armin, indo até ela.
– Não sei… eu… uma picada, acho… — Ela pareceu perdida enquanto respondia.
– Deixa eu ver. — Pediu Armin, tentando afastar sua mão, que cobria o local.
– Não, não. Devo ter passado por algum espinho, eu… Está tudo bem. — Gaguejou mais um pouco. — Mesmo, Armin. — Falou mais firmemente ao ver que ele insistia.
Mikasa deu um último olhar pra ela, e voltou a ficar ereta na direção em que pensou ter escutado algo. Se concentrou por 30 segundos, onde Armin ainda parecia tentar ajudar Petra, ignorado-os.
– Mikasa? — Armin chamou, ao que ela suspirou, frustrada.
– Posso jurar ter escutado alguma coisa, Armin.
– Como?
– Como a presença de outra pessoa, ou um animal… — Outro suspiro de frustração. — Droga.
Petra olhou de relance para ela e engoliu seco.
– Devemos voltar. — Foi tudo o que disse.
– Não me ouviu? — Mikasa voltou para ela. — Mais 30 minutos e podemos não fazer desse dia um total fracasso.
– Mikasa, se demoramos uma hora pra chegar aqui, uma hora demoraremos para voltar. Vamos seguir as regras. Concordamos com 2 horas, lembra?
– Petra… — Mikasa passou a mão no cabelo e depois desceu o braço com tudo, batendo a mão na coxa. Ela encarou a outra, balançou a cabeça e passou por ela, batendo seu ombro no dela.
Armin deu um sorriso sem graça para Petra e seguiu a amiga, Petra olhou uma última vez ao redor e foi atrás.
– Pitangas. — Armin disse após um tempo de caminhada. — Sem ter o objetivo de coletar alimento, nem paramos pra olhar em volta. Podemos levar algumas… — Sugeriu.
Por serem frutos pequenos e não terem levado bolsas ou algo parecido, fizeram um sistema de armazenamento em que suspendiam a bainha da camisa e no vale que se formava no tecido, guardaram as pitangas.
Brincando, Mikasa sugeriu que Armin tirasse a camisa, para usá-la como recipiente e assim conseguir levar mais frutos, ao que Armin corou e Mikasa abafou uma risadinha.
Chegando à Praia, todos fizeram um relatório do que tinha ocorrido. Mikasa fez questão de insinuar ter perdido a chance de descobrir algo, mas Petra a ignorou; Reiner contou que Jean e Connie afirmaram ter escutado um barulho de água por perto, mas não tão perto, o que era alguma coisa. Eles tinham trazido mais banana, coco e, dessa vez, um alimento estranho, aberto, que parecia ter olhos.
– É disso que estou falando. Não podemos nos dar ao luxo de deixar passar uma oportunidade por algo tão fútil como tempo. Tempo é o que mais teremos se não dermos um jeito de sair logo daqui. Vocês poderiam ter achado um riacho hoje, eu poderia ter achado um ser humano. — Mikasa se exaltou.
– Ninguém quer estar aqui, Mikasa, mas uma vez aqui, temos que ter algumas… condições — Preferiu não falar “regra” pra não motivar uma discussão rebelde. — que ordene e organize as coisas.
– Muito útil, ainda mais quando perdemos a chance de tomar banho ou até mesmo beber água. — Rebateu.
Sem nada mais que pudesse ser dito diante desse argumento, partiram para a divisão da comida.
– Consegui pegar dois peixes, não muito grandes. — Disse Eren, sentado ali perto. — Melhor deixar pra mais tarde?
– Sim. Obrigado, Eren. — Respondeu Reiner.
– Então sentamos em volta de um fogueira e damos as mãos, enquanto cantamos canções do coração. — Zombou Annie em seu “murmúrio”.
Mesmo que não fosse a intenção, todos acabaram sorrindo, ainda que minimamente, alguns adicionando um revirar de olhos.
Um pouco mais tarde, Mikasa e Armin estavam sentados embaixo de um coqueiro, conversando, e Reiner se juntou a eles.
– Só queria dizer que eu entendo sua questão, Mikasa. — Disse ele, sentando perto de Armin.
– Que bom, porque eu estava pensando que poderíamos nos virar mais individualmente de agora em diante.
– Não acho que seja seguro.
– Duplas, que seja, precisamos nos dividir mais para alcançarmos mais áres.
– Eu e Petra somos…-
– Não são nossos responsáveis. — Ela o interrompeu.
– Dada a situação, somos sim. Essa nova distribuição não é inteligente.
– Tem certeza? — Mikasa arqueou uma sobrancelha. — Que eu saiba, você e Petra não conhece essa área melhor do que nós. Podemos nos perder de qualquer jeito.
À medida que Mikasa falava, ele pareceu incomodado, mas ao terminar, seu semblante demonstrava nervosismo.
– Melhor não. — Disse, tentando pôr fim à conversa.
– Votação. — Sugeriu Mikasa, já impaciente.
– Veremos isso. — Ele despistou e saiu dali.
Mikasa olhou pra Armin, que retribuiu.
– O que tá acontecendo aqui? — Ela indagou ao amigo. — Será que não vêem?
– Não sei… — De repente, ele sorriu. — Pelo visto você terá que soltar essa rebelde aí… — Cutucou sua costela com o cotovelo, fazendo-a sorrir.
– Ela não está assim tão escondida.
– … e juntos, agirmos. O Eren com certeza vai se interessar.
À menção dele, Mikasa só acenou e olhou pra frente. Por mais que percebesse, Armin preferiu não questionar.
– Vamos insistir na votação e se não der certo… — Continuou Armin. — Hoje ainda deve ter alguma excursão, não conseguiremos sair sem ser vistos, mas amanhã, ao amanhecer… — Ele olhou pra Mikasa e sorriu, espelhando o sorriso dela.
– Sim, Armin. — Ela concordou, ainda sorrindo. — Amanhã… só que independente do que aconteça hoje.
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