SONHOS NO GELO
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Sempre fui fascinada pelo Hyioga...
Espero que gostem.....
Acordei e abri os olhos lentamente. Aos poucos, fui recuperando os sentidos, e pude perceber onde estava.
Na cama de uma casinha rústica, muito aconchegante, estava enrolada em um casaco grande, marrom, de peles e couro. Pela janela, podia ver a neve que caía, numa paisagem já toda branca. Dentro da casa, o fogo queimava na lareira, tentando combater o frio.
Só então eu o vi. Aqueles olhos azuis, brilhantes a me fitar Sua expressão, sempre calma e fria, não deixava transparecer suas emoções. Seu rosto, lindo como o de um anjo de cabelos dourados, parecia sombrio à meia-luz criada pelo fogo.
- Você está bem? – perguntou ele com sua voz meio rouca, cortante, mas que demonstrava sua preocupação.
Era ele. Hyioga. Aquele que eu tinha vindo procurar. Ele é que acabou me encontrando.
- Ainda estou tonta, meu corpo dolorido, mas estou bem.
- O que houve? Encontrei-a quase morta na neve. O que veio fazer aqui?
- Vim atrás de você. Saiu a três dias, sem dizer nada a ninguém. Senti que estava em perigo. Fiquei preocupada, e resolvi vir. Quando cheguei, fui atacada por alguém.
- Eu soube que a vila onde cresci, onde meu mestre descansa, foi destruída. Não quis alarmar os outros. A vila está realmente destruída, mas não há nenhuma pista do covarde que possa ter feito isso.
Eu sabia o que ele estava sentindo. Aquele lugar era sua vida. Onde sua mãe estava congelada no mar, e para onde ele voltou, anos depois, para tornar-se um Cavaleiro, com seu Mestre Cristal, a quem tinha como um pai, e teve de matá-lo em combate. Tão jovem, e com tanto sangue em seu caminho.
Assim é a vida dos Cavaleiros. Meninos órfãos, aos quais o destino reservara uma tarefa muito especial: lutar para que a Paz na Terra fosse mantida. Para isso, desde sempre treinaram para desenvolver sua força interior e entrar em sintonia com as forças do Universo, e de lá tirar seu Poder.
Tornaram-se ídolos de sua geração e, por onde passavam provocavam euforia, como artistas famosos.
Eu também era uma fã. Eu os via como ídolos, ao longe, tentando imaginar como seriam pessoalmente. Na minha imaginação, eles eram perfeitos. Afinal, assim são os ídolos.
Mas eu queria mais do que imaginar. E consegui entrar em suas vidas, e fazer parte delas.
E quanto mais eu convivia com eles, mais via que não eram perfeitos, tinham seus defeitos e falhas, como qualquer ser humano. E isso me fascinava ainda mais, por ver que, apesar de humanos, superavam suas falhas e medos, para alcançar seus objetivos. Assim são os verdadeiros heróis.
Agora estávamos ali, só eu e ele, nas terras geladas da Sibéria. Apesar do frio, ele usava apenas jeans e uma camiseta branca, exibindo seu corpo mais que perfeito, fruto de anos de treinos e batalhas. Era seu casaco que me cobria – podia sentir seu perfume, que me envolvia e inebriava. Ele não sentia frio. Crescera ali, estava acostumado a baixas temperaturas, e seu Poder fazia com que pudesse se adaptar ao frio.
- A última coisa que me lembro foi um clarão no céu, como uma estrela cadente, e um raio de luz me atingiu.
- Éris! – ele parecia furioso, seus olhos faiscavam – Como não percebi antes? Fique aqui. Vou atrás dela.
- Não! Eu vou com você!
- Você ainda não está bem, e eu não quero arriscar que ela a machuque novamente, ou...
Olhei séria, no fundo de seus olhos.
- Sabe que não pode me deixar aqui sozinha, Alexei.
Ele sorriu. Quase ninguém o chamava assim, somente eu. Gostava que eu o chamasse pelo seu primeiro nome, russo. E eu gostava de chamá-lo assim. Parecíamos mais íntimos.
- Você sairia assim que virasse as costas, não é? Bem, se Éris está por aqui, você estará mais segura comigo.
Ele abre a caixa sobre a qual estava sentado, e invoca sua Armadura. Parecia em transe, seus olhos brilhavam intensamente, e seu espírito parecia ter sido transportado para longe, para algum lugar no infinito, um lugar além da compreensão humana. E, num turbilhão de luz azul, a Armadura parecia dotada de vida própria, colando-se a seu corpo, unindo-se a ele, tornando-se um só, uma extensão de seu corpo. Emanavam uma energia intensa e pulsante, como a própria vida dentro dele.
Até que o brilho foi diminuindo, e ele parecia voltar a si. Em todo o tempo que os conheci, nunca vira nada como aquilo.
Apesar de ser amiga deles, sabia que havia coisas que nunca poderia compartilhar. Não era um deles, e nunca poderia fazer parte de seu mundo. Havia coisas entre eles que estava além de minha compreensão. E isso me entristecia, muito.
- Vamos! – disse ele, abrindo os olhos, e me tirando de meus pensamentos.
- E você tem idéia de onde ela possa estar?
- Não. Mas temos de começar por algum lugar.Vamos até onde eu a encontrei. Pode haver alguma pista.
Saímos da casa para a neve. Apesar do casaco, o frio cortante me machucava. Porém, meu coração e minha alma eram aquecidos pela presença dele.
No deserto de neve as distâncias enganam. Tudo parecia perto, mas impossível de ser alcançado. Como ele próprio.
Ele já estava acostumado, e andava na neve com facilidade. Não olhava para trás, onde eu me esforçava para segui-lo. Eu sabia que deveria conseguir sozinha, e que, se me visse, seus instintos o fariam parar para me ajudar.
O frio então já tomava todo o meu corpo e, misturado ao cansaço físico, me causavam tontura, já mal conseguia respirar, e eu lutava para me manter de pé.
Não falávamos nada, e seu silêncio na vastidão gelada estava me enlouquecendo. Eu não tinha forças para falar, mas precisava desesperadamente de algo para prender a mente, e não deixá-la afundar no esquecimento. Observar as pegadas dele no chão e segui-las, como numa brincadeira de crianças na areia da praia, e o firme pensamento de que não queria morrer ali, naquele desolamento conseguiram me manter viva até descermos a última duna de neve que nos separava do local.
Quando chegamos, deixei meu corpo cair na neve macia. Não me importava mais com o frio, meu corpo já estava dormente e não sentia mais nada. Ele também parou, de costa para mim, olhando para o horizonte branco. Quando se aproximou, eu já estava sentada. Sentou-se ao meu lado.
- Cansada?
- É. Acho que não estou acostumada a andar na neve... Você foi me arrastando daqui até lá, é?
- Arrastando não. Carregando. Acho que estou acostumado... – ele sorriu, e quando sorria, ficava ainda lindo, deixando sua luz espalhar-se no ar – Você foi louca de vir aqui sozinha. Por que não chamou os outros?
- Acho que vocês ainda não confiam muito em mim. Acho que, para vocês, eu sou só uma garota que acredita que pode ser como vocês.
- Não seja boba. Você é nossa amiga. Eu... quer dizer... nós gostamos muito de você. Você faz parte de nós.
- É bom ouvir isso de você. Mas o fato é que eu acho que eles não me levaram muito a sério. Não acreditaram quando eu falei do meu pressentimento, e acharam que não precisavam vir. O Seiya só faltou rir da minha cara. Disse que você sabia se cuidar. Fiquei tão chateada que resolvi vir sozinha.
- Louca! Mas... eu não disse a ninguém onde ia. Como...?
- Eu te conheço melhor do que você imagina, Hyioga.
Sim. Eu o conhecia muito bem. Sabia que esse lugar era o seu refúgio, onde ele se sentia como no colo de sua mãe.
Eu o conhecia melhor do que ninguém. Entre todos os Cavaleiros, Hyioga sempre foi o que mais me fascinou.
A princípio, por sua beleza, Claro que todos eles são muito bonitos, mas ele chama atenção por seu tipo exótico, mistura de pai japonês e mãe russa. Nascera na Rússia, loiros, com olhos de um azul profundo, mas puxados, como dos orientais.
Hiyoga é um enigma, sempre com uma aura de mistério o envolvendo. Sempre calado, frio, não deixava transparecer seus sentimentos. Não se abria muito com ninguém, nem mesmo com seus amigos mais próximos, aqueles que eram sua verdadeira família, a quem tinha como irmãos. Parecia viver num mundo só seu.
Eu também era assim. Por isso pude entendê-lo tanto, conhecê-lo tanto, apesar de não falar muito de seus sentimentos. Consegui entrar em seu mundo.
Descobri que, por trás daquela aparência fria escondia-se o garoto sensível e carente, que chora em busca de proteção. Usava esse escudo para proteger-se e lutar contra o sofrimento que a vida lhe impôs.
Mas eu podia saber o que pensava. Podia sentir o que sentia. Conseguia ver através de sua muralha de gelo.
Ele sabia. Abaixou os olhos. Não pude conter uma pontinha de sorriso ao ver seu rosto, branco como a neve, ir corando suavemente. Ele sorriu também, ainda de cabeça baixa. Estava desarmado. Um silêncio constrangedor entre nós. Nunca havíamos ficado tão próximos, sozinhos, por tanto tempo. Senti que tinha de dizer alguma coisa.
- E agora, o que faremos?
- Se Éris está aqui, ela deve ter algum plano. Nós a encontraremos.
Nesse momento, uma estrela brilhou com mais intensidade no céu, e foi aproximando-se, rápida como um cometa, até atingir a colina que havíamos descido.
- Hyioga! Foi a mesma coisa que eu vi, antes de ser atingida!
A terra começou a tremer, e o meio da colina se abriu, formando uma gruta, com a entrada voltada para nós.
Entramos, e a gruta era uma descida que parecia não ter fim. Quanto mais descíamos, mais quente ia ficando.
Olhava para ele, seu corpo suado. Não estava acostumado com temperaturas tão altas, parecia esgotado, e, no fundo de seus olhos eu pude ver o medo.
Até que chegamos ao que parecia ser o fim da gruta. No centro havia uma coluna e, sobre ela, um brilho dourado. Aproximamos e vimos uma maçã dourada, com uma inscrição: “À Mais Bela”
- A Maçã... é o símbolo de Éris! – disse ele
Eu já sabia. Não sabia era o que ela pretendia com aquilo. Mas uma mulher conhece a outra. Sabia que aquilo era uma provocação, e eu não ia deixar barato. Num impulso, tentei pegá-la. Quando a toquei, minha mão pareceu queimar.
- Ainda não, querida! Vamos deixar que ele decida! – a voz vinha atrás de nós. Viramos rapidamente.
- Eiri? – perguntou ele, espantado – O que faz aqui? Éris...
- Agora somos uma só! – ela riu. Um riso louco, de pura maldade.
Podia ver seu espanto, e sua tristeza. Eiri havia sido sua namorada, e já fora uma vez dominada por Éris, a Deusa da Discórdia.
- Eiri... Por que fez isso? Por que rendeu-se a ela?
Ela aproximou-se, colando seu rosto ao dele, num carícia.
- Fiz isso por você, meu amor – sua voz melosa passou a outra, cheia de raiva e mágoa – Por vingança!
Sua raiva refletiu-se na gruta, se rachou e se encheu de chamas. A temperatura aumentou, e eu podia ver o enfraquecimento e o medo dele com o calor.
- Está gostando, amor?
- O que você quer, afinal? Dominar o mundo, como Éris?
- Claro que não! Não preciso do mundo! Só quero você... para me vingar! Por que, Hyioga? Eu o amo, mas você me abandonou. Eu não vou aceitar essa rejeição!
Aquilo me revoltou. Uma mulher que não aceita que o namoro acabou, e se rebaixa tanto por causa de um homem.
- Ele não teve culpa!
Furiosa, ela me atingiu com um raio de energia, que me atira contra a parede incandescente.
- Mas você teve! – ela parecia cada vez mais furiosa.
- Eiri, não! – ele gritou, desesperado, correndo em minha direção, apesar do medo do calor, e me ajudou a levantar.
- Eu? Do que você está falando? – meu corpo doía, uma dor como eu nunca havia sentido antes.
- Ora, não se faça de tola! Entreguei meu corpo e minha alma à Éris, me uni a ela depois que você me deixou, Hyioga. Para garantir que, se eu não o tivesse, ninguém mais o teria. Depois que me vingar de vocês, Éris poderá usar meu corpo para voltar e dominar a Terra.
- Deixe a garota fora disso, Eiri. Seu problema é comigo, e vamos resolvê-lo sem envolver mais ninguém.
- Você acha que é tão simples assim? Não sabe do que é capaz uma mulher apaixonada!
Ela se aproximou de nós, perto da coluna. Eu já conseguia ficar de pé, mas preferi ficar apoiada no corpo dele, que me segurava.
- Com essa Maçã, Éris começou a guerra que destruiu Tróia. Fez um mortal escolher entre Hera, Athena e Afrodite qual era a mais bela. Ele escolheu Afrodite, que, em troca, deu-lhe o amor de Helena, a mais bela mortal. Só que ela já era casada. O dono do “prêmio” a raptou, o marido quis pegá-la de volta, e acabou em guerra.
Ela pegou a maçã, e entregou nas mãos dele. Eu já estava de pé, e quando ela chegou, eu me afastei.
- Agora, meu querido Hyioga, é a sua vez de escolher, e entregar a maçã à sua preferida
Ele olhava para ela, atônito, e seu olhar procurou o meu, inutilmente pedindo ajuda. Eu estava tão perplexa quanto ele.
- Infelizmente, meu amor, seja qual for a sua escolha, resultará na morte da outra. Afinal, só há lugar para uma, e eu não agüentaria perdê-lo novamente.
O calor já era insuportável. Comecei a pensar no frio do lado de fora, que escondia um calor tão intenso, um interior em chamas. Era como ele. Percebi então que aquele lugar era um reflexo do próprio Hyioga. Todo aquele calor eram seus sentimentos reprimidos. Por isso ele tinha tanto medo do calor.
Entendi então o que Éris pretendia: fazê-lo encarar seus próprios sentimentos, porque tinha certeza de que ele ainda amava Eiri.
- Ainda não decidiu, meu amor? Talvez isso o ajude a escolher!
Ela tirou a túnica que vestia, mostrando-se nua na frente dele. Deixou que ele a visse, e depois colou seu corpo ao dele, acariciando seu rosto.
Por um instante, a caverna estremeceu, as chamas cresceram, tomando todo o lugar. O calor aumentou muito, como se estivesse fervendo. Sabia que era exatamente assim que ele estava se sentindo, como um vulcão prestes a entrar em erupção.
Pela primeira vez, eu senti ódio. Eu a odiava, com todas as minhas forças por tudo aquilo, eu a odiava pelo que estava fazendo com ele, mas, principalmente, a odiava por
ter despertado tanto desejo nele.
- Parece que desta vez você perdeu, querida! – e riu, saboreando a vitória certa. Ele já não falava nada, como se estivesse hipnotizado. Apenas seus olhos brilhavam, como eu nunca tinha visto antes – mas um brilho oco, sem vida.
- Foi assim que Afrodite foi escolhida como a mais bela. A história se repete. Ou por acaso você pensou que poderia contra uma Deusa como Éris?
No fundo, eu sabia que ela tinha razão.
- Hyioga é um dos Sagrados Cavaleiros de Athena. Uma simples mortal como você não está à altura dele! Coitadinha. Você deve ter se iludido esse tempo todo, convivendo com eles, achando que realmente se importam com você, achando que é especial para eles. Mas não passa de uma das milhões de fãs. Um pouco mais sortuda, talvez, por conseguir se aproximar, o que eles permitiram para não magoar uma fã.
- Não! – disse eu, tentando engolir meu choro – Não acredito que eles pensem assim. Você...
- Você sabe que é verdade! No fundo, você sempre soube disso!
Realmente eu sabia. Sabia que não estava à altura deles. Isso me entristecia profundamente. Sabia que, apesar de gostar de estar com eles, sempre me sentia inferior. Chorando, pedi ajuda.
- Não! Hyioga, diz que isso não é verdade, eu sei que não é... – a tristeza já tomava conta de mim, e caí ajoelhada no chão.
- A quem está querendo convencer? Mortal tola! – ela ria, zombando. Mas eu já não importava mais. Nada mais me importava. Só ele importava, e eu queria morrer ali. Mas ainda queria ouvi-lo uma última vez.
- Hyioga.... – eu chorava, suplicando.
- Ele não a escuta mais. Está sob o meu domínio. Ele me ama, e fará tudo que eu mandar.
- Você o está forçando. Isso não é amor. Sabe que ele não a ama mais, mas não aceita a idéia de perdê-lo. Se quer tanto se vingar me matando, é porque tem medo que uma simples mortal como eu possa vencê-la – eu chorava, não mais pela minha tristeza, mas por ele.
Parece que tinha tocado num ponto fraco. Ela ficou furiosa, mas falou friamente
- Não sou eu quem vou matá-la. Hyioga, mate-a, como prova de seu amor.
- Não! – disse ele, lutando para livrar-se do domínio de Éris, que se espantou.
Parece que, ao dizer aquilo, eu tinha abalado a confiança dela, e quebrado seu controle sobre ele. Mas ela ainda tentou.
- Quanta força de vontade! Mas você ainda é meu, e vai fazer o que mandar, e depois de matá-la, meu domínio sobre você será completo, e você será meu para sempre, meu amor.
- Não, Eiri! Ninguém vai morrer aqui. Isso já foi longe demais! – ele parecia cada vez mais livre dela. Vê-lo assim me dava forças para reagir
- E ele não vai ser seu cachorrinho!
- Mas todos os homens são, querida. As mulheres são superiores, e os homens nasceram para nos servir e satisfazer nossos caprichos!
- Não! Os homens pensaram assim por muito tempo. Se as mulheres são realmente superiores, não vão cometer os mesmos erros.Todos tem o mesmo direito de ser livres!
- Você é uma vergonha para as mulheres! Depois disso, terei ainda mais prazer em matá-la!
Num flash de luz, ela invoca o poder da deusa Éris para me atacar
- Eiri, não!
Muito rápido, Hyioga me protege com seu próprio corpo, recebendo todo o impacto do golpe.
Eu o seguro, mas ele estava desacordado, parecia desmaiado, ou...
- Hyioga, eu não queria fazer isso... Eu... – ela corre, querendo abraçá-lo
- Afaste-se dele, sua desgraçada! – eu nunca havia sentido tanto ódio por uma pessoa
Apertava o corpo dele contra o meu, como se pudesse protegê-lo, sentindo sua energia deixando seu corpo. Sabia que ele estava morrendo.
- A culpa é sua, mortal imbecil! Ele se sacrificou para protegê-la! Mas não vou matá-la! É isso que quer, não? Morrer, para poder segui-lo? Mas ficará presa aqui, até o fim dos seus dias, para lembrar que o matou. Vou levá-lo comigo para deixá-lo congelado no mar, ao lado de sua mãe, como ele gostaria.
Eu não ia deixar que ela o levasse. Precisava fazer alguma coisa. Eu estava ajoelhada, a cabeça dele em meu colo, seu corpo em minhas mãos. Sabia que ela estava com ciúmes, e muita raiva, por eu estar daquele jeito com ele. Mas eu não me importava.
Sua energia passava por mim. Uma energia quente, gostosa, mas cheia de tristeza, que me envolvia até chegar a uma parte de mim que nem eu mesma conhecia, minha própria energia, me fazendo contemplar o Universo dentro de mim, as partículas de energia e matéria de que são formadas todas as coisas. A energia do Universo. O Cosmo.
Essa então é a cosmo-energia que os Cavaleiros usam em batalha. Descobri que eu também a possuía. E se possuía, podia usá-la.
Lembrei o que o Shun tinha feito por ele, passando para Hyioga sua própria energia. Claro que era arriscado, e eu não fazia a menor idéia de como fazer, mas por ele, eu tinha de tentar. Não me importava de morrer para salvá-lo.
Concentrei-me o máximo que pude, até sentir novamente aquela energia, e senti-la passando para o corpo dele. Fui ficando tonta, sentia-me cada vez mais fraca.
Depois, era como se eu não existisse mais. Era energia pura, minha, fundindo-se a ele. Éramos um só. Foi meu ultimo instante de consciência, antes do último sopro de energia deixar meu corpo e passar para o dele.
Não via, não ouvia, não falava, apenas sentia. Não com os sentido do meu corpo, mas como a energia que agora eu sabia que estava dentro dele.
Sentia suas sensações. Primeiro, o desespero – provavelmente ao ver meu corpo caído a seu lado. E raiva, muita raiva, um ódio incontido por Éris, por tudo que ela fez. De repente, uma sensação de espanto e perigo o alertou. Sentimos que Éris ia atacá-lo. Mas não teve tempo. Senti a raiva dele mais forte, e a necessidade de defesa fazendo sua energia voltar e misturar-se à minha, para ser liberada numa explosão de raios azuis congelantes.
Ao ser liberada, a energia voltou ao meu corpo a tempo de ver a gruta, congelada, começar a tremer e desabar. Ele me pegou e correu, me carregando para fora.
- Eiri... – ele olhou para a caverna destruída, eu via a tristeza em seus olhos. Mais do que isso. Eu realmente podia senti-la, junto com ele. – Não precisava ser assim. Eu não queria fazer isso, mas você pediu. Ainda existia, no fundo do seu coração, a Eiri que eu conheci, que não queria deixar-se dominar por Éris, e por isso, implorou que eu a matasse – então olhou para mim, ainda em seu colo – Agora tudo acabou, querida.
Pelo seu olhar, eu entendi o que tinha acontecido. Ao se sacrificar para me salvar, Hyioga fez sua escolha. Éris, com raiva, o atacou, mas a parte de Eiri que ainda existia não a deixou matá-lo. Ele não teve escolha senão matá-la.
- E isso só foi possível com a força que você me deu. – disse ele, como se estivesse lendo meus pensamentos.
Acho que realmente lera. Ter misturado nossas energias daquele jeito forjou entre nós um elo muito forte. Algo muito mais forte do que apenas amizade, algo além da nossa compreensão. Era como se fizéssemos parte um do outro.
Agora eu parecia realmente conhecê-lo muito mais, podia realmente saber o que estava pensando, sentir o que ele sentia.
- Foi vê-la ali, caída no chão, e imaginar que não a teria mais é que me deu força suficiente para acabar com aquela que provocou tudo aquilo. Você se sacrificou por mim, deu a sua vida para me salvar.
- Nós demos tudo um pelo outro. O medo de perdê-lo, e a sua energia passando por mim fez despertar minha própria força para ajudá-lo. Somos como um só, agora, parte um do outro. Compartilhamos coisas que ninguém jamais poderia.
- E você despertou seu verdadeiro Cosmo. Provou para si mesma que tem esse Poder, que pode ser como nós, e restaurou sua confiança
- Você também se superou, Hyioga. Foi capaz de encarar e superar seus próprios medos para vencer, a fazer suas escolhas com seus próprios sentimentos.
- E eu escolhi você – ele segurou meu rosto nas mãos, me olhando com aqueles olhos azuis penetrantes, que pareciam olhar direto na minha alma, seu rosto quase colado ao meu.
- Vamos voltar para o Japão. Por favor, fique comigo – pediu ele, Abaixei a cabeça, desviando o olhar. Nós dois sabíamos que esse momento ia chegar.
- Hyioga... meu amor...você sabe que eu não posso. Já passei tempo demais com vocês. Eu os amo tanto... todos vocês... O Seiya, sempre impetuoso, o Shun, tão meigo, o Ikki, o Shiryu... principalmente você... agora ainda mais. Com você eu entendi o que é o amor verdadeiro, o que é estar realmente apaixonada. Eu sabia que te amava, desde a primeira vez que o vi.
- Você... nunca deixou de me amar... mesmo quando eu estava com Eiri. Eu não sabia... meu amor... desculpe por tê-la feito sofrer tanto, todo esse tempo. Por que nunca me disse?
- Eu... achava que não o merecia. Eiri era uma Deusa, e eu achava que você não merecia menos. Por isso, deixei que ela ficasse com você, sem falar nada. Parecia feliz com ela.
- Mas, mesmo ela sendo minha namorada, eu nunca consegui me abrir com ela como com você. Você sempre foi meu porto seguro, minha amiga, estava do meu lado o tempo todo, e eu gostava de passar mais tempo com você do que com ela. Ela percebia, e tinha ciúmes. E quando eu percebi quem eu realmente amava, fui me afastando. Foi o fim do nosso namoro.
- Ela não mentiu quando disse que eu tinha culpa.
- Percebi que já não gostava mais tanto dela. Achava que poderíamos ser amigos, mas ela ficou louca, e vendeu sua alma à Éris. E você ficou esperando por mim esse tempo todo. Não quero mais fazê-la sofrer. Demorei muito tempo para perceber o que sentia, e agora que sei, não quero perdê-la.
Sim, eu havia esperado muito tempo por esse momento, para ouvi-lo dizer aquilo que, no fundo, eu já sabia, por isso nunca tinha perdido as esperanças.
- Alexei, você sabe que eu quero ficar, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Não quero deixá-lo. Mas aqui não é o meu mundo. Já fiz e aprendi muito aqui. Aprendi com vocês o valor da amizade, a amizade pura, verdadeira e maravilhosa. Aprendi a confiar em mim mesma, e a usar meu Poder para o Bem. E aprendi com você o que é o verdadeiro amor. Um amor incondicional, pelo qual arriscamos tudo, e nenhum sacrifício é em vão. O amor que faz despertar nosso verdadeiro poder interior. Você sabe o quanto eu te amo. Mas já está na hora de voltar para minha casa, para o meu mundo. Você sabe disso, meu amor.
Ele sabia. Ainda tentava parecer frio, mas não conseguia mais esconder seus sentimentos. Não de mim. E pela primeira vez, em todo esse tempo, eu o vi chorar, e chorei também.
Ele passou a mão por trás do pescoço, e me estende o que pegou.
- Leve isto com você.
-Mas... é a Cruz do Norte! Hyioga... isso era da sua mãe...
- É sua agora – ele coloca na minha mão, e a fecha – assim como o meu coração.
Eu estava cada vez mais espantada. A mãe lhe dera essa Cruz, de ouro puro, cravejada de diamantes, quando ele tinha apenas 4 anos, antes de ficar no barco que afundou no mar gelado da Sibéria, para dar lugar a seu filho, no bote
- Eu prometi que a daria, se encontrasse alguém que eu amasse mais do que ela. – puxou meu rosto para perto do seu – E eu amo você.
Nossos lábios se colaram, num beijo úmido de nossas lágrimas. Eu podia senti-lo inteiro, seu corpo em minhas mãos, sentindo seu desejo crescer, e o beijo ficando cada vez mais quente, e eu completamente entregue a ele, deixando sua energia tomar conta de mim, me deixando cada vez mais tonta de desejo, me fazendo perder a noção do Tempo e do Espaço, até não restar mais nada além daquela sensação.
Acordei e abri os olhos lentamente. Aos poucos, fui recuperando os sentidos, e pude perceber onde estava.
Na cama, em meu quarto, estava enrolada no cobertor. Pela janela, pude ver que já era manhã. Mesmo sendo inverno, não acordei com frio. Apesar de ter sido apenas um sonho, podia sentir sua energia, doce e quente, a me envolver como um abraço.
Tirei os braços debaixo do cobertor, e em minha mão, segurava, enrolada, a Cruz do Norte, única lembrança dele que havia trazido comigo.
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