SOMBRAS - A Armadilha da Rainha
18 Capítulo 16 - A culpa tem facetas
Alex não conseguia responder. Podia ouvir seus irmãos gritando do outro lado da porta, chamando por ela. Até mesmo pensava nas palavras, mas era como se elas estivessem entaladas entre sua mente e garganta.
O barulho do chuveiro era a única coisa em que conseguia se concentrar. Tentava não pensar nas cenas que sempre voltavam a sua mente. Queria apenas focar na água escorrendo por todo o seu corpo, no shampoo que já escorria pelo rosto. Mas sempre que fechava os olhos, ele estava lá. Não apenas o vampiro desprezível que se aproveitou dela, como também o garoto que a salvara.
A última cena que vira antes de apagar fora a dele, estendido no chão, totalmente sem vida e machucado. Queria pelo menos ter tido a chance de dizer ‘sinto muito’.
Era por esse motivo que não conseguia falar, pelo enorme nó em sua garganta.
— Alex. – Gritaram novamente do corredor.
Andrew estava se sentindo culpado, por não ter sido hábil a salvar sua irmã e o fato dela não responder não estava ajudando em nada. Igor contou as poucas cenas que tinha presenciado, mas podia afirmar com toda certeza de que ela havia sido mordida e que depois daquilo podiam esperar por qualquer coisa.
Dylan por outro lado, estava tão perdido quanto era de se esperar. Ele não havia sido informado sobre nada. Tinha ficado com a irmã na enfermaria, mas ninguém lá aparentava saber de todos os detalhes. Apenas de que precisavam tratar da mordida, e então depois de ter de ficar fora por um tempo, foi informado de que Alex já estava em seu quarto.
Estava ali justamente para tentar entender o que tinha acontecido, mas pela expressão no rosto de Andrew, ele nem ao menos se atreveu a perguntar. Quando chegou, encontrou Andrew gritando do lado das portas dos banheiros femininos. Bateu na porta mais uma vez, chamando pela irmã.
— O que está havendo aqui? – Katharine perguntou do corredor, forçando a porta, com sua irmã logo atrás.
— Ela não quer responder. – Andrew resmungou, deslizando pelo batente da porta até o chão. Apoiando os braços nos joelhos dobrados e a cabeça contra a parede. Por fim, fechou os olhos.
— Só queremos saber se ela está bem. – Dylan completou preocupado, apoiando-se contra a parede.
— Ela está bem. Foi mordida por um vampiro, mas daqui 24h o veneno vai sair do seu sangue e estará novinha em folha. – Katharine respondeu olhando-os como se não pudesse acreditar no que ouvira.
Dylan ficou desconcertado com a resposta insensível, e Andrew a olhou do mesmo modo, pronto para se levantar, mas Katrina logo se dirigiu a irmã.
— Por que não vai conferir o resto dos estragos? Eu te alcanço.
Katharine apenas concordou com a cabeça e fez uma breve saudação, como se estivesse se dirigindo a um capitão, colocando-se porta a fora.
— Ela é sempre assim? – Dylan perguntou, ainda com o olhar fixo na porta.
— Você se acostuma. – Foi a breve resposta de Katrina, batendo na porta em seguida. – Alexandra, sou eu, Katrina. – Sua voz era amigável e receptível, mas seu chamado teve tanto efeito quanto o dos irmãos. Apenas o constante barulho do chuveiro. – Seus irmãos apenas estão preocupados com você. Poderia nos dizer apenas se está bem?
Andrew e Dylan tinham olhares esperançosos, no entanto nada.
— Você é muito forte sabia. Não são muitos os que conseguem sobreviver a mordida. – Ela continuou. – Eu li, uma vez, que sua mordida causa dor no início. Mas deixa uma sensação entorpecente, de excitação, em seguida. Apesar de que depois vem o pior: quando o veneno está deixando seu corpo, você fica desorientado. Mal posso imaginar como isso deve ser difícil. – Depois de uma pausa sem resposta, ela retomou. — Estamos aqui para te ajudar.
O chuveiro foi desligado, embora Alexandra não dissesse uma única palavra. Katrina tentou a maçaneta novamente, mas Alex havia trancado por dentro, de algum modo. Andrew não estava se aguentando do lado de fora, e a sensação de impotência amentou quando ouviu os soluços abafados de choro de sua irmã. Dylan apenas balançava sua perna freneticamente, enquanto roía as unhas.
Antes de continuar Katrina colocou sua testa contra a madeira da porta, tomando uma longa respirada. — Não foi culpa sua. – Ela despejou. — Eu sei que parece, mas eu te garanto que não foi. – Andrew não entendeu o que aquilo deveria significar. – A morte de Elliot não foi sua culpa. Você não pode se culpar. – Ela enfatizou.
Alex não sabia o que sentir depois que soube o nome do garoto que se sacrificara por ela. Poder dar um nome ao rosto inconsciente de suas memórias não pareceu causar nenhuma melhora.
— Como você pode saber? – Ela falou finalmente. Foi possível ouvir o som do box sendo aberta, e os passos descalços de Alex para mais perto da porta.
— Porque eu tenho que conviver com a minha culpa todos os dias.
Dylan e Andrew se entreolharam, intrigados. Era uma informação vaga até então, mas impactante. Katrina, por sua vez, mantinha sua testa colada à porta, com as mãos apoiadas nos batentes e os olhos fechados. Ela apenas torcia que ninguém estivesse passando pelos corredores do andar naquele instante.
— Por que? – Alex perguntou.
— Eu tinha quinze anos, e já era a aprendiz oficial para ser o próximo Oráculo, junto com minha irmã. Tínhamos sido escolhidas. E na época estávamos sob um ataque de quimeras nascidas da terra, filhas de Gaia. Era perigoso para qualquer um do lado de fora. Mas eu não me importava. Droga, como eu nem mesmo ligava para o que acontecia do lado de fora. Eu fiz uma besteira. – Ela parou brevemente, pensando em como continuar. Os meninos a olhavam com curiosidade, esperando que continuasse. Mantendo-se calados. – Eu me apaixonei. – Ela explicou. – Mas não podíamos ficar juntos. Eu tenho um voto de castidade. Para ser um receptáculo para as visões e profecias tenho que ser pura.
Por mais que tentassem, não conseguiram disfarçar o espanto com a informação. Nenhum dos três conseguiu.
— Contudo, eu não me importei. – Katrina retomou, ignorando as reações já esperadas.
Naquela noite, ele e eu combinamos de nos encontrar a três quarteirões da Casa, e fugir. Ficar juntos. Afinal eu não tinha tido nenhuma visão. Nunca. E para mim ele era o suficiente. Minha irmã poderia ser Oráculo sozinha. Eu era jovem e ingênua.
Todos me avisaram para não deixar a Casa por nada a não ser que eu usasse o Portal Pri-ma para ir a Corte. Mas eu não dei ouvidos. Sai e fui para o lugar marcado. Eu esperei durante duas horas por ele, mas nunca apareceu. Acabou que eu era apenas mais um caso.
Ele tinha dezoito anos, um aliado, um dos melhores, nunca se interessaria.
Katrina deixou escapar um pequeno riso de decepção e continuou.
Quando finalmente decidi voltar, um homem estava vindo em minha direção, com algumas cantadas baratas. Eu não me preocupei muito. Eu sabia me defender, conseguiria lidar com ele. Até o momento que ele começou a se transformar. Ele não era ele, mas sim uma das quimeras. Uma cabeça de leão, dorso de réptil e uma calda de serpente, onde na ponta havia uma garra com veneno paralisante, que pingava. Eu sabia que não poderia combater aquilo, então, eu corri, mas não fui rápida o suficiente.
Ela me alcançou e já estava sobre mim, imobilizando-me com seu corpo, e com a garra a milímetros do meu rosto. Conseguia ver o veneno escorrendo, e foi aí que ela apareceu.
Seu nome era Tiara e ela morreu me salvando.
Aquelas últimas palavras pairaram um pouco no ar, para que fossem absorvidas e para que Katrina por sua vez, pudesse se recompor para terminar.
— Ela era uma das melhores aliadas e conseguiu me tirar de debaixo daquilo. Por um breve momento, lutamos juntas, e eu tinha esperanças de que sairíamos daquela situação. E foi aí que veio. Minha primeira visão. Eu fiquei imóvel, sem conseguir enxergar ou me mexer, nunca tinha vivenciado aquilo, não sabia o que eu sei hoje. E durante aquela minha perda de habilidades, a quimera veio em minha direção. Seria meu fim, e para que eu não fosse nocauteada Tiara me empurrou para longe. Ela enfiou sua espada no meio do monstro. A única coisa que ela não tinha planejado era que seu movimento não fosse tão rápido quanto o necessário. E conforme a quimera se desfazia em pó, sua garra já havia atravessado minha salvadora. Não demorou muito para que a visão se encerrasse, mas foi o necessário para que o veneno agisse, e nem mesmo a sira de cura surtisse efeito. Sua última frase em meio a sua agonia para mim foi: ‘destrua-os’. Até que sua respiração cessou.
Katrina se enrolou com suas próprias palavras. Ela parou de falar novamente, engolindo o próprio choro. Respirando. — Ela morreu por minha causa.
A aprendiz se afastou da porta, secando duas lágrimas que escaparam sem permissão. Ela ouviu um barulho vindo de dentro do banheiro e logo em seguida a porta se abriu.
Alex estava enrolada numa toalha, com os cabelos molhados e o rosto vermelho.
— Eles em avisaram que eu não deveria sair, mas eu não obedeci. – Katrina continuou, séria. – Você estava apenas tentando salvar os demais. Elliot morrer foi culpa daquele vampiro desgraçado, não sua. Ele morreu de maneira nobre e eu te garanto que ele está nos Campos Elísios.
Alex concordou com a cabeça, enxugando seu rosto.
Andrew se colocou entre as duas e puxou Alex para si, abraçando-a.
Ao passar, esbarrou em Katrina que sentiu aquele mesmo arrepio de antes, ignorando-o com todas as suas forças daquela vez.
As aulas e treinamentos do resto do dia foram suspensas. Todos estavam concentrados em descobrir o porquê do alarme do Centro não ter sido acionado e o que o semideus havia trazido consigo. Além dos preparativos para o enterro de Elliot.
Alex estava melhor, depois da história de Katrina, mas foi recomendado que ela ficasse em seu quarto, longe do novo. Suas atividades voltariam ao normal na manhã seguinte.
Naquele momento ela dormia, apoiada contra o peito de Andrew. Ele acariciava seus cabelos, enquanto olhava para a porta. Ele gostaria de dizer que estava pensando em tudo o que aconteceu no dia, mas tudo que consegui formular em sua mente era uma tela preta. Nada vinha até ele. Era como se ele pudesse acordar a qualquer momento.
Ele queria sua música. Sua playlist. Em momentos de crise, elas sempre o confortaram. Era uma maneira de evitar pensar. Ou de se deixar envolver pela solidão e desespero.
Em meio aos seus devaneios, subitamente, a porta se abriu e Dylan se esgueirou para dentro do quarto. — Eu ouvi que os importantes estão se reunindo agora para discutir o que o semideus trouxe com ele. – Ele diminuiu o tom de voz, quando viu que Alex dormia. – E o que causou toda essa bagunça.
Andrew sentiu seus sentidos se aguçarem, se deveria saber mais de seu novo mundo, como todos estavam recomendando, que começasse pelo o que tinha acabado de acontecer.
Depois de sair do quarto da irmã, os dois se esgueiraram pelas escadas e corredores, até chegarem a sala por onde entraram naquele lugar. A sala dos diretores da Casa Marcada.
O último a entrar na sala foi Igor.
Andrew o reconheceu, do incidente anterior, o mesmo que entregara Alex desacordada. Bastou apenas uma olhada para a expressão de seu rosto para que a ideia de ouvir as escondidas fosse apenas mais atrativa para os dois irmãos.
Andrew e Dylan se aproximaram devagar, evitando qualquer tipo de barulho que poderia vir a atrair atenções.
Não era necessário muito esforço para ouvir o que estava sendo discutido do lado de dentro da sala, já que a grande maioria das pessoas, ali, reunidas estavam aos berros.
Dylan foi o primeiro a diferenciar as vozes, até mesmos dos que permaneciam calados, ou falavam com a voz baixa. Dentro da sala estavam reunidos, Hérnia, Ronald, Preston, Reginald, Katrina, Katharine e Igor.
— Eles são os irmãos da profecia. – Katharine falou, aumentando seu tom de voz, impaciente. – Não podemos fingir que não está acontecendo, quando está bem à frente dos nossos olhos. Não temos como evitar. – Após uma pausa, ela completou seu raciocínio, com impacto. – Ninguém brinca com profecias.
Ela olhou para seu mestre, que concordou com um aceno, pleno.
— Podemos mata-los. – Ronald sugeriu com simplicidade, cruzando com braços, apoiando-se contra a parede.
Isso deixou os dois do lado de fora espantados. Mesmo com a mandíbula contraída, Andrew se mantive no exato lugar, assim como Dylan, para terminarem de escutar. Só podiam torcer para que aquilo não continuasse como uma opção. Além de que ninguém passasse pelo corredor, impedindo-os de obter a informação.
— Não podemos matar cinco dos nossos. – Katrina defendeu, tentando disfarçar certo horror por causa da ideia. – Podemos protege-los, e vigia-los.
— Deixa-los longe de problemas é a nossa melhor opção. – Igor completou, pronunciando-se pela primeira vez, depois de um longo período na sala.
Hérnia e Reinald eram os únicos que permaneceram calados. Até que Ronald dirigiu a palavra a sua colega de cargo.
— Não acho que os matar vá satisfazer aos deuses, menos ainda aos Representantes. Afinal o nosso número vem diminuindo com as últimas décadas. Sem contar que a cada dia que se passa, estamos mesmo, mais próximos do dia em que os animais noturnos escaparão da Floresta Noturna. Quando romperem o selo, e a barreira, quanto mais dos nossos por perto, melhor. – Hérnia enfatizara um ponto importante, que trouxe diversas expressões pensativas, principalmente a dos meninos que espiavam.
Andrew desejou ter prestado mais atenção ao livro designado a ele, horas antes.
Voltando a conversa. – Temo dizer que esses sejam sim, os irmãos da profecia, mas o destino não pode ser desfeito. – Reinald finalizou.
Ronald não se deu por satisfeito. Estava inquieto sobre os assuntos e não demorou para trazer o mais peculiar à tona. – E quanto a pérola? – Ele se deslocou rapidamente até Katharine, tomando a mesma de suas mãos.
Katharine o fuzilou com o olhar, não chegando a fazer nada, por uma repreensão silenciosa da irmã, em sua mente.
— A pérola ateniense deveria estar sob os cuidados das fadas no Vale dos Elementares. Este foi o acordo durante a Ação. Atena deixou sobre os cuidados das suas criações. – Ronald disse mostrando o tão preciso cristal.
Hérnia lançou um olhar fulminante na direção de seu colega, indicando que limites estavam sendo ultrapassados. – Por mais que eu odeie frisar, há fadas mais antigas do que eu. Além do que, não estou conseguindo contatar as minhas. As mensagens dos elementos, ou dos deuses não parecem estar funcionando, da maneira mais adequada.
Do lado de fora, estava ficando complicado distinguir as vozes e o que estava sendo dito, já que os nervos já estavam se acalmando, assim como as vozes diminuindo.
A última informação que obtiveram foi de que a pérola estaria fazendo seu caminho até os Lugares Salvos o mais breve possível e ficaria sobre os cuidados de Camille, que contava também, com as sombras fronteiriças. Uma sugestão de Igor, aceita pela maioria, com exceção de Ronald que afirmava ser melhor que a pérola ficasse sob os cuidados dos próprios Representantes ou da Casa.
Matt e Izzie. Foi a primeira coisa que cruzou a mente de Andrew, ao citarem os Lugares Salvos. No entanto, naquele momento Dylan espirrou, batendo o cotovelo contra a porta. Por questão de milésimos de segundos, os dois conseguiram virar no primeiro corredor a direita e não serem vistos, por Hérnia, que abriu a porta de imediato.
Depois de acabada a adrenalina, Dylan começou a se desculpar pelo incidente, mas Andrew o ignorou. Àquela não era sua maior preocupação. — Precisamos falar com Matthew e Isabel.
— Fácil. – Dylan rebateu de prontidão, com um chacoalhar de ombros evidente. – Tudo que precisamos é descobrir onde ficam os Lugares Salvos e em como chegar até lá. – Toda sua sentença foi formada com uma pitada de sarcasmo em cada palavra. E ao final, ele encarava seu irmão, como se o mesmo estivesse dizendo absurdos inimagináveis.
Eles saíram com pressa, após quase terem sido descobertos por Hérnia. Nem ao menos voltaram para terminar de ouvir qual seria o fim daquela discussão. Precisavam de um plano. E de Alex.
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