SOMBRAS - A Armadilha da Rainha

4 Capítulo 3 - Gêmeos em atrito


Matthew conseguia irritar Alex e Andrew com sua falta de responsabilidade. Ele conseguia ultrapassar a linha da irresponsabilidade. Com toda a complicação do dia, eles receberam três dias de suspensão, ao invés de uma semana de castigo, graças não somente a briga, mas pelos comentários contínuos de Matt, que fizeram Vouler perder a pouca paciência que lhe restava.

— Sei que está bravo, Andrew. – Sua voz chegava a ser mais sarcástica do que a de Dylan naquele instante.

— Que bom. – Andrew respondeu, direto, na mesma entonação.

— Andrew, qual é? Não é tão ruim assim. Castigo seria muito mais entediante.

— Pode não ser tão ruim, para você. Mas a minha ideia para os últimos meses antes de entrar na faculdade, não envolvia sujar meu histórico escolar, com uma suspensão. – Na concepção enraivecida de Andrew, seu irmão era sempre o responsável pelos problemas.

Ele parou no centro da sala, murmurando para ninguém em específico. — Você é sempre assim. – Matthew começou a ir em direção às escadas, mas Andrew o bloqueou.

— Assim como?

Matthew arrancou a mochila das costas, jogando-a contra um dos sofás. — Você acha que sabe tudo o que está fazendo, mas não sabe. – O clima na sala estava ficando mais tenso.

— Você está se ouvindo? Parece uma criança. O tempo todo. Eu não sei sobre tudo. Nunca disse que sabia, mas eu tenho responsabilidades. Sei quais são meus deveres e obrigações. Você sabe?

— Não mudaria nada para você se eu dissesse, senhor seriedade. – Ele caçoou, gesticulando.

Andrew odiava as discussões dos dois, mas todos possuíam limites. Matt passava o dele a cada dia mais. – Você quer saber, senhor crianção? Daqui alguns meses estamos livres, para ir e fazer o que bem quisermos. Não vai mais ter que aturar a minha seriedade. – Andrew tinha a esperança de que aquilo encerrasse a discussão, mas não. Matthew era muito orgulhoso para deixar que ele tivesse a última palavra. Isso era algo que compartilhavam.

— Sabe, Andrew.... Você realmente acha que essa barreira que você cria é para te manter focado e tudo o mais, mas na verdade só mostra como você é inseguro. – O jeito que Matt falava demonstrava certo desgosto e isso fez com o sangue de Andrew fervesse.

— Eu sou o inseguro? Jura? Não sou eu quem tenta se provar para cada pessoa que conhece.

Eles não haviam percebido, mas as meninas não tinham entrado, e Dylan os observava inquieto. Nesse meio tempo, antes que qualquer um pudesse adivinhar, Andrew já havia socado o rosto de seu irmão.

Os dois irmãos rolavam pelo chão, batendo e apanhando. A sala se tornaria um caos.

— Andrew, Matt, parem. Os dois. – Dylan gritou, enquanto tentava levantar Andrew de cima de seu irmão. — Sai daí, Andrew. – A voz de Dylan já estava intolerante. Com dificuldades, ele arrancou o irmão, jogando seu peso em cima dela, para que caísse para o lado.

Já de pé, os dois tinham sangue saindo do nariz. Matthew, entretanto, estava em piores condições. Os dois respiravam euforicamente. O tapete da sala estava sujo de sangue e Andrew soube que o sangue pertencia aos dois. Ele levou a mão ao seu rosto, limpando um pouco do sangue.

O riso das meninas vinha da cozinha, quando eles notaram sua presença. Alex e Izzie entraram, sorrindo, até verem os três parados na sala. Com a visão dos gêmeos sangrando, suas feições se encheram de decepção. Aquilo acabou com Andrew, por mais que ele quisesse disfarçar. Ele sabia que as coisas entre os dois não estavam indo bem há algumas semanas, desde que Matthew havia decidido que fariam aquela maldita festa. Matthew conhecia o irmão e mesmo assim ignorou suas vontades, como se não fosse o seu aniversário também. Ele mesmo chegava a sentir que não era.

As gêmeas eram a melhor coisa que já havia acontecido na vida dele, poderia fazer tudo por elas, o que piorava a situação. Ele pensava no que poderia falar, mas nada lhe vinha à mente. Sem reações, ele desistiu e seguiu escada acima. Para todos os efeitos, ele já era o antipático insensível de qualquer maneira.

Izzie apertou a mão de Alex, e ela concordou com um aceno. — Andrew. – Ela chamou, enquanto subia para o andar de cima.

Ele andou em linha reta, ignorando a irmã. Não teria nada para falar. Depois de passar por todos os outros quartos, entrou no seu próprio. A única coisa que fez foi se jogar contra a cama. Depois de todo o episódio, ele ainda queria socar alguma coisa com todas as suas forças.

Em menos de cinco minutos, uma batida na porta chamou sua atenção. Ele queria apenas ficar sozinho. Andrew se levantou, pegou o computador rapidamente e voltou para a cama. Ele não queria que parecesse abalado. No exato momento em que o computador ligou, Izzie colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Vai me socar também? – Sua irmã perguntou, com um sorriso brincalhão no rosto. Os cabelos ondulados dela caindo por cima de seus ombros, enquanto inclinava a cabeça dentro do quarto, esperando uma resposta.

— Engraçada. – Respondeu, sem expressão, enquanto indicava que entrasse.

O quarto era o último do corredor, ao lado da escada que dava para a cozinha. Era, também, o maior. Tinha uma cama de casal em linha reta com a porta, ao lado esquerdo de quem entra, sendo o maior lado, havia uma escrivaninha, logo abaixo da janela, com a cortina azul listrada. Ao lado da escrivaninha, seu teclado estava posicionado no tripé. Perto da cama, a esquerda, havia um criado mudo, com uma luminária. O armário, por sua vez, ficava do lado direito, preenchendo quase toda a parede, deixando lugar apenas para as prateleiras, juntas à parede.

Izzie andou diretamente para a cama, sentando-se aos pés de Andrew. Ele se recostou na cabeceira, mas ela o puxou pela mão.- Será que pode me contar o que aconteceu lá embaixo, porque o Dylan está xingando mais do que tudo enquanto limpa as manchas de sangue do tapete.

Ele sentiu o sangue subir por seu cérebro, mais uma vez. – Matthew ainda não relatou como eu o ataquei?

— Provavelmente deve estar fazendo isso nesse momento. Com a Alex. – Ela começou. – Eu fiquei com o mais difícil, já que como todos sabem, sou sua favorita. – Izzie sussurrou a última parte, como se fosse um segredo. Piscou ao sorrir para o irmão completando com um leve empurrão com o ombro.

Andrew tentou parecer irritado, como se o que ela acabara de dizer fosse um absurdo, mas era a verdade. Embora amasse Alex, muito, Izzie era quem parecia entendê-lo melhor. Talvez porque Alex e ele fossem muito parecidos. Dois sensatos e planejadores. Ou seja, tinham os mesmos conselhos para dar e receber.

Izzie, no entanto, vinha até ele, em momentos como aquele, onde todos resolviam se isolar. Ela não o olhava de maneira diferente. Na realidade tudo era indiferente. Era como se, por acaso, ele matasse alguém, e mesmo assim a maneira como com que ela falaria ou olharia para ele não mudasse.

Quando eram pequenos ela lhe disse uma frase que ficou marcada em seu cérebro. Seus pais queriam que ele fosse até uma festinha junto com Matthew, para que ele fizesse novas amizades, e deixasse de ser tão solitário. Mas ele não queria. Izzie simplesmente se aproximou e disse “Não vai. Você pode ficar comigo brincando”, e quando ele pareceu relutante, ela completou “Eu estou do seu lado, Andie”, e isso, ele nunca esqueceria.

— Mas que diabos tem acontecido com vocês dois nesses últimos dias? – Ela disse, tirando-o de seus pensamentos. Sua voz soava preocupada.

— É essa maldita festa. Sei que vocês vão fazer. – Izzie tentou protestar, mas ele continuou antes que ela começasse. – Mesmo eu não querendo. – Ela olhou para baixo, com um pequeno e tímido sorriso. – Matthew não entende que os dezoito anos também são meus. E por causa das vontades do senhor diversão, eu tenho que ficar preso em casa, para não estragar a surpresa da mãe e do pai.

— A intenção é boa.

— O inferno está cheio de boas intenções. – Ele soltou, rápido demais. — Eu sei... – Andrew tentou remediar. — E aprecio, mas nem mesmo com dezoito anos, eu posso escolher o que quero fazer? – Ele sabia que naquele momento ele estava agindo como uma criança birrenta, mas pela primeira vez, não se importava. Não era como se Izzie pudesse mudar o plano de seus pais.

Cansado, simplesmente se jogou de costas na cama. Isabel fez o mesmo, passando os braços pela cintura dele. Ele por sua vez, passou o braço esquerdo, por debaixo da cabeça de Izzie, para que ela se apoiasse.

Andrew sabia que falava mais com Izzie em momentos como aquele do que em qualquer outros. Ela não esperava que ele tivesse a resposta. Ela simplesmente ficava quieta, ao invés de reclamar que ele se calou mais uma vez.

* * *